Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > JORNALISMO AMBIENTAL

Falta diálogo com a sociedade

Por Washington Araujo em 27/07/2010 na edição 600

Em junho de 1992, o Brasil sediou a Cúpula da Terra, o mais importante evento promovido pelas Nações Unidas para tratar do meio ambiente no planeta. Durante quase um mês, centenas de organismos não-governamentais foram ao Rio de Janeiro e nos dias mesmo da Cúpula tivemos cerca de 180 chefes de Estado presentes.

O Aterro do Flamengo celebrou a força do movimento ecológico. Ainda não se falava do superaquecimento com o fervor com que hoje se fala; buraco na camada de ozônio aterrorizava mais pelo desconhecimento que por suas consequências práticas; derretimento das calotas polares era tema restrito aos círculos de cientistas. Enfim, éramos muito mais idealistas e muito menos práticos. E não existia ainda de maneira consolidada o jornalismo ambiental. Quem cobria catástrofes naturais, cobria meio ambiente; quem cobria a cena internacional, cobria a ação.

O jornalismo ambiental – mesmo que ainda, a meu ver, incipiente no Brasil – precisa mudar por várias razões. Em primeiro lugar, não se pode praticar o jornalismo ambiental sem compromisso, apostando numa pretensa neutralidade, objetividade etc. Em segundo lugar, o jornalismo ambiental não se pode focar apenas no aspecto técnico porque o importante, se quisermos efetivamente trabalhar para a solução dos problemas, é perceber as conexões entre o meio ambiente, a economia, a cultura, a política, a saúde e a sociedade.

Esta perspectiva fragmentada, que vem a reboque da cobertura de grandes catástrofes, não contribui para fortalecer o jornalismo ambiental, apenas o coloca na agenda, sem se comprometer com um debate sério, abrangente, como deve ser. Finalmente, o jornalismo ambiental deve atentar para os grandes interesses que rondam essa área e ter em mente que existe na prática a chamada praga do marketing verde.

Criar dificuldades para vender facilidades

É comum que jornalistas que ‘cobrem o meio ambiente’ criem um linguajar todo próprio, falem com naturalidade sobre temas como efeito-estufa, vazamento de petróleo no golfo do México e as consequências do desmatamento desenfreado no Brasil, em particular, na região amazônica. Também são dados a repercutir previsões catastróficas sobre o futuro da humanidade, citando para tanto cientistas há muito assessorando entidades ambientalistas.

Parece-me estratégia equivocada. Não é através do medo que as pessoas passarão a se interessar pela preservação do meio ambiente. Tampouco é razoável ficar difundindo novas datas para o colapso total do planeta. Tal ação jornalística produz exatamente o efeito contrário: retirar a necessária credibilidade do assunto, quando não o empurra para aqueles temas fantasiosos que terminam virando roteiro de ficção científica tipo B, bem ao gosto dos estúdios cinematográficos de Hollywood.

Foi ao término da Segunda Guerra Mundial que ganhou relevância o jornalismo ambiental. Sessenta anos depois, a verdade é que ainda engatinhamos no assunto e seus temas estão invariavelmente atrelados ao catastrofismo. Pouco espaço é concedido à importância de levar à vitrine midiática experiências bem sucedidas no campo da educação ambiental. E não falta assunto sobre meio ambiente; o que falta mesmo é apetite para o cardápio.

Há muito que organismos não-governamentais, como o Greenpeace, embarcaram na onda da espetacularização, onde quanto mais vistosa for a cena, quanto mais inusitado for o roteiro a ser veiculados em filmetes mundo afora, usando-se principalmente o suporte da internet, mais se tem a sensação de missão cumprida. É assim com o trabalho das ONGs contra o massacre de baleias e é assim também sua ação contra a proliferação de tecnologia nuclear. O mesmo diapasão é usado para promover a preservação de espécies em extinção.

Quando teremos um jornalismo ambiental que dialogue com a sociedade, de igual para igual? Quando ouviremos um jornalista declaradamente ambientalista discorrendo sobre o assunto sem aquele jeito presunçoso de quem é o dono absoluto da verdade?

