Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 15 E 16/12

Folha de S. Paulo

18/12/2007 na edição 464

CINEMA
Igor Gielow

Périplo de cineasta traduz Rússia pós-União Soviética

‘Alexander Kessel sonhava, como todo garoto soviético que cresceu nos anos 70, ser um cosmonauta famoso. Por razões tão tortuosas quanto a história russa das últimas duas décadas, esse judeu ucraniano com sotaque moscovita não foi ao espaço, mas ironicamente é o cosmos o tema que talvez o torne conhecido.

Kessel atende a porta com um sorriso algo desconfiado no rosto, chinelos e cara de sono. Pede para as visitas deixarem seus sapatos à porta e, depois de arrumar um pouco de salmão defumado com pão e abrir uma garrafa de pinot noir californiano, pergunta: ´O que exatamente você quer saber?´.

Bem, no restrito círculo do cinema independente russo, ele ganhou fama, mas a reportagem está lá não só por isso. Afinal de contas, ´Enquanto ele voava´, seu projeto de conclusão do curso da Escola de Diretores e Roteiristas de Moscou, nunca foi lançado comercialmente, apesar de ter ganho dez prêmios internacionais para curtas-metragens desde que foi finalizado em 2006.

Mas é a história de Kessel que atrai: aos 37 anos, ele é um retrato vivo das mudanças que o maior país do mundo vem sofrendo desde que sobreveio aquilo que o presidente Vladimir Putin chama de ´o maior desastre geopolítico do século 20´, o fim da União Soviética.

´Também queria ser cineasta, é verdade, só que eu levei a sério a minha tentativa de ir para o espaço´, conta Kessel. Em ´Enquanto ele voava´, os desejos se fundem: em 35 minutos de uma narrativa precisa e delicada, é contada uma história alternativa do dia 12 de abril de 1961, quando a União Soviética lançou Iuri Gagarin ao espaço.

O filme enfoca a órfã sonhadora Masha, que ganhou fama ao receber Gagarin com um pote de leite quando ele aterrou em Smelovka, no sul da Rússia. O primeiro homem a ir ao espaço desceu de pára-quedas, tendo abandonado a cápsula no meio do caminho ao solo, um ato de bravura nunca depois repetido.

Tendo mudado aos quatro anos para Moscou, onde o pai russo trabalhava como engenheiro para o governo e a mãe ucraniana cuidava da casa, Kessel era um dos que se impressionavam com a história de Gagarin, mas estava longe do primeiro passo para seu objetivo: a escola de pilotagem da Força Aérea em Volgogrado.

Aos 15 anos, ele completou os estudos secundários e foi para a cidade. Durante dois anos, apesar das boas notas nos exames, não conseguia entrar. A resposta, diz ele, estava em seu passaporte: no item ´nacionalidade´, estava escrito ´judeu´, e não ´ucraniano´.

´Eu nunca quis mudar isso. Sou o que sou.` Judeus não tinham muitas chances na terra do comunismo, e 1 milhão de pessoas emigraram a Israel com o fim do país.

Frustrado, Kessel voltou a Moscou e entrou no Exército para poder freqüentar o departamento de ciências espaciais na universidade militar. Novamente, não deu certo: em 1988, aos 18 anos, foi mandado para a antiga Alemanha Oriental.

Havia 380 mil soldados soviéticos naquela que era a linha de frente da Guerra Fria. O grau de prontidão era o maior do mundo. ´Estávamos prontos para entrar em ação total em menos de oito horas. Só pararíamos em Paris´, conta Kessel, que foi servir como cabo em Rathenow, em Brandenburgo, a poucos quilômetros da fronteira ocidental.

Eram 2.000 soldados no quartel, e Kessel foi treinado para ser comandante de tanque, recebendo o equipamento mais moderno à disposição do Exército Vermelho à época, o T-80. Apenas 15% dos tanques soviéticos eram desse modelo, e quase todos estavam na Alemanha comunista.

´Eu praticamente só estava no quartel para alguma troca de comando e nas eleições, quando tínhamos de votar em algum comissário. Não é muito diferente do que acontece nessas eleições agora´, brinca ele, que diz ´odiar Putin´. No resto do tempo, pilotava tanques.

Kessel não pensava muito no apocalipse -ou algo similar- que aconteceria caso tivesse de executar suas ordens. ´Uma vez, estávamos patrulhando a fronteira junto ao rio Elba e vimos blindados ocidentais da outra margem. O que eles pensavam? Nós fazíamos o que nos mandavam fazer.´

Kessel estava mais preocupado com as pequenas diversões da vida militar -basicamente, descumprir uma longa lista de proibições. A mais bizarra era a caça ao cervo, abundante em Rathenow, usando como arma o canhão de 125 milímetros do T-80. ´Só que, para não destroçarmos o bicho, substituíamos o projétil por um pedaço de pão preto duro. Colocávamos a carga explosiva e o pão. Quando atingia o veado, ele morria com o choque.´

Cerveja

O contato com os locais, e principalmente as locais, era outra diversão vetada. Kessel se desculpa e não fala muito sobre a óbvia corte às moças, sob o olhar inquisitivo de sua mulher, Irina, com quem está casado há 11 anos e tem duas filhas pequenas, Bela, 5, e Sophia, 3.

Certa vez, houve um exercício militar em que os soldados ficavam espalhados pelos perímetros, longe dos olhos dos oficiais. Kessel recebeu dos companheiros uma missão arriscada: comprar cerveja com o dinheiro recolhido entre os sentinelas. O problema é que Kessel não falava alemão, apenas uma ou outra palavra. Com isso, ´Lebensmittel` (comida) para ele era o equivalente a loja de alimentos, já que em russo elas se chamam simplesmente ´Produkti` (produtos).

´Lá fui eu, carregando um rádio enorme com uma antena de dois metros de altura nas costas. Parei numa casa, eram umas 9h, e falei para um velhinho: ´Lebensmittel´. Ele voltou com um pedaço de pão, provavelmente achando que os russos tratam muito mal seus soldados´, ri Kessel.

Ele se fez entender e conseguiu entrar numa loja. Ficou impressionado com a variedades de produtos -a Alemanha Oriental tinha o melhor padrão de vida do bloco soviético. E pelo menos cinco tipos de cerveja. Sem saber qual escolher, pegou as maiores garrafas e botou nos bolsos dez unidades. Voltou ao quartel, quase apanhando dos colegas: era uma cerveja sem álcool para gestantes.

Em 1989, o isolamento da vida militar não lhe dava idéia do rumo da história. ´Só sabia que havia uma grande merda acontecendo, mas ninguém nos contava nada e não podíamos ter rádios´, diz ele, que só ficou sabendo da queda do Muro de Berlim duas semanas após 9 de novembro daquele ano.

´Só entendi o que acontecia quando vimos um dia um bando de alemães ocidentais passeando de Harley-Davidson na cidade´, lembra. Em junho de 1990, seu termo expirou, e ele foi colocado em um avião de carga de volta para casa.

Quando chegou a Moscou, falou com amigos e pensou em virar diplomata. ´O Mgimo [sigla russa para Instituto Estatal para Relações Internacionais de Moscou] não aceitava nem mulher nem judeu. Mas novamente eu insisti´, disse Kessel, Alex para os amigos mas próximos. Um deles é Ruslan Pukhov, três anos mais novo, que ele conheceu nos cursos preparatórios para tentar entrar no Mgimo.

´Ele era cabeça-dura e acabou conseguindo, o que foi uma surpresa generalizada ou um sinal de que realmente as coisas tinham mudado´, diz Pukhov, hoje diretor de um think-tank militar. ´Ele já falava em fazer um filme. A gente ironizava: ´É, você vai mesmo ser o [Federico] Fellini russo´.´

Foram anos difíceis. Na União Soviética, cursar o Mgimo significava vida ganha. Com a desintegração do país, tudo ficou incerto. Durante os seis anos em que ficaram no Mgimo, Kessel e seus amigos tiveram de se virar. ´No começo, ganhávamos 40 rublos de ajuda oficial; ao fim, 6.000 rublos. Pouco importa, era sempre o suficiente só para duas refeições ao mês´, afirma Pukhov.

Crupiê

A maioria dos alunos ia dar aula de línguas ou trabalhar na Intourist, a estatal de turismo. Mas Kessel inovou: virou crupiê no recém-aberto cassino da rua Novy Arbat. ´Ganhávamos o equivalente a US$ 700, mas no fim do mês as gorjetas garantiam cerca de US$ 1.100. Estava rico´, conta ele, que estudou alemão e inglês.

