Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CULTURA

Frivolidades como prioridades

Por Ivo Lucchesi em 17/06/2008 na edição 490

Faltam, da parte de institutos de pesquisa, dados e avaliações numa área que considero indispensável à compreensão do que, efetivamente, vem ocorrendo na vida do cidadão brasileiro. A mídia divulga, quase diariamente, índices econômicos de crescimento nesse ou naquele setor, alta ou baixa nas aplicações de investimentos, porém não se encontram em jornais ou revistas matérias que, por exemplo, informem quanto a classe média gasta em produtos relativos a corpo e esporte e, na contrapartida, quanto destina de sua renda para aquisição de conhecimento (formação escolar / livros) e cultura (cinema / teatro / visita a museus e afins). Segundo parece, ‘saúde corpórea’ e ‘saúde cultural (e mental)’ andam, há muito, dissociadas.

De início, fique clara uma coisa: antes de se remeter a cobrança para instâncias governamentais (municipal, estadual ou federal), que ela seja direcionada para a função exercida pelos mass-media. Procurarei ser mais preciso: as instâncias governamentais elegem, como prioridade, o atendimento a camadas que, por estarem excluídas do direito às necessidades primárias de sobrevivência (alimentação, tratamento de doenças, obras de saneamento, habitação e provimento educacional), requerem de órgãos públicos assistência permanente e direta. Para populações carentes, não há outra opção. A conclusão, portanto, é óbvia: dos carentes cuida o Estado.

País de ‘idiotas felizes’

Pergunta outra se dirige a quem cuida da qualificação cultural, tanto dos setores carentes quanto daqueles cujas necessidades básicas estão asseguradas (classe média). Desses, os ‘carentes’ e a ‘média’, deveria ocupar-se a mídia. Como? Qualificando e aprimorando a elevação da exigência cultural. Todavia, a mídia brasileira não demonstra qualquer inclinação no sentido de reformular seus métodos de codificação, ou mesmo suas pautas. Ao contrário, a mídia ignora os segmentos carentes, oferecendo-lhe, via TV aberta, o que há de pior, além de colaborar para a deterioração cultural da classe média.

No âmbito da mídia eletrônica, a avaliação, ao longo das duas recentes décadas, é espantosa: as grandes redes multiplicaram investimentos em esporte (notadamente, cobertura plena de todas as competições de futebol, nacionais e internacionais, vôlei, fórmula 1), em loteamento de horários destinados à proliferação de ‘seitas religiosas’ e, assim, a vida brasileira segue seu curso não sei para onde. O fato é que as populações carentes gastam, graças a incentivos governamentais (o que é necessário), em alimentação para o corpo. No contraponto, o que a classe média gasta é em ingressos nos estádios de futebol, pacotes de transmissões esportivas, via pay-per-view, produtos rítmico-musicais de qualidade sofrível, aquisição de novos automóveis e, o que sobra, vai para ‘educação’ dos filhos.

Imaginemos outra realidade: há muito se sabe que a preferência nacional se dá pelo apelo audiovisual. Todavia, os programas da maior rede de televisão do país, em lugar de priorizarem temas e entrevistas que estimulem a inteligência, entulham os horários com ‘plantações de abobrinhas’. Escritores e intelectuais não existem no horizonte das TVs abertas. A impressão que fica é a de que o Brasil é um país de ‘idiotas felizes’, a julgar pelo que, diariamente, é exibido.

‘Vampirização mútua’

A avaliação honesta terá de levar em conta que, há muitos anos, em função da escolha tramada pelos meios de comunicação de massa, a taxa de densidade crítica do ser brasileiro atingiu patamar de exigência mínima. A constatação é: mais dinheiro no ‘bolso’ e menos alimento para o cérebro. As grandes redes, há muito tempo, sabem, pelos índices de audiência, quanto da população têm como fiéis telespectadores. No entanto, nada arriscam na direção de algo inovador e provocador. Ao contrário, fortalece-se a acomodação ao modelo mais tosco.

Não fica, também, sem registro a responsabilidade da TV Pública que, pelo menos, até agora, ainda não disse a que veio. Afora alguns documentários latino-americanos (de qualidade discutível e de intenções obscuras), prevalece o modelo anterior da TVE, inclusive com a manutenção das distorções de programação e horários, fato aqui já pontuado algumas vezes.

No âmbito da prática jornalística, verifica-se, progressivamente, embaralhamento de diferentes mídias. Numa ponta, há o modelo impresso (jornais e revistas), congelado num paradigma burocrático. Edições se sucedem, sem mínima diversificação, seja de forma, seja de conteúdo. Na outra, há o recém-chegado noticiário on-line. Entre os dois, trava-se uma luta por ‘ritmo’, ‘velocidade’ e ‘confiabilidade’. Até agora, o que se percebe é o fato de um, em nada, haver produzido melhoria no outro. O que, efetivamente, é observável se refere a uma espécie de ‘vampirização mútua’. Do processo neurótico, resulta maior distorção crítica para o receptor.

