Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/2

Folha de S. Paulo

12/02/2008 na edição 472

CARTÕES DO GOVERNO
Clóvis Rossi

Fuscas, bilhar e churrasco

‘SÃO PAULO – O que há em comum entre os ´fusquinhas` que o então prefeito de São Paulo, Paulo Salim Maluf, doou aos campeões mundiais de futebol de 1970 e a farra com cartões de crédito/débito nos governos federal e paulista?

Há duas coisas: primeiro, você pagou por todas essas farras. Segundo, é formidável a facilidade com que funcionários graduados e não tão graduados confundem o bolso próprio com o erário.

Entre os ´fuscas` e os cartões, há não apenas o longo tempo decorrido (38 anos), mas uma mudança das regras do jogo, que passou da ditadura para a democracia, e uma aparente -e só aparente- guinada nos partidos/personalidades envolvidas, da direita para a esquerda, ainda que a esquerda tenha se tornado tão conservadora quanto a direita.

Tucanos e lulopetistas foram, durante um tempo, os mais duros críticos do malufismo, com o qual disputavam espaço em São Paulo. Ao chegarem ao poder, no entanto, ambos casaram-se com esse, digamos, modelo de usar dinheiro público para compras particulares, sejam ´fuscas´, seja tapioca, seja mesa de bilhar, seja uma montanha de carne em churrascaria.

Depois que o malufismo entrou em irremediável declínio, tucanos e lulopetistas fazem o mais indigente Fla-Flu da história política brasileira, um duelo que se vai repetir agora nas prometidas CPIs dos cartões de um e outro lado, como se se tratasse de apurar quem é mais corrupto.

Sim, porque o abuso no uso dos cartões é corrupção e até o plástico de que eles são feitos sabe que o abuso é decorrência de uma cultura política profundamente apodrecida.

Os 38 anos passados entre os ´fuscas` de Maluf e os cartões tucanos e lulopetistas serviram apenas para comprovar que tudo mudou para que tudo ficasse exatamente igual: o seu, o meu, o nosso dinheirinho paga ´fuscas´, paga tapiocas, mesa de bilhar e muito churrasco.’

 

Eliane Cantanhêde

Da tapioca à pizza

‘BRASÍLIA – Os R$ 108 milhões dos cartões do governo Serra em 2007 são o Eduardo Azeredo da crise da tapioca. Quando os tucanos mais comemoravam o mensalão, Azeredo entrou na roda e estragou-lhes a festa. Quando começavam a brindar a tapiocaria, vem a água fria dos cartões de Serra.

Quanto mais se acusam, mais tucanos e petistas se parecem. Os dois lados blefam ao alardear a criação de uma CPI em Brasília e outra em São Paulo para investigar uso do dinheiro público em restaurantes caros e baratos, lojas de doces e de jóias, hotéis e carros alugados em feriados. Uma orgia.

A CPI e a crise tendem a evoluir de tapioca para pizza e emperram três movimentos que tucanos e petistas vinham ensaiando antes e durante o Carnaval: Serra e os filhos de Lula aos sorrisos num camarote no Rio de Janeiro; conversas mais do que amigáveis entre Aécio Neves e Fernando Pimentel para uma candidatura única em Belo Horizonte; os acertos Lula-Serra-Aécio para acabar com a reeleição e rever o cronograma.

Como pano de fundo, a entrevista de José Dirceu à revista ´Piauí´, em que ele releva antigas e sólidas divergências e elogia Serra como homem público e presidenciável. Neste momento, Dirceu deixou de lado o consultor e se reassumiu como um dos principais quadros políticos do país. Não foi descuido.

Os petistas e tucanos de internet, essas novas categorias do cenário político, irresponsáveis e agressivas, ficariam surpresíssimos se ouvissem a troca de elogios que Serra e ilustres lulistas trocam fora dos holofotes. Mas não seguiriam.

Aliás, nem compreenderiam.

Qualquer tentativa de pensar grande, seja de Lula, seja de Serra, seja de Aécio, acaba indo de roldão na avalanche de pequenos e grandes erros comuns aos dois lados. O dinheiro público vai para o ralo, e a política vai junto. Certamente porque o poder é deletério e talvez porque falte grandeza ao ser humano.’

 

Carlos Heitor Cony

A farra dos lápis

‘RIO DE JANEIRO – Rubem Braga estava sozinho numa cidade do interior e sentiu falta de mulher. Informou-se e foi dar com os costados e o desejo num bar onde profissionais da noite faziam ponto. Bebeu um pouco para calibrar e se encher de coragem, escolheu uma delas, muito jovem e tímida. Perguntou quanto custava, ela respondeu de cabeça baixa: 32,50. Rubem reclamou: ´Minha filha, isso não é preço de michê, é conta de telefone´.

Lembro a história do mestre a propósito do novo escândalo que está sacudindo a nossa vida pública. Autoridades e funcionários categorizados fizeram uso do cartão corporativo e parece que tudo terminará numa CPI que se arrastará o ano todo. Evidente que houve casos escabrosos, gente de primeiro escalão pagando aluguel de carro e hotéis cinco estrelas com dinheiro funcional.

Mas o que está vindo a público são despesas menores, uma delas, de R$ 4,40, parece compra de um maço de cigarros, e não uma corrupção das piores. É bem verdade que cada tostão do governo gasto indevidamente configura um abuso de autoridade ou mesmo um crime contra o erário da nação.

Num ano qualquer da República Velha, quando o morro do Castelo foi desmontado aqui no Rio, houve uma sucessão de escândalos com o aluguel de burros que puxavam carroças com a terra removida, que formaria a ponta do Calabouço, onde hoje se situa o aeroporto Santos Dumont.

Um dos empreiteiros comprou um castelo na Espanha. Roubou-se muito à custa dos burros, que nada reclamavam. Quem reclamou foi uma autoridade municipal, que examinou as contas das empreiteiras e descobriu que engenheiros e operários gastavam lápis demais para os apontamentos. Houve inquéritos e demissões, a bem do serviço público, pela farra dos lápis.’

 

Fernando Mattos

Transparência no cartão

‘O ATUAL episódio dos cartões corporativos coloca em destaque questão da mais alta relevância que não despertou, ainda, a devida atenção da sociedade brasileira. Trata-se do acesso à informação, direito fundamental estabelecido no Brasil apenas com a edição da Constituição de 1988: ´todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral (…), ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado` (artigo 5º, XXXIII).

Mesmo em outros países, o direito de acesso à informação é tema recente. O Brasil ressente-se da ausência de uma efetiva normatização desse direito. O problema maior, todavia, é a falta de cultura da sociedade quanto ao direito de acesso às informações públicas e ao dever dos agentes públicos de fornecê-las.

O direito de acesso à informação, aliado ao princípio da publicidade no ambiente da administração pública (artigo 37, ´caput´, da Constituição), impõe ao agente público a observância da cláusula da máxima informação, preceito próprio das democracias. Isso rompe com a cultura do segredo governamental, que era a nossa praxe durante o regime ditatorial de triste memória.

Nesse novo paradigma jurídico, os dados, registros e informações, especialmente os relativos à execução do Orçamento, não pertencem ao Estado, mas aos cidadãos, que são os titulares do poder. Dessa forma, assegura-se a transparência necessária da gestão pública, para fins de materialização da democracia participativa, no que se refere à fiscalização por parte da sociedade. Inibe-se a corrupção, ao ampliar sobremaneira a possibilidade de fiscalização.

Além do dever de atender aos pedidos de informação, o agente público tem o dever de franquear o acesso ao banco de dados eletrônicos dos órgãos públicos, dotado de ferramenta de pesquisa de conteúdos que possibilite o pleno, rápido, eficiente e simplificado acesso aos documentos e às informações, principalmente no que diz respeito aos gastos públicos.

O site Portal Transparência da CGU (Controladoria Geral da União), de acesso público, que possibilitou o conhecimento da farra do cartão corporativo, revela a importância desse dever do agente público e a necessidade de sua ampliação e disseminação entre todos os órgãos públicos.

