Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 8 E 9/12

Folha de S. Paulo

11/12/2007 na edição 463

PALAVRÃO
Carlos Heitor Cony

Chávez e Cambronne

‘RIO DE JANEIRO – Ainda bem que as coisas mudam em quase todos os setores, inclusive na imprensa. Sou de um tempo em que não se podia escrever a palavra ´câncer` nos jornais. Os secretários de redação (não havia ainda os editores) escreviam por cima: ´insidiosa moléstia´.
Durante alguns anos, Graciliano Ramos exerceu, no ´Correio da Manhã´, funções que seriam as de um ´copy desk` antecipado. Lia os textos da reportagem, tinha acessos de cólera quando encontrava um ´entrementes´. Dizia em voz alta: ´Entrementes é a pqp!´. Ainda hoje não se deve escrever o palavrão por extenso, mas esse dia ainda chegará.

Lembrei essas coisas ao ler, na Folha de quinta-feira passada, reportagem sobre o desabafo do presidente Hugo Chávez sobre a derrota que ele sofreu no referendo da Venezuela.
Em letras grandes, o título chamava para o texto: ´Oposição teve vitória de ´merda´, afirma Chávez´.

Creio que tenha sido a primeira vez em que vi a palavra em tipos grandes e em negrito, como é praxe usar em títulos. Mas, durante anos, autores parnasianos e de sensibilidade vernácula usavam uma expressão erudita para designar a mesma coisa. Referiam-se ao general francês Pierre Cambronne, que, ao perder a batalha, descera do cavalo e reclamara: ´Merde!´.

Era o palavrão de Cambronne, que comandou em Waterloo o último escalão da Velha Guarda de Napoleão. Ficou de bom tom evitar a palavra e usar a expressão que o tornou célebre. Referir-se a Cambronne ficou sendo uma prova de erudição e bom gosto, como a citação das rosas de Malherbe.

O mais estranho é que a mesmíssima palavra é uma das mais usadas no dia-a-dia do francês. Antes de entrar em cena, os artistas se beliscam e dizem ´merde´, que equivale a um voto de boa sorte.’

 

POLÍTICA
Luiz Francisco

Radialista se destaca na disputa em Salvador

‘Um radialista que nunca disputou uma eleição é o mais citado na disputa pela Prefeitura de Salvador (BA). Raimundo Varela (PRB), 60, aparece à frente nos quatro cenários estimulados apresentados pelo Datafolha a 416 moradores da cidade, mas em empate técnico com outros candidatos, já que a margem de erro é de cinco pontos percentuais para mais ou para menos.

É a primeira vez nos últimos 50 anos que uma eleição na capital baiana não terá a influência do senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007).

No principal cenário, Varela está com 19%, seguido pelo prefeito João Henrique Carneiro (PMDB), com 16%, pelo deputado federal Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM), com 15%, e pelos ex-prefeitos Antonio Imbassahy (PSDB) e Lídice da Mata (PSB), com 12% e 9%, respectivamente. Completam a lista o deputado federal Nelson Pellegrino (PT), com 3%, e a vereadora Olívia Santana (PC do B), com 1% das intenções. Outros 17% pretendem votar em branco, nulo ou em nenhum, e 8% ainda não têm candidato.

Presença constante no rádio e na televisão nos últimos 30 anos, Varela tem 20% das intenções de voto no segundo cenário -quando há a troca de candidato do PT. A seguir aparecem o prefeito João Henrique Carneiro e ACM Neto, ambos com 15%. Depois, pela ordem, surgem Antonio Imbassahy (13%), Lídice da Mata (9%), Olívia Santana (2%) e Walter Pinheiro (PT), com 1%.

Os nomes apresentados pelo instituto aos eleitores foram sugeridos pelos próprios partidos. Neste cenário, 16% disseram que votariam em branco, nulo ou em nenhum candidato.
Sem a presença do deputado ACM Neto na disputa, o ex-prefeito Imbassahy é beneficiado. O radialista Raimundo Varela mantém a dianteira com 21%, seguido pelo prefeito João Henrique Carneiro, com 17%, e Antonio Imbassahy (16%). Lídice da Mata tem 10%, Nelson Pellegrino tem 4% e Olívia Santana aparece com 3%. No cenário, 19% dos eleitores disseram que votariam em branco ou nulo e 10% não tinham candidato.

Com o deputado José Carlos Aleluia (DEM) no lugar de ACM Neto, Raimundo Varela atinge o seu maior percentual: 22%. Depois, empatados, estão João Henrique e Antonio Imbassahy, com 17%. A ex-prefeita Lídice da Mata tem 9%, seguida por Olívia Santana (2%) e por José Carlos Aleluia e Walter Pinheiro (1% cada um).

Na pesquisa espontânea, onde os nomes dos eventuais candidatos não são apresentados aos eleitores, Varela fica em último lugar entre os citados. Na liderança fica o prefeito João Henrique, com 9%. Depois, empatados, aparecem Imbassahy e ACM Neto, com 4% cada um. Varela tem 2% das intenções de voto. Lídice da Mata, Olívia Santana, Walter Pinheiro e Nelson Pellegrino não chegaram a 1%, enquanto 17% disseram que votariam em branco, nulo ou em nenhum deles.’

 

DO
Frederico Vasconcelos

Estudo vê ´manipulação` de ´Diários Oficiais`

‘O acesso a informações de interesse público nas versões eletrônicas dos ´Diários Oficiais` é dificultado na maioria dos Estados pelo descaso das autoridades com um direito assegurado ao cidadão, revela estudo da ONG Transparência Brasil.

Em vários estados, os governantes usam esses veículos para fazer propaganda pessoal, o que é proibido pela Constituição Federal, mas não é coibido pelo Ministério Público.

´Em relação à prestação de contas para a sociedade, a maioria funciona conforme o paradigma -e a mentalidade- inaugurado por Johannes Gutenberg há mais de quinhentos anos´, diz Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da ONG, ao citar o alemão que inventou as técnicas de impressão. O estudo examinou as edições referentes ao poder executivo e recebeu o título: ´Gutenberg em bits – Breve panorama dos Diários Oficiais brasileiros´.

Segundo Abramo, o desenvolvimento dos meios eletrônicos trouxe apenas uma ´modernidade cosmética´. Na quase totalidade dos Estados, ´a única diferença entre o ´Diário Oficial` impresso e o apresentado na rede é o suporte: em vez do papel, a tela do monitor. Uma das exceções é Alagoas, cujo ´Diário Oficial` eletrônico organiza as informações. Mas o órgão abriga noticiário com promoção pessoal do governador tucano Teotonio Vilela Filho. O mesmo ocorre com o ´Minas Gerais´, que publica propaganda pessoal do governador Aécio Neves (PSDB).

Em alguns estados, as Imprensas Oficiais condicionam o acesso ao pagamento de assinaturas, a título de ressarcimento dos custos. ´Não sendo importante para custear a produção dos ´Diários Oficiais´, na prática a cobrança representa um obstáculo ao acesso´, diz Abramo.

O ´Diário Oficial` não é publicado na internet nos Estados de Goiás, Rondônia, Roraima, Sergipe e Santa Catarina. No Amapá, deixou de ser publicado na internet em agosto último. O de Minas Gerais só é disponível mediante pagamento.

Quando o acesso é gratuito, costuma ser limitado a poucas edições (uma semana ou um mês). Nos poucos casos em que se pode consultar edições anteriores, o cidadão tem que pagar.

Essas limitações dificultam pesquisas sobre licitações e nomeações para cargos comissionados a cada novo governo.

´Em alguns ´Diários Oficiais´, a interface de uso é bisonha, com excesso de passos de navegação, uma diagramação primitiva e funcionamento precário´, diz o estudo da ONG.

Segundo Abramo, ´demasiados agentes do poder público não se dão conta da importância de informar a população a respeito de seus atos´. ´Só isso pode explicar o fato de ´Diários Oficiais` como os de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, omitirem ao internauta a possibilidade de fazer buscas livremente em suas edições.´

´A indigência da maioria dos ´Diários Oficiais` sequer poderia ser completamente justificada sob o argumento de que seu aperfeiçoamento sairia caro demais´, diz Abramo. As imprensas oficiais contam com receita da obrigatoriedade de publicação de atos e declarações de entes públicos e privados. ´O custo de publicação é muitas vezes verdadeiramente extorsivo se comparado com o mercado publicitário´, afirma.

É possível que a receita seja insuficiente para custear a produção do ´Diário Oficial` e a melhoria das edições eletrônicas, mas ´os governos contam em seus orçamentos com nutridas verbas de publicidade´, contrapõe o estudo da ONG.’

 

Imprensa Oficial nega uso político de publicações

‘O presidente da Imprensa Oficial de Minas Gerais, Francisco Pedalino Costa, diz que em 1999 o Tribunal de Justiça de Minas Gerais ´considerou que a publicação de fotos e nomes de autoridades no ´Diário Oficial` não configura promoção pessoal´. Diz que o governo do Estado suspendeu o caderno de notícias em 2006, no período em que Aécio Neves disputou a reeleição.

Ele informa que o ´Diário Oficial` na internet será gratuito a partir de janeiro.

Diz ainda que o caderno de notícias publica textos de assessorias de imprensa do Tribunal de Justiça e da Assembléia Legislativa. ´Seis páginas são editadas pela redação da Imprensa Oficial com matérias e informações das secretarias e da Subsecretaria de Comunicações.´

´Em média, uma página por edição é destinada a notícias referentes a atos da agenda oficial do governador´, afirma Costa.

Esse formato não sofreu alteração desde 2003. ´Os Estados da Bahia, Alagoas, Espírito Santo e Paraíba também divulgam ações de governo e do governador, com fotos em seus ´Diários Oficiais´, diz Costa.

O presidente da Imprensa Oficial de Alagoas, Marcos Kummer, diz que o ´Diário Oficial` do Estado é ´o que oferece mais informações organizadas e destaca todos os atos, mesmo os desfavoráveis ao governo´. Diz que as notícias do governador são publicadas em suplemento no diário impresso, o que é feito em todo o país´.

O presidente da Imprensa Oficial de São Paulo, Hubert Alquéres, diz que ´qualquer pessoa pode fazer a busca gratuita das últimas sete edições´. Há serviços gratuitos, como as consultas sobre compras e contratações públicas. ´Há a busca por palavra-chave das edições a partir de 2001. A busca de 1891 até 2001 já está em fase adiantada de testes´.

A tabela de preços nos jornais é compatível com a da Imprensa Oficial, afirma.

O presidente da Imprensa Oficial do Rio, Haroldo Zager, nega que o custo da publicação seja ´extorsivo´. ´No ´Diário Oficial´, a coluna equivale a praticamente o dobro do disponível no mercado publicitário´.’

 

Pior caso é de Minas, onde não há acesso gratuito ao ´DO´, diz ONG

‘A Transparência Brasil sugere que há leniência do Ministério Público nos diversos Estados em que os governantes utilizam o ´Diário Oficial` para fazer propaganda pessoal, o que é proibido pela Constituição.

´O caso mais radical é o de Minas Gerais, cujo ´Diário Oficial` não proporciona acesso gratuito a nenhuma edição, havendo apenas disponibilização do conteúdo a detentores de assinatura, exceto no que diz respeito a um ´noticiário` repleto de propaganda pessoal do governador Aécio Neves, com profusão de fotos. Neste caso, e apenas neste caso, o acesso é gratuito´, diz Cláudio Weber Abramo.

Ele cita a edição de 25 de outubro último, em que há três fotos do governador Aécio Neves.

´Em Alagoas, a freqüência da propaganda pessoal ainda é maior´, diz Abramo. Na edição de 14 de setembro, havia seis fotografias do governador Teotonio Vilela Filho (e uma do vice, José Vanderley).

´A mera existência de uma seção de ´notícias` não implica necessariamente que seja usada como veículo de propaganda do governante´, diz Abramo.

Na Bahia, o ´Diário Oficial` publica na rede uma seção de notícias em que não há propaganda do governador. O mesmo ocorre em São Paulo.’

