Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > FANTÁSTICO, SHOW DA VIDA

Geisy na folia

Por Fernando de Barros e Silva em 16/02/2010 na edição 577

Com a palavra, o apresentador do Fantástico:

‘A polêmica acabou em samba. Lembra da Geisy, aquela do vestidinho rosa que provocou um rebuliço numa universidade em São Paulo? Ela está de volta, modificada, revista e ampliada’.

Assim começava a reportagem do dominical da Globo sobre a lipoescultura a que se submeteu a estudante Geisy Arruda. Tratava-se de mostrar em primeira mão o ‘novo visual’ que a musa acidental da Uniban iria exibir durante os festejos momescos.

‘Samba, vestidinho rosa, rebuliço’ – as expressões engraçadinhas do locutor dão o tom acafajestado do suflê destinado a entreter os lares no final do domingão.

Uma das coisas que mais chamam a atenção no caso Geisy é a conversão do trauma em oportunidade, da humilhação em dinheiro, da selvageria em diversão de massa. A passagem entre uma coisa e outra se deu de maneira instantânea, sem que houvesse tempo para a elaboração do luto ou preocupação em refletir sobre o que aconteceu.

Fama descartável

Depois de dizer que cinco litros de gordura foram pelo ralo, que ‘a barriga virou bumbum’ e que Geisy ganhou quase meio litro de silicone em cada peito, o repórter pergunta: ‘Será que uma lourona dessas passa despercebida nas ruas?’

Vemos então miss Uniban desfilar pelos bares, entre marmanjos ouriçados a emitir sons de aprovação e correr para clicar a ‘nova Geisy’ com os celulares. A cena lembra a turba em fúria nos corredores da universidade.

Aquilo que a escola prometia como perspectiva remota (uma vida melhor com o canudo na mão), Geisy alcançou num estalo, não pelo que aprendeu, mas como vítima da estupidez e da atrocidade do ambiente de ensino que frequentava.

Talvez ainda exista a tentação de criticar o deslumbramento da garota com sua fama descartável. Mas por quê? Ela não é mais vulgar do que as apelações da mídia a seu respeito. Ela não é mais frívola do que o jornalismo de celebridades e seus espectadores.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/02/2010 PAULO CAPOTE

    É típico de nossa mídia. Fazer piada daquilo que não tem qualquer graça. O que esta moça passou foi uma humilhação atroz.E não é a fama efêmera (‘Os cinco Minutos de Fama’, de Andy Warhol ) que apagará a barbárie de um grupo social que num determinado contexto julgou-se c/ direito de fazer uma espécie de ‘POGROM’ contra alguém que não estaria vestido dentro dos padrões sociais estabelecidos e aceitos por nossa Cultura. Sugiro a leitura de ‘A Noite de Cristal – A primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus’, de Martin Gilbert, para se entender que esse tipo de persequição aos BODES EXPIATÓRIOS muitas vezes são sinais de um tipo de estado de espírito que leva a sociedade a preconceitos, deste e de outro tipos, cada vez mais sistemáticos e intensos, e a julgamentos sumários feitos pelo povo com as próprias mãos, e à possibilidade de desastres históricos baseados na intolerância .
    ‘O ovo da serpente’ é a intolerância e o sentimento de que podemos julgar os outros ANTES (E NO LUGAR DE) de nossas autoridades , leis e normas. É o princípio do FIM de tudo que é civilizado e democraticamente estabelecido: o fim do sentido de respeito à autoridade e regulamentações formais. Que o caso desta moça seja abordado com mais seriedade e profundidade pela mídia, esperam aqueles que sabem da importância que a concessão pública p/a exploração de canais de TV aberta tem.

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