O preocupante é que, devido à repercussão do episódio, o governo determinou a retirada do mencionado site dos dados referentes às despesas com alimentação em nome da Presidência da República, sob o argumento de que isso se daria para preservar a segurança do Estado.

É fato que o direito de acesso à informação, de acordo com a norma constitucional, sofre restrição se e quando o sigilo for imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.

É evidente, porém, que o administrador não pode, ao seu bel-prazer, fazer essa classificação para, assim, sonegar informação à sociedade quanto a determinados atos, especialmente quando se trata de despesa feita por meio de cartão corporativo, instrumento hábil para facilitar a realização de pequenas despesas que não exigem licitação, mas que, como os fatos recentes ensinam, incentiva a sua utilização para gastos inadmissíveis com o dinheiro público.

Compras em ´free shops´, supermercados, vinícolas etc., obviamente, não são informações que comprometem a segurança da sociedade ou do Estado. Espera-se que o Parlamento investigue os fatos e, mais ainda, que legisle sobre a matéria.

O projeto de lei 219/03, que regulamenta o direito de acesso à informação, está pronto para votação no plenário da Câmara dos Deputados.

Conquanto mereça alguns reparos, que ainda podem ser feitos, o referido projeto de lei representa sensível avanço em relação ao tema e tem o mérito de colocar parâmetros para as restrições ao exercício desse direito fundamental. Que o episódio contribua para difundir a cultura do acesso à informação, ampliando-a, e não para restringi-la, como infelizmente quer o governo.

FERNANDO MATTOS, 34, mestre em direito público pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), é vice-presidente da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) na 2ª Região e juiz federal em Vitória (ES).’

 

Leila Suwwan

Funcionários de confiança controlam 44% dos cartões

‘Criados para facilitar o controle das despesas corriqueiras da administração federal, 44% dos cartões de crédito corporativos do governo estão nas mãos de funcionários que ocupam cargos de confiança, geralmente por indicação política. Isto é, 3.144 desses cartões estão em posse de servidores em postos DAS (Direção e Assessoramento Superiores).

Enquanto o governo se mobiliza para contornar a crise causada pelo uso irregular dos cartões por ministros e pelo alto escalão dos órgãos federais, o Planalto já acionou os ministérios para rastrear o uso dos cartões pelo clero de médios e baixos ´gerentes` da máquina, onde há suspeitas de loteamento.

Segundo a CGU (Controladoria Geral da União), 7.145 cartões foram usados em 2007, sendo que cerca de 1% está em mãos de altos cargos (Natureza Especial, DAS-6 e DAS-5). Mas, do total, 44% estão em mãos dos DAS. Ou seja, dos 20.159 servidores nesse tipo de cargo, 15,6% têm cartão de crédito corporativo, boa parte nos níveis DAS-1 a DAS-4.

Nesses postos, a nomeação é livre, mas, desde 2005, existe um limite legal mínimo de servidores concursados, para evitar o aparelhamento político no escalão médio, o que pode alimentar a corrupção. A regra, no entanto, não é cumprida integralmente por ao menos 16 ministérios, além da Presidência, conforme mostrou a Folha em novembro do ano passado.

Como argumento para fortalecer a convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a oposição diz que os cartões podem ser um tipo de ´mensalinho para privilegiados´. Após o Carnaval, o governo reagiu com a estratégia de bancar uma CPI sob seu controle político para tratar do assunto, o que incluiria uma ampla investigação também sobre os cartões na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

O escândalo dos cartões já derrubou a ex-ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial) e levou o ministro Orlando Silva (Esportes) a anunciar a devolução dos R$ 30 mil que desembolsou até que todas as contas sejam analisadas pela CGU.

Outros ministros, assessores, reitores de universidades federais e até o Comando da Marinha estão mobilizados para explicar gastos com restaurantes de luxo e mesa de sinuca, entre outros.

Numa prévia de contra-ataque, os ministros Franklin Martins (Comunicação Social) e Dilma Rousseff (Casa Civil) afirmaram que, antes do governo Lula, as despesas eram maiores e menos transparentes dentro do chamado ´suprimento de fundos´. Em 2002, R$ 233,2 milhões foram gastos dessa forma, quase exclusivamente em ´contas B´, na qual o funcionário passa cheques e presta contas em papel, com notas fiscais. Em 2007, R$ 99,5 milhões foram gastos dessa forma e outros R$ 78 milhões com cartões de crédito. Nos gastos de cartões, 75% foram feitos em saques, sem prestação de contas pública.

Os cartões também são regularmente usado em compras acima de R$ 800, que é o limite, ou para despesas que deveriam ser licitadas (construções ou suprimento de materiais).’

 

Andreza Matais

Para Berzoini e Tarso, Matilde cometeu engano

‘A nova executiva nacional do PT saiu ontem em defesa da ex-ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial), que deixou o governo após denúncia de irregularidade no uso do cartão. O presidente nacional do partido, Ricardo Berzoini, disse que Matilde foi uma ministra ´brilhante` e que ela cometeu ´um engano` ao usar verba pública num free shop.

O PT elaborava nota ontem sobre os cartões, mas ela não foi divulgada até o fechamento desta edição.

Para o ministro Tarso Genro (Justiça), Matilde ´não agiu de maneira dolosa´. ´Ela não quis obter vantagem pessoal, foi falta de prática para manusear um recurso administrativo.` Ele disse que ´o governo Lula deveria estar sendo elogiado` no caso dos cartões porque deu transparência aos gastos.

O PT sugerirá ao presidente Lula nomes para substituir Matilde. A Folha apurou que o preferido é o do deputado Edson Santos (PT-RJ). Será indicado ainda Luiz Alberto, secretário do governo Jaques Wagner (PT-BA), entre outros.’

 

Valdo Cruz e Kennedy Alencar

Lula só abre gasto sigiloso junto com o de FHC

‘O governo Lula aceita liberar os gastos sigilosos da Presidência para uma eventual CPI dos Cartões apenas se o mesmo ocorrer com as despesas da gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Na estratégia governista, os dados seriam enviados juntos à CPI.

Apesar de reconhecer que o potencial de estrago na imagem de Lula é muito maior caso sejam encontradas irregularidades, o governo avalia que é preciso mostrar que situações similares teriam ocorrido com o tucano para ao menos reduzir os danos à imagem do petista.

Essa estratégia será acionada apenas se o governo concluir ser inviável evitar a quebra do sigilo dos gastos ligados diretamente a Lula. Líderes governistas defendem que o Planalto procure formar uma maioria na CPI e, mesmo sob risco de desgaste, impeça a divulgação desses dados. Para isso, assessores de Lula querem rapidez na distribuição de cargos do setor elétrico para o PMDB.

Se necessário, o governo pode também tentar vetar a quebra do sigilo no Supremo Tribunal Federal. Para governistas, não deve prevalecer no STF a posição do ministro Marco Aurélio Mello. Ele questionou o argumento do Planalto de que determinados gastos de Lula não podem ser divulgados por motivos de segurança.

Além de centrar fogo em FHC, a estratégia do Planalto e do PT inclui ainda a decisão de exigir dos governadores e presidenciáveis tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) explicações sobre gastos semelhantes aos dos cartões corporativos do governo federal.

Por orientação da direção nacional do PT, o partido quer criar uma CPI na Assembléia paulista para investigar gastos do governo Serra. Em Minas, onde PT e PSDB têm boa relação, cobranças a Aécio serão feitas de forma mais amena.

Nas palavras de um ministro, se a oposição ´quer um Carnaval´, terá ´um Carnaval e meio´. Na avaliação da cúpula do governo, PSDB e DEM teriam dado às revelações sobre os gastos com cartões gravidade semelhante à do mensalão.

O Planalto diz não temer uma CPI por considerar que não haveria nada de irregular nos gastos do presidente ou de sua família. Mas não descarta que algum funcionário tenha cometido ilegalidade no uso de cartões -o discurso será que o responsável pagará pelo erro.

A preocupação do governo é que a quebra do sigilo das contas da Presidência revele alguns tipos de gasto que possam ser vistos como exagero pela população, como compra de bebidas, mas que também teriam ocorrido antes.’