 

PEQUIM 2008
Alec Duarte

Ação ´olímpica` dispara em NY

‘As ações de empresas que vincularam sua marca aos Jogos Olímpicos de Pequim-08 dispararam no Dow Jones, índice que mede o desempenho dos papéis negociados na bolsa de valores de Nova York.

Até novembro deste ano, os parceiros, patrocinadores ou fornecedores do evento esportivo deram um retorno de 34% para seus investidores. O número é mais do que o triplo do que renderam as ´blue chips` -os títulos de primeira linha, ou seja, de empresas com histórico altamente confiável e rentável no mercado de risco.

Juntos, os integrantes do ´clube olímpico` da bolsa norte-americana -um grupo de 33 empresas de nove países- teriam hoje, de acordo com essa variação, um valor de mercado superior a R$ 3,5 trilhões.

O faro por oportunidades e bons negócios fez o Dow Jones criar um índice específico para mensurar a performance dos papéis das empresas que terão algum tipo de relação comercial com o Comitê Olímpico Internacional na China (a Olimpíada será realizada entre 8 e 24 de agosto do ano que vem).

No momento ainda não é possível investir na carteira como um todo, apenas individualmente, comprando ações de gigantes como Coca-Cola, Adidas e Samsung. A intenção dos criadores do índice é ofertá-lo a investidores em breve.

Oficialmente, o COI não tem nenhuma ligação com a criação do índice olímpico ou a oferta de ações de seus parceiros na bolsa de valores.

Hoje, o comitê possui 12 patrocinadores globais -dois deles, Kodak e Lenovo, anunciaram que abandonarão o barco após os Jogos de Pequim.

Somada, a dúzia de multinacionais desembolsou R$ 1,5 bilhão para se associar ao evento esportivo, cuja audiência televisiva estimada é de 4 bilhões de espectadores em 2008 (1 bilhão a mais do que o recorde histórico registrado na Olimpíada de Atenas-04).

O COI, que vende suas cotas embaladas num pacote que inclui, além dos Jogos de verão, a competição de inverno (em 2006 ela ocorreu na cidade italiana de Turim) já se mexeu para substituir os ´desertores´.

Apenas dois dias depois de a Lenovo anunciar a mudança de destino de suas verbas publicitárias, o comitê fechou com a Acer, terceiro maior fabricante mundial de computadores.

A companhia teria pago R$ 177 milhões pelos direitos de figurar ao lado dos símbolos olímpicos, além de fornecer todos os equipamentos de informática que serão utilizados em Vancouver-10 (inverno) e Londres-12 (verão).’

 

Kodak abandona a Olimpíada

‘Após cortar 30 mil empregos e concluir o processo de transição da película fotográfica para a era digital, a empresa deixará de ser parceira do COI, de quem foi fornecedora oficial desde Atenas-1896, após Pequim.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

´Fábrica` de mutantes, novela da Record deve ser esticada

‘´Caminhos do Coração´, da Record, vai longe. Apesar de ainda estar no 90º capítulo, já se cogita na emissora prolongá-la até o 250º. A previsão inicial (e ainda oficial) eram 200.

A divertidamente trash trama sobre mutantes deverá ser esticada porque é um sucesso para o padrão da Record. A história de Tiago Santiago já está com média semanal de 16 pontos, mais do que a bem-sucedida ´Vidas Opostas´, a primeira novela a ter em uma favela o seu principal cenário.

Na última quinta, como já ocorre na Globo, a Record promoveu em São Paulo pesquisas com três grupos de telespectadoras, para medir o ´fôlego` da história para mais 50 capítulos.

´A pesquisa mostrou que os mutantes e as cenas de ação são muito bem aceitos, até pelo público mais conservador. Isso confirma a tendência pela fantasia e por mais mutantes´, conta Santiago.

De acordo com o autor, os telespectadores ´gostam mais dos vilões com poderes do que dos vilões sem poderes´. Ou seja, os novos mutantes introduzidos na trama emplacaram.

Já o núcleo do circo não seduziu o público. Diante desse resultado, Santiago já estuda tornar os personagens de Tony Garrido e Fafá de Belém em novos mutantes, como vampiros ou lobisomens ´do bem´.

Antes disso, dois novos mutantes aparecerão na trama. O primeiro será Gór, a ´mulher hipnótica´, interpretada por Juliane Trevisol, que vive na ilha dos mutantes ´do mal´. Outro mutante será Lupi, ainda sem ator definido, que se transforma em um ´cachorro-lobo´.

Santiago promete mais: ´Tenho cinco milênios de mitologia para tirar histórias´.

SOTAQUE NA MTV

A atriz Elisa Martinez (foto), 26, a Kika, é a mais nova VJ da MTV. Ela fechou contrato com a emissora na semana passada e estreará com uma retrospectiva do ´Luau MTV´, programa de verão. ´Como atriz, posso interpretar uma VJ´, diz Kika (o apelido vem do berço), que é gaúcha e mora em São Paulo há três anos. Ela foi parar na MTV após gravar uma vinheta para o canal. É formada em publicidade, mas tem trabalhado mesmo é como modelo. Já fez testes na Record, Band e Globo e fez uma ´figuração de luxo` em ´Belíssima` (2005). O público não deve esperar dela domínio sobre a programação musical. Perguntada sobre sua banda pop preferida, ela respondeu: ´Não sei´.

CHAME O SÓSIA

Na próxima sexta, a Globo exibe um ´Por Toda a Minha Vida` que dramatizará a vida de Tim Maia. Para reviver o músico, morto há nove anos, a Globo chamou o pernambucano Carlos José da Silva (foto), 50, que é a cara e o corpo de Tim. Fã do ´rei do soul` desde a adolescência, Silva há nove anos abandonou a carreira de chef de cozinha, adotou o nome artístico de Charles Maia e passou a ganhar a vida imitando o ´Síndico´. Ele já apareceu três vezes no ´Domingão do Faustão´. Acredita que, agora, será mais conhecido e reconhecido.

HORA DA VERDADE

Detectores de mentira prometem ser a próxima sensação da TV brasileira. Aparecerão todas as segundas no ´Big Brother Brasil` e em um novo programa de Silvio Santos. A partir de janeiro, também estarão no ´Márcia´, da Band. A emissora paulista promete o mais completo polígrafo (como são chamados os detectores de mentira), capaz de analisar íris, respiração, pulsação, voz e temperatura corporal. Quem vai trazer o aparelho para o programa de Márcia Goldschmidt é José Antonio Fernández de Landa, responsável por um dos quadros mais vistos da TV espanhola.

SOCORRO

Adriane Galisteu não vê a hora de se livrar do SBT. Seu contrato termina em outubro de 2008, mas a loira andou se oferecendo para Band, Record e GNT. Quem pagar a multa, leva.

MUSA

O autor Manoel Carlos começa em janeiro a escrever, ´numa arrancada só´, a microssérie sobre a vida de Maysa, a ser exibida pela Globo em 2009, com direção de Jayme Monjardim, filho da cantora. A protagonista só será escolhida após a roteirização do primeiro capítulo.

Pergunta Indiscreta

FOLHA – Você realmente acha graça nas piadas do Louro José? Ou você ri só para compor uma personagem?

ANA MARIA BRAGA -Você sabe que o Louro José está naquela fase de pré-adolescência e tem dia que realmente as piadas são de chorar. Mas, no geral, eu me divirto muito com o meu filho mais novo.’

 

Bia Abramo

´Ugly Betty` é exemplo da eficiência americana

‘POR QUE funcionam tão bem os seriados americanos? A cada nova leva que estréia por aqui na TV por assinatura, a eficiência das séries impressiona. Não que sejam todos ´bons` -na verdade, essa leva é toda mais ou menos mediana; não há entre eles nenhum ´House´, por exemplo-, mas a maioria deles é bastante competente.

´Ugly Betty´, que estreou há coisa de pouco mais de um mês no canal por assinatura Sony, é um desses casos clássicos de eficiência. Baseada numa telenovela colombiana de enorme sucesso, ´Betty, a Feia´, a série foi um enorme sucesso na TV americana. Ganhou o público, prêmios importantes da TV (Globo de Ouro de melhor série cômica da TV, um Globo de Ouro e um Emmy para a protagonista, America Ferrera) e virou referência na cultura pop.

A série não tem nada de mais nem de menos, a não ser o acerto de atender à enorme comunidade hispânica dos EUA.

A personagem principal, Betty, é ´feia´, mas doce, inteligente e bacana. Torna-se assistente de Daniel Meade, o diretor de redação playboy e mulherengo da revista de moda mais prestigiosa de Nova York. Em Manhattan, na revista, todos são lindos, magros e ruins, e não engolem a ingênua Betty. Em Queens, onde mora Betty com o pai, a irmã e um sobrinho, reinam a solidariedade, a simplicidade, mas todos são inapelavelmente cafonas.

Betty, essa heroína às avessas, vai abrir caminho à base de sinceridade e, é claro, simpatia -e, além disso, combater o mal, personificado pela editora elegante, temperamental e autoritária, no estilo ´O Diabo Veste Prada´.

É caricato, é previsível, é piegas, é edificante… e, ao mesmo tempo, viciante. Essa capacidade de viciar está diretamente ligada a essa eficiência -há uma qualidade mínima, uma competência de produção que faz o espectador voltar e voltar, mesmo que não ache especialmente interessante aquilo que está vendo.

Além disso, mesmo de forma caricata, há algo que se pode chamar de sensibilidade cultural -pensando aqui a cultura no sentido mais amplo possível- que torna, digamos, a representação muito verossímil.

Em ´Ugly Betty´, por exemplo, essa sensibilidade se expressa na exploração sádica dos contrastes entre o mundo da beleza -e da riqueza, é claro, porque está associado ao alto consumo de moda, cosméticos e da medicina- e da pobreza à americana -onde se consome também, e muito, mas aquilo que engorda, enfeia e transforma os pobres em ´perdedores´.’

 

MÚSICA
Thiago Ney e Marco Aurélio Canônico

Biblioteca pop

‘A um repórter que questionava como seria a vida na banda mais famosa do mundo, George Harrison disse, certa vez: ´A melhor coisa é abrir os jornais de manhã e não encontrar nada sobre você´. Mais de 30 anos após o fim dos Beatles, Harrison não encontraria seu nome apenas nos jornais mas nas prateleiras das livrarias.

Neste final de ano, em meio a um pacote de lançamentos ligados a temas musicas, chegam ao Brasil mais duas obras sobre John Lennon (1940-1980), Paul McCartney, George Harrison (1943-2001) e Ringo Starr: ´The Beatles: A Biografia` e ´Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band – Um Ano na Vida dos Beatles e Amigos´.

No primeiro, o jornalista norte-americano e autor de uma biografia sobre Bob Dylan (´Dylan: A Biography´) Bob Spitz utiliza 846 páginas para contextualizar a vida e a carreira dos Beatles e de seus integrantes -especialmente as de Lennon e de McCartney. Mais de uma centena delas é reservada a notas, referências e informações sobre a metodologia de seu trabalho, que levou sete anos para ser completado.

No apêndice, Spitz afirma que sua proposta era preparar uma biografia ´definitiva´. O que é um desafio e tanto não apenas por tratar de um ícone idolátrico mas porque os Beatles são dos artistas mais escrutinados da música -desde os anos 1960, os Fab Four são assunto de mais de 500 obras.

Spitz diz ter entrevistado familiares, amigos e mais uma centena de pessoas que conviveram com os Beatles. O trabalho é minucioso. Ilumina com propriedade as tensões entre os quatro integrantes do grupo; o ´fator mulheres´; as brigas pelo espólio da banda.

A narrativa é feita de modo linear, cronológico, disco a disco. Um deles, o mais famoso de todos, gerou um livro só para si.

Se a bem-sucedida carreira dos Beatles teve um ponto de virada, ele se chama ´Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band` e aconteceu em 1967. A gênese do disco, que tem a capa mais célebre da história, é contada em ´Sgt. Pepper´s… – Um Ano na Vida dos Beatles e Amigos´, do inglês Clinton Heylin.