O problema é que ele tinha de trabalhar quase a noite toda, e o ritmo dos estudos era puxado. Pagou o preço: quando dormiu pela segunda vez em uma semana sobre a mesa de ´blackjack´, foi demitido. Era 1994, e ele foi trabalhar como analista no Rossiskie Kredit, o segundo maior dos 2.000 bancos que proliferaram na confusão econômica dos anos Ieltsin. ´Ganhava três vezes menos, mas pelo menos não tinha mais olheiras.´

Quando deixou o Mgimo, em 1996, encontrou um amigo que lhe ofereceu um emprego de relações-públicas para a Adidas em Paris. Voltou a juntar dinheiro, comprando em 1997 o apartamento em que mora às margens do rio Moscou.

Fez um ótimo negócio. Kessel vive em um prédio cujas áreas comuns lembram as de um cortiço, já que não há administração de condomínios na Rússia. Datado dos anos 30, erguido para a burocracia comunista, o prédio tinha vários andares abandonados. Kessel comprou primeiro um por US$ 110 mil e, depois, outro no andar de cima por US$ 90 mil. Reformou tudo e montou um dúplex que hoje, dez anos depois, vale mais de US$ 2 milhões.

Nessa época conheceu Irina, cinco anos mais nova, e em 1999 começou a trabalhar na ORT, maior canal estatal russo. Era o que chama de ´diretor de marketing ativo` -ou seja, levantava dinheiro entre anunciantes. Ganhou o equivalente a US$ 10 mil mensais, durante os cinco anos lá. ´Foi quando vi que poderia tentar realizar meu segundo sonho, já que para ir ao espaço iria precisar de mais dinheiro.´

Em dois anos, esse fã do polonês Krystof Kieslowski cursou a escola de direção e, com US$ 50 mil do próprio bolso, rodou ´Enquanto ele voava´. Conhecidos da TV gostaram do que viram e mandaram o DVD para alguns festivais de curta-metragens. Foi um sucesso alternativo, encabeçando a mostra de curtas do Kinovtar, o Sundance Festival russo, em 2006.

´Fui premiado mais recentemente em Teerã. Acho que eles não souberam que eu sou judeu´, brinca. ´Mas o problema é encontrar espaço para algo independente do Estado.´

Nem Kessel nem Irina votaram nas eleições parlamentares de 2 de dezembro, que confirmaram o domínio total de Putin no Parlamento. ´Eu só estou esperando o patriarca ortodoxo Alexei 2º vir a público dizer que Putin foi escolhido por Deus e toda a Rússia tem de aceitá-lo como czar. Não consigo suportar isso, embora não possa me queixar muito do ponto de vista prático´, afirma o cineasta, lembrando que voltou ao cargo da TV estatal -ganhando o dobro do que em sua primeira passagem.

Cinismo típico da era Putin? ´Talvez, mas ainda quero fazer filmes, no plural´, despediu-se Kessel, um representante bem-acabado do ´zeitgeist` da Rússia do século 21.’

 

Marco Aurélio Canônico

´O que eu sinto falta hoje em dia é de classe´, diz ator

‘O clima no corredor do hotel onde, no último domingo, uma dúzia de repórteres esperava sua vez para entrevistar Jack Nicholson era de apreensão, para não dizer terror.

Não apenas porque, sentado no quarto, fumando cigarros em cadeia e beliscando pedaços de melancia, estaria um dos maiores atores da história do cinema, mas principalmente porque, no dia anterior, durante uma entrevista coletiva, Nicholson havia arrasado um jornalista por causa de uma pergunta de que não gostou.

´O que resta para interpretar depois de fazerem dois velhos moribundos?` foi a questão de um jovem repórter à dupla Nicholson e Morgan Freeman, que estava ali para falar de seus papéis em ´Antes de Partir´, com estréia prevista no Brasil para 15 de fevereiro.

A cara de desgosto de Nicholson, afundado na cadeira e escondido atrás de seus óculos escuros, foi instantânea e provocou risadas da platéia. ´Um serial killer que mata as pessoas por causa de perguntas idiotas´, respondeu o ator.

À grosseria acrescentou um ´ho, ho, ho` sinistro e completou dizendo que não era de ´afagar a imprensa estrangeira para ganhar elogios´. ´Tira essa merda de boné´, prosseguiu, agora já convicto em sua atuação. ´Está com medo?´, finalizou, instalando um clima de ´meu Deus, baixou o ´Iluminado` na sala.

Depois desse começo, seria difícil a coisa ficar pior (e, realmente, não ficou; Nicholson estava mau humorado, mas até se desculparia, no meio de outra pergunta, pelo ataque inicial). De qualquer modo, estava criada a expectativa para entrevistas tensas no dia seguinte, como a que a Folha faria com ele.

As esperanças de não ser atacado à base de sapatadas (como o personagem de Leonardo DiCaprio em ´Os Infiltrados´) residiam em uma frase da estrela: ´Com meus óculos de sol, sou Jack Nicholson. Sem eles, sou um gordo de 70 anos´. Para alívio do repórter, o homem que recebeu a Folha -além de uma jornalista argentina- estava sem óculos.

Era o gordo de 70 anos (completados em 22 de abril), com seu característico sorriso do gato de Alice. Estava cansado (´Não ajudou ficar acordado até as 5h assistindo a uma luta de boxe´, justifica-se), mas bem humorado e bem falante -consumiu os 20 minutos da conversa respondendo a apenas seis perguntas.

Na conversa, cujos principais trechos estão abaixo, deu alfinetadas no novo Coringa, falou sobre suas ligações com a nouvelle vague, sua amizade com o diretor Hector Babenco e seu projeto de adaptar Philip Roth.

NOVO CORINGA

Adoraria fazer o Coringa de novo [em ´The Dark Knight´, que estréia em 2008], mas não fiquei furioso por não ter sido convidado [como havia dito à MTV]. Só digo essas coisas quando estou fingindo ser uma diva. Não temo ninguém que interprete um papel após eu tê-lo feito.

VIAGEM AO RIO

Já estive no Rio, mas, como o pessoal de lá diz, todos os visitantes falam sobre o quanto amam a cidade, mas não voltam uma segunda vez [ri, com a jornalista argentina]. Mas é claro que eu adoraria voltar ao Rio, foi uma viagem fantástica. E sempre quis ir a Buenos Aires também, nas fotos você vê quão chique era nos anos 30 e 40. Ainda não fui lá, está na minha ´lista de coisas para fazer antes de morrer` [´bucket list´, título original de ´Antes de Partir´].

MEU AMIGO BABENCO

Hector é fabuloso, quando me perguntam sobre os filmes de que gosto e que acho que não foram devidamente reconhecidos, ´Ironweed` é sempre o primeiro que cito, ele fez um grande filme. Hector é uma dessas pessoas que podem ser muito divertidas e extremamente sérias, adoro isso nele. Sei muito mais sobre ele do que sobre outras pessoas com quem trabalhei e que moram em outros lugares. É um amigo querido. Se o entrevistarem, perguntem a história sobre o irmão dele [veja texto na outra página]. Ele vai querer me matar e matar vocês, mas vai contar.

NOUVELLE VAGUE

Levei meus filmes proibidos [como ´Viagem ao Mundo da Alucinação´, 1967, com roteiro seu] para Paris, na verdade os contrabandeei e, na primeira exibição, estava Godard que, por acaso, gostou dos filmes.

Em minha primeira temporada na Europa, sem um tostão, ele me abrigou sob sua asa e, no fim da jornada, no festival de Pesaro, na Itália, eu estava sentado com a delegação da ´Cahiers du Cinéma` discutindo as mais variadas idéias sobre filmes. Conheci Bernardo [Bertolucci] lá, éramos garotos dedicados, ficamos acordados até as 4h por causa de uma palestra com Pasolini e o reitor da Sourbonne discutindo qual era a unidade básica de linguagem na sintaxe do cinema, se a tomada ou seu conteúdo.

Antes de chegar ao festival, Godard havia feito a declaração de que ´um filme deve ter começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem´. Esse tipo de declaração existe porque é estimulante. Roubei muito da nouvelle vague para ´Antes de Partir´.

Adoro os filmes, não só do movimento mas dos teóricos da época, Kurosawa, Antonioni, posso nomear 15 grandes diretores italianos trabalhando naquela época.

CINÉFILO

Hoje em dia não vemos os filmes estrangeiros aqui, eles não os distribuem como costumavam. Antes, víamos uma obra-prima por semana, foi assim por 14 anos. Bergman, Kurosawa, De Sica, Pasolini, Bertolucci, Truffaut, Resnais, cada semana era alguém. Não sabíamos, mas era a melhor educação possível. Além disso, eles adoravam os filmes americanos tanto quanto, Huston, Ford, Hawks. Essa é a parte boa de pertencer à indústria cinematográfica, não gostamos de admitir, mas somos muito sentimentais sobre as tradições.