 

Julianna Sofia e Felipe Seligman

Governo faz censo de cartões corporativos

‘A Secom (Secretaria de Comunicação Social) do Palácio do Planalto enviou na sexta-feira uma série de perguntas a todos os ministérios sobre o uso de cartões de crédito corporativos por seus funcionários.

O questionário, divulgado ontem pelo jornal ´O Globo´, foi encaminhado por e-mail. São 13 questões, muitas das quais já abordadas pela Controladoria-Geral da União (CGU), que devem ser respondidas e enviadas ao Planalto pelas assessorias de comunicação dos órgãos até amanhã. A informação repassada aos assessores é que essas respostas serão analisadas em reunião no palácio para definir a estratégia de comunicação do governo Lula.

O ministro José Múcio (Relações Institucionais) afirmou que a Secom pretende evitar trâmites burocráticos para a obtenção das informações. ´São perguntas feitas diretamente aos que realizam os gastos, evitando o questionamento por vias burocráticas´.

A assessoria de imprensa do Planalto informou que os dados enviados pelos ministérios serão organizados para a posterior divulgação à imprensa.

A Folha entrou em contato com assessores que confirmaram ter recebido o questionário. Em alguns ministérios, equipes estão de plantão durante o fim de semana para cumprir o prazo fixado.

O nível ´básico` das perguntas foi alvo de críticas por alguns dos assessores, que preferiram não se identificar. Uma delas questiona ´quais tipos de despesas são permitidas por cada órgão´. ´Como é possível saber se a despesa realizada não foi de caráter pessoal?` é outra pergunta do e-mail.

A Secom também quer que os órgãos informem por que os cartões foram distribuídos a ´tantos funcionários espalhados por todo o país` e se esses servidores são de carreira.

Desde o início da polêmica sobre o uso dos cartões corporativos, o ministro Jorge Hage (Controladoria-Geral da União) diz que os gastos servem para três finalidades: compras eventuais, de baixo valor e, por fim, para gastos sigilosos: ´O decreto que estabelece a utilização desse mecanismo deixa isso claro: eventuais são aqueles gastos não rotineiros, os de baixo vulto, regulamentados pelo Ministério da Fazenda, e os sigilosos, que se preocupam com a segurança do presidente e de sua família e de determinadas investigações´.

Mesmo assim, o questionário também pergunta à própria Presidência o motivo de manter ´certos gastos` em sigilo.’

 

Elio Gaspari

Quem crê no Planalto faz papel de bobo

‘PRESIDIDO POR UMA ´metamorfose ambulante´, o governo está detonando a credibilidade que os contribuintes precisam dispensar ao poder público. Precisam, porque pagam para ser governados por pessoas confiáveis. Em três episódios, quem acreditou no governo fez papel de bobo. São eles o do uso dos cartões de crédito por funcionários da Presidência, o alcance do desmatamento da Amazônia e a reação oficial ao embargo das importações de carne pela União Européia.

A Presidência da República teve três anos para lidar a sério com os seus cartões de crédito corporativos. Em vez de respeitar a patuléia, o Planalto entrincheirou-se, bloqueando pedidos de informações apresentados no Senado. Coisa do comissariado, pois os cartões são transparentes e rastreáveis. Além disso, o Tribunal de Contas teria acesso a todos os extratos. Tudo o que o governo fez nos últimos dias poderia ter sido feito em 2005, mas prevaleceu a prepotência. Ela persiste na tentativa de blindar as contas da pequena corte de Nosso Guia.

No caso do desmatamento da Amazônia, no dia 24 de janeiro Lula fez saber que estava preocupado com a expansão da rapina da floresta. Seis dias depois, assessorado pela turma da motosserra, sugeriu que o Ministério do Meio Ambiente estava fazendo ´alarde´. O ponto de vista do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, prevaleceu sobre o da ministra Marina Silva.

Tudo bem, Stephanes merece crédito. Eis que no dia 30 de janeiro a União Européia decide embargar as importações de carne brasileira. Seu ministério respondeu que ´a medida é desnecessária, desproporcional e injustificada´. Se a choldra tivesse acreditado nele, teria ficado no papel do paspalho. O governo sabia que cederia, pois tentara um golpe de João Sem Braço, enviando a Bruxelas uma lista de 2.681 produtores, quando a UE queria 300. Uma semana depois, o Ministério da Agricultura anunciou que enviaria uma nova lista, com 600 fazendas. À patuléia, ofereceu-se uma patranha, segundo a qual em 2.081 casos haviam sido cometidas impropriedades. Se Stephanes trabalha com uma margem de erro parecida (78%), a agricultura nacional está perdida. O comissariado esqueceu a lição do juiz americano Louis Brandeis (1856-1941): ´A luz do sol é o melhor dos desinfetantes´.’

 

CINEMA
Marcelo Ninio

Cinema egípcio desafia limites do regime

‘Corrupção, tortura, homossexualismo, extremismo islâmico, desigualdade social.

Apesar de incluir todos esses ingredientes explosivos, que retratam alguns dos temas mais polêmicos do Egito, ou exatamente por isso, ´Edifício Yacoubian` bateu recordes de bilheteria, se tornando um dos filmes de maior sucesso na história do país.

O filme, baseado no livro homônimo, um dos maiores bestsellers recentes da literatura árabe, conta o cotidiano de um edifício decadente no centro do Cairo, que viveu dias de luxo e glamour e passa a conviver com os dilemas de uma sociedade marcada pela hipocrisia.

Em entrevista à Folha, Marwan Hamed, 31, diretor e roteirista do filme, lembrou a controvérsia provocada quando o filme foi lançado, em 2006, sob a ameaça de censura de deputados conservadores.

Democracia

´Acho que a maior contribuição do filme foi tornar mais amplas as fronteiras da liberdade de expressão no Egito´, diz Hamed. ´Depois do Yacoubian foram feitos vários filmes que discutem a realidade do Egito.´

O escândalo do momento é ´Caos´, filme que mostra de forma crua a brutalidade policial no Egito e critica frontalmente a ditadura de Hosni Mubarak.

Para Marwan Hamed, embora as liberdades tenham sido ampliadas nos últimos anos, não só nas telas do cinema, mas também nas páginas dos jornais, a democracia continua sendo um sonho distante no Egito. O cineasta acha que o Ocidente insiste em manter uma visão simplista do país.

´O problema no Egito não é só a luta por mais liberdade e mais democracia. Há outra luta, que é entre os liberais e a Irmandade Muçulmana´, diz.

´Acaba virando uma espécie de círculo que não tem fim. Às vezes ser liberal significa ser aliado do governo, quando a meta é conter o avanço islâmico. Outras vezes significa ser seu inimigo, quando o regime reprime as liberdades.´

A transformação da sociedade egípcia e sua guinada para a religião, reconhece Hamed, é algo difícil de ser ignorado.

´Muitas pessoas se tornaram mais conservadoras, é só andar pelas ruas para ver uma estranha mudança: são poucas as mulheres sem véu. Parece o Irã. A situação hoje no Egito é obscura e é difícil dizer para onde irá o país.´’

 

Thiago Ney

Correndo por fora

‘Custou US$ 7,5 milhões, e a bilheteria já bate nos US$ 110 milhões. De 1.019 salas em que era exibido nos EUA em 30 de dezembro, passou para 2.534 em 20 de janeiro. Do decano Roger Ebert (´Chicago Sun-Times´) a A.O. Scott (´New York Times´) -fora ´New Yorker´, ´Slate´-, recolheu textos entusiasmados. Mas, mesmo com o sucesso de público e de crítica, ´Juno` vai ao Oscar correndo por fora nas duas principais categorias do prêmio -melhor filme e melhor direção.

É uma situação parecida com a de ´Conduta de Risco´, de Tony Gilroy (diretor) e George Clooney (ator). O filme, mesmo com sete indicações, é tido como um azarão na disputa das duas estatuetas mais valiosas.

´Onde os Fracos Não Têm Vez´, dos irmãos Coen, ´Sangue Negro´, de Paul Thomas Anderson, ambos com oito estatuetas na mira cada um, além de ´Desejo e Reparação´, indicado em sete categorias, são considerados pelos especialistas em Oscar os favoritos da 80ª edição da premiação, cuja cerimônia acontece no próximo dia 24, em Los Angeles.