Movido por um ceticismo saudável (ele prefere o ´Revolver´), Heylin não fez um livro de beatlemaníaco, mas de especialista em música que não vê apenas a árvore (´Sgt. Pepper´s´) mas a floresta inteira -o efervescente cenário musical movido a LSD e experimentalismo do fim da década de 60.

´Entre agosto de 1966 e junho de 1967, a banda formulou o que acreditava ser um grande avanço musical. Mas sempre estiveram cientes, principalmente McCartney, de que havia bandas como o Pink Floyd que estavam começando a puxar as fronteiras, experimentando com o som. O livro é sobre essa corrida para ver quem chegaria primeiro lá´, diz o autor, por telefone, à Folha.

´Pepper` não marcou o nascimento do rock, mas certamente o validou como um gênero livre e à parte do pop.´’

 

Amiga escreve biografia chapa-branca de Hendrix

‘Se ´Sgt. Pepper´s` é um ícone pop, o rock tem entre suas figuras mais emblemáticas Jimi Hendrix. Morto em setembro de 1970, aos 27 anos, o maior de todos os guitarristas recebe um tratamento cordial e celebratório na biografia ´Jimi Hendrix -°A Dramática História de uma Lenda do Rock´.

Sharon Lawrence, jornalista norte-americana, conheceu Hendrix num show em Los Angeles em fevereiro de 1968. Os dois se deram bem e ela se tornou confidente do guitarrista.

Lawrence tempera sua radiografia com as conversas que teve com Hendrix, tenta humanizar o guitarrista que chocou platéias ao botar fogo em seu instrumento em pleno palco e que morreu num quarto de hotel em Londres, sufocado no próprio vômito, após tomar vinho com pílulas para dormir.

´Ele é muitas vezes descrito incorretamente por gente que nunca esteve com ele ou que não o conhecia´, afirma Lawrence à Folha, por e-mail.

´Provavelmente essas pessoas querem ou precisam vê-lo como um selvagem que estava sempre à procura de atenção. Jimi se tornou uma espécie de alter ego para muita gente, no sentido de ´Eu quero ser grande e mau como Hendrix´. No livro, tentei mostrar diferentes facetas de Jimi e como os primeiros anos de sofrimento foram importantes para moldar sua personalidade.´

Tendo como fonte apenas o livro de Lawrence, tem-se a impressão de que Hendrix foi um herói sem falhas, vítima do séquito que o acompanhava.

´Era impossível para mim e para outros que o conheciam não perceber que ele estava sendo vítima de gente ao seu redor. Jimi sonhava com o dia em que estaria livre dos maus contratos [que assinou], mas também dizia que talvez isso fosse algo a pagar pela realização do desejo de ser um grande guitarrista e compositor.´

Coltrane e Clapton

Tom mais realista do que o do livro sobre Hendrix tem a autobiografia de Eric Clapton, outro respeitado guitarrista.

Por se tratar de uma obra sobre si mesmo, suspeitava-se que Clapton fosse amaciar alguns episódios de sua carreira. Mas o autor de ´Layla` fala abertamente sobre a morte do filho de cinco anos e de seus relacionamentos amorosos.

Já o disco ´Love Supreme´, de John Coltrane, é analisado com lupa pelo jornalista Ashley Kahn -que já havia feito o mesmo com ´Kind of Blue´, de Miles Davis.’

 

CINEMA
Inácio Araújo

Engenhoca levou ´Rocky` ao Oscar

‘A palavra de ordem, nas práticas esportivas, é motivação. E, dessa ótica, parece que os filmes foram inventados para motivar atletas. Sempre é possível argumentar que, tal como na blague de João Saldanha (´se macumba ganhasse jogo, campeonato baiano acabava empatado´), os recursos motivacionais existem para os dois lados. Alguém me lembra que Betão, zagueiro do Corinthians, usou o exemplo de ´Rocky, um Lutador` (TCM, 1h05) para motivar seus companheiros. O que é ´Rocky´? A história de um lutador desconhecido que ganha a chance de enfrentar um campeão dos pesos pesados. Onde qualquer outro pularia fora, Rocky agarra bravamente a oportunidade e se põe a treinar.

Digamos logo, ou alguém devia ter dito ao íntegro zagueiro, que esse tipo de fábula funciona melhor em Hollywood do que em outras partes do mundo. E que a glória de ´Rocky´, filme no mais excessivamente sentimental de John G. Avildsen, deve o essencial de sua glória menos ao ´canastrismo` de Sylvester Stallone e ao rosto sangrante do que à elegância que uma invenção então recente confere às lutas e, sobretudo, aos treinos de Rocky.

Trata-se do ´steadycam´, engenhoca que tem o dom de absorver os desequilíbrios da imagem. ´Rocky` teve o mérito de descobrir e introduzir esse invento revolucionário de Garrett Brown. Foi o que transformou uma produção modesta num ganhador de Oscar.’

 

HISTÓRIA
Oscar Pilagallo

Andando na linha

‘O que pode haver em comum entre personagens tão distintos como Leila Diniz, Carlos Marighella e Lula? O fato de a atriz, o guerrilheiro e o presidente serem de esquerda. Essa seria uma resposta destinada à polêmica não estivesse fundada na noção do pensador italiano Norberto Bobbio, para quem ser de esquerda é ser guiado pela perspectiva da igualdade social e de direitos.

É sob esse amplo guarda-chuva ideológico que estão abrigados partidos, correntes, facções, dissidências e personalidades abordados nos três volumes de ´As Esquerdas no Brasil` [org. Jorge Ferreira e Daniel Aarão Reis, ed. Civilização Brasileira, R$ 70 e 574 págs. (vol. 1), R$ 72 e 630 págs. (vol. 2) e R$ 75 e 700 págs. (vol. 3)], o mais ambicioso e abrangente painel de todas as variações do socialismo praticadas no Brasil desde o início do século passado.

A mais antiga delas, registrada a partir dos primórdios da República Velha, é o anarquismo sindical dos imigrantes italianos. Mais tarde, em 1922, funda-se o Partido Comunista, o tronco de onde sairiam quase todos os galhos socialistas. Os grandes desdobramentos correspondem a mudanças no movimento comunista internacional. As denúncias dos crimes de Stálin, em 1956, fragmentam o PCB obediente a Moscou; pouco depois, o êxito da revolução cubana estimula o surgimento de grupos armados. E assim por diante, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, acabar com os parâmetros do socialismo.

Os volumes, organizados por temas e por ordem cronológica, cumprem função de contar essa história com uma preocupação que é também didática, o que não deixa de ser útil, dada a floresta de siglas partidárias, mais densa à medida que as agremiações se distanciam do stalinismo e se aproximam do trotskismo.

Volumes irregulares

Obra de 68 autores, os três volumes são necessariamente irregulares. Há também muita sobreposição de informação, e esse é um problema que talvez pudesse ter sido evitado pela edição.

O saldo, porém, é positivo: entre sínteses, análises e perfis, a história das esquerdas emerge como num caleidoscópio. O que se perde em linearidade ganha-se em pluralidade. Embora os autores participem do projeto como acadêmicos -e não como militantes que alguns foram ou são-, as eventuais simpatias de um são anuladas pelas do outro.

Se a obra é pouco ortodoxa ao estabelecer hierarquias, isso acaba por enriquecer o resultado. Lamarca e Marighela, por exemplo, os dois grandes líderes da luta armada, são tratados em um único verbete, ao passo que Leila Diniz e o Barão de Itararé são tratados em separado. Embora tenha sido um grande humorista, como militante comunista o barão teve um papel apenas discreto.

Ainda assim, Leandro Konder, que esboça seu perfil, faz valer a inclusão do personagem ao concluir que, antes de ser elemento de desagregação, ele pode ter influído na política cultural do PCB, obrigando seus companheiros a conviver com a diversidade. ´Ainda não era o pluralismo, mas talvez fosse um passo -pequeno, precioso- na direção dele.`

Quanto a Leila Diniz, apesar de sua conduta não ter sido pautada por bandeiras políticas, influenciou o feminismo pelo exemplo de mulher livre e, ao ser censurada, contou com a admiração dos que combatiam a ditadura militar, como anota Miriam Goldenberg.

´As Esquerdas no Brasil` enfoca a questão da luta armada em vários textos, mas deixa de fora um assunto delicado: as circunstâncias da morte de Marighella, em 1969. O militante teria caído devido a informações obtidas, sob tortura, de dominicanos (versão de Jacob Gorender em ´Combate nas Trevas´) ou fornecidas por agentes infiltrados em sua organização (versão de Frei Betto em ´Batismo de Sangue´).

Uma obra de caráter quase enciclopédico poderia ter tentado esclarecer o ponto. Os textos são mais polêmicos quando tratam de personagens que estão no poder. Sendo o PT e parte da base aliada egressos dos movimentos de esquerda, é natural que a biografia de seus dirigentes tenha sido objeto de análise em vários textos.

O historiador e ex-guerrilheiro Daniel Aarão Reis, um dos organizadores da coletânea, morde e assopra o PT. Critica o ´socialismo autoritário` do partido, que em 1998 expulsou o militante Paulo de Tarso Venceslau, em vez de apurar suas denúncias.

´Denuncismo`

Mas, ao comentar o mensalão, centra fogo no que chama de ´denuncismo moralista` e o compara, com algum exagero, à campanha udenista que levou Getúlio Vargas ao suicídio.

Lula é personagem obrigatório. Mas, tendo dado a guinada à direita que o viabilizou nas urnas, sua presença na galeria dos heróis da esquerda precisa ser justificada. É o que faz o historiador Francisco Carlos Palomanes Martinho, que convoca o conceito bobbiano para incluí-lo no ´universo da esquerda´. Ainda assim, só para criticá-lo pelo ´darwinismo ideológico` de quem entende que é um problema ser de direita na juventude ou de esquerda na maturidade.

Hoje, maduro, ele é apenas carismático. ´Lula procura cada vez mais transformar-se em um político que prescinde não só dos partidos como também da própria política´, afirma Martinho, numa das poucas linhas da coletânea que arriscam uma perspectiva.

OSCAR PILAGALLO é jornalista e autor de ´A História do Brasil no Século 20` (em cinco volumes, pela Publifolha).’

 

GILBERTO FREYRE
Enrique Rodríguez Larreta e Guillermo Giucci

Debate emperrado

‘Livros que fazem a diferença tendem a gerar polêmica. Ao final de sua resenha de nosso livro ´Gilberto Freyre -Uma Biografia Cultural` (ed. Civilização Brasileira), publicada no Mais! no domingo passado, Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke prenunciam que ´um grande desafio é agora reconstruir, analisar e interpretar as atividades e o pensamento de Freyre entre 1936 e 1987´.

Desse modo, parecem reconhecer que, em boa medida, o período entre 1900 e 1936 conseguiu ser coberto pelo nosso livro. Entretanto é clara a tentativa de diminuir sua contribuição recorrendo a argumentos sectários e de evidente má-fé. Trata-se de um estilo crítico que insiste no arbitrário método, já exposto por Pallares-Burke em seu livro ´Gilberto Freyre – Um Vitoriano dos Trópicos` [ed. Unesp], segundo o qual os predecessores são mais importantes que o autor. O oposto do ensaio de Jorge Luis Borges, ´Kafka e Seus Precursores´, que deve ser lido com cuidado para que se evite que todos os gatos sejam vistos como pardos à noite.

A variedade de fontes relevantes que nosso livro contém é tão vasta que nos parece assombroso que, na resenha, esse fato tenha sido negado. Evidentemente, algumas dessas fontes já haviam sido examinadas anteriormente, o que reconhecemos nos agradecimentos, no corpo do texto, nas notas e na bibliografia. Entretanto nosso livro é uma biografia cultural, não uma discussão das milhares de interpretações da obra de Freyre. A apresentação de documentação nova é enorme.