Ainda assisto aos filmes como cinéfilo, mas a indústria mudou, foi tomada por conglomerados. Um filme que faz, digamos, US$ 10 milhões, não significa nada porque agora se lida com centenas de milhões. Uma empresa de filmes é, de certo modo, só um departamento de organizações maiores, mesmo para as pessoas que assistem aos filmes a sensação de sucesso fica distorcida por esses parâmetros, é difícil encaixar cinema de autor nesse conceito.

FALTA DE CLASSE

O que eu sinto falta hoje em dia é de classe, essa era uma palavra que se ouvia muito antes, não apenas sobre os filmes. ´Aquele cavalo tinha classe´, ´aquele lutador tinha classe´, ´aquele era um pintor de classe´. Gostaria de ouvir mais isso, é algo que me deixa nostálgico.

Pelo modo como eles a usavam, eu sabia exatamente o que queriam dizer: sem truques, sem tolerar estupidez, sem comprar afeições, sem escolher o caminho fácil, sem fazer o que eu faço, ficar se promovendo. Sinto falta dessa palavra no repertório da nossa indústria, é quase embaraçosa para algumas pessoas, acham que é ingenuidade se preocupar com esse tipo de coisa. A influência dos conglomerados no mundo é a última instância, todos os outros valores são desprezados, e isso não é bom para nós.

PROJETOS

Eu venho querendo reler ´O Teatro de Sabbath´, de [Philip] Roth. Li todo o Roth que caiu nas minhas mãos enquanto fazia ´As Confissões de Schmidt` [2002], e esse é um projeto. A coisa mais difícil de achar, tanto na literatura quanto em roteiros, é um componente sexual para um personagem mais velho. O filme que Nicole [Kidman] e Anthony Hopkins fizeram [´Revelação´, baseado em ´A Marca Humana´, de Roth] tinha esse componente, não tenho certeza sobre ´O Teatro de Sabbath´, mas acho que tem, o personagem tem uma relação louca com uma húngara. Há também biografias que as pessoas vivem dizendo que deveriam ser feitas, Tesla, Napoleão, sobre quem eu preferiria dirigir um filme em vez de atuar, porque estou muito velho, segundo dizem.

O repórter MARCO AURÉLIO CANÔNICO viajou a convite da Warner Bros.’

 

´Devo a ele muito da minha formação como homem e diretor´, diz Babenco

‘Jack Nicholson menciona Hector Babenco antes mesmo da entrevista para Brasil e Argentina -onde o tema seria natural, já que o cineasta nasceu lá e se radicou aqui.

Na entrevista coletiva um dia antes, o ator citara a colaboração com Babenco durante a edição de ´Ironweed` (1987), o filme em que trabalharam juntos e que valeu a Nicholson uma indicação ao Oscar.

À Folha Babenco descreve a interação com o ator como ´um processo orgânico´.

´Lembro de uma cena que estávamos filmando num salão e em que pedi para ele ficar mais próximo da luz. Ele me disse que não precisava, que podia ficar na penumbra porque todos saberiam que ele estava ali, não precisavam vê-lo.´

´Ele trabalha com uma outra dimensão, o pressentimento de que é ele é mais importante do que vê-lo literalmente.´

Lobo solitário

O diretor de ´Carandiru` é enfático ao falar da importância de sua relação com o ator.

´Devo a ele muito da minha formação, primeiro como homem, depois como profissional. Ele é um lobo solitário, um homem com um viés existencial muito complexo, um sobrevivente, varou décadas e gerações da cultura norte-americana e, por intuição e inteligência, sempre esteve na vanguarda.´

O cineasta é elusivo quando o repórter questiona, como Nicholson havia recomendado, sobre a história com seu irmão.

´Tive um câncer, estava morrendo e fiz um transplante de medula óssea, meu irmão foi o doador. Houve algumas conotações curiosas, mas são coisas muito íntimas, isso é uma mensagem cifrada que ele me mandou. Somos sobreviventes.´’

 

Sérgio Rizzo

Personagens de Jack Nicholson vocalizaram a rebeldia de uma época

‘A exemplo de Francis Coppola, Martin Scorsese, Peter Fonda e Bruce Dern, Jack Nicholson cursou a ´Escola de Cinema de Guerrilha Roger Corman´, como o diretor Peter Bogdanovich -outro ilustre ex-aluno- se refere à American International Pictures, para a qual todos trabalharam nos anos 60.

Especializada em filmes ´B` para circulação em salas populares, rodados em poucos dias com baixíssimo orçamento, a produtora de Corman foi a principal incubadora dos talentos que, na virada para a década de 70, ajudariam a desenhar, no processo de revitalização da indústria norte-americana, a ´nova Hollywood´.

A tomada do poder por essa geração tem uma de suas melhores traduções na carreira de Nicholson, há quase 50 anos na ribalta. O primeiro estágio, ainda no anonimato, foi o de aprendizado em filmes como ´A Pequena Loja dos Horrores` (1960) e ´O Terror` (1963), no qual Coppola trabalhou como assistente de direção.

O próprio Corman diz, no documentário ´Uma Década sob a Influência` (2003), que acreditava no futuro dessa turma, mas não imaginava que ela iria tão longe. Para Jack Nicholson, o rito de passagem foi ´Sem Destino` (69), que lhe valeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante.

Transformado em ícone da ´nova Hollywood´, o filme de Dennis Hopper enterrou o ´código Hays´, usado desde a década de 30 como instrumento de auto-censura da indústria, e apontou para a incorporação de valores da cultura hippie como oportunidade de sintonia com o público jovem, então distante da produção norte-americana.

Rebeldia

O espírito de rebeldia do período, ácido em relação à presença dos EUA no Vietnã, ao vazio da sociedade de consumo e ao papel repressivo de instituições como governo, família e escola, foi vocalizado com eficiência por seus personagens em ´Cada um Vive como Quer` (70), ´Ânsia de Amar` (71), ´A Última Missão` (73) e ´Um Estranho no Ninho` (75).

Junte ao pacote filmes como ´Chinatown` (1974) e ´O Passageiro – Profissão: Repórter` (1975), hoje clássicos, e em pouco mais de cinco anos Jack Nicholson já era um astro, um dos principais indícios de que as antigas regras do estrelato masculino em Hollywood haviam sido revogadas.

Como o seu amigo Bruce Dern observa em ´Uma Década sob a Influência´, era o triunfo do homem comum, demonstrado também pelo êxito de Gene Hackman, Robert De Niro e Al Pacino, entre outros atores que despontaram naquele momento.

A fama, o poder e a mudança de ares na sociedade foram aos poucos diluindo em Nicholson a rebeldia desses anos gloriosos. Há algo no olhar de seus personagens, entretanto, que mantém viva a lembrança daquela saudável tensão criativa, do zelador de ´O Iluminado` (1980) ao aposentado de ´As Confissões de Schmidt` (2002), do Coringa de ´Batman` (1989) ao neurótico de ´Melhor É Impossível` (1997).’

 

Maria Bochicchio

´Tenho furor de sobra´

‘Manoel de Oliveira, que fez 99 anos na última quarta-feira, é o mais antigo diretor em atividade. Premiado nos principais festivais internacionais e com mais de 40 filmes no currículo, sendo ´Cristóvão Colombo` o mais recente, Oliveira revisita a vida e a obra, passando pelo Porto da sua infância, os filmes que o marcaram desde o mudo, sem esquecer a relação nem sempre fácil com o público. Mas parar está fora de questão, e o português que praticamente viu nascer o cinema deseja apenas filmar até ao fim, como diz na entrevista a seguir, concedida à Folha em sua casa, na cidade do Porto.

FOLHA – Como começou essa longa aventura de diretor?

MANOEL DE OLIVEIRA – Comecei em 1929 com uma Kinamo, uma máquina pequenina, que levava 30 metros de película, comprada pelo meu pai. Cada cena não podia ter mais que 8 metros de película. Muito influenciado pela técnica de Walther Ruttman [1887-1941], pensei em dirigir um filme sobre a Ribeira [zona histórica da cidade do Porto]. Mas faltava-me tudo, não tinha fotógrafo, depois felizmente lá encontrei um amigo para a fotografia que mais tarde desistiu. Aí, passei eu a fazer tudo, depois de passar por uma escola alemã: fotografia, produção, argumento, direção. E os atores eram locais, por causa do dinheiro que faltava.