Há que se baixar a bola dos que se sentem investidos da missão de salvar o planeta e levantar a bola dos que sabem que, mesmo sendo a Terra nada mais um pálido ponto azul no universo, ainda assim é o melhor e o mais belo planeta que conhecemos e que nos acolhe uma e mil vezes, a cada momento, a cada instante. O que precisa ser levado à extinção é a arrogância dos que criam dificuldades para vender facilidades logo em seguida.

Será que fui claro?

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/08/2010 Alexandre Carlos Aguiar

    Emerson, como disse, lá na nossa juventude nos chamavam de maconheiros e desocupados. Hoje, aos 49 anos, chamam de fascistas. Nesse caminho já houve mais adjetivos. Portanto, fique na fila, pegue a senha e aguarde a sua vez. Não queira vir agora sentar na janelinha. Agora, sou obrigado a te dar os parabéns. Esse adjetivo de ‘neo-pentecostalista’ é novo. Ao menos a sua faculdade não deve ter sido em vão, já consegue criar novos termos. Nessas andanças, a gente percebe que há 3 tipos de anti-ambientalistas: o BURRO, aquele que vive com seus Tico e Tecos em conflito, lê muito sobre o tema, mas não consegue absorver nada; o EMPRESÁRIO, que não poderia diminuir a sua sanha devastadora, por conflito de interesses; e o TEIMOSO (vou usar um termo menos chulo), que sabe como fazer, tem plena consciência de seu comportamento agressivo, já leu e está a ouvir o que se fez e como ele poderá conduzir o processo, mas não faz, não toma iniciativa, e desanca a tudo e a todos para dar satisfação ao seu ego preguiçoso. Por isso que não há muito o que fazer, pois já estão perdidos. Aliás, nós não pregamos o Armagedon. Não precisa! Estes 3 tipos aí já estão colaborando eficazmente para que isso ocorra. Não é por falta de convicção, dona Cristiana e seo Diego, é constatação. Há certas horas que não se perde mais tempo, quando as pessoas não querem. A gente só leva pela mão as crianças e idosos.

  2. Comentou em 30/07/2010 Fábio Bittencourt

    Prezado Henrique Dantas,

    Você poderia explicar qual é a aberração do artigo?

  3. Comentou em 28/07/2010 Emerson Mathias

    Nada tao rapido, nem tao facil. O tema eh complexo e requer conhecimentos em diversas areas do conhecimento. A ignorancia dos jornalistas reflete a dos leitores, considerando-se apenas um publico de pessoas com ensino superior. Fazer um discurso demagogico nao vai funcionar sem que antes seja feito um trabalho de base em varios segmentos da sociedade (escolas, poder publico, faculdades, empresas de midia, agencias de propaganda) acerca das politicas ambientais. ‘Abrir a discussao’ so vai a ajudar na criacao de mais dogmas, preconcietos e falsas solucoes. Sem coordenacao dos esforcos, ‘discutir livremente’ nao vai levar a lugar algum. Por que nao se verifica o que ja foi feito em paises que tratam seriamente o tema, como o Japao e a Comunidade Europeia? Ja seria uma enorme contribuicao para pautarmos isso localmente. O fiasco em Copenhaguen mostra como eh facil se perder no meio de foruns e discussoes sem base tecnica. Possuimos um corpo de tecnicos que possa nos ajudar nisso? Creio que nao. Ficamos no marketing ambiental e no populismo ambientalista, ambos pouco eficientes para se encontrar caminhos para solucoes permanentes. Facil remediar, dificil erradicar os problemas. Exemplo: lixoes em aterros sanitarios. Todos conhecem o problema, quem pauta isso hoje? Na midia, ninguem. O tema nao faz parte dos interesses de quem paga para veicular seu marketing social.

  4. Comentou em 27/07/2010 brito lelis

    tem toda uma industria por trás do discurso dos verdes, vejam agora a candidatura Marina e o Sarney Junior… todos falam em planeta saudavel mas o que querem mesmo é se locupletar. Cristiana mandou bem… heehe o lafuinho dos europeus… hehehe

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