Para mencionarmos apenas alguns exemplos, a documentação sobre o Colégio Americano Batista -particularmente as publicações de Freyre no Lábaro; manuscritos inéditos; coleções de periódicos regionais; partes de sua correspondência ativa e passiva; as anotações dos cursos oferecidos na Universidade de Stanford, de central importância para compreender a gênese de ´Casa-Grande e Senzala´.

Novos enfoques

A tais exemplos pode-se somar o estudo sistemático das leituras e ensaios de Freyre que são examinados, pela primeira vez, em seu contexto e em conjunto. A relação de Freyre com os críticos norte-americanos, como Randolph Bourne, Van Wyck Brooks e outros, lança uma luz diferente sobre o suposto racismo paradigmático na cultura norte-americana dos anos 1920.
Na biografia, são abundantes as interpretações originais baseadas em novos enfoques, desde a leitura do ´Ulisses` de Joyce feita por Freyre até a relação intelectual com Franz Boas, passando por Lafcadio Hearn, Joaquim Nabuco e Sérgio Buarque de Holanda, entre muitos outros.

Quanto ao uso das fontes, principalmente os textos de Freyre, em geral foi feita uma distinção entre as opiniões ou interpretações do biografado e o contexto reconstruído mediante outros documentos. Esse procedimento ocupa lugar central em algumas partes do livro, por exemplo, na visão idealizada que Freyre projeta de Nuremberg, Paris e Oxford, assim como o superdimensionamento de seu próprio papel em diversas circunstâncias. Inclusive na análise de sua infância se faz alusão às distorções da memória encontradas em seus textos.
Evocações da infância

Isso, entretanto, não impede a utilização de tais documentos como evocações sugestivas de sua infância. Em toda investigação de grande vigor e complexidade, existem erros e omissões que devem ser revisados.

Nesse sentido, sempre será bem-vinda a crítica construtiva. Não nos consideramos proprietários nem aspiramos ao monopólio da vida de qualquer intelectual morto. Tampouco a unanimidade nos interessa. Porém uma discussão das interpretações do livro em relação aos aspectos centrais e candentes da obra de Freyre -a atitude perante a modernidade, a apropriação criativa das diversas tradições culturais, o racismo, as noções de raça e cultura, a interpretação da cultura nacional- seguramente teria proporcionado a possibilidade de um intercâmbio intelectual mais substancial e de maior proveito aos leitores.

ENRIQUE RODRÍGUEZ LARRETA é antropólogo e diretor do Instituto do Pluralismo Cultural da Universidade Candido Mendes (RJ).

GUILLERMO GIUCCI leciona na pós-graduação em letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).’

 

NIEMEYER – 100 ANOS
Sergio Torres

´Um dia a vida será mais justa`

‘Uma permanência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no poder em um terceiro mandato foi defendida pelo arquiteto Oscar Niemeyer em entrevista concedida à Folha por e-mail. Para ele, Lula deve continuar porque governa ´a favor do povo` e ´contra o intervencionismo norte-americano´.

Com brevidade, o arquiteto faz o que chama de ´balanço realista` de seus cem anos. Diz preferir não ´falar da vida com o desprezo que ela merece´, mas, por outro lado, cita o ´futuro sem solução que o destino nos impõe´. Mas demonstra otimismo com a possibilidade de uma vida ´mais justa´, quando, ´com especial prazer´, um cidadão ´procurará ajudar o outro´.

Para o arquiteto, as populações de Venezuela e Bolívia têm sentido nos governantes Hugo Chávez e Evo Morales, respectivamente, disposição para combater as ´injustificáveis` pobreza e discriminação. Assim, não crê na hipótese de virem a ser derrotados.

Sobre a arquitetura de hoje, Niemeyer revelou-se espantado, negativamente, com ´um certo gosto de exibição de materiais construtivos mais caros´. Evitou comentar o trabalho de contemporâneos de renome como o norte-americano Frank O. Gehry e o espanhol Santiago

Calatrava, a quem disse admirar.

FOLHA – O sr. imaginava que chegaria aos cem anos? Quais as vantagens e desvantagens de viver tanto tempo?

OSCAR NIEMEYER – Não. Meu balanço dessa trajetória é realista. Não sou pessimista, mas sim realista. Não quero me fazer incômodo e falar da vida com o desprezo que ela merece.
Lembrar a miséria, a violência, que crescem por toda parte, e esse futuro sem solução que o destino nos impõe. Prefiro pensar que um dia a vida será mais justa, que os homens não se olharão a procurar defeitos uns nos outros, como tantas vezes acontece. Que, ao contrário, haverá sempre a idéia de que em todos há um lado bom, uma dada qualidade a destacar (Lênin dizia que 10% de qualidades já seriam suficientes).

Nesse dia, será com prazer que um procurará ajudar o outro. É a solidariedade -que ainda não existe, de um modo geral- a prevalecer.

FOLHA – Em que o Brasil de hoje difere daquele que o sr. imaginava quando tinha, digamos, 30 anos?

NIEMEYER – Trata-se de um Brasil que talvez esteja mais consciente da urgência de se combaterem, com maior vigor, as mais graves disparidades sociais.

FOLHA – Que opinião o sr. tem a respeito da arquitetura moderna de profissionais como Frank O. Gehry e Santiago Calatrava?

NIEMEYER – É claro que admiro o talento desses colegas. Evito julgar os trabalhos de outros arquitetos. Cada um tem a sua arquitetura -deve fazer sempre o que gosta, e não aquilo que os outros gostariam que fizesse.

FOLHA – O que o surpreende na arquitetura hoje?

NIEMEYER – O que me espanta, isso em termos negativos, é um certo gosto de exibição de materiais construtivos mais caros.

FOLHA – Qual projeto o sr. considera que seja o melhor de sua autoria?

NIEMEYER – Não sei… Todos os meus projetos foram feitos com o maior interesse. Mas o projeto que estou desenhando para Avilés [Centro Cultural Oscar Niemeyer, na Espanha], talvez seja um dos que mais me agradam.

FOLHA – Que avaliação faz da possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva? O sr. é favorável à tese?

NIEMEYER – Eu sou, porque o governo dele tem se mostrado a favor do povo, contra a miséria, a violência e, principalmente, contra o intervencionismo norte-americano neste país.

FOLHA – Os governos de Chávez e Morales têm sido questionados internamente. O primeiro acaba de sofrer sua primeira grande derrota em nove anos, e Morales enfrentou grandes protestos nas ruas. São chamados de populistas e combatidos pelas camadas sociais mais abastadas. O sr. acredita na possibilidade de derrocada desse tipo de administração no continente, mesmo respaldada pela maioria da população?

NIEMEYER – Acho difícil que isso ocorra, porque nesses países o povo vem sentindo que pode ser mais apoiado contra essa pobreza e essa discriminação injustificáveis que o capitalismo espalhou por toda parte.

FOLHA – Já temos presidentes do sexo feminino no Chile e na Argentina. Nos EUA, Hillary Clinton está cotada para a Presidência. No Brasil, Dilma Rousseff é citada como possível candidata à sucessão de Lula. O que o sr. acha da presença cada vez maior da mulher em cargos do Executivo?

NIEMEYER – Julgo perfeitamente natural e justo que a mulher esteja à frente de qualquer governo. Não deve haver nenhum tipo de discriminação.

FOLHA – Além de arquiteto, o sr. é escritor e escultor. De que mais gosta na literatura e nas artes plásticas da atualidade?

NIEMEYER – Na literatura, é o predomínio de uma linguagem simples, quase oral.
Já nas artes plásticas… O que deve caracterizar uma obra de arte é o espanto, a emoção que ela provoca, e isso eu encontro em muitos artistas contemporâneos.’

 

Guilherme Wisnik

O construtor de enigmas

‘Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha são os maiores arquitetos brasileiros vivos. Significativamente, foram os únicos a receber, até hoje, o Prêmio Pritzker (em 1988 e 2006, respectivamente), considerado a condecoração máxima da profissão. Entrevistado em seu escritório, no edifício do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), no centro de São Paulo, Mendes da Rocha falou sobre a importância do colega, 21 anos mais velho, para a sua geração. Admirador da inteligência construtiva de Niemeyer, nunca levou em conta o suposto antagonismo entre São Paulo e Rio de Janeiro no campo da arquitetura. Comentando projetos importantes, como o Museu de Caracas (1954), a Catedral de Brasília (1958) e o Memorial da América Latina (1987), Mendes da Rocha destaca a relação fundamental entre invenção e experiência histórica na obra de Niemeyer.

FOLHA – Qual é a importância da obra de Niemeyer para o sr.?

PAULO MENDES DA ROCHA – Eu pensei que, para homenagear o nosso querido Oscar Niemeyer, seria importante falar primeiro da importância que ele teve na formação de uma pessoa da minha geração, que cursou a Faculdade de Arquitetura entre 1949 e 1954, mais de meio século atrás, mas numa época em que a sua obra já aparecia com muita clareza.

E se destacava, sobretudo, quanto à capacidade de estabelecer uma reflexão de caráter arquitetônico sobre o que se quer fazer e sobre o grau de liberdade envolvido nisso. Para mim, comemorar os cem anos de Niemeyer é quase dizer o seguinte: ´Mas seria impossível não haver Niemeyer´, porque ele amparou a nossa existência. Todo o prestígio da arquitetura brasileira se deve a ele. E é um prestígio advindo da idéia de imaginação, que, para o país, sempre representou uma esperança.

Portanto, é difícil imaginar uma comemoração formal, já que nós sempre tivemos Niemeyer como uma comemoração constante: da inteligência, da coragem, da capacidade técnica etc.

Por outro lado, é preciso comemorar o fato de que Niemeyer é, seguramente, um dos grandes artistas do século 20, porque fez com que a arquitetura revelasse sempre soluções que, além de serem brilhantes, são expressões de uma suprema liberdade.

FOLHA – Como o sr. vê a questão do tão falado antagonismo entre São Paulo e Rio de Janeiro no campo da arquitetura?

MENDES DA ROCHA – Pois é, costuma-se criar essa oposição entre as ´escolas` paulista e carioca, filiando a arquitetura de lá às belas-artes e, a daqui, à politécnica. O que, aliás, procuro sempre corrigir, incluindo a importância da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no caso da USP. Acho que essa é a chave que marca a FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP], pela cabeça de Vilanova Artigas.

Mas, diante da questão de uma oposição entre São Paulo e Rio, acho que tive uma felicidade muito grande, que me impediu de ver as coisas assim. É que, entre os 14 e os 17 anos de idade, saí daqui e fui morar na casa do meu avô, no Rio de Janeiro, para me enfiar num curso preparatório para a Escola Naval, dado pelo comandante Barata, na rua da Carioca. Ou seja, eu freqüentei sem querer, àquela altura, a colunata do Ministério da Educação, por exemplo.

E, principalmente, morando onde o meu avô morava -no Alto da Tijuca-, eu tinha que tomar o bonde Águas Férreas e descer no largo da Carioca. Portanto, acabei freqüentando a cidade do Rio de Janeiro, já adolescente, vivendo a sua densidade, porque aqui em São Paulo nós estudávamos em colégios ainda de bairro.

Logo, acho que desenvolvi uma visão um tanto ´carioca` da vida urbana, que era diferente daquela que os meus colegas aqui de São Paulo tinham na época. O que fez com que eu nunca conseguisse dividir a questão da arquitetura entre arte e técnica, como se houvesse uma arquitetura das belas-artes e outra da politécnica, como se diz. E Niemeyer atravessa isso tudo, não só pelo Ministério da Educação, que freqüentei naquela época, mas também pelo Ibirapuera, construído um pouco depois aqui mesmo.

São Paulo, aliás, é muito feliz, porque é a cidade do mundo que possui mais obras de Niemeyer (depois de Brasília, naturalmente).

FOLHA – Diferentemente do que se diz sobre a gratuidade da forma na obra do Niemeyer, o sr. sempre valorizou o gênio construtivo que ela contém, não é?