O clichê da ‘caridade’

O tempo está passando. O país, apesar de tudo, continua ‘respirando’, independentemente da qualidade do ‘ar’. O problema mesmo é saber se, em algum momento da vida brasileira, os empresários e os codificadores, responsáveis pelos mass-media, demonstrarão sensibilidade para o projeto cívico de aumento da massa crítica. A outra questão se volta para a atuação do Estado, no tocante a cobrar, incisivamente, que as empresas de comunicação cumpram os reais princípios discriminados na Constituição.

Outro apelo, não em grau menor, se volta para o imaginário da classe média cujo padrão de vida evidencia altos níveis de deformação quanto ao que ela elege como elenco de prioridades. A classe média, em razão do ‘lugar’ tenso que ela ocupa (aspiração em ascender x temor em descer) é a única com potencial para auxiliar bolsões carentes na tentativa de estes (em parceria com o Estado) poderem vislumbrar degrau acima, já que as elites, ao olharem para baixo, sempre apostarão no surrado clichê da ‘caridade’. O impasse está posto: incremento na oferta de frivolidades x investimento nas prioridades. Se a ‘bomba’ não for, em tempo hábil, desativada, todos seremos atingidos, irremediavelmente.

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Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da Facha (Rio de Janeiro)

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/06/2008 Ricardo Cmargo

    Recordo de um longo debate que travei com o médico e plemista residente em Porto Alegre Paulo Bandarra, aqui mesmo neste espaço, acerca do orquê se entende que às classes mais necessitadas, em termos de lazer, deve ser oferecido produto de qualidade inferior, e que, modo certo, dialoga com o texto ora glosado. E, no entanto, hoje mesmo passei por uma experiênci das ais agradáveis, ao ver no teatro uma adaptação da Tempestade, de Shakespeare, para crianças. Costumo ser exigente, em se tratando do Bardo, mas, no caso específico, o simples fato de haver sido noticiado que se tratava de uma adaptação, e ainda a presença maciça de crianças, a preços acessíveis à maior parte da população, informando que alguma coisa existe além do mundo das apelações fáceis do erotismo e da violência, e despertando, inclusive, o interesse pelos clássicos, não deixa de traduzir uma tentativa de reagir ao estado de coisas descrito no texto. A pergunta não é se ‘o povo gosta de lixo’, mas sim se ‘o povo conhece outra coisa além daquilo que lhe é apresentado’.

  2. Comentou em 19/06/2008 Ivo Lucchesi

    Ao Ricardo Oliveira, cabe-me, além de agradecer-lhe a leitura de meus artigos, reforçar o incentivo na sua procura pela excelência do conhecimento, mesmo que tal opção lhe custe a condição de ‘estranho no ninho’. Se, por um lado, há desgaste no relacionamento social, de outro, há o suporte do discernimento crítico. O segundo compensa o primeiro. De resto, não interessa a setores dominantes, em qualquer nível, a elevação da inteligência. Obrigado.

  3. Comentou em 18/06/2008 Ivo Lucchesi

    Aos leitores-comentaristas abaixo, por ordem: André, procede sua alusão à alegoria da caverna, configurada por Platão. Em versão mais atualizada para a vida moderna, vale remeter, também, à escrita ficcional de José Saramago (‘A Caverna’ – Companhia das Letras, 2000), obra que rendeu ao escritor o Prêmio Nobel de Literatura.
    Ricardo, como é próprio de sua astúcia, seus comentários sempre engrandecem a modéstia do artigo. O tempo do ‘jardim das delícias’, concepção de Epicuro, e, bem adiante, prefigurado no belo quadro de Bosch, fonte inspiradora, séculos após, do surrealismo, cada vez mais, parece uma quimera arquivada num templo perdido. Obrigado a ambos.

  4. Comentou em 17/06/2008 André Sampaio

    Caro Prof. Ivo,
    Seu artigo lembrou-me a alegoria da caverna de Platão, com a TV aberta representando a projeção das sombras na parede da caverna. O público, imobilizado pela falta de opção, toma por verdade do mundo e realidade da vida o que lhe é proposto e apresentado, reapresentado e regurgitado pelas emissoras em suas cirandas auto-referenciais: perseguindo freneticamente o próprio rabo. Nessas bases a população faz o papel de excluída: dos não-famosos, das não-celebridades. E aguarda alegremente que um Big-Brother Sebastianista (ou infelizmente alguma tragédia, como nos exemplos recentes) as possa transportar para o outro lado, o lado da fama. Mas este é o caminho que conduz ao fundo da caverna e não para a luz. Um grande abraço.

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