Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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JORNAL DE DEBATES > JORNALISMO ENVELOPADO

Folha e Estado optaram pela indiferenciação

Por Alberto Dines em 20/05/2008 na edição 486

No último domingo (19/5), uma parte dos assinantes dos dois jornalões paulistanos recebeu o seu exemplar duplamente descaracterizado. Ou duplamente manipulado. Ambos apresentavam a mesma meia-sobrecapa (anúncio da rede varejista Magazine Luiza) e, como se não bastasse a despersonalização, ambos foram enfiados em idênticos envelopões publicitários pagos pelo consórcio imobiliário Lopes/Cyrella.

Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo abriram mão de suas personalidades, abdicaram da imperiosa diversificação – essência da pluralidade democrática – e, sobretudo, resignaram-se à condição de robôs de anunciantes. Mandaram os leitores às favas, lixaram-se para as respectivas imagens e não tiveram pudor em exibir o quanto são iguais.

Empolgados com os resultados divulgados pelo projeto Inter-Meios relativos ao primeiro trimestre de 2008 (aumento de cerca de 24% para jornais impressos contra cerca de 16% do mercado de mídia como um todo), viajam com o piloto-automático rumo ao repeteco.

Esquecem que o projeto Inter-Meios – uma parceria entre o jornal especializado Meio&Mensagem e as principais empresas de comunicação do país – não pode ser comparado com o trabalho ‘científico’ de auditagem fornecido por empresas especializadas. A confiabilidade destes números é simbólica, imagina-se que as maiores empresas jornalísticas brasileiras não cometeriam um haraquiri enganando a sociedade com falsos indicadores.

Tendências indefinidas

Além disso, é preciso prestar muita atenção na qualidade do aumento na receita publicitária. Foi aumento bruto ou líquido? Se uma empresa oferece descontos exagerados aos anunciantes, o aumento é financeiramente nulo ou insignificante. Este tipo de olimpíada exige placares mais detalhados. Um ou mesmo dois trimestres são insuficientes para definir tendências. Sobretudo em tempos de volatilidade econômica.

Para enfrentar as doses maciças de entretenimento televisivo e o caráter fragmentário da informação virtual, a mídia impressa de qualidade só tem uma saída: valorizar suas diferenças. Naquele domingo, a Folha oferecia duas boas atrações: a reportagem ‘O Infiltrado’, contando as experiências de um repórter na pele de um recruta da Polícia Militar carioca e a nova sondagem do Datafolha a respeito das eleições para a prefeitura de São Paulo. Matérias caras, que demandaram tempo e recursos. Dinheiro jogado pela janela porque a meia-sobrecapa do Magazine Luiza encobria parcialmente os dois destaques.

Com matérias menos palpitantes justamente para não desperdiçá-las, o Estadão perdeu o seu último domingo quente de maio, já que o próximo (25/5) será esvaziado pelo feriadão. Na ponta do lápis foi um bom negócio?

Bom negócio em empresas jornalísticas é independência. O projeto Inter-Meios jamais conseguirá aferir esta espécie de ativo. Só independência (ou individuação) traz leitores e credibilidade. Jornais indiferenciados e encobertos por anúncios parecem arapucas. Lembram lobbies.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/05/2008 Marco Antônio Leite

    Segundo o último censo, o Brasil tem uma população de 180 milhões de habitantes. Portanto, aqueles que adquirem jornal de papel são a minoria da minoria. Em suma, essa meia dúzia de leitores não é suficiente para manter uma empresa de comunicação em funcionamento, isso quer dizer que quem sustenta essa empresa são os anunciantes. Ou não? Abraços socialistas livres dessa burguesia fétida?

  2. Comentou em 23/05/2008 arnaldo boccato

    Sugiro uma rápida consulta ao artigo do Brickmann nesta edição, comentando e-mail enviado pelo ombudsman da Folha, o Carlos Eduardo Lins da Silva, sobre a queda das tiragens em proporções abissais, tomando-se por base o início dos anos 90. Vai ajudar, de verdade. É uma explicação bem mais objetiva e óbvia que a pretensa reação do leitor a esta ou aquela política editorial dos veículos. Tente-se enfiar mais uma levada de fascículos, DVDs ou coisa do ramo a preço de banana nos jornais de domingo e as tiragens vão subir de novo, sem mexer uma vírgula nas linhas editoriais. Os departamentos de marketing só não repetem a doideira daquele período porque descobriram que a fidelidade do leitor durava um dia, o dia da promoção, que nem posto vendendo gasolina com prejuizo.