MENDES DA ROCHA – Pois é, Niemeyer tem uma sabedoria enorme em não ficar exibindo isso. A curva do Copan, por exemplo, é uma resolução técnica exemplar quanto à questão do esforço de vento, num prédio que se quis esbelto por razão da qualidade das plantas dos apartamentos.

O Copan também é um modelo quanto à relação entre habitação e cidade, situado em plena praça da República. É, por excelência, o símbolo da habitação popular de uma metrópole.

FOLHA – E em que outros projetos dele essa inteligência construtiva aparece com nitidez?

MENDES DA ROCHA – O Museu de Caracas, por exemplo, é um projeto extraordinário. Se pensarmos na história da pirâmide, veremos que ela tem três capítulos: as pirâmides do Cairo, a pirâmide invertida do Museu de Caracas e a pirâmide de cristal do Louvre.

Sim, pois a pirâmide de Quéops tem uma fresta muito precisa pela qual se pode ver, de dentro da cripta do faraó, em certo momento, a estrela de Sírio, da constelação do Cão Maior. Ou seja, aquela pirâmide de pedra já sonhava em ser cristalina, como a de Pei [arquiteto chinês].

E o raciocínio de Niemeyer em Caracas, ao inverter a pirâmide e concentrar as cargas, é uma coisa extraordinária, porque é algo que a mecânica dos solos hoje permite. E também por usar as paredes, que nesse caso tendem a cair, como um recurso de autoprotensão das lajes horizontais.

Tudo isso faz com que o Museu de Caracas transmita uma visão construtiva fantástica, porque tem uma estrutura belíssima e totalmente factível, que praticamente se faz por si mesma. Nesse sentido, é como as pirâmides antigas, que eram máquinas da sua própria construção: o plano inclinado. Esse museu é uma nova expressão da mesma coisa. Não como mesmice, é claro, mas como uma reflexão que se prolonga.

FOLHA – O sr. acha, então, que o sentido de ´invenção` em sua obra tem uma relação com a história da construção?

MENDES DA ROCHA – Se você tomar a catedral de Brasília, por exemplo, pode considerar que é uma inversão da cúpula da igreja em Florença, de Brunelleschi [1377-1446]. Principalmente porque o princípio estrutural de que partem ambas é a indeformabilidade do círculo, uma vez submetido à ação de forças homogêneas.

A base da cúpula de Florença é um círculo que recebe os esforços de tração, sobre o qual se apóiam aquelas nervuras feitas com pedra, que se juntam lá em cima num outro círculo menor, que trabalha a compressão.

Mas, se você inverter o desenho, vai ver que a Catedral de Brasília tem no chão (ainda que falso, porque há um subsolo escavado), um grande cilindro: um anel também submetido a tração de modo uniforme.

Mas, hoje, aquelas pedras que antes eram arcos podem ganhar, com o concreto armado, uma forma invertida, tendo outro anel em cima que vai receber o conjunto do feixe desses arcos convexos, trabalhando fortemente a compressão.

Como se vê, Brunelleschi e Niemeyer fizeram uma catedral só. Quer dizer, se divertiram. Essa é uma grande lição de Niemeyer: sua reflexão está centrada na experiência. Portanto, ele é um fabricante, um construtor, assim como se diz que Mies van der Rohe [1886-1969] era um carpinteiro.

Mesmo a idéia do grande espaço coberto com o homem dentro, que Niemeyer desenvolve, pode ser vista assim.

Porque, se você tomar uma cúpula romana toda de pedra e já com os seus anexos laterais, como o Panteão de Agrippa, vai perceber que é formada por um anel contínuo e uma sucessão de arcos. O que nos dá a percepção, para quem está numa dessas capelas laterais, de uma pequena abóbada seguida por uma grande cúpula, com outra abóbada no fundo.

Agora, se você pegar esse anel com os pequenos arcos e o retificar, terá uma grande viga com inúmeros apoios.

E, se ainda puder fazer essa viga protendida e resolver tudo em apenas dois apoios extremos, com cascas de concreto armado repousando nela, terá os protótipos dos pavilhões que Niemeyer criou no Memorial da América Latina.

O Memorial, portanto, é um exercício de construção, como se juntasse uma pedrinha aqui, outra ali, e pegasse os templos astecas e incas para dizer que agora nós vamos arrumar as pedras de outro modo.

Sim, porque o concreto é pedra líquida. Assim, não vem ao caso se aquele prédio é um auditório ou uma biblioteca. O que Niemeyer está fazendo ali é um protótipo construtivo. O projeto do Memorial da América Latina é uma reflexão sobre a história da construção, sem a qual não haveria cidades nem haveria nós.

Então, a motivação do projeto é procurar, na história da técnica, o maior elogio possível para construir aquilo. A FAU [projeto de Vilanova Artigas] também é um prédio assim, com essa força histórica. A construção é uma espécie de enigma que impõe uma reflexão sobre como e por que aquilo foi feito daquele modo.

Não como um mistério insondável, mas algo a ser decifrado com um teor educativo fundamental.’

 

Francisco Alambert

O herói de duas faces

‘O Brasil já foi o ´paraíso dos arquitetos´, e nele Niemeyer era o nosso serafim. E, mesmo quando o paraíso virou inferno, pois no Brasil ambos habitam o mesmo espaço, ele continuou a pontificar. Se os manuais de história da arquitetura de hoje falam em ´estilo internacional brasileiro´, é a Niemeyer -esse Jorge Amado da prancheta- que devemos a deferência, assim como a contradição (uma obra de apreciação universal definida por sua regionalidade como um ´estilo` entre outros).

A arquitetura moderna, desde seu início com o racionalismo radical do vienense Adolf Loos (´o ornamento é um delito´), passando pela Bauhaus e por Le Corbusier, voltava-se contra a história -entendida como continuidade da tradição. Os símbolos do passado, a fantasia barroca do decorativismo, deveriam sumir da construção. O espaço moderno era universalista, racionalista e funcionalista. Suas formas, seus materiais e a agilidade da construção serviriam para antecipar a sociabilidade que viria com a revolução (primeiro burguesa e depois socialista).

A arquitetura era a obra de arte total, a síntese da emancipação social e cultural que o modernismo imaginou e que o cinismo do pós-modernismo, com sua grotesca racionalização de Las Vegas, aderindo à lógica do capitalismo-cassino, iria substituir. Mas é mesmo de adesões complicadas que a história da arquitetura é feita.

Veja-se o caso nacional. O triunfo espetacular da arquitetura moderna brasileira tem dois momentos decisivos. O primeiro se localiza na época da Semana de Arte Moderna, quando a vanguarda modernista, surfando na onda decadente da aristocracia do café, ataca a mentalidade colonial e propõe dois projetos: um para o futuro do país (baseado em racionalidade, ordem e integração com a modernidade e, ao mesmo tempo, na redescoberta do passado nacional e de sua vocação) e outro para o país do futuro (criar os novos espaços para a revolução que nos daria uma nova cultura, de preferência socialista).

Novo Estado

Em 1929, quando Le Corbusier veio ao Brasil pela primeira vez, a quebra da Bolsa de Nova York e o rearranjo do capitalismo em frangalhos mudara os quadros mundial e local. Tanto o New Deal nos EUA quanto o nazifascismo na Europa ou os planos quinqüenais soviéticos fazem com que o capital industrial deixe de ser o ´interlocutor` privilegiado da nova arquitetura. Agora é o Estado, no nosso caso o Estado Novo, que assume esse papel.

Pois, sem o Estado ditatorial, a introdução da nova arquitetura teria sido feita pelos canais privados, de modo esporádico, gradual e anárquico. Pronto o arranjo, com o retorno de Le Corbusier em 1936, a régua para a aventura de Niemeyer estava dada. O compasso quem lhe deu foi o planejamento histórico-nacional de Lucio Costa. De um lado, a adequação ao ´projeto moderno` e às novas tecnologias. De outro, a curva da linha, a busca do capítulo brasileiro da arquitetura moderna, que foi o seu grande gesto. Daí chegaria Brasília, a ´síntese das artes´. Depois do acordo entre modernistas, socialistas e o Estado autoritário, os democráticos anos 50 trariam os bons ventos do nacional-desenvolvimentismo, calcado no crédito fácil que a banca internacional, em tempos de Guerra Fria, dava aos populistas de centro-direita com os quais os esquerdistas modernistas iriam se acertar.

Oferecer ao mundo um projeto inteiro de cidade contrário à centralização militar da época barroca, ao espírito de subúrbio pequeno-burguês do ´american way of life` e à selvageria do ´laissez-faire` liberal. Uma utopia baseada na constituição de uma coesão social conciliadora, mas plena de calor humano ´como na época da Comuna´, diria Mário Pedrosa. As formas de Niemeyer decoraram espetacularmente essa utopia até que o golpe militar transformasse a paisagem.

O projeto modernista esquerdizante sai de cena. Mas Niemeyer não. Ele permanece como ornamento do passado ou como lembrança de uma promessa de felicidade, moderna, que não se realizou. Em resumo: um artista do ´estilo` sensual brasileiro.
Gesto abstrato O comunismo humanista de Niemeyer (que não deixa de ser um formalismo imagético tão poderoso e ornamental quanto a retórica do espaço público que Brasília consumiu), que jamais refutou o acordo com a burguesia atrasada, permaneceu como gesto abstrato mesmo depois que as condições históricas que possibilitaram seu sucesso desapareceram. Se é certo, como já disse sem meias palavras Otília Arantes, que ´nossa festejada tradição moderna em arquitetura sempre alimentou a fantasia de estar na vanguarda da integração das classes´, no momento em que essa fantasia se desfez, primeiro em 1964 e, depois, com o processo de globalização, a obra do grande arquiteto passou a girar em falso, como de resto todo o país.

No máximo, lhe restou completar obras que a falência do desenvolvimentismo deixou para trás -como o belo teatro do Ibirapuera, dentro do qual os pobres não são bem-vindos, ou o estupendo projeto do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ). Tomara que o anfiteatro que está sendo construído na Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), traga um novo ponto de início à obra desse centenário herói do melhor e do pior do Brasil.

FRANCISCO ALAMBERT é professor de história social da arte e história contemporânea na Universidade de São Paulo.’

Mario Gioia

De novo vanguarda

‘Niemeyer tem uma obra ainda não estudada profundamente no Brasil, e sua imagem se confunde com a do ´arquiteto nacional´, prejudicando o seu entendimento.

A avaliação vem do espanhol Josep Maria Montaner, 53, um dos principais críticos de arquitetura do mundo, que esteve recentemente no país como palestrante da 7ª Bienal Internacional de Arquitetura de SP. Professor da Escola de Arquitetura de Barcelona, onde dirige o Laboratório de Residência do Século 21, ele lançou no Brasil a edição em português de seu livro ´Arquitetura e Crítica` (ed. Gustavo Gili, R$ 45, 160 págs.).

A seguir, Montaner, crítico que lança mão de filosofia, artes plásticas, cinema e literatura para interpretar a arquitetura contemporânea, conversa com a Folha sobre Niemeyer.

FOLHA – Niemeyer continua sendo o arquiteto brasileiro mais conhecido no exterior? Ele é visto como datado ou, pelo contrário, simboliza o melhor e mais famoso período da arquitetura brasileira?

JOSEP MARIA MONTANER – Ser o arquiteto mais conhecido tem a ver tanto com a qualidade da sua obra quanto com o fato de o Brasil tê-lo convertido em seu arquiteto nacional.
Também é certo que sua figura é identificada com o período mais famoso da arquitetura brasileira, mas é simplista e anacrônico reduzir a arquitetura brasileira a esse período. Depois de Brasília, ela seguiu com grande qualidade, senão a obra de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, por exemplo, não poderia ser colocada como de tanto interesse quanto a de Niemeyer e Lucio Costa.

FOLHA – Ele sempre defendeu o uso do monumental na arquitetura. De certo modo, o pós-moderno, com sua necessidade de espetacularização, também fez projetos, em uma certa perspectiva, monumentais, de marcas muito fortes. Isso não contribuiu para a revalorização de Niemeyer? Ou o conceito de monumentalidade de Niemeyer não tem nada a ver com a obra pós-moderna?