FOLHA – Se começou em 1929, ainda com o cinema mudo, então é o mais antigo diretor em atividade.

OLIVEIRA – Em atividade, talvez, mas o mais antigo são Lumière, e depois Méliès e por aí afora.

FOLHA – Que relação tem com o seu passado?

OLIVEIRA – Não contemplo o passado com ironia, mas olho para ele como algo de carnal. Penso nas coisas que me foram muito familiares. E penso na juventude, claro, a juventude perdida que não volta. Mas sou feliz, embora a felicidade seja sempre algo de que nos apercebemos a posteriori.

FOLHA – Durante seus 99 anos, o cinema foi sempre a primeira paixão?

OLIVEIRA – Eu pratiquei outras atividades, fui atleta, corredor de automóveis, mas o cinema esteve sempre em primeiro lugar, e a minha primeira aspiração era ser ator cômico.

FOLHA – Como Buster Keaton?

OLIVEIRA – Sim, Buster Keaton, Charlie Chaplin e todos esses cômicos que eu me lembro de ver com seis anos, quando o meu pai me levava a um cinema ainda incipiente, uma barraca, não mais. Lembro-me de Georges Méliès, dos irmãos Marx… Enfim, é um tempo que passou.

FOLHA – Alguns críticos dizem que os seus filmes abusam dos planos fixos. Concorda com eles?

OLIVEIRA – Engraçado que me faça essa pergunta, porque eu cheguei a freqüentar um dia só uma escola de cinema, em Portugal, com Rino Lupo, um dos pioneiros do cinema clássico italiano, e aquilo que mais me incomodava nele era esse abuso de planos fixos.

Eu e meu irmão, que lá andávamos juntos porque tínhamos entrado como figurantes em ´Fátima Milagrosa´, que Lupo dirigira, ainda lhe dizíamos que o cinema era montagem, o Eisenstein [1898-1948] já estava a fazer os seus filmes, e tudo aquilo me parecia ainda um pouco parado. Por isso considero-me um autodidata, um apaixonado pelos filmes, onde aprendi tudo, assistindo a eles.

FOLHA – Como o sr. se define como diretor?

OLIVEIRA – Certamente não como um criador. Toda criação é uma recriação, não há nada que não exista antes: nenhuma forma, nenhum desenho; já está tudo na natureza. Por isso serei um recriador porque o único verdadeiro criador é Deus, porque é andrógino, isto é, não precisa de um duplo para criar.

FOLHA – Em 76 anos de atividade, quais foram as principais mudanças na arte cinematográfica?

OLIVEIRA – No início ninguém apostava seriamente no cinema, era uma atração de feira, nem Lumière acreditava que seria uma arte para durar. Mas depois aconteceu uma evolução profunda que criou um cinema mais rico, mais complexo, mais intelectualizado. E surgiram Chaplin, Buñuel com aquele lado perverso, Welles e o grande John Ford. Mas depois, mais tarde, surgiram também filibusteiros geniais, como Fellini ou Bergman, que gostam de espreitar pela fechadura. Anjos pornográficos, como diria Nelson Rodrigues. Mas aquele que mais admiro é o dinamarquês Carl Theodor Dreyer [1889-1968], com seu último filme.

FOLHA – O ´Gertrud´?

OLIVEIRA – Exatamente, que tende a tocar o absoluto.

FOLHA – O que ainda procura em seus filmes?

OLIVEIRA – O de sempre: chegar à perfeição e ao absoluto.

FOLHA – Concorda com aqueles que dizem que a sua obra manifesta uma certa preocupação espiritual?

OLIVEIRA – Espiritual no sentido de conhecer o mundo, o princípio da nossa natureza, o que significa Deus e o que significamos nós, criaturas. Além disso, fui educado católico e não posso escapar à dúvida. Nós, ao ignorarmos a profunda razão do sentido mais concreto da existência do mundo e do criador, ficamos com um mistério.

FOLHA – Mas é um homem de fé?

OLIVEIRA – Isso é outro mistério, porque eu próprio não sei. O que sei é que existe um sentimento religioso, que não corresponde a nenhuma igreja, é um sentimento nato.

FOLHA – E a vida cotidiana, como se sente nas tarefas do dia-a-dia afastado do seu set cinematográfico?

OLIVEIRA – Eu tenho uma família numerosa e unida à minha volta: mulher, filhos, netos e bisnetos! E não é fácil equilibrar esse lado familiar com o cinema, que me rouba tempo e energia. Mas gostava de deixar tudo em ordem para eles não terem complicações.

FOLHA – Costuma dizer que a direção lhe dá prazer. Que significa esse ´prazer´?

OLIVEIRA – Eu acho que criamos para contar aquilo que nos impressiona. E por que contamos? Por prazer? Por necessidade de nos libertarmos daquilo que está na nossa consciência? Existe um impulso interior de contar, uma necessidade, não é simplesmente o prazer pelo prazer, é uma necessidade de libertação.

FOLHA – É um diretor muito produtivo, há quase três décadas que faz um filme por ano. Em 2006-2007 foram dois, ´Belle Toujours – Sempre Bela` e ´Cristóvão Colombo´. Como lhe surge a idéia de um filme?

OLIVEIRA – No caso de ´Belle Toujours` não era possível fazer a continuação de ´Belle de Jour` [A Bela da Tarde], de Buñuel. A idéia surgiu de uma lágrima no rosto do protagonista e de uma dúvida: será que o segredo foi revelado? Noutros filmes, não posso explicar, acontece, vem por acaso, se é que alguma coisa vem por acaso ou se tudo não está já determinado.

FOLHA – E a sua relação com o público, melhorou?

OLIVEIRA – Não há público ideal. Nada há de mais consolador para qualquer artista que a compreensão do seu trabalho. Porque o espectador completa o filme. Há muita coisa que é subconsciente no diretor, mas cada espectador interpreta à sua maneira e enriquece o filme.

FOLHA – E com os atores? Que tipo de relação estabelece com eles?

OLIVEIRA – A única pessoa com quem sou um tirano é comigo mesmo. Com os atores, não. Eu compreendo a complexidade dos atores e valorizo muito a espontaneidade deles. Faço as marcações, mas raramente intervenho porque sei que o que vier deles é o melhor.

FOLHA – O seu novo filme nos traz Cristóvão Colombo. É um enigma fascinante?

OLIVEIRA – Sem dúvida, porque vários países europeus -a Itália, a Espanha e agora Portugal, embora todos sem comprovação- o reclamam como seu. Mas não estou interessado na alegada identidade portuguesa de Colombo, o filme não é patriótico nem romântico nem preocupado com o heroísmo do personagem, ligado aos descobrimentos peninsulares. Interesso-me pelo lado mais histórico, pela origem das coisas, da globalização corrente como casamento entre sociedades várias.

FOLHA – Tem medo de que sua veia artística se possa esgotar?

OLIVEIRA – Furor tenho de sobra! Assim me sobrassem os meios para fazer filmes contra a corrente, de resistência, não com sexo pelo sexo, violência pela violência, mas filmes pausados, mais serenos, reflexivos.

FOLHA – O Manoel é o decano dos diretores. Qual é o seu lugar na história do cinema?

OLIVEIRA – O cinema é uma árvore frondosa, e cada diretor acrescenta apenas uma folha mais. E eu, como as árvores, gostaria de morrer de pé. Gostaria de morrer a filmar.’

 

HISTÓRIA
Boris Fausto

Na companhia de dom João

‘A chamada transmigração da família real para o Brasil, que completa 200 anos em 2008, dará lugar às costumeiras historinhas, como a voracidade de dom João 6º ou a ´maldade` da imperatriz Carlota Joaquina.

Porém poderá também propiciar uma controvérsia historiográfica importante, em torno não só do episódio como das raízes da Independência e seu significado.

Deixando de lado outras interpretações menos significativas, há duas visões básicas e em confronto acerca daquele período, que abrangem temas vitais: a construção do Estado brasileiro, a unidade do país, a formação da identidade nacional. Ambas destacam a importância da vinda da família real para o Brasil, mas com sinais trocados.

Comecemos pela primeira versão -a mais tradicional, a mais assentada-, que tem como expressão ilustre o historiador José Murilo de Carvalho, curiosamente, um dos principais renovadores da nossa historiografia.

Os pontos de vista de José Murilo estão até certo ponto expressos na entrevista publicada no Mais! [de 25/11].

Diz ele que, se dom João 6º, naquela altura príncipe regente, tivesse decidido ficar em Portugal, o Brasil com certeza não existiria -a colônia se fragmentaria, como ocorreu com a América ibérica.