´Foi uma surpresa monstruosa´, disse o diretor de ´Juno´, Jason Reitman, em entrevista por telefone da qual a Folha participou. ´Aposto que ninguém ficou tão surpreso quanto eu ao receber uma indicação para o Oscar.´

Também por telefone, Diablo Cody (ou Brook Busey-Hunt), a roteirista do filme, faz uso de um discurso de jogador de futebol para comentar sua indicação (´Juno` também concorre em roteiro original e atriz): ´Eu realmente acho que não vou ganhar, mas estou ao lado de gente que admiro, então só por ter sido indicada me sinto uma pessoa de sorte´.

Com estréia brasileira no dia 22 (mas já em exibição em pré-estréias), ´Juno` está sendo comparado a ´Pequena Miss Sunshine` (2006), outra comédia de baixo orçamento que se transformou em fenômeno de bilheteria e que abocanhou indicações ao Oscar.

´Nos últimos anos houve uma mudança em como certas pessoas qualificam as comédias´, opina Reitman. ´Não é fácil fazer uma comédia, há muitas armadilhas. A partir dos anos 90, com gente como P.T. Anderson, Wes Anderson, Alexander Payne, as pessoas passaram a enxergar que a comédia pode ser complexa e diferente. Eu nunca poderia dizer ou filmar certas coisas se ´Juno` fosse feito como um drama.´

Grávida aos 16

O que Reitman filma é a história de Juno MacGuff (Ellen Page), que aos 16 anos engravida após transar com Paulie Bleeker (Michael Cera), um amigo da escola. Juno pensa em aborto, vai até uma clínica, mas desiste. Decide levar a gravidez até o final e doar o bebê.

A partir de um anúncio de revista, encontra Vanessa (Jennifer Garner) e Mark Loring (Jason Bateman), típico casal estável de classe média alta. Após uma reunião, garota e casal assumem o compromisso.

A partir daí, o filme é costurado por meio da relação de Juno com seu pai (J.K. Simmons), com sua madrasta (Allison Janney), com Paulie e com Mark, com teor cômico (mais) e dramático (um pouco menos).

Foi complicado transformar o argumento em filme?

´Não muito´, diz Reitman. ´Passo muito tempo com adolescentes grávidas… Brincadeira. Em princípio, pensei nisso, que estava entrando num território totalmente estranho, mas ao ler o roteiro me senti de alguma forma envolvido naquilo. E o meu papel como diretor, ao trabalhar em cima do roteiro de outra pessoa, é tentar fazer com que o público capte o que eu senti ao ler esse roteiro.´

Para o cineasta, o roteiro é o principal trunfo de ´Juno´. Na verdade, não apenas para ele, porque, além da indicação ao Oscar, Diablo Cody já arrumou emprego como roteirista de ´The United States of Tara´, série de TV que está sendo produzida por Steven Spielberg.

´Juno` foi a estréia de Cody no cinema. Ela já trabalhou como stripper (época que conta no livro ´Candy Girl: A Year in the Life of an Unlikely Stripper´; Candy Girl: um ano na vida de uma stripper acidental); telefonista de disque-sexo e blogueira (diablocody.blogspot.com).

´Levei dois meses para escrever o roteiro´, conta. ´Nunca tinha feito nada parecido, não tinha nenhum conhecimento de como era estruturado um roteiro para o cinema.´

O ponto de partida, segundo Cody, foi seu interesse pela ´dinâmica psicológica entre adultos que querem adotar uma criança e uma adolescente que engravida sem desejar´.

´Todos conhecemos alguém que de alguma forma está envolvido ou que conhece alguém envolvido numa situação dessas. Meu ex-marido foi adotado, então ele me contou várias histórias e situações por que passou. Quando eu era adolescente, tive uma amiga que engravidou e passou por momentos parecidos com os de Juno. Mas não me baseei diretamente em nenhuma situação real para escrever os personagens.´

Enquanto Diablo Cody não conhecia nada sobre estrutura cinematográfica, Jason Reitman está há anos no meio. Antes de ´Juno´, havia dirigido só um longa, ´Obrigado por Fumar` (2006), mas freqüenta sets de filmagem desde criança, acompanhando o pai, o cineasta Ivan Reitman (´Os Caça-Fantasmas´, entre outros).

´Eu freqüentava os sets e via como acontecia um processo de filmagem, o que foi uma experiência fantástica´, lembra. ´A melhor coisa que meu pai me ensinou foi a estudar, toda manhã, a cena imediatamente anterior e a cena imediatamente posterior ao que eu iria filmar naquele dia. Porque assim você tem uma idéia clara de onde os personagens estão vindo e para onde eles estão indo.´

Boa história

Reitman explora com habilidade as nuances do roteiro, tanto as piadas e as referências pop como os momentos de insegurança de Juno.

´Cinema para mim tem a ver com contar uma boa história e mexer com o público. Adoro contar uma história e fazer as pessoas rirem. Sinto um enorme prazer ao entrar em um cinema que esteja passando um de meus filmes e ver o público rir ou se emocionar.´

´Juno` representa de forma precisa os adolescentes de hoje, melhor do que qualquer outro roteiro que eu tenha visto´, diz o diretor. ´E ele apareceu na época certa. Há tantas incertezas na vida e no próprio cinema. ´Juno` trata de um tema pesado, mas nos faz rir, nos dá uma ponta de esperança.´’

 

Pedro Butcher

´Indicação ao Oscar foi um choque`

‘Surpresa no cenário de feroz concorrência ao Oscar, ´Conduta de Risco` (lançado no Brasil em dezembro, pela independente Imagem) foi um projeto complicado, que quase não saiu do papel, como disse à Folha o roteirista e diretor Tony Gilroy. O filme é a estréia de Gilroy na direção, depois de assinar dezenas de roteiros para Hollywood, incluindo ´O Advogado do Diabo` (1997) e a bem-sucedida trilogia ´Bourne´.

Entre piquetes da greve de roteiristas em Los Angeles e preparativos para seu próximo filme, Gilroy falou de suas expectativas em relação ao Oscar e negou os boatos de que tenha sido rancoroso ao reclamar da ausência de George Clooney na premiação do Sindicato dos Diretores: ´Pelo contrário, eu realmente lamentei a ausência dele… George é meu amigo e, no filme, foi meu salvador. Só tenho ´vivas` para George´.

FOLHA – A corrida do Oscar deste ano é das mais concorridas. Como recebeu as sete indicações para ´Conduta de Risco´?

TONY GILROY – Até agora, eu só havia observado esse processo de fora, pois há dez anos faço parte da Academia e voto no Oscar. As pessoas se referem ao processo como uma campanha, e realmente é dessa forma que funciona. Quando fizemos o filme, nós não tínhamos idéia do que aconteceria com ele. Em novembro, depois das exibições em Veneza e Toronto, as pessoas não paravam de falar em Oscar. Ao mesmo tempo, a quantidade de bons títulos da temporada anunciava que seria uma competição dura. Acreditávamos ter alguma chance de conseguir indicações nas categorias de melhor ator e roteiro, mas conseguir sete, incluindo as de melhor filme e direção, foi um choque.

FOLHA – O Oscar é o único prêmio que ainda tem relevância comercial. Acredita que as indicações podem dar uma segunda vida ao filme?

GILROY – ´Conduta de Risco` foi relançado pela Warner aqui nos Estados Unidos e está em cartaz em mais de mil cinemas. Felizmente, temos uma distribuidora que acredita no filme e que pode trabalhar com uma campanha musculosa. Trabalhamos num sistema de pré-venda para mercados estrangeiros e, em alguns territórios, o filme ainda não estreou. Nesses casos, acho que as indicações serão ainda mais positivas.

FOLHA – Como o sr. avalia os seus concorrentes?

GILROY – É um ano particularmente interessante. Gosto especialmente de ´Sangue Negro´, do Paul Thomas Anderson, que pode ser visto como uma poderosa metáfora para as questões da política e do uso poder nos Estados Unidos; e de ´O Escafandro e a Borboleta´, com direção brilhante de Julian Schnabel.