  3. Comentou em 23/05/2008 arnaldo boccato

    Sugiro uma rápida consulta ao artigo do Brickmann nesta edição, comentando e-mail enviado pelo ombudsman da Folha, o Carlos Eduardo Lins da Silva, sobre a queda das tiragens em proporções abissais, tomando-se por base o início dos anos 90. Vai ajudar, de verdade. É uma explicação bem mais objetiva e óbvia que a pretensa reação do leitor a esta ou aquela política editorial dos veículos. Tente-se enfiar mais uma levada de fascículos, DVDs ou coisa do ramo a preço de banana nos jornais de domingo e as tiragens vão subir de novo, sem mexer uma vírgula nas linhas editoriais. Os departamentos de marketing só não repetem a doideira daquele período porque descobriram que a fidelidade do leitor durava um dia, o dia da promoção, que nem posto vendendo gasolina com prejuizo.

  4. Comentou em 22/05/2008 Ary Nunes

    SR. Marco Antonio,estamos aqui num embate,e parece que não entraremos num consenso. Vc diz que jornais vendem pouco,mas a Folha,por exemplo,hoje possue uma tiragem de cerca de 300 mil assinantes,em outrora esse número chegou a 600 mil.Pois bem,considerando que o preço de uma assinatura mensal seja de 49 R$,então temos aí um total de quase 15 milhões de reais,isso fora o jornal que é vendido avulso. O sr. realmente acha que isso é uma quantia insignificante? Quanto ao público alvo, é bom lembrar que o jornal tem tb uma quantia significante da classe média que o compra. Mas é verdade que a maior parte esta concentrada na classe alta.Mas seja um ou outro,eu me recuso a acreditar que essas pessoas compraria jornal por causa de anuncios.Novamente reafirmo:É preciso haver um equilíbrio.Da mesma forma que um jornal não sobrevive sem anunciantes,ele tambem não sobrevive com excessos de anuncio. Essas duas coisa estão intimamente interligadas e um depende do outro. Abraços

  5. Comentou em 22/05/2008 Marco Antônio Leite

    Senhor Nunes, procure interpretar corretamente o pequeno texto. Jornal vende poucos exemplares, o anuncio de produtos em geral vende em função daqueles que compram o jornal. Isso porque, essa gente tem condições econômicas para adquirir bens duráveis. Senhor, pobre não compra jornais, revistas e similares, bem como não compra livros, não freqüenta teatros, cinemas e fazem lazer, justamente por falta de dinheiro. Se o senhor lê jornal, procure observar que noventa% das noticias não estão relacionadas com o seu nível ou padrão de vida, quando não estão falando de políticos, estão enaltecendo as maravilhas que o sistema capitalista oferece, como também elogiando a elite do momento

  6. Comentou em 22/05/2008 arnaldo boccato

    É comovente a crença absoluta nas próprias crenças, mesmo que seja para atropelar a metodologia, até porque crença não é ciência. O jornalista José de Souza Castro parece desconhecer o Projeto Inter-Meios e o seu alcance. Talvez esteja cometendo uma injustiça por atacado, apenas por estar envolvido pessoalmente na apuração de um caso do qual a Price Waterhouse Coopers faz parte – não dá pra misturar as saladas e eventuais trambiques de auditorias (Enrons ou Agrimisas, como o Castro cita) e o Inter-Meios, porque são coisas diferentes. Julgar o Inter-Meios só por conta de uma suspeita (mesmo que fundada) sobre a mega-auditoria é esquecer as lições de sociologia e metodologia que a gente começou a aprender ainda nos tempos do curso Científico ou Clássico, antecessores do Colegial e do atual Médio, e que foram reforçadas na faculdade. Se anunciantes, agências e veículos conseguiram gestar o Inter-Meios é porque os dados de cada veículo são fornecidos com base em critérios universais e sua origem é preservada – você sabe o que há no mercado Grande SP, mas não sabe das minúcias da Folha ou do Estadão, isoladamente. A Price entra no negócio como “fiel depositário” e organizador da informação estratégica dada pelo veículo. (continua)

  7. Comentou em 21/05/2008 Ary Nunes

    Peraí,jornal vive de notícas e de anunciantes.Quem compraria um jornal,afinal, para ver anuncios? Nesse sentido,a notícia paga os empregados e as contas do jornal sim.E a notícia é mais importante para o jornal do que o anúncio em si,pois os jornais são vendidos e portanto geram receita.Ao que parece,entretanto,que os jornais não encontraram o equilíbrio entre o anunciante e a notícia. E rumam cada vez mais para o buraco.Infelizmante,ou conhecendo esses jornalecos e a quem servem,felizmente.

  8. Comentou em 19/12/2006 Thaís França

    Olá! Sou estudante do terceiro ano de Jornalsimo no UniFIAMFAAM. Fiz um artigo para uma disciplina acadêmica e meu professor, Ênio Moraes Júnior, sugeriu que eu enviasse para o Observatório da Imprensa para que, possivelmente, publicassem.

    Para qual e-mail devo enviar o artigo?

    Aguardo respostas.

    Obrigada,
    Thaís França.

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