Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > GOVERNO, O PT E A MÍDIA

Fada madrinha também é bicho-papão

Por Alberto Dines em 13/02/2007 na edição 420

Os desacertos entre o governo e o partido do governo evidenciados na reunião do Diretório Nacional do PT em Salvador ficam ainda mais gritantes no campo da mídia. O pelotão militante mostra o tacape enquanto o grupo de burocratas sediado em Brasília oferece o cachimbo da paz. Pode ser estratégia, malandragem, mas não é a melhor maneira de solucionar problemas.


O PT considera que os meios de comunicação ‘foram derrotados pela reeleição de Lula’ e atribui a eles uma ‘campanha para enfraquecer e desestabilizar o primeiro mandato petista’ (Folha de S.Paulo, 12/2, pág. A-4). Em função desta avaliação, o PT oferece quatro medidas saneadoras para desenvolver sistemas alternativos de comunicação social tanto públicos como privados.


Mas dias antes, na sexta-feira (9/2), o governo, por intermédio do ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, baixou a portaria nº 264 sobre a Classificação Indicativa para a programação de TV que atende claramente aos interesses da mídia eletrônica, isto é, a mídia privada reacionária.


Não se pode dizer que seja uma capitulação do governo à pressão conjugada do patronato televisivo, mas não está longe de constituir uma saída honrosa para uma crise que parecia inevitável.


Marco institucional


Pela portaria – leia aqui–, as concessionárias terão a primazia para classificar a programação de acordo com as faixas etárias (o que equivale a colocar a raposa como gerente do galinheiro). A sociedade, porém, terá o direito de espernear. E se o governo entender que as emissoras não levaram em conta os interesses da sociedade nem as suas responsabilidades sociais, então poderá intervir e alterar a classificação inicial.


O correto, o legítimo e o que atenderia ao interesse público seria justamente o contrário: segundo a Constituição, quem deve estabelecer as bases da classificação é o governo, em nome da sociedade. As emissoras, na condição de concessionárias, têm a obrigação de obedecer, embora lhes seja facultado o direito de reclamar – como acontece em qualquer regime democrático.


O governo foi eleito pelo povo, tem legitimidade e a obrigação de impor uma classificação preliminar para estabelecer padrões e marcos. As emissoras que se sentirem prejudicadas podem apelar. O ônus da reclamação não deve ficar com o poder concedente e, sim, com os concessionários.


Acontece que o governo não quer nem pode brigar com a base aliada; sabe que no PMDB e em outros partidos não-ideológicos abrigam-se poderosos grupos de comunicação regionais e nacionais (caso de José Sarney e da Rede Record). Não pretende provocá-los.


Foram as redes de TV aliadas do governo no Congresso que conseguiram, três anos atrás, afastar o encarregado do Ministério da Justiça 24 horas depois de fazer alterações tópicas, porém pertinentes, na classificação da programação (ver ‘Demissão e a vitória da mediocridade‘, 10/2/2004).


Cumprindo com a tarefa de bicho-papão, o Diretório Nacional deixou de lado a condescendência e partiu para o ataque com as seguintes ameaças:


** Construção de um sistema público de rádio e TV.


** Estímulos ao aparecimento de uma mídia ‘privada e progressista’.


** Estímulo à produção de conteúdos qualificados.


** Mudança no marco institucional da comunicação dirigindo-o para as organizações sociais.


Veículos autônomos


Acontece que o país já dispõe de um sistema público de rádio e outro de TV. Neste último, há um núcleo em funcionamento – a Abepec (Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais) – que já conta com duas grandes redes subsidiárias (a TVE baseada no Rio e a Rede Cultura, em São Paulo), ambas com razoável penetração, muito prestígio e grandes feitos.


Este núcleo só não consegue se transformar em sistema operativo porque está desprovido de recursos, já que ao governo federal não interessa oferecer qualquer tipo de suporte à rede que não esteja sob sua direta influência.


Com um pouco mais de espírito público, mais empenho realizador e menos partidarismo, o tal sistema agora proposto pelo Diretório Nacional do PT poderia materializar-se ainda neste ano através de uma programação conjunta. Do jeito que foi apresentado em Salvador, configura mais uma destas incríveis duplicações tão comuns na vida administrativa do país.


No tocante aos estímulos à mídia ‘privada e progressista’, é preciso avisar aos dirigentes partidários que ela já existe e está sendo ostensivamente estimulada há algum tempo por meio do apoio publicitário das estatais federais. O ideal seria que dentro do critério de ‘progressista’ fossem incluídos também os atributos de independência, de modo que esses novos veículos a serem produzidos nos laboratórios do oficialismo consigam oferecer à sociedade um mínimo de diversidade e equilíbrio.


De nada adiantará criar uma mídia antimídia, enfezada, radical. Será mera caricatura da outra. Nem o engajamento nem a polarização da mídia poderão beneficiar o cidadão brasileiro. Mas o bom senso e a ponderação podem ser decisivos para restabelecer a confiança do cidadão na sua imprensa.


O que falta ao jornalismo brasileiro são veículos desligados de interesses políticos e econômicos – autônomos, verdadeiramente liberais (no sentido político), com coragem para escapar das armadilhas e seduções do poder.