FOLHA – À exceção do seu filme, que nos Estados Unidos traz o selo da Warner, todos os outros indicados na categoria principal foram viabilizados por produtoras independentes ou pelas divisões dos grandes estúdios voltadas ao ´cinema de arte´. No entanto, ´Conduta de Risco` também parece um filme independente.

GILROY – Mas, de fato, foi feito de forma totalmente independente. A Warner entrou no projeto quando já estava adiantado. O filme foi uma aquisição do estúdio, que comprou os direitos de distribuição apenas para os Estados Unidos, mas, na verdade, foi todo feito fora de suas asas, com um orçamento de US$ 20 milhões, bastante abaixo do padrão hollywoodiano. Completamos o financiamento com vendas para o mercado estrangeiro. Esse sistema, entre outras coisas, permitiu que eu mantivesse o direito sobre o corte final.

FOLHA – O sr. aceitaria fazer um filme sem corte final?

GILROY – Sim, meu próximo filme, que começo a rodar daqui a um mês, é o projeto de um grande estúdio [Universal], em que não tenho direito a corte final. Chama-se ´Duplicity` e é uma comédia romântica, com Julia Roberts. É um estilo bem diferente do de ´Conduta de Risco´, apesar de também ter como pano de fundo o mundo das corporações e a espionagem. Vamos ver o que acontece, vai ser a prova de fogo.

FOLHA – Como foi levantar o financiamento de ´Conduta de Risco´?

GILROY – Escrevi o roteiro há muitos anos, sob encomenda da Castle Rock. Mas demorei muito para entregar e, quando ficou pronto, a Castle Rock não era mais um estúdio. Gostava bastante desse roteiro e queria dirigi-lo. O projeto circulou durante anos. Sidney Pollack leu e se interessou, mas não conseguiu levantar dinheiro; Steven Soderbergh leu, mostrou para George Clooney, mas ele estava muito ocupado. Foram dois anos e meio tentando levantar dinheiro e procurando atores. Estava quase desistindo quando George finalmente topou fazer. A partir daquele momento, tudo ficou mais fácil.

FOLHA – Em alguns aspectos, ´Conduta` traz um ponto de vista semelhante ao dos roteiros que você fez para a trilogia ´Bourne´, que, no entanto, são adaptações de livros de Robert Ludlum.

GILROY – Para ser sincero, eu nunca usei os livros, nem sequer os li. ´A Identidade Bourne` foi bastante problemático, e ninguém apostou que poderia fazer o sucesso que fez. Na verdade, fora o nome do personagem e a idéia central, os roteiros são obras totalmente originais. De alguma forma eles guardam, sim, semelhanças com ´Conduta de Risco´, porque quero falar de questões pessoais. O verdadeiro perigo não está lá fora, no ´sistema´, no governo, nas religiões, no exército, na corrupção, mas naquilo que está dentro de nós. No fim das contas, tudo se resume a uma coisa só: a alguém que pega o telefone e tem de tomar uma decisão.’

 

Sérgio Rizzo

Futura exibe ótimo documentário sobre tortura que concorre ao prêmio

‘Três dos cinco indicados ao Oscar de documentário em longa-metragem tratam da ação militar norte-americana no Oriente Médio. O mais incisivo deles, ´Táxi para a Escuridão´, chega ao Brasil antes da cerimônia de entrega do prêmio, pelo atalho do canal Futura, na quarta-feira, às 23h30.

O diretor e roteirista Alex Gibney -que assina também a produção executiva de outro concorrente, ´No End in Sight´- já havia sido indicado ao Oscar por cutucar a onça corporativa com vara curta em ´Enron – Os Mais Espertos da Sala` (2006). Desta vez, mexe no vespeiro das práticas de tortura reconhecidamente usadas por soldados norte-americanos no Afeganistão, no Iraque e em Guantánamo (Cuba).

O episódio-guia, árvore que ajuda a enxergar a floresta, reconstitui a prisão de um motorista de táxi afegão pelas tropas dos EUA em dezembro de 2002. Cinco dias depois, ele morreu no cárcere. O atestado de óbito entregue pelo exército à família menciona ´homicídio´, como descobriu uma repórter do jornal ´The New York Times´.

Enquanto investiga as circunstâncias do crime, o documentário se volta para o escândalo internacional provocado pela divulgação das fotos de tortura contra prisioneiros na base de Abu Ghraib e chega à pergunta que mais interessa: de onde partiram as ordens para que fosse desrespeitada a Convenção de Genebra?

Especialistas ouvidos por Gibney invocam a rigidez da hierarquia militar para atribuir à Casa Branca a responsabilidade pelo o que ocorreu nos porões. O vice-presidente Dick Cheney encampa essa versão ao admitir, em entrevista a um programa de TV, a adoção de ´jogo sujo` contra os suspeitos de ligação com o terrorismo.

O documento mais incriminador dissemina o uso de ´novas técnicas psicológicas de interrogatório` entre os soldados. A barbárie gerada por essa decisão contra milhares de inocentes provoca indignação equivalente à de saber que, ao final das investigações, nenhum oficial foi incriminado. Sobrou para o baixo escalão, cuja versão também é ouvida por Gibney.

TÁXI PARA A ESCURIDÃO

Quando: quarta-feira, às 23h30

Onde: Futura

Avaliação: ótimo’

 

INTERNET
Folha de S. Paulo

Yahoo! recusa oferta da Microsoft, diz jornal

‘O site de buscas Yahoo! decidiu recusar a oferta de compra, no valor de US$ 44,6 bilhões, feita pela Microsoft no último dia 1º, segundo a edição eletrônica do ´Wall Street Journal´.

De acordo com a publicação, após uma série de encontros nos últimos dias, o conselho do Yahoo! chegou à conclusão de que os US$ 31 oferecidos por ação ´desvalorizam enormemente` a empresa. À época da proposta, o valor embutia um prêmio de 62% sobre o preço dos papéis na Bolsa.

O ´Wall Street´, que não identifica sua fonte, afirma que o conselho deve comunicar oficialmente a decisão à Microsoft amanhã. O conselho teria ainda manifestado preocupação com um eventual veto do negócio pelos órgãos reguladores.

O concorrente Google trabalha para dificultar a aprovação da aquisição. O vice-presidente da empresa, David Drummond, acusou publicamente a Microsoft de tentar estender à internet suas práticas monopolistas em outras áreas, como a de software.

´O conselho do Yahoo! acredita que a Microsoft está tentando tirar vantagem da recente desvalorização das ações para ´roubar` a empresa´, diz o ´Wall Street´.

De acordo com a fonte, o conselho não deve aceitar nenhuma proposta inferior a US$ 40 por ação. O jornal acredita que dificilmente a Microsoft elevará tanto a sua oferta, mas avalia que a disputa pelo Yahoo! deve se estender por vários meses.

Na avaliação do conselho, a Microsoft não deve forçar o negócio se encontrar resistências dentro da empresa. A oposição dos executivos deve aumentar a dificuldade de aprovação do negócio pelos órgãos de defesa da concorrência nos EUA.

A recusa chega no momento em que o Yahoo! considera outras opções para seu futuro, como se associar com outras empresas na publicidade digital.

Tanto a Microsoft como a Yahoo! enfrentam dificuldades para competir com o Google na publicidade pela internet, uma das que mais crescem. No ano passado, o Google faturou US$ 11,7 bilhões com publicidade, enquanto o Yahoo! só conseguiu levar US$ 5,1 bilhões e a Microsoft, US$ 2,8 bilhões.

Na avaliação da Microsoft, o mercado on-line de propaganda totalizou US$ 40 bilhões no ano passado, mas deve chegar a US$ 80 bilhões em 2010.

A Microsoft calcula que a fusão gerará uma economia anual de cerca de US$ 1 bilhão.

O Yahoo! e a Microsoft preferiram não comentar o assunto.