MONTANER – É certo que a arquitetura de Niemeyer, muito visual e midiática, espetacular e monumental, tem muito a ver com as idéias-chave da arquitetura pós-moderna. Para tanto, o pós-moderno ajudou a manter a figura de Niemeyer como chave. Sua obra se sintoniza com a proposta icônica de Robert Venturi, Denise Scott Brown e Rem Koolhaas.

FOLHA – Sempre defendeu o uso do concreto armado, que pode fazer tudo em arquitetura, segundo ele. Diversos estudiosos vêm ao Brasil pesquisar as razões desse material ainda ser utilizado de forma tão intensa no país. Em parte, Niemeyer não é responsável por isso?

MONTANER – O uso maciço do concreto armado no mundo e no Brasil tem a ver com um período determinado da evolução da tecnologia de construção, dos anos 30 aos 60. A partir dos 70, a crise energética e os problemas ecológicos impuseram a necessidade de alternativas a tal material, pouco sustentável e de capacidade de conservação muito imprevisível.

FOLHA – Há uma leitura corrente que coloca Niemeyer como ´o poeta das curvas´, que remeteria à mulher brasileira, às paisagens do Rio etc. Não existe uma certa mitificação e um certo culto por sua figura, por seu estilo e por suas obras?

MONTANER – Todas as questões têm várias facetas e respostas. A ênfase da curva em Niemeyer não é nada gratuita, é muito significativa, sendo uma chave para a evolução da arquitetura moderna até atingir formas mais orgânicas e expressivas.

As obras e as metáforas de Niemeyer servem para legitimar essa evolução. O corpo da mulher não foi uma referência da arte e da arquitetura até quando as vanguardas já estavam muito desenvolvidas, a partir dos anos 30, com as obras de Henry Moore, Jean Arp, Henry Laurens, Isamu Noguchi e Louise Bourgeois.

Para tanto, o aporte de Niemeyer é chave e oportuno. Existe realmente tal mitificação sobre sua figura no Brasil, razão por que ainda não há livros bons e críticos o suficiente sobre ele. Continuam dominando os panegíricos sentimentais e nacionalistas.

FOLHA – A visibilidade de Niemeyer foi prejudicada por ser da América Latina? O fato de, com exceção da ONU, um projeto em equipe, não haver grandes obras dele nos EUA também não foi prejudicial em sua carreira? O Pritzker renovou sua popularidade no exterior?

MONTANER – Ser latino-americano não favoreceu sua visibilidade, sem dúvida. A mídia se liga aos grandes centros de difusão, comunicação e turismo. O Pritzker renovou sua popularidade, mas ao ser compartilhado [com Gordon Bunshaft, em 1988], não teve a transcendência e a significação que foi dada há pouco ao Pritzker de Paulo Mendes da Rocha [no ano passado].

Este último Pritzker expressa o novo interesse pela arquitetura latino-americana e o reconhecimento da qualidade da arquitetura brasileira contemporânea.

FOLHA – A participação de Niemeyer na vida política do Brasil é notória. De certa forma, ele representa a figura de um intelectual comprometido com seu tempo histórico, bastante comum até os anos 60 e 70. Em seu livro ´Arquitetura e Crítica´, o sr. defende, em vários momentos, a idéia de que o neoliberalismo dominou grande parte da arquitetura, sua prática e sua crítica. Niemeyer, assim, é um arquiteto e um intelectual raro atualmente?

MONTANER – Ele responde à figura do arquiteto da época das vanguardas, comprometido com as mudanças sociais, ainda que seu compromisso tenha sido mais genérico, já que fez obras representativas, e não habitação social, como na Europa fizeram arquitetos de esquerda, como Ernst May, Hannes Meyer, Bruno Taut ou Mart Stam.

Mas, além da figura do arquiteto social, houve a figura do arquiteto liberal do pós-guerra europeu. E hoje é dominante a figura do arquiteto neoliberal, que, ao invés de tentar melhorar o mundo, o que faz é contribuir como servo à consolidação da globalização e da especulação. Por sorte, Niemeyer mantém seu espírito crítico e comprometido.’

 

Otávio Leonídio

Milagre de concreto

‘No fim de sua vida, em 1954, levei Oswald de Andrade à segunda Bienal. Era o Ibirapuera de Niemeyer, da oficialização definitiva da arquitetura e da arte modernas que daria Brasília. Estávamos naquela tarde praticamente sós, sob as arrojadas estruturas de concreto e cercados de arte abstrata. Oswald sentia-se como um dos principais autores daquela conquista. Ele chorou. Era como se tivesse vencido uma longa batalha` (carta de Rudá de Andrade a Antonio Candido, 9/8/1970).

O extraordinário e imprevisto sucesso da chamada ´arquitetura moderna brasileira` vem mexendo com corações e mentes de brasileiros há mais de meio século, e por razões não muito difíceis de compreender.

O compromisso do movimento modernista com o programa da ´brasilidade` -tacitamente firmado em meados da década de 1920- havia sido um grande achado, mas a verdade é que, na prática, não resolvera absolutamente os problemas modernistas. Ser, a um só tempo, moderno e genuinamente brasileiro era um programa oportuno; restava, no entanto, definir como realizar esse programa, e era justamente aí que a realidade estética mostrava toda sua capacidade de resistência: contrariamente ao esperado, os meios pelos quais o ´escrever brasileiro` se concretizaria pareciam, cada vez mais, indecifráveis.

Tomado por um crescente sentimento de fracasso, Mário de Andrade chegava ao fim da vida duvidando do valor de sua obra, desconfiando de seu passado. Mesmo ´Macunaíma` lhe parecia uma obra ´ratada´, ´a obra-prima que não ficou obra-prima´.

Contudo, se o desejo de ´escrever brasileiro` se mostrava cada vez mais inalcançável, o mesmo não ocorria com a inusitada experiência de projetar e construir brasileiro. E não éramos nós, brasileiros, que afirmávamos isso: era o mundo -as nações industrializadas, a cujo concerto o Brasil, pela primeiríssima vez, era instado a participar na qualidade de convidado de honra. Nossas credenciais: a arquitetura moderna brasileira, a arquitetura celebrada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, o qual, já em 1943, por meio da exposição Brazil Builds, abria as portas do cenário internacional à ´inovadora` arquitetura de Oscar Niemeyer e companhia.

Obra única

A arquitetura de Niemeyer e companhia? Eis uma questão que, não por acaso, ocupa a atenção de observadores há meio século. Segundo a interpretação de um dos mais influentes críticos e historiadores da arquitetura moderna, Sigfried Giedion, a arquitetura moderna brasileira não era obra de um ou outro expoente (Niemeyer incluído), uma vez que, em suas palavras, ´se certas características são particularmente visíveis na obra de certas individualidades excepcionais, elas não estão todavia ausentes do nível médio da produção arquitetônica, algo que não se verifica na maior parte dos países´.

Se, de fato, era assim, como então justificar não apenas o evidente protagonismo (precocemente) alcançado por Niemeyer -único arquiteto brasileiro verdadeiramente celebrado nacional e, sobretudo, internacionalmente? E ainda: como negar a evidência de que a sua é uma obra única, dotada de uma assinatura inconfundível e que não foi capaz de produzir nenhuma descendência direta (à exceção dos incorrigíveis niemeyerianos fracassados)? Surpreendentemente ou não, a resposta mais contundente a ambas as perguntas foi dada pelo grande campeão da arquitetura moderna brasileira, Lucio Costa.

Foi Costa quem, em entrevista concedida à revista ´Pampulha` (1979), não obstante seu próprio trabalho de construção narrativa de uma ´arquitetura moderna brasileira´, afirmou sem reservas: ´O movimento da arquitetura dita brasileira contemporânea, no fundo, é Oscar Niemeyer […]. Por isso quando o Oscar escreve, fala ´nós isso, nós aquilo´, ele está falando é dele, a ´arquitetura brasileira` é a arquitetura dele´.

De fato, é mesmo difícil imaginar o extraordinário sucesso (nacional e internacional) da arquitetura moderna brasileira sem a existência da obra em tudo excepcional de Oscar Niemeyer -sem o Pavilhão Brasileiro na Exposição de Nova York (1939, parceria com Lucio Costa), sem a Pampulha, sem a Casa das Canoas.

E se, de toda evidência, é a essa obra que se deve creditar, mais do que a qualquer outra, a concretização de um desejo tido até então como irrealizável (o desejo visceral e incontornável de ingresso no mundo moderno), não deve surpreender o lugar que ela e seu autor ocupam no sistema cultural brasileiro do século 20. Verdadeiro ´milagre` (palavras de Lucio Costa), Oscar Niemeyer, não por acaso, chega aos cem anos cada vez mais monumental -espécie de semideus nacional que, graças a seu inigualável feito estético-cultural, pode tudo ou quase tudo (afirmações como a de que Walter Gropius era um arquiteto medíocre e a de que a Bauhaus era ´uma merda` dão bem a medida do famoso repertório niemeyeriano de boutades duvidosas).

Significativamente, a mesma obra que nos franqueou o acesso ao mundo moderno (e que fez Oswald de Andrade chorar copiosamente) é também aquela que nos impede de deixá-lo. Não penso especialmente na persistente atuação, hoje, do Niemeyer projetista (o qual, munido de uma espécie de salvo-conduto, não apenas segue sendo o arquiteto oficial do Brasil contemporâneo, mas goza igualmente de uma temerária liberdade para modificar suas próprias obras, quase sempre para pior).

Penso sobretudo na dificuldade que a cultura arquitetural brasileira tem de formular questões contemporâneas, vale dizer, questões que exorbitam a agenda modernista, redefinem a agenda moderna e nos lançam -possivelmente órfãos, acomodados que estamos no familiar espaço moderno- no mundo contemporâneo. As questões que (Oswald talvez não percebesse) inelutavelmente distanciavam a marquise de Niemeyer de boa parte daquilo que, a partir do início da década de 1950, a Bienal de São Paulo passava a expor ao público brasileiro.

OTAVIO LEONÍDIO é arquiteto e professor da Pontifícia Universidade Católica (RJ).’

 

Lauro Cavalcanti

Dois de Ouro

‘Oscar Niemeyer e Lucio Costa formaram uma das mais felizes parcerias da cultura brasileira. Juntos enfrentaram os concorrentes conservadores, deram traços próprios ao modernismo brasileiro e constituíram uma nova visualidade para o país. Os acadêmicos defendiam a aplicação de elementos colhidos nos estilos europeus do passado.

Os neocoloniais trocaram a geografia de sua nostalgia: devia-se buscar inspiração nas construções ibéricas do período colonial nas Américas. O movimento agradou aos governantes: Washington Luís plantou monumentos neocoloniais ao longo das estradas paulistas para celebrar o centenário da Independência e, na área federal, o presidente Epitácio Pessoa decretou a sua obrigatoriedade em prédios que representassem o país no exterior.
O modernismo propunha uma nova estética, compatível com os avanços técnicos da época. Poderia ter sido apenas uma das muitas importações, não fosse a genialidade criativa de Niemeyer e a solidez teórica de Lucio Costa, ao articular vanguarda e tradição.

A conquista do mercado público era fundamental, pois as elites e empresas privadas apenas adotavam um estilo depois que tivesse sido experimentado e aprovado em obras estatais. Uma das frestas progressistas do Estado Novo era o Ministério da Educação e Saúde, responsável pela construção do homem futuro. O mesmo governo que prendia Graciliano Ramos aceitava, naquele setor, intelectuais progressistas como Mário de Andrade, Sérgio Buarque, Heitor Villa-Lobos. Manuel Bandeira e Gilberto Freyre.

Em longo e conhecido processo, os acadêmicos e neocoloniais se uniram e venceram o concurso para a nova sede da Educação, com um projeto marajoara, fruto do pretenso legado de uma ocupação grega da Amazônia. Não foi difícil para Carlos Drummond de Andrade, chefe de gabinete do ministro Capanema, convencê-lo da inadequação do projeto, assimilado ao cenário de um musical da Metro, para abrigar o ministério do futuro do país.