Ao contrário, em resultado das circunstâncias e da ação humana, num processo que só se consolidaria em meados do século 19, com o fim da Revolução Praieira (Pernambuco, 1848), a vinda de dom João 6º e da família real foi uma condição necessária para que se forjasse a unidade da antiga colônia portuguesa e se instituísse a monarquia.

Na entrevista, não fosse um bom mineiro, José Murilo diz que desse processo resultou o Brasil de hoje; se para bem ou para mal, é Guimarães Rosa quem decide: ´Pãos ou pães, questão de opiniães´. Mas quem leu seus importantes trabalhos sabe que ele vê com bons olhos os anos em que ´a colônia virou metrópole´.

Mais ainda, o entusiasmo de José Murilo pela figura de dom Pedro 2º, manifestado claramente na biografia que escreveu sobre o monarca (´Dom Pedro 2º´, Companhia das Letras), contrastando-a com os barões conservadores do Império, leva-o a valorizar o Segundo Reinado na comparação com a República, nascida com a mácula da intervenção militar.

Visão negativa

A segunda versão do período tem como principal figura outro historiador de primeira linha, o pernambucano Evaldo Cabral de Mello. Presente no mesmo número do Mais!, Evaldo bate de frente com as comemorações pela vinda da família real para o Brasil.

Em seus livros (´A Outra Independência´, ed. 34, ´A Ferida de Narciso – Ensaio de História Regional´, Senac-SP), Cabral de Mello lança dúvidas sobre os postulados da unidade do país e da construção da identidade nacional, pela via de um projeto extremamente conservador.

Ele tem uma visão francamente negativa da presença de dom João 6º no Rio de Janeiro, afirmando que o Rio se transformou, em seu tempo, numa cidade portuguesa, enquanto uma corte parasitária explorou as Províncias, como aliás iria ocorrer também ao longo do Império.

O ponto de vista de Cabral de Mello tem antigas raízes regionais, como se vê com o exemplo do republicano Afonso de Albuquerque Melo, que publicou no Recife, em 1864, ´A Liberdade no Brasil – Seu Nascimento, Vida, Morte e Sepultura´. Em ´A Ferida de Narciso´, ele cita vários trechos demolidores desse trabalho.

É curioso como, num período de estabilidade do Segundo Reinado, investe contra a ´fatalidade` lastimável da vinda da corte para o Brasil, lamentando que fosse ela ´hoje bendita´, a ponto de agradecer à providência divina que nos dera assim ´uma monarquia, um povo feliz e não sei que mais´, poupando-nos à sorte das vizinhas repúblicas espanholas.

Cabral de Mello acentua que a Independência do Brasil, na forma como se deu, foi um projeto da burocracia da corte e das elites econômicas do centro-sul.

Entre outras coisas -diz ele-, a Independência implicou a sufocação dos movimentos regionais, em especial os do Nordeste, cujas bandeiras eram, com gradações e variações, o republicanismo, a extinção da escravatura, a implantação de um regime federativo e a autonomia provincial, sem ignorar a composição heterogênea desses movimentos. Entre outros exemplos, cita o caso da Revolução Praieira, que agregou senhores de engenho e a plebe urbana, com reivindicações díspares.

Razões

Quem tem razão? -perguntaria o leitor, insatisfeito com a saída pela porta das ´opiniães´. Seria irresponsável, da minha parte, enveredar em poucas linhas por uma apreciação que merece um ensaio. Com essa ressalva, creio que ambas as interpretações têm virtudes e problemas.

Exemplificando, há boas razões para acreditar que a fragmentação da colônia levaria a um quadro de guerras e de caos que, comparativamente, atrasou a formação da Argentina moderna, antes de aquele país empreender um crescimento extraordinário.

Ao mesmo tempo, não é possível visualizar o Segundo Reinado pelas lentes de dom Pedro 2º. A erudição, o espírito liberal, as maneiras simples do imperador não servem para ocultar o atraso de um país de analfabetos, clientelista, manchado por um sistema escravista encravado na sociedade.

BORIS FAUSTO , historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional) da USP. É autor de, entre outros, ´A Revolução de 30` (Cia. das Letras).’

 

WSJ SOB MURDOCH

Richard Perez-Pena

Murdoch recria o ‘Wall Street Journal’

‘DO ‘NEW YORK TIMES’ – Nos últimos meses, Rupert Murdoch transferiu seu escritório para a sede da Dow Jones, a empresa que publica o ‘Wall Street Journal’. Ele pressionou os editores do jornal por artigos mais curtos e um formato noticioso mais objetivo. Tentou estabelecer contatos pessoais com os repórteres que não quer ver roubados pelos rivais. E, na semana retrasada, supervisionou a substituição de diversos executivos do jornal, entre os quais seu diretor editorial, substituindo-os por pessoas de sua confiança.

E isso aconteceu antes mesmo de ele adquirir formalmente a empresa, o que ocorreu na última quinta, quando os acionistas da Dow Jones aprovaram venda da empresa à News Corp., a companhia de Murdoch. Mas ele não esperou pela conclusão das formalidades para tomar as rédeas do ‘Wall Street Journal’, dando início a um processo que equivale a uma reforma geral da aparência, conteúdo e equipe de um dos mais cobiçados jornais do mundo.

‘Ele não está perdendo tempo’, disse um executivo da Dow Jones que, como a maioria dos entrevistados, não quis que seu nome fosse revelado. ‘Já está no comando, tomando decisões. Sabemos que é assim que ele opera, mas é impressionante assistir ao processo.’

Para os repórteres e editores do ‘Wall Street Journal’, o momento é tanto de ansiedade quanto de antecipação sobre o que pode acontecer ao final de mais de um século de controle do jornal pela família Bancroft. Durante a prolongada batalha de aquisição, no segundo e terceiro trimestres, muitos deles expressaram preocupação com a possibilidade de que Murdoch usasse as páginas noticiosas do jornal para promover seus interesses políticos e de negócios -uma prática comum na News Corp.- ou simplesmente decidisse produzir uma versão mais pobre da respeitável publicação.

Mas Murdoch prometeu que abriria os cofres para expandir o alcance do ‘Wall Street Journal’, perspectiva bem recebida por muitos dos profissionais do jornal, cujas receitas publicitárias estão estagnadas. O jornal já ofereceu aumentos significativos a repórteres que deseja contratar e a alguns jornalistas da casa que estavam estudando propostas para sair. Murdoch telefonou pessoalmente a alguns desses jornalistas, pedindo que ficassem.

Murdoch afirmou que desejava que o ‘Wall Street Journal’ reforçasse sua cobertura política e de assuntos nacionais e internacionais, o que faria do jornal um concorrente mais direto do ‘New York Times’. Ele também pressionou por mais notícias e por reportagens mais sucintas -uma mudança pronunciada, em um jornal que tem entre suas características artigos longos que começam já na primeira página.

Nada disso surpreende vindo de Murdoch, conhecido pela segurança no manejo de suas muitas propriedades e por sua capacidade de moldá-las para refletir suas opiniões, sem perder tempo demais para conseguir o que deseja.

A tomada de controle oferece vastos recursos a um jornal que mal consegue sair do vermelho, em parte porque desafiou as tendências setoriais no que se refere ao corte de funcionários e à circulação. A News Corp. tem receita anual de US$ 29 bilhões, ante US$ 2 bilhões da Dow Jones, e Murdoch já demonstrou repetidamente que está disposto a investir o que for necessário em suas propriedades -e até mesmo a arcar com pesados prejuízos em algumas delas- a fim de conquistar audiência e anunciantes. Acompanhado por um guarda-costas e por seu veterano secretário, Murdoch tem sido presença freqüente nos escritórios da Dow Jones, conduzindo reuniões com executivos.

Após algumas visitas à Redação e de uma turnê pela gráfica do ‘Wall Street Journal’, ele pouco revelou sobre suas intenções, dizem funcionários. Mas acrescentam que, em todas as paradas, ele fez perguntas sobre o trabalho de cada pessoa com quem conversava e revelou domínio surpreendente sobre as funções de cada um, dos cronogramas de produção à operação de impressoras.

Já existem planos firmes para eliminar o caderno ‘Marketplace’, que contém artigos sobre tendências de negócios e tecnologia, no começo de 2008. Também há planos de substituição de dezenas dos funcionários da Redação, enquanto outras mudanças de pessoal -refletindo as prioridades de Murdoch- já estão em curso, entre elas a procura de repórteres e editores em veículos concorrentes.