Com agências internacionais’

 

RÁDIO
Márcia Brasil

Rádio on-line une favelas dominadas por facções rivais no Rio de Janeiro

‘Uma rádio comunitária transmitida pela internet está criando uma ponte entre duas favelas dominadas por facções criminosas rivais. A AfroReggaeDigital, criada por um grupo cultural da favela de Vigário Geral, com sede na comunidade vizinha -e ´alemã` (inimiga)- Parada de Lucas, ambas na zona norte da cidade. Formada em parceria com a BBC de Londres e pelo AfroReggae, a rádio está no ar desde setembro e, além de emissora, atua também como escola de multimídia.

As aulas na AfroReggaeDigital são em um amplo estúdio que conta com equipamentos modernos. Lá, a jornalista inglesa Helen Clegg, 37, que deixou a BBC de Londres para montar a AfroReggaeDigital, dá aulas de locução, produção e redação jornalística em rádio. Helen também responde pelo conteúdo dos programas, escolhendo os temas que vão ser abordados e pesquisados.

A rádio web produz diariamente um programa apresentado pelos alunos dos cursos promovidos pelo projeto, chamado de ´Vozes da Favela´. Também há programas semanais que são apresentados por voluntários e artistas locais e internacionais.

De acordo com os responsáveis pela rádio, não há interferência do tráfico na programação musical nem no conteúdo veiculados pela rádio AfroReggaeDigital.

´Inicialmente iríamos montar uma rádio convencional, para atingir um número maior de ouvintes´, conta um dos criadores do projeto, o inglês Damian Platt. ´Mas, para evitar algum tipo de interferência externa [do tráfico], optamos pelo sistema digital, que perde em audiência, porém ganha em qualidade de som, em programação independente e no alcance, já que pode ser ouvida em todo o mundo.´

Por meio da integração das duas comunidades, a rádio busca a paz entre comandos opostos. O Grupo Cultural AfroReggae é sediado na favela vizinha, Vigário Geral, controlada pelo CV (Comando Vermelho), facção criminosa inimiga do TCP (Terceiro Comando Puro), de Parada de Lucas. Ela pode ser acessada pelo endereço www.afro reggaedigital.com.’

 

***

Jornalista inglesa deixou a BBC de Londres para montar projeto no Brasil

‘As aulas na AfroReggaeDigital são em um amplo estúdio que conta com equipamentos modernos e dois grandes relógios de parede. Um marca a hora em Londres, o outro mostra o horário de Brasília.

Lá, a jornalista inglesa Helen Clegg, 37, que deixou a BBC de Londres para montar a AfroReggaeDigital, dá aulas de locução, produção e redação jornalística em rádio.

Helen também responde pelo conteúdo dos programas, escolhendo os temas que vão ser abordados e pesquisados. As pautas são variadas, mas o tráfico e o uso de drogas, problemas recorrentes nas comunidades, ainda não foram abordados pela rádio.

Entre os objetivos do projeto do AfroReggaeDigital, está abrir um canal para que os moradores possam discutir seus assuntos e problemas com outras comunidades, ´quebrando` as barreiras criadas pelos grupos armados.

´Já produzimos programas de debate sobre saúde, moda, letras de funk, gírias, história do Brasil, do mundo, alcoolismo e futebol. Ainda vamos falar sobre as drogas. Na favela, o tema é muito delicado. O cuidado com a abordagem do assunto é para evitar atritos e interferências externas´, disse a jornalista Helen Clegg.

Fábio Machado, 34, morador da Ilha do Governador, zona norte, ensina a parte técnica de programas em rádio web para os alunos.

´Eles aprendem a editar, retirar os erros, regular a freqüência, criar e inserir vinhetas e comerciais, técnicas de respiração para uma locução perfeita, entonação, enfim, todos os detalhes necessários que fazem a diferença no acabamento de um programa de bom conteúdo´, informou.

Segundo os dois professores, não há limite de idade para participar do curso. Basta ter tempo disponível para freqüentar as aulas. No momento, os alunos têm entre 11 e 30 anos.

O curso tem a duração de seis meses e as matérias são preparação e produção do seu próprio programa de música, produção de documentários, como escrever e produzir radionovelas, edição de áudio digital, configuração e manutenção de estúdio, construção de páginas para internet e produção de fotos e vídeos para internet.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Juvenal Antena é irmão do arqui-rival Marconi Ferraço

‘Os últimos capítulos de ´Duas Caras´, em maio, poderão ter uma revelação bombástica: os arquiinimigos Juvenal Antena (Antônio Fagundes) e Marconi Ferraço (Dalton Vigh) são irmãos por parte de pai.

O autor da novela da Globo, Aguinaldo Silva, diz que ainda não bateu o martelo se fará essa revelação. Mas, caso a faça, já tem todas as explicações.

Juvenal seria 15 anos mais velho do que Ferraço, que nasceu Juvenaldo e foi vendido, aos 12, para Hermógenes (Tarcísio Meira), de quem ganhou o nome de Adalberto Rangel e a habilidade em trapacear.

O pai de Juvenal e Juvenaldo, segundo Silva, ´tinha tara de vender os filhos todos´. Mas sua primeira mulher, a mãe de Juvenal Antena, não permitiu que o primogênito tivesse esse ´destino cruel` e fugiu de Pernambuco para o Rio de Janeiro, onde Juvenal, décadas depois, se tornaria o líder de uma favela, erguida sobre um terreno de Juvenaldo, já um trapaceiro.

Antes disso, Juvenaldo, ops, Ferraço, terá uma ´recaída´. Descobrirá que realmente gosta de seu filho, Renato (Gabriel Sequeira), após salvá-lo de uma tentativa de assassinato -enciumada, Sílvia (Alinne Moraes) tentará afogar o menino.

´Aí Ferraço começa a achar que talvez o melhor para ele seja reconquistar Maria Paula [Marjorie Estiano], ficar com ela e o filho, o que o livraria de qualquer processo, e descartar Sílvia. Mas esta desconfia disso e aí… novela, pura novela´, adianta Aguinaldo Silva.

ÍNDIA MUTANTE

Suyane Moreira (foto), 24, é uma mulher de sorte. Descoberta pelo estilista Miele, virou modelo de sucesso. Agora atriz, estreou em ´Caminhos do Coração` justamente na última quarta, dia em que a novela da Record bateu o ´poderoso` Corinthians no Ibope. Na trama de Tiago Santiago, ela é a mutante Iara, sereia que seduz os homens e os arrasta para as águas. Descendente de índios, negros e portugueses, Suyane nasceu no Ceará. ´Quero fazer teatro´, diz.

DANÇA DA RODINHA

Além do ´Dança no Gelo´, o ´Domingão do Faustão` terá no segundo semestre o ´Dança na Rodinha´, competição entre famosos disputada com patins, obviamente, de rodinhas. Para evitar acidentes, os participantes deverão usar capacetes. Já no próximo domingo, começa a nova edição do ´Dança dos Famosos´. Os destaques do elenco são Christiane Torloni, Francisco Cuoco, Joana Balanguer e Marco Antonio Jimenez. E hoje, em seu segundo programa ao vivo no ano, Fausto Silva receberá o Cirque du Soleil. Um dos artistas mostrará um número em que movimenta o corpo apoiado apenas sobre uma mão.

SILVIO SANTOS VEM AÍ

Esta semana promete no SBT. Silvio Santos volta das férias e, como acontece todos os anos, alguma coisa mudará. A principal ´novidade` deverá ser a divisão do SBT em duas ´empresas` -coisa que ele tem feito a cada cinco anos. O ´SBT Geradora´, responsável pela área comercial, deverá ser entregue à filha Daniela Beyruti. Já o ´SBT Produtora` ficará com o sobrinho Leon Abravanel.

ELA QUER SER… ATRIZ

Lembra de Luli Miller, aquela amiga de quem Paula (Alessandra Negrini) misteriosamente se esqueceu em ´Paraíso Tropical´? Pois é, a Globo se lembrou dela e a escalou para ´Queridos Amigos´, no ar no próximo dia 18. Na minissérie, a gaúcha Luli (foto), 30, interpreta Márcia, bailarina casada com o escritor Pedro (Bruno Garcia). Ao término das gravações, Luli irá se mudar para São Paulo para estudar teatro e se aperfeiçoar como atriz. É que ela, formada em farmácia, tinha apenas quatro meses de experiência como modelo quando foi convidada para fazer teste para atuar em ´Paraíso Tropical´.

