Segunda-feira, 27 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº938

JORNAL DE DEBATES > VERBOS & VERBOS

Excitação com Franklin, silêncio diante de Collor

Por Alberto Dines em 27/03/2007 na edição 426



União de publicidade com imprensa causa polêmica


Said Farhat, Beraba e Luiz Weis acham preocupante a mistura; já Kotscho e Dines não vêem problema


Honrado em ser mencionado na submanchete de O Globo (sábado 24/03, pág. 17), este observador pede licença para explicar por que ‘não vê problema’ na indicação de Franklin Martins para a supersecretaria da Comunicação da Presidência da República.


A necessidade da explicação é óbvia: os argumentos que justificariam a despreocupação simplesmente não constavam da matéria. E não por culpa do repórter: conhece o assunto, fez perguntas pertinentes e encaminhou a entrevista de forma impecável.


Esse o teor do que foi dito:


** Apesar da inusitada arrumação da pasta da Comunicação seria conveniente esperar o discurso de posse do novo ministro para conhecer suas opiniões e seus planos. Qualquer comentário àquela altura seria, além de prematuro, leviano.


** O fato de o mesmo órgão cuidar simultaneamente da distribuição de informações e distribuição de verbas de publicidade não contém, em princípio, perigo maior do que a separação habitual dos guichês. Hoje, com pessoas e repartições diferentes, pode o governo exercer com toda a facilidade enormes pressões sobre determinados veículos. O que de fato aconteceu no governo anterior a partir do ‘mensalão’. E ninguém abriu o bico.


** O jornalista Franklin Martins é um jornalista experimentado, conhece a matéria e não cometerá desatinos que comprometam o seu currículo.


** A grande discussão que nenhum veículo tem a coragem para encarar relaciona-se com o volume de dinheiro gasto com a propaganda oficial. Os vícios e tentações começam exatamente nessa gastança incontrolável. Governo deve pagar apenas a veiculação de campanhas educativas e informações relativas a serviços públicos. O resto deveria ser investido nas redes de TV culturais-educativas.


Silêncio respeitoso


Ultrapassadas as primeiras reações à indicação de Franklin Martins e ao redesenho da sua supersecretaria, conviria acrescentar pelo menos uma reflexão. A primeira da fila: se queremos que o governo desça do palanque eleitoral no qual está abancado há mais de um ano conviria que a mídia, como instituição, também abandonasse o frenesi ao qual periodicamente se entrega. Um pouco mais de sensatez faria um bem extraordinário a todos os envolvidos. Mais sensatez significa economia de bravuras, menos bravatas, mais ações afirmativas, denúncias investigadas e menos desgaste.


Nossa mídia mostrou-se totalmente incapaz de reagir ao discurso de estréia do senador Fernando Collor de Mello [ver ‘Do Collorgate ao Dossiêgate‘, neste Observatório]. Compreende-se o estado cataléptico dos políticos (exceto o senador Pedro Simon) diante daquela retórica roxa. Mas não se compreende a ausência de qualquer traço de altivez, garbo, amor-próprio ou auto-estima na instituição que há 15 anos apenas se comportou de forma tão ousada na derrubada de um presidente da República.


Está arrependida? Que o diga. Foi iludida? Diga por quem. Não quer comparar? Que assuma suas limitações.


Depois de tanto barulho, o respeitoso silêncio da mídia diante de Collor de Mello é constrangedor. Mais constrangedoras são as compensações – arroubos de vigilância para esquentar o noticiário.


***


[Em outubro de 2006, quando o Observatório da Imprensa cumpriu com suas obrigações e acolheu uma manifestação do jornalista Ali Kamel em defesa do Jornal Nacional contra as acusações de ter ignorado o desastre com o Boeing da Gol em benefício das imagens da dinheirama do ‘Dossiêgate’, não faltaram acusações de ‘alianças à direita’. Agora, colocado ao lado de Ricardo Kotscho, este observador é empurrado para o campo ‘esquerdista’. As duas companhias, além de honrosas, provam que a crítica da mídia é tarefa rigorosamente solitária.]