Desde que a família Bancroft aceitou lhe vender a Dow Jones por mais de US$ 5 bilhões no final de julho, Murdoch vem se reunindo com grupos de executivos e administradores das duas companhias. Nos encontros, eles comparam estratégias publicitárias, procuram possibilidades de joint ventures e debatem o futuro do sistema de acesso pago à edição on-line do ‘Wall Street Journal’, que Murdoch não aprecia.

Mudanças

Quando a batalha pelo controle acionário da Dow Jones ainda estava em curso, alguns dos editores do ‘Wall Street Journal’ acusaram Murdoch de usar o jornalismo de sua empresa em defesa de seus interesses. Existe ansiedade sobre as mudanças, tanto as reais como as cogitadas, temperadas por certa dose de otimismo.

‘Acredito que muita gente deva estar esperando para ver o que ele fará, antes de tomar uma posição’, disse Byron Calame, antigo editor-assistente do ‘Wall Street Journal’ e também ex-editor do ‘New York Times’. ‘A idéia de que pode haver mais ativos, mais recursos para as operações noticiosas gera esperanças entre algumas dessas pessoas.’

Pessoas que conhecem bem os principais executivos da Dow Jones dizem que lhes foi tornado bastante claro que seriam substituídos quase imediatamente, quer para fins de consolidação de operações com a News Corp., quer para entregar o controle a pessoas de confiança de Murdoch -ou, mais provavelmente, pelos dois motivos. A primeira confirmação surgiu há duas semanas, quando a Dow Jones anunciou que seu presidente-executivo, Richard Zannino, e L. Gordon Crovitz, diretor editorial do ‘Wall Street Journal’, deixariam seus postos.

O jornal deve demitir entre 25 e 40 de seus 750 profissionais de jornalismo. O objetivo não é reduzir o número de funcionários, que na verdade pode até vir a aumentar, mas abrir vagas para novos contratados nas áreas que Murdoch planeja expandir ou, em certos casos, simplesmente tirar certas pessoas do caminho. Diversos repórteres e editores respeitados estão sendo transferidos para Washington.

A coluna de Gerald Seib sobre a política na capital dos EUA também será retomada. O jornal começou a contratar repórteres e fez propostas lucrativas a alguns jornalistas conhecidos do ‘New York Times’ e outros veículos -sem sucesso na maioria dos casos.

Dentro de um ano, o jornal pode ter um grande grupo de repórteres e editores contratado por ordem de Murdoch e desvinculados das tradições do ‘Wall Street Journal’. Serão pessoas que não terão vivido os meses de ansiedade nos quais muitos dos jornalistas da empresa rejeitaram a aquisição e questionaram a ética jornalística de Murdoch. ‘Ao que parece teremos uma grande mudança de cultura’, afirmou um repórter veterano.

Tradução de PAULO MIGLIACCI’

 

MÍDIA & POLÍTICA

Johanna Nublat

Garibaldi fala 5 vezes por semana em rádios do NE

‘Para se manter próximo de seu eleitorado, o novo presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), conta com uma rede de 20 emissoras de rádio que transmitem cinco dias por semana o seu programa de bate-papo, o ‘Falando Francamente’.

São 19 emissoras no Rio Grande do Norte e uma na Paraíba, segundo a assessoria do senador. Pelo menos três delas, ainda de acordo com os assessores, recebem pagamento em dinheiro público para veicularem o programa -da chamada verba indenizatória, recurso à parte do salário dos parlamentares que permite despesas com ‘divulgação de mandato’.

O gasto com as três rádios é, sempre segundo a assessoria de Garibaldi, de R$ 2.200 mensais. As outras emissoras divulgariam o material gratuitamente.

A proximidade do senador com meios de comunicação foi revelada pela Folha, no início do mês. A reportagem mostrou que o Ministério das Comunicações -comandado pelo mesmo partido de Garibaldi- havia excluído o nome do senador da composição societária da TV Cabugi, em Natal.

A reportagem entrou em contato com as três que receberiam pela divulgação e com outras três. Todas alegaram sigilo comercial e não informaram detalhes do acordo.

O programa existe desde 1965 e trata de política e amenidades. Nas duas últimas semanas, o senador aproveitou o espaço para trabalhar sua candidatura à presidência da Casa e para falar da CPMF.

Na terça-feira da semana passada, dia da votação do processo em que o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) foi acusado de compra de rádios por meio de laranjas, Garibaldi disse a seus ouvintes que, diferentemente do processo anterior de Renan, da segunda vez ele votaria pela absolvição do colega. Ao se posicionar, foi repreendido por Erivan (técnico do estúdio) e Gerlane (assessora), personagens freqüentes nas gravações.

‘Sei que estou contrariando muita gente, inclusive Erivan e Gerlane, que estão aqui contrariadíssimos e formam uma frente anti-Renan’, brincou.

A coloquialidade e o bom humor são marcas do programa. Na sexta-feira, ele elogiou o ‘Festival do Camarão’ de Natal e aproveitou para fazer propaganda de um amigo.

‘E o ‘Festival do Camarão’, ah, meu Deus! É bom tudo, mas esse camarão é de primeira. Quem me convidou foi o Aldo, que é muito amigo meu e dono da ótica que faz meus óculos.’ O programa costumava ser gravado num pequeno estúdio de seis metros quadrados no antigo gabinete do senador -que agora ocupa outro maior, o da presidência. A rotina do programa, assim como a do próprio senador, deve ser alterada. Os assessores já encomendaram um pequeno aparelho portátil para facilitar as gravações.’

 

Justiça proíbe propaganda de Requião em TV

‘A Justiça Federal proibiu o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), de fazer propaganda pessoal na TV Educativa do Estado.

A sentença é da juíza substituta Tani Mara Wurster, da 1ª Vara Cível Federal de Curitiba. Segundo ela, a publicidade oficial se mistura com opiniões pessoais de Requião.

O Ministério Público Federal havia pedido que o programa ‘Escola de Governo’, em que o material também é veiculado, fosse tirado do ar. Mas a juíza manteve o programa.’

 

Raphael Gomide

Morador de SP, deputado se destaca para sucessão no Rio

‘Um dos líderes na disputa para a Prefeitura do Rio, Wagner Montes (PDT), 53, tem endereço em São Paulo, vive em hotel no Rio e faz do estilo policialesco a característica que lhe dá audiência na TV e agora também lhe rende votos. Carismático e desbocado, o deputado estadual e apresentador de TV fuma um Chanceller após o outro, enquanto fala e brinca com todo mundo na rua do hotel na zona sul, onde fica no Rio.

O ex-calouro de Silvio Santos nasceu em Duque de Caxias (Baixada Fluminense), mas não mora no Estado. Sua casa é São Paulo, onde há 20 anos estão sua mulher, a atriz Sônia Lima, e os dois filhos.

Líder nas pesquisas de intenção de voto para prefeito do Rio (empatado com o senador Marcelo Crivella, 15%, segundo o Datafolha), foi o deputado mais votado na cidade em 2006 e o terceiro no Estado, com 111.802 votos e discurso pró-polícia.

Parte do prestígio se deve ao ‘Balanço Geral’, programa de notícias policiais na TV Record que disputa com a Globo a liderança entre 12h30 e 14h. O público é 82% das classes C, D e E.

O prefeito Cesar Maia (DEM) o convidou para reunião, quarta-feira. O governador Sérgio Cabral (PMDB) também quer conversar. ‘Sou a noivinha bonitinha com quem todo mundo quer casar’, diz. ‘Quero é ser governador.’

Seu maior rival é Marcelo Crivella (PRB), senador e bispo da Igreja Universal, cujos líderes são donos da Record.

Para Wagner Montes, evangélico, não há constrangimento. ‘Se é desconfortável, não é para mim nem para a Record. Tanto que renovou meu contrato até 2009’, disse.

O senador contou ter levado o apresentador à emissora. ‘Jamais moveria uma palha para frustrar o sonho de ser prefeito. Se ele for para o segundo turno, o apoiaria com honra’, disse.

Wagner Montes chega à TV às 11h45. Tira do armário a farda de ‘único comandante-geral honorário da PM’. Troca de roupa na frente da reportagem. ‘Nunca um repórter viu minha perna mecânica [sofreu um acidente de triciclo em 1981]. A Record que me deu. Me dá tudo. Tenho um terno novo por dia, é a ordem do presidente.’

Sem maquiagem -’só dou uma ‘força’ no cabelo’- entra no estúdio. No programa, é agressivo com criminosos e defende a ‘poliçada’. ‘Torço para um desgramado desses me dizer: ‘Perdeu, tio’. E eu: ‘Achou, sobrinho’, e dou uma caroçada [tiro].’ Em outro momento, diz como devem ser os interrogatórios. ‘Passa manteiga no biscoito, no pão, sabe? Molha… e passa bem [gesticula, como se estivesse dando tapas].’