Arranha-céu em vidro

Um grupo chefiado por Lucio Costa, com a consultoria de Le Corbusier e participação decisiva de Oscar Niemeyer, definiu as formas do prédio, cuja importância transcendeu o ambiente brasileiro: foi o primeiro arranha-céu em vidro no mundo, provou a adequação do moderno fora do clima temperado e o libertou dos restritos programas de fábricas, galpões e estações ferroviárias. Era de esperar que adeptos de estilos passadistas fossem encarregados de criar um Serviço de Patrimônio. Não foi o que aconteceu: os modernos conseguiram provar que a sua concepção de arte e história era muito melhor do que a panóplia de pastiches neocoloniais.

Conquistaram os direitos de escolher a produção que passaria a constituir o patrimônio nacional e de criar uma legislação especial para impedir o seu desaparecimento ou descaracterização. Adquiriram, também, a prerrogativa de opinar em construções nos centros históricos e na vizinhança de bens tombados. Na prática, a atuação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), cujo setor de arquitetura era chefiado por Lucio Costa, lhes conferiu o papel de planejadores não só das cidades antigas mas da área central da maior parte das capitais brasileiras. A idéia de que a boa arquitetura de uma época se coadunava com a boa arquitetura de outra foi um argumento central na defesa que Lucio Costa fez do hotel de Niemeyer em Ouro Preto (MG). O texto do futuro urbanista de Brasília equiparou o modernismo ao barroco, tornando-o adequado, portanto, para preencher vazios em cidades antigas.

Em 1947, o Iphan tombou a igreja da Pampulha, apenas quatro anos depois de seu término, livrando-a da sanha demolidora de campanha liderada pelo arcebispo mineiro, que, em suas curvas e abstrações, via a materialização de coisas do demônio. A única séria derrota dos modernos cariocas foi no ensino. O jovem Lucio Costa ficou apenas um ano à frente da direção da Escola de Belas Artes, graças à violenta oposição dos conservadores. Posteriormente, o seu projeto arquitetônico para a Universidade do Brasil foi recusado, e os conservadores se cristalizaram nos postos da Faculdade de Arquitetura.

Declínio do ensino

O sucesso do movimento moderno não os abalou: sua aulas passaram a difundir um modernismo mal-compreendido, enquanto os verdadeiros eram expelidos: Affonso Reidy foi professor por um brevíssimo período, Sergio Bernardes foi afastado por ´falta de didatismo` e Mario Pedrosa teve a sua titularidade negada, com um trabalho internacionalmente reconhecido como uma das mais sólidas e originais contribuições ao estudo da psicologia das formas.

Diferentemente de São Paulo, onde os modernos firmaram uma verdadeira escola na USP, a qualidade da arquitetura produzida pela geração seguinte no Rio de Janeiro muito sofreu com a ausência de um veículo contínuo de transmissão e reprodução dos conhecimentos. A proposta que hoje mais encanta Niemeyer é a da formação de uma escola de arquitetura que, além de tratar dos conhecimentos específicos da construção, propicie uma formação geral e humanista, de modo a melhor qualificar o profissional e libertá-lo das garras de uma excessiva especialização. Será uma correção da história. E o resto será arquitetura…

LAURO CAVALCANTI é arquiteto e professor da Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.’

 

Mario Cesar Carvalho

Fla-flu crítico

‘Eu não vou. Se ele quiser, que venha aqui.

É Oscar Niemeyer quem fala.

Sua filha Anna tenta demovê-lo, explica que não é um compromisso qualquer.

É o presidente, papai. Você precisa ir.

Niemeyer segue com a mesma opinião. Não vê razões para deixar a rotina do seu escritório para receber uma medalha. Quem conhece Niemeyer sabe que ele odeia esse tipo de bajulação. ´Uma babaquice` é o seu xingamento predileto a esse tipo de coisa.

Se ele acha importante, que venha ao meu escritório, responde o arquiteto.

Niemeyer está pouco se lixando para o simbolismo da cerimônia. Ele receberia a Ordem do Mérito Cultural no Palácio Capanema, um dos marcos da arquitetura moderna brasileira, que ele projetou com Lucio Costa, Affonso Reidy, Carlos Leão e Le Corbusier, entre outros, nos anos 1930.

Não tem jeito. Niemeyer não vai. O presidente Lula tem de ir ao seu escritório. A cerimônia ocorreu no dia 29 de novembro e durou 20 minutos.

Niemeyer gosta de Lula. Comunista histórico, viu com entusiasmo a chegada de um operário à Presidência. A aproximação de Lula com Hugo Chávez só fez aumentar a simpatia do arquiteto pelo presidente.

Há pelos menos três hipóteses para a recusa de Niemeyer a aparecer no Palácio Capanema para receber uma medalha do presidente. A mais óbvia é a licença que um senhor de 99 anos adquire para recusar esse tipo de chatice. Kadu Niemeyer, neto do arquiteto, explica a recusa por aí: ´Dr. Oscar não tem bronca nenhuma do Lula. Ele não foi por cansaço, por preguiça de sair´.

Cansaço e protesto

Há amigos do arquiteto que vêem na recusa um misto de cansaço com um protesto discreto. Niemeyer, segundo esses amigos, não perdoa um discurso que Lula fez há um ano, no qual diz que ser de esquerda é um pecadilho da juventude.

´Eu acho que é a evolução da espécie humana: quem é mais de direita vai ficando mais de esquerda, quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata. Não tem outro jeito. Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela está com problema. Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também está com problema.´

Niemeyer está às vésperas dos cem anos, continua comunista e não tem problema nenhum, salvo os naturais da idade. Ele não foi à entrega da medalha porque não quer perder tempo com ´babaquices´.

Niemeyer parece ter olhos só para o seu trabalho, os amigos e a mulher. Esse foco preciso talvez explique um dos maiores paradoxos do arquiteto: ele fez alguns dos seus melhores trabalhos depois dos 80 anos, quando os artistas ou se afundam na redundância ou se tornam estéreis.

´Que arquiteto brasileiro fez nos últimos 20 anos trabalhos com a qualidade e a invenção do museu de Niterói [MAC] e do auditório do Ibirapuera?´, pergunta o diplomata e crítico de arquitetura André Corrêa do Lago, autor do livro ´Oscar Niemeyer – Uma Arquitetura da Sedução` (ed. Bei).

O próprio crítico dá a resposta: nenhum.

´O auditório do Ibirapuera vai ficar como uma das grandes obras do minimalismo´, diz Corrêa do Lago. ´É um edifício contemporâneo, de 2003. O que é chocante é que o auditório foi feito quando o Niemeyer tinha 97 anos´.

A guinada

Niemeyer tem uma trajetória mais ou menos constante desde que começou como estagiário no escritório de Lucio Costa, no início dos anos 30. Sua obra segue uma lógica própria, centrada na liberdade do concreto preconizada pelo modernismo, desde a Pampulha. A percepção sobre seu trabalho é que sofreu mudanças, segundo Corrêa do Lago.

Por uma ´feliz coincidência` da história, seus trabalhos dos últimos 15, 20 anos encontraram um cenário propício para a arquitetura moderna, de acordo com o crítico.

Dos anos 80 aos 90 do século passado, Niemeyer passou por um período em que sua obra tinha quase nenhuma repercussão internacional -foram os anos da voga pós-moderna, do apelo decorativo, do culto a Las Vegas, quando os modernistas eram tratados como uma aberração histórica.

A inauguração, em 1997, da filial do museu Guggenheim, em Bilbao, projetada pelo norte-americano Frank Gehry, é o principal marco da retomada da arquitetura moderna, segundo o crítico.

Para quem não acompanha a crítica de arquitetura internacional, Corrêa do Lago dá um exemplo simples para perceber essa mudança da crítica internacional. O Memorial da América Latina, projeto de Niemeyer de 1987, foi ignorado por praticamente todas as revistas internacionais de arquitetura. Já com o MAC de Niterói, inaugurado nove anos depois, o arquiteto foi tratado como um gênio modernista que atingira seu ápice.

´Se Niemeyer tivesse morrido com 80 anos, ele teria, na visão da crítica internacional, um papel menor na arquitetura mundial. Ninguém falava sobre ele nos anos 80. A crítica o tratava com uma profunda indiferença. O interessante é que nunca deu bola para as críticas. Ele continuou a fazer o mesmo tipo de arquitetura mesmo debaixo das críticas mais pesadas ou, o que é pior, diante da indiferença mais pesada´, afirma Corrêa do Lago.

No Brasil, a avaliação da obra do arquiteto é ainda mais periclitante, segundo o crítico, porque vigora um espírito de Fla-Flu, de ame-ou-odeie. ´Não há uma visão crítica da obra de Niemeyer porque os comentadores se dividem entre os deslumbrados, que adoram tudo, e os detratores, que odeiam tudo. É tudo muito emocional.´’

 

Teixeira Coelho

As formas de um país

‘Viver tanto tempo, durante tanto tempo gerar e implantar a forma. Produzir durante tanto tempo, quer dizer. É a condição para deixar marca. Não condição suficiente, nem necessária. Apenas, não raro, decisiva. Nenhuma outra idéia cultural no Brasil moderno e contemporâneo teve tanta presença imaginária e real como Niemeyer. E isso criou a circunstância em que pôde se tornar uma figura mitopoética.

De fato e de direito -ainda que seu meio tenha sido freqüentemente a força. A força do Estado por trás dele. A vida de duas gerações confortavelmente instaladas no tempo -e de três gerações nele apertadas- se passou sob o império da forma de Niemeyer. Conteúdos precisam de formas para existir. Niemeyer proveu essa forma. Sozinho, transformou-se em alegoria de uma cultura.

Apegadamente ligado a uma idéia do século 19, o comunismo, produziu para o liberalismo (supondo que JK tenha sido um liberal) e o fascismo do século 20 e continua servindo de continente para a geléia ideológica que se esparrama pelo 21. Moldou Pampulha e Brasília na pele de um arquiteto de esquerda -da esquerda clássica, de manifestos- e continuou produzindo para a ditadura de direita instalada no país e em sua cidade em 1964.

Conteúdos análogos aceitam ou requerem uma mesma forma. Uma mesma forma canaliza conteúdos supostamente opostos e revela a igualdade real entre eles. A forma de Niemeyer não fez a dialética entre conteúdos opostos, esse conflito do qual um terceiro emerge: apenas revelou a proximidade entre simétricos de sinais opostos, porém de leito comum.
Não é irrelevante que seu cliente usual tenha sido o Estado. Um Estado cuja carreira é aqui ininterruptamente autoritária e que só de vez em quando se entregou a soluços liberais, libertários ou, simplesmente, indicativos de liberdade. Um Estado fraco e, no entanto, terrivelmente forte.

Labirinto

O mitopoema Niemeyer não teria existido sem o Estado. Sua arquitetura foi largamente de Estado assim como Brasília é uma cidade do Estado, uma cidade-Estado. Brasília, em seus traços centrais, fracassou: os semáforos que não deveriam existir agora estão lá, aquilo que deveria fluir se vê represado nos bolsões de estacionamento, a cidade que deveria ser planejada escapa sem controle por toda parte e tudo vira um armadilha para o indivíduo, o ser humano. Esse labirinto estava embutido no projeto, era sistêmico. Poderia ter sido previsto. A arquitetura de Niemeyer fracassou com isso?

Não, ela é, como ele, mitopoética: é um mito que se construiu (´poiesis´) e que mantém sua função poética quando se olha para a peça isolada e se esquece o sistema a que pertence. Nisso ela é essencialmente mitopoética, nisso é uma analogia perfeita da cultura do país.

O Palácio dos Arcos é um deslumbramento, a catedral de Brasília é um espetáculo, o MAC de Niterói é uma obra de arte, o Teatro do Ibirapuera é um monumento. Se funcionam é outra questão, irrelevante para a função poética.

