Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ENTRE ASPAS >

Excomungados somos todos

Por Gabriel Perissé em 10/03/2009 na edição 528

Até parece que dominamos o significado técnico do termo ‘excomunhão’, repetido em várias notícias neste início de 2009. Mesmo sem compreendê-lo, porém, sabemos que boa coisa não deve ser, e por isso sentimos pena (ou não) de quem é excomungado.


Primeiro, a polêmica em torno da morte de Eluana Englaro, a moça italiana que sobreviveu 17 anos em estado vegetativo. Noticiou-se àquela altura que o arcebispo Albert Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino, era favorável à excomunhão de políticos, médicos, legisladores e parentes da doente que, de algum modo, contribuíssem para a eutanásia, pois assim a Igreja interpretou o desfecho daquela história. A meu ver, não foi eutanásia, mas o fim inevitável de uma prolongada, forçada e dolorida espera.


Em evidência também esteve o ex-excomungado bispo inglês Richard Williamson, que muito bem excomungado estava até há pouco tempo porque, com outros eclesiásticos, negara o Concílio Vaticano II. E que excomungado voltará a ser, se continuar causando problemas entre a Igreja e a comunidade judaica.


Católicos devem ficar calados


A excomunhão é a punição mais grave que um membro da Igreja católica pode receber. Ficará excluído do vínculo jurídico-social com a instituição, o que não significa que tenha perdido o vínculo espiritual com Deus. Ora, só se incomoda com essa punição quem está voluntária e conscientemente inserido na Igreja como instituição. Que força haverá em ameaçar alguém com a excomunhão se esse alguém não se sente nem se comporta como um ‘comungado’?


Agora temos aí o terrível episódio da menina pernambucana de nove anos, estuprada e engravidada pelo padrasto. Talvez tenha passado pela cabeça de alguém que a pena de morte seria o melhor para esse monstro. Decide-se pelo aborto, com base em lei civil brasileira. O arcebispo de Olinda-Recife vem a público e avisa, curto e grosso, que todos os que apoiaram ou colaboraram com o aborto estão excomungados. Poderia não ter avisado nada. Mas avisou.


Avisou por ser ingênuo? Vaidoso? Coerente? Porque avisou, fazendo-se porta-voz da Igreja, tornou-se alvo de nosso desprezo, está sendo apedrejado por todos. Os católicos que não quiserem ser excomungados pela mídia permaneçam calados. Mas sempre haverá quem se sinta no direito de declarar alguma coisa. Quem quiser aproveitar a ocasião, pode avisar que, do ponto de vista da ortodoxia católica, o presidente Lula, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o governador José Serra, por ação ou omissão com relação ao aborto, encontram-se excomungados também! Ou quase lá…


Uma mentalidade distante


Lemos na última edição da revista IstoÉ que a Igreja ‘resolveu excomungar a família da menina e todos os médicos que participaram da decisão de abortar’. Não é bem assim que se deve escrever. Mais não seja por respeito à terminologia de outras áreas de conhecimento com que o jornalista, pretendendo atuar profissionalmente, precisa lidar um pouco melhor.


A Igreja não resolveu nada. O arcebispo apenas divulgou a notícia, coisa que muitos bispos não fazem para não terem problemas, mesmo à custa da visibilidade (que lhe renderá pontos aos olhos do Vaticano… ou não). Poderia ter sido outro a fazê-lo. Porque é lei da Igreja, baseada em antiqüíssima tradição, que estará excomungado automaticamente, saiba ou não, o católico que contrariar gravemente a fé e a disciplina da Igreja. Isso inclui quem faça ou apóie um aborto (milhões de católicos no Brasil e no mundo), quem defenda uma heresia (milhares, milhões de católicos), inclui o padre que quebre o sigilo da confissão (prática comum dentro do Opus Dei, para quem não sabe…), entre outros casos.


A possibilidade de ser excomungado já apavorou muita gente, em outras épocas. Hoje soa, no máximo, como xingamento, talvez algo ligado a ‘energúmeno’… ‘apóstata’, palavrões que eram sentenças de morte em tempos outros. E, pensando bem, possivelmente estamos todos nós excomungados, representantes de uma sociedade bastante diferente daquela em que ainda vivem tantos arcebispos e o próprio papa. Foi o que o cartunista Angeli nos mostrou na Folha de S.Paulo de domingo (8/03):



 


A excomunhão pertence a uma mentalidade distante de nossa sensibilidade, dos nossos problemas e da nossa busca de soluções. Nem o ‘excomungador’ percebe seu anacronismo, e o papel ridículo que desempenha, nem o ‘excomungado’ (a menos que seja eclesiástico) tem real noção da punição que se pretendia aplicar.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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