Essa mídia foi essencial para a criação do PT em seguida ao fim da censura. É uma lástima que, 27 anos depois, estes paradigmas estejam completamente esquecidos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/02/2007 Élcio Filho

    Vejo que, pouco a pouco, o sr. Disney conseguiu, à força de uma tola e lamentãvel obstinação, mudar o perfil dos seus leitores, de modo que agora cada vez mais o observatório fornece para os imbecis. Na minha opinião, pior para ele; melhor seria ouvir as críticas devidas à sua obstinada parcialidade, sejam elas justificadas ou não, como deve fazer quem se candidata a exercer o pensamento e a opinião em público. Do jeito que vai, esse espaço vai acabar como o freje do Reinaldo Azevedo: só ficam os que adulam e que nada têm a dizer, apenas ecoando o que o chefinho diz. Olhe esse Leonardo aí. Que piada, nâo? É perfeitamente lícito estar de acordo com o que diz o ‘observador’; é perfeitamente lícito estar de acordo inclusive com o Bornhausen, o Jungman, o Serra ou o Aécio, enfim, com todos os próceres da oposição. Agora chamar isso de imparcialidade, e da parte da imprensa ainda mais, isso é brincadeira de mau gosto, que ofende os meus ouvidos. Menos, meu amigo, menos… Não há a menor dúvida de que o sr. Disney escolheu o seu lado, que é o de ‘observação’ do governo. Que lhe assuma o ônus. Muito mais honesto é assumir. Assim, eu o respeitaria; de outro modo, fica difícil…

  2. Comentou em 15/02/2007 haroldo aquilles andrade

    Sem cumprir o bom jornalismo, que deve ser claro e objetivo no primeiro parágrafo (lead), Dines vai ao cerne da questão nos dois últimos parágrafos: ‘Mas o bom senso e a ponderação podem ser decisivos para restabelecer a confiança do cidadão na sua imprensa’ e arremata: ‘o que falta ao jornalismo brasileiro são veículos desligados de interesses políticos e econômicos’.
    Pronto, disse tudo aquilo que os leitortes vêem dizendo desde sua guinada em defesa dos interesses corporativos. É isso aí, Dines. O jornalismo brasileiro vai continuar em falta. Primeiro, porque jamais abrirá mão desses interesses (políticos e econômicos) e jamais terá bom senso. Exemplo: caso da Rede Globo. Como ter bom senso com um time orientado por Machado, Garcia, Bonner, Waak e, em especial, a Leitão que nos últimos dias passou a entende de todos os assuntos – clima, economia, política, segurança pública, meio ambiente, enfim de toda a pauta de notícias da emissora? E, o que é pior: com um viés ‘hay govierno, soy contra’, mas só do PT. Cai na real Dines. Mídia privada e progressista só se for nos sonhos do OI.

  3. Comentou em 14/02/2007 Marcelo Ramos

    Concordo com boa parte do que o sr. Dines colocou. O PT já teve sua época de ‘radical’. Hoje, virou radical chic. Quem aqui se lembra de que o PT queria fazer uma auditoria na dívida externa? De la pra cá, os radicais do partido foram enquadrados ou ‘saídos’. Eu creio que deve existir muita pressão, como Dines colocou, de deputados e senadores donos de redes. Sarney é, de fato, dono de um a rede no Marnhão. Mas existem muitos deputados e senadores que são donos de repetidoras da principal rede de TV do país, a Rede Globo. Será que muitos aqui não sabem que Antonio Carlos Magalhães é dono da repetidora da Globo na Bahia? Mudando um pouco de assunto, eu creio que redes alternativas podem sim, ser uma ótima alternativa. Por exemplo, vide a Telesur, que nasceu como proposta de ser uma alternativa à CNN, que ‘divulga’ a pauta de interesses norte-americanos, ou ‘denuncia’ células terroristas em países do terceiro mundo (geralmente aqueles que possuem petróleo). Modelos como o da Telesur devem ser seguidos sim, para gerar um equilíbrio de pontos de vista diferentes.

  4. Comentou em 14/02/2007 Marcelo Ramos

    Concordo com boa parte do que o sr. Dines colocou. O PT já teve sua época de ‘radical’. Hoje, virou radical chic. Quem aqui se lembra de que o PT queria fazer uma auditoria na dívida externa? De la pra cá, os radicais do partido foram enquadrados ou ‘saídos’. Eu creio que deve existir muita pressão, como Dines colocou, de deputados e senadores donos de redes. Sarney é, de fato, dono de um a rede no Marnhão. Mas existem muitos deputados e senadores que são donos de repetidoras da principal rede de TV do país, a Rede Globo. Será que muitos aqui não sabem que Antonio Carlos Magalhães é dono da repetidora da Globo na Bahia? Mudando um pouco de assunto, eu creio que redes alternativas podem sim, ser uma ótima alternativa. Por exemplo, vide a Telesur, que nasceu como proposta de ser uma alternativa à CNN, que ‘divulga’ a pauta de interesses norte-americanos, ou ‘denuncia’ células terroristas em países do terceiro mundo (geralmente aqueles que possuem petróleo). Modelos como o da Telesur devem ser seguidos sim, para gerar um equilíbrio de pontos de vista diferentes.

  5. Comentou em 13/02/2007 Teo Ponciano

    Construção de um sistema público de rádio e TV.
    Estímulos ao aparecimento de uma mídia ‘privada e progressista’.
    Estímulo à produção de conteúdos qualificados.
    Mudança no marco institucional da comunicação dirigindo-o para as organizações sociais.
    As intenções acima citadas são classificadas por Dines como ameaças.
    Explique melhor Dines.

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