PROCURA-SE 1

A Record está à procura de uma substituta para Ticiane Pinheiro. A filha da ´garota de Ipanema` e mulher do publicitário Roberto Justus não fará mais a segunda edição do reality show ´Simple Life´, no ar no segundo semestre. A iniciativa foi da própria Ticiane.

PROCURA-SE 2

Executivos da Record estão agora de olho no elenco de atrizes da própria emissora. O nome de Preta Gil, no ar em ´Caminhos do Coração´, já foi cogitado. Mas atrizes, modelos e apresentadoras de outras redes ou desempregadas podem vir a fazer dupla com a atriz Karina Bacchi -esta já confirmada no programa.

Pergunta indiscreta

FOLHA – Como é trabalhar com atores, como José Wilker, que discriminam ex-´big brothers´?

JULIANA ALVES (a Gislaine de ´Duas Caras´, ex-´BBB´) -Eu me divirto muito com José Wilker. Eu o chamo de ´teacher´. Ele falou sobre um rótulo, e eu não estou dentro de um rótulo. Sou do movimento de mulheres, estudante de psicologia. E concordo com algumas coisas que ele diz. Para ser ator, tem que estudar muito mesmo, e eu estudei. Acho que ele não sabia que eu fui [´big brother´]. Ele me trata muito bem.’

 

Lucas Neves

Atriz de ´Tropa` será aluna sexy na TV

‘Quando o diretor José Padilha e parte do elenco de ´Tropa de Elite` apresentarem o filme na mostra competitiva do Festival de Berlim, amanhã, a atriz Fernanda Machado, 27, que no longa interpreta a universitária ´ongueira` Maria, provavelmente estará deitada numa cama. Não, não se trata de doença, muito menos de uma confidência íntima feita à meia-voz à reportagem. A explicação reside em Lorena, sua personagem na minissérie ´Queridos Amigos´, que estréia no dia 18/2.

´Tem muita cena de cama´, adianta, para deleite dos marmanjos. ´É a primeira vez que tenho um papel com levada sensual, ´sex appeal´. Era um perfil que morria de vontade de fazer. Mas, se você chega à Globo e faz um personagem assim de cara, ganha um rótulo na sua testa: a gostosona. Por isso tinha medo´, diz, ressaltando que a presença de Carlos Araújo (com quem trabalhou em ´Começar de Novo´) na direção a tranqüilizou, ´porque sei que ele não vai querer levantar ibope em cima do meu corpo´.

Recato que não impede lances de charme: na lanchonete da Barra da Tijuca (zona oeste do Rio) que servirá de cenário à entrevista, de saída, ela se encarapita em duas mesas para namorar as lentes do fotógrafo com meios sorrisos. Depois, durante a conversa propriamente dita, como que pesando cada resposta, a todo instante leva as mãos às compridas madeixas de Lorena, a estudante que se apaixona pelo professor de literatura da faculdade.

´Padrinho` estrangeiro

As gravações da minissérie impossibilitaram a ida da atriz paranaense a Berlim, plataforma de lançamento da carreira internacional de ´Tropa´- e, quiçá, da de integrantes do elenco. Mas as atenções de Fernanda não parecem voltadas ao além-mar. ´O mercado lá fora não é algo que me interesse. Prefiro fazer bons filmes no Brasil a cavar um buraco de qualquer jeito em Hollywood para uma ponta em algo em que eu nem abra a boca ou em que seja só a ´gostosinha´, afirma.

Se porventura ela mudar de idéia, já tem um ´padrinho` estrangeiro. ´O Harvey Weinstein [ex-dono da Miramax e distribuidor internacional de ´Tropa´] me amou de paixão desde o dia em que me viu. Queria me levar para Nova York, arranjar um agente para mim. Mas, na boa: a gente sabe que lá fora é uma indústria absurda, que vende-se a alma.´

Vender ingresso com filmes nacionais que sejam ´quase uma novela` tampouco lhe soa interessante. ´Queria evitar filmes comerciais. Para quê, né? Já sou funcionária da TV Globo, já faço novela. Aí, vou fazer um filme com tudo parecido? Queria fazer algo mais ´cinemão´, em que possa experimentar, viajar.` Algum exemplo de filme recente com ´cara de novela` de que ela se lembre? ´Estou com um na cabeça agora, mas o diretor é meu amigo´, desconversa.

Na TV, ela estreou com um pequeno papel na novela ´Começar de Novo´, de Antônio Calmon e Elizabeth Jhin, em 2004. No ano seguinte, chamou a atenção como a aprendiz de vilã Dalila, em ´Alma Gêmea´, de Walcyr Carrasco.

Oscilação emocional

Em 2007, a responsabilidade aumentou com a Joana de ´Paraíso Tropical´. A oscilação emocional da personagem na trama de Gilberto Braga e Ricardo Linhares fez Fernanda pensar em voltar à Maringá natal quando as gravações acabassem -questionamento para o qual também contribui a exposição de sua vida pessoal em revistas de fofoca. ´Foi no fim da novela. Estava com o canal da Joana muito aberto: ficava o dia inteiro chorando, buscando emoções negativas. Me acabava´, lembra.

´E a Fê chora de verdade´, intervém a mãe, dona Alenice, que assiste atentamente à conversa na mesa ao lado com seu Fernando, pai da atriz. ´Tenho que aprender a me defender mais, a me exaurir menos´, retoma Fernanda.

Antes da TV, houve o teatro. Aos 17, a atriz trocou o interior paranaense pela capital para cursar artes cênicas. O sustento vinha de participações em comerciais e ´bicos` como figurinista e maquiadora. O ´teatro-empresa` -em que, à base de esquetes cômicos, doutrinava funcionários acerca da importância do uso de equipamentos de segurança- também lhe rendeu uns caraminguás.

Mais à frente, subiu ao palco nos kafkianos ´O Processo` e ´A Metamorfose` e em adaptações de Brecht. A atuação em ´Lágrimas Puras em Olhos Pornográficos` lhe valeu o primeiro telefonema da Globo: queriam fazer um registro em vídeo. No trabalho seguinte, ´O Homem Elefante´, viria o convite para cursar a oficina de atores da emissora -e a mudança para o Rio.

´Carioca é mais despojado, entrão, né? O que mais estranhei foi o caos da cidade, na comparação com Curitiba. De repente, caí na rodoviária do Rio. Nunca tinha visto uma van na vida!´, diverte-se.

Voltar ao teatro é uma das metas para este ano, mas ela antes quer ´dar uma reciclada´. ´Se não fizer isso, com que cara vou voltar agora? Virada do avesso?` O público (masculino, pelo menos) pensa diferente.’

 

Laura Mattos

Minissérie quer evitar caricatura dos anos 80

‘Genius, Atari, chacretes, Blitz, Legião Urbana… A diretora Denise Saraceni não quer fazer da minissérie ´Queridos Amigos` mais um revival caricatural da década de 80, como tantos que há algum tempo invadem o mercado cultural.

Com estréia no próximo dia 18, na Globo, a obra de Maria Adelaide Amaral tem 25 capítulos e se passa em 20 dias do final de 1989. Termina no momento em que Brasil fica sabendo que haverá segundo turno entre Lula e Collor.

´Os anos 80 têm sido muito revisitados, e não quero fazer uma minissérie datada. Mais do que a moda ou a música, o que busco é um painel moral e ético dessa geração. Queremos despertar no telespectador uma memória afetiva daquele tempo´, afirma Saraceni.

´Queridos Amigos` é uma adaptação do livro ´Aos Meus Amigos´, de Amaral, inspirado na turma de intelectuais de esquerda com a qual a autora, à época jornalista, convivia. São pessoas entre 30 e 40 anos, e até por isso a minissérie não será um festival de ícones pop da infância e juventude oitentista.