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/03/2007 José Sales Neto

    Em relação ao caso Discurso de Collor acredito que em face a tudo que vem acontecendo no mundo político pós-Collor, a imprensa deve avaliar que aquilo que foi um grande escândalo na época, hoje é troco. Afinal, o que representa o finado PC Farias comparado a Marcos Valério? Um menino de colégio marista (PC).
    Já na questão de Franklin Martins é preciso acabar a hipocrisia. A mídia gorda gosta mesmo é de dinheiro, então para que fingir que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, se no fundo, é tudo a mesma coisa. É tudo negócio.

  2. Comentou em 31/03/2007 José Sales Neto

    Em relação ao caso Discurso de Collor acredito que em face a tudo que vem acontecendo no mundo político pós-Collor, a imprensa deve avaliar que aquilo que foi um grande escândalo na época, hoje é troco. Afinal, o que representa o finado PC Farias comparado a Marcos Valério? Um menino de colégio marista (PC).
    Já na questão de Franklin Martins é preciso acabar a hipocrisia. A mídia gorda gosta mesmo é de dinheiro, então para que fingir que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, se no fundo, é tudo a mesma coisa. É tudo negócio.

  3. Comentou em 28/03/2007 ubirajara sousa

    Tô doido, tô doido, tô doido! Esse quadro do Zorra Total caberia muito bem aqui. Segundo a imprensa, o mensalão girou em torno de R$ 100 milhões. Segundo a imprensa, o desfalque no governo Collor foi de cerca de R$ 2 bilhões. Aí eu pergunto: por quê o mensalão foi muito pior, como falam certos comentaristas aqui no OI? E parece até que o mensalão foi comprovado. Tanto quanto as denúncias sobre o Collor, sobre o mensalão não há provas, até agora.

  4. Comentou em 28/03/2007 Tiago de Jesus

    Que silêncio diante de Collor foi esse que eu não vi? A eleição dele teve cobertura muito mais ampla que teria a de um senador de Alagoas no resto do Brasil. O seu pronunciamento no senado deu matérias e mais matérias, algumas que lembraram as circunstâncias do impeachment. A sua visita a Lula também rendeu uma enormidade de matérias e comentários na imprensa… o que a mídia deveria ter feito, tentar derrubá-lo de novo na primeira semana da legislatura?

  5. Comentou em 28/03/2007 Tiago de Jesus

    Que silêncio diante de Collor foi esse que eu não vi? A eleição dele teve cobertura muito mais ampla que teria a de um senador de Alagoas no resto do Brasil. O seu pronunciamento no senado deu matérias e mais matérias, algumas que lembraram as circunstâncias do impeachment. A sua visita a Lula também rendeu uma enormidade de matérias e comentários na imprensa… o que a mídia deveria ter feito, tentar derrubá-lo de novo na primeira semana da legislatura?

  6. Comentou em 27/03/2007 Guilherme Cardoso

    Dines, concordo plenamente contigo. Primeiro, sobre a publicidade oficial. Governo não tem que fazer marketing sobre seus feitos. No máximo, gastar dinheiro apenas com campanhas sociais. Quanto ao Collor, estava na hora da mídia fazer um ‘mea culpa’, pois foi ela que forçou o impeachment do presidente, com denúncias nunca comprovadas, e insignficantes às roubalheiras que vem ocorrendo no Congresso.

  7. Comentou em 27/03/2007 Guilherme Cardoso

    Dines, concordo plenamente contigo. Primeiro, sobre a publicidade oficial. Governo não tem que fazer marketing sobre seus feitos. No máximo, gastar dinheiro apenas com campanhas sociais. Quanto ao Collor, estava na hora da mídia fazer um ‘mea culpa’, pois foi ela que forçou o impeachment do presidente, com denúncias nunca comprovadas, e insignficantes às roubalheiras que vem ocorrendo no Congresso.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem