Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > PAUTA ENERGÉTICA

Falta ciência no jornalismo econômico

Por Julio Ottoboni em 26/02/2008 na edição 474

A discussão das mudanças climáticas globais inseriu de vez a ciência nas questões cotidianas – desde as mais ordinárias até as complexas. O jornalismo, aos poucos, vai se apercebendo disto. Porém, ainda adotando uma velocidade muito aquém do nível necessário a fornecer novos horizontes informativos à sociedade. E, sem informação, dificilmente se consegue alcançar algum nível de eficiência nos debates sobre políticas públicas.

A discussão energética, tema recorrente dentro do jornalismo econômico, passa por essa carência de ter agregado informações de cunho científico. Os noticiários são teimosamente repetitivos, sequer há variação nas fontes consultadas. O exemplo clássico é o horário de verão e suas promessas de evitar apagões e blecautes no sistema gerador de energia elétrica. Em época de estiagem, a mesma ladainha de ministros, governadores e técnicos do governo.

A imprensa acaba passiva, servil, sem interesse em correlacionar eventos, situações e ações praticadas num passado extremamente recente. É o conformismo de uma instituição que se vê competente na postura de reprodutora de discursos automatizados, oficiais e ao remeter o problema da crise energética e do crescimento nacional a números e no uso do ‘economês’ com linguagem usual.

Num intervalo de uma semana, em fevereiro, os jornais noticiaram o fim da edição 2007/2008 do horário de verão e a viagem do presidente Lula à Argentina. Em solo portenho, o mandatário brasileiro se comprometeu a fornecer energia elétrica ao país vizinho com o retorno aos cofres públicos ‘quando puderem pagar’, como se expressou o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, à BBC do Brasil. Nenhuma relação entre os dois eventos foi feita até agora.

Proselitismo político

Neste caso, não é só o proselitismo presidencial que deveria ser observado, pois seria cair no lugar-comum. Mas questões que afetam diretamente a saúde dos brasileiros, que se vêem obrigados a acatar as decisões do governo federal.

Segundo o Ministério das Minas e Energia, a economia gerada nos quatro meses do regime de alteração de horário foi de 4,2%, ou seja, 1.557 megawatts no horário de pico, identificado como sendo das 19 às 22 horas. Uma semana depois, a mesma pasta se incumbe de anunciar o envio de 200 megawatts por hora ao mercado argentino.

Bastaria estar minimamente atento para observar a equivalência entre os dois cenários. Os quatro meses de transtornos à população do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil serão evaporados em apenas 8 horas de transmissão ao sistema de distribuição de energia argentino. O que mostra que a aplicação do ditado popular ‘fazer caridade com o sofrimento alheio’ cabe perfeitamente para qualificar esse tipo de política.

O caso fica ainda mais grave se algumas poucas equações forem feitas, particularmente tendo em vista a grita geral quanto aos níveis dos reservatórios das hidrelétricas logo após o período de estiagem. Se for levado em consideração o mesmo tempo gasto no horário de verão no Brasil, a Argentina levará 576.000 megawatts. Ou 370 vezes o que foi economizado pelos brasileiros. O mesmo se conseguiria em 1.110 edições nacionais do horário de verão.

Sono e falta de atenção

A ciência ajuda a ver os estragos provocados pelo horário de verão e a necessidade de um estudo urgente sobre os efeitos desta decisão sobre a saúde das pessoas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 40% dos brasileiros sofrem de insônia. Esse distúrbio do sono, segundo a entidade internacional, é gravemente afetado no período do horário de verão.

O sono das pessoas no horário de verão não é restaurador e isto foi checado pelo Laboratório do Sono da Universidade de Brasília (UnB). A perda de uma hora no sono causa irritabilidade pela manhã, dificuldade de concentração e lapsos de memória. A ciência já provou que uma parcela da população adulta tende a levar de dois a cinco dias para se adaptar ao novo horário. Outros sequer sentem a mudança. Entretanto, outra parcela significativa não se adapta.

Uma das poucas pesquisas de cunho científico feitas no Brasil vem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ela relaciona a sonolência diurna excessiva em caminhoneiros com o desempenho no trânsito. Avaliou-se que 19,1% dos motoristas adormecem eventualmente ao volante. O mesmo fenômeno ocorre diariamente com 2,8%. O estudo mostra que 39,8% das pessoas se envolveram em acidentes de trânsito, dos quais 16,4% relataram ser o sono o responsável.

Uma pesquisa realizada na University of British Columbia registrou aumento de 8% nos acidentes na primeira semana após o início do horário de verão nos Estados Unidos. Outra referência vem da bióloga Miriam Mendonça Morato Andrade, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp. A conseqüência imediata do horário de verão ou do término dele é o desajuste do relógio biológico.

‘Na maioria dos casos, o sono, o cansaço e a desatenção acabam passando, porém a alteração forçada deixa um saldo negativo em termos econômicos, uma vez que podem levar a pessoa a se envolver em uma série de incidentes’, informou a especialista ao boletim informativo da Unesp.

Outro estudo, da Sociedade Canadense do Sono, relata que a falta de atenção contribui para 90% de todos os acidentes de trânsito durante o período de alteração no horário. Esses custos ultrapassariam a casa dos 3 bilhões de dólares.

O berço da superficialidade

A crise energética no Brasil é usada conforme o interesse político e empresarial. Se houvesse o mínimo de vontade em suprimir esse problema da listagem dos grandes e graves temas econômicos nacionais, isto já teria ocorrido. Nos últimos anos, a poluição luminosa é tratada por cientistas, especialistas e ambientalistas em todo o planeta.

Esse assunto é ignorado pela classe política e nunca esteve presente na discussão econômica quando o tema tratado é energia elétrica. O desperdício na iluminação das áreas públicas nos centros urbanos é de 40%. Isto equivale a dizer que esse percentual de energia convertida em luz é lançado diariamente, no período noturno, ao espaço.

Entretanto, por essas plagas é mais fácil manter a cultura do desperdício, depois cobrar da população e emprestar como política de boa vizinhança. Esquecer rapidamente faz parte do exercício do ‘bom senso’ do brasileiro, do pragmatismo de última hora, no qual para ‘tudo se tem um jeitinho’. E o nosso jornalismo? Bem, esse, que deveria ser o grande fiscalizador dos poderes públicos, defensor e esclarecedor da sociedade, se encontra – mesmo que mal acomodado – em seu berço esplêndido da superficialidade.

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Jornalista e pós-graduado em jornalismo científico

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/05/2008 Heloisa Sousa

    Pessoal do Observatório da Imprensa, escrevo porque sou jornalista, moro aqui na Paraíba, em João Pessoa, já assessorei durantes três anos o MST estadual, e gostaria de saber como é que funciona o quadro de funcionários do Observatório. Ele é fixo e locado apenas em níveis nacionais, eixo Rio-São paulo ou existe interesse de contratar correspondentes nordestinos? Falo isso porque sigo uma linha jornalística editorial semelhante a do OI e aqui no Nordeste não existe opção para quem pensa diferente, para quem deseja trabalhar com pautas políticas diferenciadas, portanto se houver abertura ou possibilidade de trabalho para mim, gostaria de obter informações a respeito.
    Muito obrigada e desde já agradeço a atenção.

    Heloisa de Sousa

  2. Comentou em 04/03/2008 Ricardo Pierri

    …só acrescenta um senso distorcido de lealdade à sua já demonstrada falta de humildade e fuga de suas responsabilidades no episódio. Se queres condenar os comentaristas desrespeitosos, começe por vc mesmo e não remova um deles como ‘sempre respeitoso com os articulistas’, como se ser respeitoso com os comentaristas – coisa q nem ele nem vc são – fosse dispensável. No final, a edição do OI q continha seu erro grosseiro foi para os arquivos sem que o erro fosse corrigido. E não venha jogar a culpa disso em outros, pois o filho é seu, e é sua a responsabilidade de zelar por sua correção.

  3. Comentou em 03/03/2008 Paulo Bandarra

    O que fazer se você não consegue discernir entre o real e o imaginário. Passa defendendo duas semanas a fio defendendo o criacionismo e ainda por cima nega ao mesmo tempo que não é criacionista! Não sabe distinguir duas propostas se quer, uma tola (mas não consegue entender o porquê) e outra científica. Quem acredita pela fé é vossa majestade, que não sabe os motivos porque a gravidade não é crença e porque Deus não forma deriva dos continentes! A perda de noção da realidade é uma patologia que acompanha várias situações, até não entender o que lê, ou troca a leitura como uma realidade maior do que a mesma! Mas continue patrulhando em defesa do irracional e da fantasia como está fazendo. E negando ao mesmo tempo que não sabe porque decida por um ou por outra coisa! Fazendo a sua defesa das bobagens imaginárias como se fossem tradução da realidade que não consegue perceber na verdade perceber! Enquanto isto a ciência evolui independente das tolices! Apenas os néscios e os cara valentes de Marx continuam lutando a vida inteira contra a realidade duvidando da própria existência!

  4. Comentou em 01/03/2008 Ricardo Pierri

    Em tempo: vc não percebeu q vc É o português da piada, q acredita q ‘comer’ ou o ‘movimento da bala e seus efeitos ‘sejam ‘axiomas’. E isso é ainda mais cômico.

  5. Comentou em 01/03/2008 Paulo Bandarra

    O português começou a pensar que comer era um axioma descartável, e resolveu que o seu burro poderia passar a aprender a não comer. Era apenas uma mania do mesmo sem base na realidade. E dito e feito. Passou uma semana e o bicho ficou cada vez a comer menos todos os dias. Estava aprendendo, pensou o português esperto. A coisa ia de vento em poupa no seu projeto, e ele contava os níqueis que já tinha economizado, quando, sem mais nem menos, sem motivo, o burro que já estava praticamente aprendendo, morreu sem motivo aparente. Até hoje o português filosofo pensa que foi por mera teimosia do quadrúpede que ele morreu! Uma mera questão de axiomas lógicos que faz os burros serem teimosos em comer! Nada que possa a ser verificado! Marx criticou este pensamento filosófico onanístico em Ideologia Alemã, chamando o “português” alemão de um homem valente: ‘Era uma vez um sujeito valente, que teve a idéia de que os homens só se afogavam na água por estarem tomados pela idéia da gravidade…. “ Que pessoa que deve ser feliz. Acredita que nunca vai morrer e que é imune ao axioma da bala de revolver…. Morrer é para burros teimosos não para caras inteligentes!

  6. Comentou em 28/02/2008 Júlio Ottoboni

    Obrigado pela atenção, dr Paulo Bandarra. É sempre uma satisfação ler seus precisos e lúcidos comentários. Grande abraço.

  7. Comentou em 27/02/2008 Ricardo Pierri

    Que parte de ‘A tal ‘economia’ não tem o sentido de ‘guardar’ X MW, mas o sentido de energia não produzida e não consumida em um determinado período.’ e de ‘Assim, não cabe qquer comparação entre o q foi ‘economizado’ pelo horário de verão, com o q será vendido à Argentina – não serão os 1,5 GW por dia durante o horário de verão q serão vendidos.’ o sr. não entendeu ou achou pouco clara ou objetiva? Terei prazer em esclarecer. Tenho problemas com a imprensa, sim, pelos argumentos q ja expus diversas vezes e o sr. nunca ao menos tentou demonstrar errados. Não tenho nenhum problema com a expressão democrática da opinião, mas tenho um grande problema com a hipocrisia de se exigir ‘mais ciência’ em um argumento q ignora a mesma. Qto ao seu comentário acerca da opinião de Paulo Badarra, é uma pena q o sr. não perceba q ao ‘concluir’ q ele tem ‘razão’ sobre mim NESTA discussão, e não naquela, e não pelos méritos ou deméritos de minha opinião sobre o assunto daquela discussão, mas sim por eu ter discordado do sr. e apontado seus erros crassos, só depõe contra o sr mesmo. Qto ao seu ‘conselho’, é irônico q o ‘conselheiro’ seja o mesmo q afirma q o fornecimento d energia à Argentina ‘equivalerá’ a 1100 ‘horários de verão’. (cont)

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