´Vamos mostrar músicas e filmes que formaram a cabeça e a alma de nossos protagonistas. Leo [central na história, interpretado por Dan Stulbach] passou pelo cinema de Bergman, Antonioni, Buñuel. Sua turma ouvia Elis Regina, Chico Buarque, Clube da Esquina, Ivan Lins, Paulinho da Viola. Até tem uma hora em que o rock nacional da época aparece. Um personagem comenta sobre a banda que seu filho está ouvindo: ´O que aconteceu com a música popular brasileira…?´

Com esse tom mais intimista, focado no cotidiano e na história pessoal de cada personagem, ´Queridos Amigos` se ´resolve menos na produção e mais no trabalho de dramaturgia´, na opinião da diretora.

´Big Brother´

Por esse motivo, Saraceni adotou um método de preparação apelidado de ´Big Brother´.

´O elenco [Stulbach, Nachtergaele, Débora Bloch, Guilherme Weber, Bruno Garcia e outros] passou um mês trancado em um estúdio do Rio. Além de ensaiar e assistir a palestras sobre história, a convivência foi importante. Eles fizeram comida juntos, beberam vinho, conversaram, brincaram. O objetivo foi criar um clima fraternal que pudesse se transpor às cenas´, explica Saraceni.

Mesmo com esse foco, não é fácil para a equipe de produção dar essa ´ré pequena` no tempo, como definiu Matheus Nachtergaele, que interpreta Tito, um jornalista comunista.

Não é um trabalho de época, a exemplo da minissérie ´A Muralha` (2000), também da dupla Amaral/Saraceni, sobre a fundação de São Paulo. Mas muita coisa mudou de 1989 para cá, especialmente a tecnologia, observa a diretora.

E Saraceni não pode repetir erros como os da novela ´Senhora do Destino` (2004/05), de Aguinaldo Silva, que, apesar de ser ambientada no início dos anos 90, não tinha pudor em mostrar personagens fazendo merchandising de celulares de última geração. ´Vamos dar muita atenção a isso, modelos de telefones, secretárias eletrônicas, aparelhos de fax. E a Maria Adelaide me mata se eu não colocar muitas máquinas de escrever´, brinca Saraceni.

´Queridos Amigos` terá flashbacks para mostrar os personagens em oposição à ditadura militar. Para essas cenas, Saraceni usou super-8 e videotape, tecnologias utilizadas naquele tempo. Os anos 80 foram retratados até com câmeras de alta definição. ´Brinco com minha equipe que quanto mais a gente errar, melhor. A imagem pode estar sem foco, tremida, tudo para dar o ar da TV desse tempo. A minissérie nos faz rever esse vício de saber trabalhar bem com tanta tecnologia.´

A abertura, assinada por Hans Donner, terá criações do artista plástico Elifas Andreato e a música ´Nada Será como Antes` (´Eu já estou com o pé nessa estrada/ Qualquer dia a gente se vê…´), em gravação original do Clube da Esquina.’

 

Cristina Fibe

Novas temporadas de ´Desperate` e ´Grey´s` chegam à TV paga

‘Paralisadas nos EUA por causa da greve dos roteiristas em Hollywood, que se arrasta desde novembro, as séries ´Grey´s Anatomy` e ´Desperate Housewives` iniciam suas quartas temporadas no Brasil sem que, por ora, os piquetes afetem o espectador daqui.

´Grey´s…´, cujas filmagens foram interrompidas no 11º episódio da temporada, recomeça amanhã, às 22h, no Sony.

Já no primeiro episódio, sai o dr. Burke (Isaiah Washington) e entra Lexie Grey (Chyler Leigh), meia-irmã de Meredith Grey (Ellen Pompeo), a estrela que dá nome ao programa.

Washington foi cortado da série após o comentário homofóbico que é acusado de ter feito contra o colega T.R. Knight (O´Malley). O personagem deixou a dra. Cristina (Sandra Oh) de coração partido, sumindo depois de abandoná-la no altar.

Entre as novidades, estagiários chegam ao hospital sob tutela dos protagonistas -nessa leva entra Lexie, insistindo em se aproximar de Meredith, que demonstra má vontade, em especial após ver Lexie e seu ex ´McDreamy` (Patrick Dempsey) cheios de intimidade.

De resto, as tragédias que correm em meio a conversas fúteis perto de doentes terminais continuam angustiando.

´Desperate´

´Desperate Housewives` parou no décimo episódio de seu quarto ano e está sendo reprisada nos EUA, à espera de acordo informal ou do fim do impasse entre roteiristas e estúdios. Aqui, a temporada estréia nesta quarta, às 22h, no Sony.

Neste início, o aparente suicídio de Edie (Nicollette Sheridan), que fechou o terceiro ano, é só um aperitivo da leva de tormentos que ela ainda vai causar -obcecada por impedir que Carlos (Ricardo Chavira) volte com Gabrielle (Eva Longoria Parker), agora casada.

Outra que disse ´sim` no terceiro ano, Susan (Teri Hatcher) continua dramática, enquanto Lynette (Felicity Huffman) esconde o câncer, e Bree (Marcia Cross), a gravidez da filha.

Como não poderia deixar de ser, logo chegam novos vizinhos para acrescentar o tom misterioso que permeia a série.’

 

Bia Abramo

Como fazer alquimia às avessas

‘O ´SUPERPOP` , um dos carros-chefes da Rede TV!, está no ar há mais de oito anos, é exibido cinco dias por semana, de segunda a sexta, e continua sendo uma das maneiras mais vazias de perder tempo da televisão brasileira. Ver o programa vez por outra pode se converter num campo de investigação interessante para observar como, na televisão, se faz alquimia às avessas, ou seja, transforma-se chumbo em chumbo mesmo.

Há Luciana Gimenez, alta e, hoje em dia, até que bem desenvolta. Por vezes simpática, por vezes engraçada, ela preenche o palco e o tempo com sua enorme vaidade e a total falta de critério. As chamadas atrações do programa obedecem à mais simples lógica do entretenimento: se tem alguma proximidade, tangencial que seja, com os chamados ´famosos´, está valendo; qualquer título auto-atribuído (modelo, manequim, ator, atriz, ex-mulher) serve de credencial; toda a possibilidade de insinuar sexualidade, violência ou escândalo será aproveitada.

Há os comerciais de produtos que dizem emagrecer, de tintura para cabelo que dizem embelezar, de todo um arsenal de artifícios para o qual a apresentadora empresta o nome e, por assim dizer, a autoridade. É impressionante como se trata com naturalidade o fato de a propaganda invadir os horários de programação com a maior sem-cerimônia.

Entre imagens desfocadas, artistas irritados e flagrantes de cenas totalmente banais, um paparazzo inconveniente gaba-se de cenas de interesse ou oportunidade jornalístico zero. O estilista Ronaldo Esper, às vezes tão ´détraqué` que esquece o que está fazendo no palco, cospe maledicências sobre o modo como se vestem ou se penteiam mulheres e homens que aparecem na mídia.

E o tempo passa, entre desfiles de lingeries e comentários dos convidados, cuja razão de estar ali é poder dar seus telefones de contato, caso se precise do moço que está na capa da revista ´G` ou de uma modelo desconhecida. Num dia bom, haverá alguma entrevista ou reportagem ´polêmica` (´a BBB que se apresenta como miss não tem esse título´) em torno de alguma celebridade ou aspirante; num dia morno, nem isso. Amanhã tem mais. Do mesmo.’

 

Folha de S. Paulo

Acordo pode encerrar greve de roteiristas

‘Os roteiristas de Hollywood avaliam hoje em assembléias em Nova York e Los Angeles proposta dos estúdios que pode encerrar a greve iniciada em 5/11. O sindicato, com 12 mil associados, divulgou os termos do acordo, que atende à principal reivindicação da categoria: o pagamento de direito autoral sobre novas mídias, o que inclui internet e celular.

Ficou estipulado um valor de US$ 1.300 quando o programa for veiculado na rede e, após três anos, 2% da receita dos downloads. Eles devem voltar a trabalhar na segunda, com US$ 500 milhões de prejuízo para os estúdios. O acordo valeria até maio de 2011.

Com agências internacionais’

 

 

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