Não é defensor de direitos humanos. ‘Direitos Humanos para humanos direitos: para o chefe de família, policial. Não vejo comissão ir a casa de policial morto ou chefe de família.’

Na Alerj, onde não registra nenhuma falta neste ano, a maioria de seus projetos beneficia policiais e bombeiros.

Candidatos

Com 9% na resposta espontânea -4,5 vezes o índice de Montes e Crivella-, César Maia atribui o desempenho de Montes à ‘novidade’ e à sua capacidade de comunicação com os setores populares.

Para o prefeito, que infla a candidatura do deputado em seu ‘ex-blog’, embora defenda a da deputada federal Solange Amaral (DEM), Montes e Crivella disputam o mesmo eleitorado. ‘Se Cesar Maia e Sérgio Cabral me apoiarem, Crivella não decolar, e a igreja [Universal] me apoiar, aí é infalível’, diz Wagner Montes.

Segundo Crivella, as pesquisas de agora estão muito distantes da realidade do ano que vem. ‘Meu cenário ideal é uma aliança dos partidos de esquerda. Mas parece que a esquerda só se une na cadeia, né?’, disse.

A terceira candidata forte é Denise Frossard (PPS), que disputou o segundo turno da eleição ao governo contra Cabral, apoiada por Cesar Maia.’

 

TELEVISÃO

Daniel Castro

Silvio Santos estréia ‘show da mentira’ com ‘celebridades’

‘O SBT estréia em janeiro ‘Nada Além da Verdade’, o mais novo programa de Silvio Santos. Nele, o apresentador submeterá celebridades de segunda e terceira categorias a um teste da verdade. Algo como um ‘Show do Milhão’ com perguntas sobre a vida do entrevistado -só que o prêmio máximo é de apenas R$ 100 mil. Silvio Santos já gravou com Rita Cadillac, Alessandra Scatena, Jorge Kajuru, Mara Maravilha, Sérgio Mallandro e Gretchen.

Diretor do programa, Marcos Ramos explica que, antes das gravações, os convidados são submetidos a uma bateria de cem perguntas. As respostas (apenas sim ou não) são analisadas por um polígrafo (detector de mentira). Dessas, 21 são escolhidas para o programa.

As celebridades respondem a blocos de perguntas que valem a partir de R$ 5.000 e até R$ 100 mil. ‘Se a pessoa mentir no caminho, ela fica só com a metade do prêmio’, diz Ramos.

‘As perguntas são leves, afinal, é um programa do Silvio Santos. Vai ter perguntas que beiram a sexualidade, mas sem agressividade. Não queremos constranger ninguém’, afirma.

‘Nada Além da Verdade’ aproveita um novo filão de sucesso mundial, o dos polígrafos. Seu formato foi criado por Howard Schultz, o mesmo de ‘Extreme Makeover’. O programa estréia nos EUA em 23 de janeiro, mas já faz sucesso no Reino Unido. Foi bem na Colômbia, mas saiu do ar após uma entrevistada admitir que pagou para matarem o próprio marido.

ÉTICA E ESTÉTICA

A moça da foto é Andrea Maltarolli, a mais nova titular do time de autores da Globo. Ela estréia em 18 de fevereiro, às 19h, quando entra no ar ‘Beleza Pura’. Andrea foi uma das criadoras de ‘Malhação’, em 1994, quando freqüentava curso de roteiristas da Globo. Ela conta que ‘Beleza Pura’ será uma novela sobre ética e estética -neste caso, não apenas como sinônimo de beleza, mas também no sentido de filosofia da arte. A história começa quando Guilherme (Edson Celulari) perde o emprego, após um acidente aéreo. ‘Ele é egoísta e tomará um choque de ética. Todos os personagens, menos os vilões, vão buscar a ética’, adianta.

‘Beleza Pura’ é uma comédia romântica que fala de estética e de ética, mas sem dar aula. Teremos personagens cirurgiões

ANDREA MALTAROLLI

A ITALIANA

Ana Maria Braga já definiu o roteiro de suas férias, em fevereiro. Após pegar um bronzeado passeando de barco em Angra (RJ), ela decola para a Itália, onde estreará sua cidadania italiana, conquistada em novembro, após dez anos. Para encerrar, faz um tour pela Ásia.

REDENÇÃO

A patricinha Beatriz (Priscila Fantin) terá um final surpreendente em ‘Sete Pecados’. ‘A novela tem como tema a redenção. Aquela que possui os sete pecados descobre as sete virtudes’, conta o autor, Walcyr Carrasco.

DESIGNER CULTURAL

A atriz Flávia Scherner, 25, derrotou quase 500 candidatos e foi escolhida, na semana passada, a nova apresentadora do ‘Zoom’, da Cultura. Curitibana, ela se inscreveu com um vídeo em que dava notícias de cinema. Já tinha se mudado para São Paulo, em busca de melhor mercado de trabalho, quando foi convocada para testes. ‘Quero fazer TV e entrar em um grupo de teatro’, conta. ‘Ah, põe aí que sou formada em design? Meu pai sempre diz para eu dizer isso nas entrevistas.’

CENÁRIO CENTRAL

A próxima novela das oito da Globo, no ar a partir de maio, terá o centro de São Paulo como cenário. ‘Quero fazer uma novela mais no centro histórico. Acho lindo esse lugar’, diz o diretor-geral, Ricardo Waddington, carioca, citando a estação da Luz. A novela, inicialmente, seria ambientada em Brasília. ‘A oferta de vôos para Brasília é muito menor. Além disso, se houver problemas nos aeroportos, dá para vir para São Paulo de ônibus’, explica.

PEDE PRA SAIR

‘Caveirão do Gordo’ e ‘Os Quebradeiros’ são as novidades da programação de verão da MTV. No primeiro, João Gordo entrevista famosos nas praias do Rio, sempre ao lado de um carrinho de raspadinha adaptado para parecer um ‘caveirão’, o carro blindado do Bope, batalhão de elite da PM fluminense, agora famoso em todo o país graças a ‘Tropa de Elite’. ‘Os Quebradeiros’ é um reality show só com rapazes dividindo uma casa de praia.

Pergunta indiscreta

FOLHA – Estão dizendo que você se inspirou no Ratinho para criar o Juvenal Antena (Antonio Fagundes) de ‘Duas Caras’. É verdade?

AGUINALDO SILVA (autor de novelas) – Não me diga. Tem um líder comunitário aqui no Rio, chamado Ratinho, que está dizendo que o personagem é inspirado nele. É isso? De saída já digo que não o conheço.’

 

Laura Mattos

‘Não quero parecer caída nem enganar’

‘Aos 66 anos, Betty Faria está com corpinho de fazer inveja a muita mocinha por aí. Em ‘Duas Caras’, da Globo, sua personagem usa vestidos justos e aparece de lingerie ao lado do vilão interpretado por Rodrigo Hilbert, 39 anos mais novo. Com seus 1,66 m de altura e 58 kg, não fez feio, apesar das câmeras de alta definição, que deixam mais evidentes rugas e outras imperfeições.

Agora que virou blogueira, Betty recebe elogios de fãs e compartilha receitas da boa forma. Nesta entrevista por e-mail, a atriz fala de aparência, da novela, do filme inédito ‘Chega de Saudade’ e confessa ter se arrependido de deixar o papel de Viúva Porcina, que seria seu, para Regina Duarte.

FOLHA – Aos 66, você está com um corpinho de dar inveja às gostosonas do momento…

BETTY FARIA – Obrigada, mas inveja às gostosonas é um engano imenso. Uma mulher em minha idade, com boa forma mantida por anos e anos de balé clássico, tem a forma, mas não o tônus, e não existe realmente essa preocupação. Existe sim vontade de ter o corpo preparado para qualquer tipo de personagem. É mais fácil estragar do que consertar, concorda? E também tenho vaidade, que não tem nada a ver com problema de idade, e prazer imenso em me vestir de acordo com meu tempo. E, quando a roupa cai bem, fica mais fácil.

FOLHA – Como mantém a forma?

BETTY – Sempre fiz balé clássico, moderno e, atualmente, por ter muitas lesões de bailarina e pouco tempo para academias, tenho um personal trainer no mínimo três vezes por semana. Quanto à dieta, é o seguinte: detesto engordar e, quando ganho aqueles três quilos que as mulheres detestam, vou à nutricionista, que também é uma forma de se manter saudável.