Contradições

Numa cerimônia pública em sua homenagem há mais de dez anos, quando se imaginava que estivesse no fim da vida, Niemeyer declarou-se ´deprimido frente a esses trabalhos que vocês vão examinar´. Reconheceu ter construído para o Estado, trabalhado para os ricos e poderosos e nunca ter feito nada ´para este mundo de pobres que constitui a maior parte de meus irmãos´.

Arquitetura da contradição, portanto. Outra vez. Contradição ideológica, contradição social, contradição pessoal. Outra vez, uma analogia da cultura do país. Contradição estilística, também: se foi banalmente modernista em muitos blocos-padrão, como o edifício da Bienal de SP (pelo menos por fora), foi sensivelmente pós-moderno em tanta outra coisa.

Fazendo essa autocrítica, em que se diz frustrado, Niemeyer quase repete Horowitz perguntando a todo mundo, no final da vida, se havia tocado bem. ´Toquei bem, toquei bem?´, perguntava. Todo mundo dizia que sim. Perguntando a mesma coisa para sua mulher, ela, olhando para o lado, respondeu: ´Não faz diferença´.

Não faz diferença, Niemeyer. Niemeyer fez o que fez, mas fez mais do que fez: fez um romance nacional, fez uma novela nacional. Niemeyer é um borgesiano personagem de Glauber, é a vindicação da estética em transe do cineasta baiano. Isso é mitopoiesis.

á algumas mitopoéticas que se revelam inescapáveis, instituintes. A arquitetura de Niemeyer foi instituinte de todo um vasto imaginário, com tudo que os imaginários têm de obsessão, perdição e salvação. Mesmo quando se tornam inconscientes e adormecem no sono das gerações mais jovens.

TEIXEIRA COELHO é curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e autor de ´Niemeyer – Um Romance` (Iluminuras).’

 

Ernane Guimarães Neto

São Paulo S/A

‘Uma das cidades com mais construções de Oscar Niemeyer, São Paulo abriu terreno para uma produção prolífica nos anos 1950. Da época costuma-se lembrar o ondulado conjunto Copan, mas pouco se fala sobre os outros prédios. Para a pesquisadora Daniela Viana Leal, da Universidade Estadual de Campinas (SP), há boas razões para o esquecimento. Em seu mestrado, a arquiteta procurou saber por que edifícios vendidos à época como legítimas obras do já renomado modernista não persistiram na historiografia. Para ela, Niemeyer ´tem um discurso muito bem elaborado, em que essa fase não se encaixa´.

FOLHA – Pode-se dizer que as obras paulistanas dos anos 50 compõem um período ´renegado´?

DANIELA VIANA LEAL – É uma frase um pouco forte. É uma fase obscura, pouco comentada. O período parece ter sido intencionalmente colocado de lado.

FOLHA – Qual é a razão para isso?

LEAL – Elaboramos algumas hipóteses: em primeiro lugar, por causa da ausência física do arquiteto. Niemeyer já tinha fama internacional, havia feito a Pampulha e o pavilhão em Nova York. Ele tinha diversos trabalhos encomendados, como o edifício da praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

Usava o sistema de ´escritório-satélite´: continuava no Rio de Janeiro e trabalhava em São Paulo por meio do Banco Nacional Imobiliário. O escritório de São Paulo era chefiado pelo jovem arquiteto Carlos Lemos. Segundo Lemos, Niemeyer ia pouco a São Paulo, para lançamentos e para as ´viradas´: ele passava 48 horas trabalhando quase ininterruptamente para apresentar desenhos para a prefeitura.

Entre o projeto apresentado e a obra, há pequenos ajustes que, no final, não são tão pequenos. Faz sentido que ele tenha aprendido com isso e, logo depois, em Brasília, tenha escolhido ficar integralmente no canteiro de obras.

FOLHA – Quais as outras hipóteses?

LEAL – No caso do edifício Triângulo, por exemplo: o projeto inicial não cabia na legislação urbana da cidade. Ele foi obrigado a mudar o projeto. O segundo projeto ficou completamente diferente do original. O caso do Montreal, que tomo como um ´caso positivo` desse tempo, foi diferente: Niemeyer brigou com a prefeitura. Escreveu: ´Se o projeto não está de acordo com as leis, mudem as leis´. Em outros casos, isso não ocorreu.

As alterações no Triângulo não foram assinadas por ele. O terceiro motivo é que Niemeyer tem um discurso muito bem elaborado, no qual essa fase não se encaixa: é um arquiteto comunista que passou esses anos trabalhando para um banco, produzindo para o mercado imobiliário visando exclusivamente ao lucro -não havia ´função social` nesses projetos. Além disso, na proposta modernista defendida por ele, sempre diz que a função plástica da arquitetura corresponde a necessidades estruturais, funcionais.

FOLHA – Que esses edifícios têm que frustra o projeto de Niemeyer?

LEAL – Por exemplo, o edifício Triângulo era um bloco prismático [em que os andares superiores repetem a estrutura dos inferiores], como o Copan. Mas a legislação exigia que, quanto mais alto o prédio, maior fosse o recuo lateral nos andares superiores -aquela impressão de bolo de noiva. Isso não fazia sentido no projeto de Niemeyer, mas foi alterado.

FOLHA – Chega-se a falar em termos como ´prédios que não funcionaram´, que ´não são Niemeyer´?

LEAL – Ele mesmo me disse uma vez, por telefone: ´Por que está estudando isso? Não há nada que estudar ali´. Mas é claro que os moradores são orgulhosos desses edifícios. Dentro do discurso arquitetônico desenvolvido por Niemeyer, essa seria uma fase de experimentação. Ele fez experimentação estrutural, como o piloti em ´V´, que tem beleza plástica e função estrutural. O número de pilares diminui na base, o que deixa o térreo mais livre, o olhar avança melhor.

O edifício Califórnia, por exemplo, usa esses pilares, mas não funciona com essa lógica: o terreno é cercado, não permite o olhar. E, em São Paulo, os engenheiros não eram os que já trabalhavam com ele e promoviam seu trabalho, portanto o resultado não foi o esperado.

FOLHA – As leis atrapalharam?

LEAL – O Código de Obras Arthur Saboya [de 1929] era defasado. Mas, sob esse mesmo código ultrapassado, outros arquitetos da época conseguiram fazer excelentes exemplares.
Foram construídos nessa época, por exemplo, o Conjunto Nacional e o Três Marias, na avenida Paulista; boa parte de Higienópolis tem arquitetura moderna de qualidade feita sob esse código. Não dá para pôr a culpa só no código.’

 

Nelson de Oliveira

Copan mon amour

‘Chove sobre o Copan, chove muito. Agora faz sol. Calor. Agora chove outra vez. Faz frio. O sol volta, a chuva volta, o calor volta, o frio volta e esse vaivém é parte do plano secreto da natureza que pretende fazer nevar sobre o Copan. A natureza é ardilosa.

Nesse ritmo, logo, logo vai nevar sobre o Copan. Gaúchos, mineiros, cariocas, goianos, pernambucanos, paraenses. Faça chuva ou sol, o país inteiro cabe no Copan. Na quitinete do bloco B cabe o advogado mato-grossense que se separou da mulher e veio para São Paulo, deixando para trás também os dois filhos.

´Todo recomeço é difícil. Não tenho família aqui, mas não dava pra continuar em Cuiabá. As opções eram Rio ou São Paulo. O espaço? Dá pro gasto. É bom. Mas não quero morar aqui pra sempre. Por enquanto vale a pena, o aluguel é baixo. Mas a vizinhança é barra-pesada.` A balconista de rosto amassado -mas bonito-, da lanchonete que fica perto da portaria do bloco D, mora longe.

Trem e metrô na ida e na volta, todo dia. O estudante de arquitetura para quem ela entregou o suco de laranja e o bauru conta que roubaram seu carro no estacionamento do edifício. ´E as câmeras?´, ela quer saber. ´Não pegaram nada. A única apontada para o carro estava quebrada.`

A movimentação vai ficando mais intensa no térreo. Os restaurantes estão mais animados. O porteiro do bloco B aponta: ´Lá vai o senhor síndico´. Saindo do elevador, alguém passa rapidinho e desaparece na multidão. Parecia o Plínio Marcos. Mas não era. Estava bem vestido demais pra ser. O porteiro gosta do síndico. ´Ele é muito honesto e trabalhador. Sua administração melhorou muito as coisas por aqui.`

A amiga do porteiro comenta qualquer coisa, e pelas primeiras palavras percebe-se que ela é baiana da gema. De Mangue Seco, no norte da Bahia. A multidão apressada que freqüenta o Copan não parece moderna nem pós-moderna. Parece sem tempo, eterna. Essa multidão quase sempre assusta. Já a curva de concreto, aço e vidro, essa curva assusta sempre. E comove. E encanta. Curva triste. Curva miserável. Curva sedutora.

Admirando São Paulo do terraço do edifício, o garotão segura a garotona pela cintura, os dois apoiados na grade. Ela pede: ´Tira uma foto´. Ele se desculpa: ´Não dá, a memória tá cheia´. A dois metros, mais garotões e garotonas de olho na cidade, de ouvido na batida que vaza dos fones. Vêm de longe, da periferia. Vêm para ver as pessoas do alto: as que estão no topo ou quase lá (logo ali dois garotões de terno comem sanduíche enquanto conversam) e as que podem ser vistas de cima pra baixo. Depois do sanduíche, o baseado básico antes de voltar ao escritório.

Os turistas mexicanos dão risada de qualquer coisa no céu. O casal argentino caminha para o elevador. As paredes não chegam a gritar, mas murmuram o tempo todo. Quando o elevador pára, a fala do edifício faz eco, monocórdia. Só as crianças, na cabine, tentam responder a essa fala que escorre pelo poço do elevador.

O médico de voz rouca, do apartamento do bloco A, enquanto espera seu café -´o melhor café da cidade é este aqui´-, conta o susto que levou semanas atrás no terraço do Copan. O médico também mexe com teatro, sua voz rouca é muito dramática. A atriz e o fotógrafo, amigos do médico, quiseram conhecer o terraço, admirar a cidade, tirar umas fotos, essas coisas. ´Só que o cara começou a tirar foto da mulher, e a mulher foi se empolgando, se empolgando, e tirou também a roupa. O segurança do terraço ficou pasmado, sem jeito, abobalhado. Quase que ele cai lá de cima.`

Briga

Dois sujeitos de comédia americana da década de 40, um alto e magro, o outro baixo e gordo, brigam em frente à agência de turismo. Gesticulam muito, possuídos pela fúria. O sotaque é carregado. Na verdade, os sotaques: alemão e italiano. Sem legenda. Então, o silêncio: o Copan está pensando.

Na calçada, o jornaleiro e o taxista tiram sarro da cara do porteiro que está indo para casa. Futebol. São adversários, sem ser inimigos. ´O pai-de-santo, hein?´, o jornaleiro debocha. ´Nem com mandinga braba´, o taxista ri. ´Pelo menos a gente escapou do rebaixamento´, o outro se defende. Na calçada, nas lojas, na recepção, nos elevadores, nos corredores, nos apartamentos, todo mundo conversa, comenta, tira sarro, cochicha. Mas o Copan não conversa com o edifício Itália. Nem com o Hilton.

Nem com os outros edifícios vizinhos. O Copan conversa silenciosamente apenas com as pessoas que o atravessam, que trabalham nele, que o habitam, que passam ao largo. Essas pessoas não sabem que são veículos das ruminações do Copan. Ele sussurra no ouvido delas, e elas vão em frente, conversando entre si, espalhando as palavras. Essas pessoas vão para a praça da República, encontram as pessoas que estão vindo do Itália, do Hilton e de outros edifícios, as palavras se misturam. Os edifícios conversam por meio dos homens.
Agora a garoa engrossa, amolecendo essa conversa. Chove sobre o Copan, chove muito.

Agora faz sol. Calor. Agora chove outra vez. Faz frio.

Não há como impedir: um dia vai nevar sobre o Copan.

NELSON DE OLIVEIRA é escritor, autor de ´O Filho do Crucificado` (Ateliê).’

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