FOLHA – Como se sente em cenas mais ousadas de ‘Duas Caras’, em que aparece de lingerie, como a que teve na cama com Rodrigo Hilbert?

BETTY – Wolf Maia [diretor] teve bastante cuidado e bom gosto para não ter vulgaridade. O resultado foi bom, e eu confiei.

FOLHA – A TV digital preocupa atrizes por tornar rugas mais aparentes.

BETTY – É claro que, se eu puder fotografar bem, como mulher normal, fico contente. Mas não vai aí nenhuma neurose. Uso pouco make up [maquiagem]. Acho desagradável aquela máscara. Não quero parecer caída, nem enganar o público.

FOLHA – Quantas plásticas já fez?

BETTY – Fiz um lifting alguns anos atrás e no momento estou me sentindo muito bem com o rosto que tenho. Isso não quer dizer que seja definitiva minha opinião. Na época em que fiz esse lifting, que o doutor Ivo Pitanguy chama de refrescamento, estava me sentindo mal com minha aparência, e me fez muito bem. Ajuda na auto-estima.

FOLHA – Seu site registra que fez dois filmes de Jece Valadão (‘A Lei do Cão’ e ‘Sete Faces de um Cafajeste’), ‘ambos não exatamente espetaculares’, por dinheiro. Conta também que começou na TV porque precisava de dinheiro. Ainda faz televisão por essa razão?

BETTY – Você gosta de trabalhar de graça? Algumas vezes fiz isso, mas adoro receber pelo meu trabalho. Sempre fui assim, independente, sem pensão de marido [é ex-mulher do ator Cláudio Marzo e do diretor Daniel Filho], criando meus filhos e sustentáculo de uma família. Agora, o prazer que tenho em atuar não tem preço.

FOLHA – Arrependeu-se de não ter topado ser a Viúva Porcina quando a novela pôde ir ao ar [Betty iria fazer personagem numa versão anterior, censurada pelo governo militar]?

BETTY – Teve um momento, em que estava fazendo produção executiva para Nelson Pereira dos Santos no sertão baiano, que me arrependi sim.

FOLHA – É curioso que Porcina tenha marcado a carreira da namoradinha do Brasil e não da namoradeira do Brasil… O que acha, aliás, de ter essa fama de namoradeira?

BETTY – Não sabia dessa fama, acho engraçada! É a primeira vez que alguém me fala isso.

FOLHA – Li que você agora prega que o melhor é ter vários namorados ao mesmo tempo.

BETTY – Uma coisa que a maturidade me ensinou foi a não falar de minhas intimidades. Não gosto mesmo. Acho desperdício de espaço na mídia.

FOLHA – No filme ‘Chega de Saudade’, sua personagem reluta, mas acaba concordando em pagar para ter um parceiro na pista. Isso traz para você uma sensação de solidão ligada à terceira idade. É algo que você teme?

BETTY – Adorei esse personagem exatamente por esse medo da solidão que aflige tantas pessoas. Não tenho isso pois sou um ser solitário. Sou filha única e adoro minha casa, meus filmes, meus livros. Quando quero, recebo amigos de fé.’

 

ATRIZ FAZ APELO A LULA NO PROJAC

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama, Marisa Letícia, visitaram o Projac (central de estúdios da Globo, no Rio), no início de dezembro, e passaram pelos estúdios de ‘Duas Caras’. O casal assistiu a uma cena de Betty Faria. Ao final da gravação, ela pediu ao presidente para ‘rever a questão das armas’, porque ‘crianças estão sendo assassinadas’. Lula respondeu que ‘precisamos fazer um novo referendum, porque no primeiro o povo votou para ter [direito ao porte de] armas’.’

 

Bia Abramo

Eu pago, eles decidem e nós engolimos

‘DANIEL CASTRO já havia comentado brevemente o teor de uma campanha da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) contra o projeto de lei que institui cotas para programação nacional nos canais pagos em sua coluna de 5 de dezembro. Intituladas ‘Falácia 1’, ‘Falácia 2’, as duas notas chamavam atenção para o fato de que a campanha apóia-se numa inverdade, num argumento essencialmente falso: se a lei for aprovada, os assinantes não vão mais ‘escolher a programação’.

‘Então não muda nada’, concluía Castro, e com razão: desde quando o assinante escolhe a programação da TV por assinatura? No máximo, escolhe-se a operadora, o pacote e a mensalidade. Os 5 milhões de assinantes da TV paga, número ao qual chegou o mercado de TV por assinatura este ano, quase que uma década depois de suas previsões excessivamente otimistas, não decidem uma vírgula daquilo que os canais pagos decidem sobre a programação.

O projeto de lei contra o qual a ABTA está se insurgindo prevê uma cota de 50% para canais pagos brasileiros, mais 10% de programação nacional nos canais estrangeiros -que hoje somam 75% da programação da TV por assinatura no Brasil. Leis protecionistas na área de comunicação e produção cultural podem ter resultados ambíguos, às vezes protegendo o que não existe e/ou favorecendo uma produção mediana simplesmente para preencher a cota, mas daí a comprar a briga das operadoras há um abismo.

A peça publicitária vai além da argumentação falaciosa; ela prossegue com uma ameaça: ‘Eles decidem o que você vai assistir e depois é você quem pagará mais por isso’. Ou seja, de forma nada sutil, estão avisando que, se o assinante não aderir à campanha e a lei for aprovada, os custos do cumprimento da lei serão repassados ao consumidor.

Portanto, caro assinante de TV, o melhor é engolir a lógica torta, correr para o site Liberdade na TV e dizer, em alto e bom som, aquilo que, no íntimo, você sabe não ser verdade: ‘Eu pago, eu escolho o que vou ver na minha TV por assinatura’.

E se os assinantes levassem a afirmação a sério e passassem a exigir, de fato, poder escolher por aquilo que pagam (e não é pouco)? Leitor, leitora: você não gostaria de decidir o que vai ver na TV por assinatura?

Que tal começar com a volta das séries legendadas na Fox? Ou banir, definitivamente, determinados filmes depois que eles atingem um certo número de reprises? Ou oferecer pacotes realmente flexíveis por preços bem mais camaradas? Ou uma programação com menos intervalos comerciais? Cartas para a redação.’

 

Cristina Fibe

Noveleiros levam trama de época à internet

‘Eles gravam nas madrugadas de segunda a sexta, da 1h às 6h, sem que ninguém receba nada por isso. A webnovela ‘Nos Tempos da Garoa’ envolve cinco produtores e 26 atores, com trabalhos paralelos (de imobiliárias a consultórios de psicoterapia), que abrem mão das noites de sono para poderem mostrar seu trabalho no site www.spetaculos.com.br.

‘Garoa’, a quarta novela -e a primeira de época- do grupo Spetáculos, estreou no dia 13 do mês passado. Semanal, ganha o seu sexto capítulo na próxima terça-feira, e deve ter 30 episódios (cada um com 30 minutos), estendendo-se até maio.

A história se passa na São Paulo de 1956, com direito a romance entre padre e prostituta, doença terminal de empresário rico, disputa por herança e por aí vai. Ou seja, nada que já não tenha sido feito (e melhor) para a televisão.

O principal diferencial, segundo o autor, Leandro Barbieri, é ‘a dinâmica: em um capítulo, acontece tudo o que levaria uma semana na TV’.

A ‘estrutura de folhetim’ que o diretor usa não é à toa. Apesar de ver o futuro do formato on-line, um dos objetivos de Barbieri é levar ‘Garoa’ à TV. Ele diz que está negociando para isso, mas não pode ‘revelar’ com qual emissora.

Aos 22 anos, Barbieri, aluno de rádio e TV da Universidade Metodista -onde conheceu Silvia Cabezaolias, co-diretora da ‘Garoa’-, afirma trabalhar ‘há 12 anos com novelas’. Mas começou aos 10? ‘Sim, com pesquisa, montando meu acervo. Depois passei a fazer análise e escrever críticas e roteiros.’

Mas Silvia e Barbieri estrearam mesmo nas novelas em 2004, em um canal universitário, e depois migraram para o site allTV. Hoje, usam suas MiniDVs e uma casa da família dele, na Aclimação, como estúdio. Lá, conseguiram montar 17 cenários para ‘Garoa’, que tem 30 personagens e ainda não teve a audiência medida.

A experiência virtual, diz Barbieri, é a ‘realização do sonho de trabalhar com novelas’. É irônico que a ‘dramaturgia na internet’, como diz o slogan do grupo, seja feita justamente por alguém louco para migrar para a TV.’

 

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