Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > APAGÃO AÉREO

Gol contra

Por Alberto Dines em 10/08/2010 na edição 602

Foi apenas um apagãozinho. Mais um: felizmente sem vítimas fatais. Funcionou como exercício de estoicismo, preparação dos usuários do transporte aéreo para as drásticas peripécias que nos aguardam nos próximos meses e anos.

Tudo previsível: último dia das férias escolares de inverno, tripulações estressadas pelo aumento da demanda, poucas aeronaves de reserva, aeroportos saturados há muito tempo, condições meteorológicas adversas, típicas da estação. O caos instalou-se e concentrou-se na Gol na segunda-feira (2/8) porque a empresa lidera o transporte aéreo barato mas poderia ter arrastado as concorrentes estabelecendo um blecaute de primeira grandeza.

Jornais trombetearam manchetes indignadas, a Gol prometeu comprar aviões maiores (o que só agravará as próximas crises), autoridades prometeram pesadas multas, a charmosa presidente da ANAC, Solange Vieira, deu o ar de sua graça em Congonhas mas nenhuma providência estrutural foi tomada.

Nem será. O sucessor(a) do presidente Lula só tomará posse em 1º de janeiro e até lá teremos que nos preparar para a inevitável sucessão de eventos dramáticos quando começar a temporada de chuvas, nas vésperas ou fim dos feriadões de setembro, outubro, novembro e na temporada natalina.

Prazo e poderes

O problema não se resume à Gol. O problema foi criado há três anos quando o governo recusou-se terminantemente a intervir na Varig para evitar o seu desaparecimento. ‘O BNDES não é hospital de empresas falidas’, ‘O mercado resolverá o problema’ proclamaram ministros e ministras do governo Lula estranhamente travestidos de neoliberais.

A mídia sempre temerosa de intervenções (ao contrário da congênere americana que tem aplaudido as intervenções do presidente Obama na indústria automobilística e no mercado financeiro) aplaudiu a opção empresarial e mercadista do governo.

Assim, a celebrada e quase octogenária Varig foi entregue de mão beijada a uma empresa com apenas seis anos de experiência no ramo da aviação e uma ficha algo estranha em matéria de negócios.

Em 2007, depois da tragédia com o Airbus da TAM e já na condição de ministro da Defesa, Nelson Jobim colocou o dedo na ferida com a sua gauchesca bravura: a aviação comercial brasileira tem apenas um problema – o duopólio.

Foi o mais conciso e acertado diagnóstico sobre a crise no negócio da aviação feito até hoje. A TAM não foi concebida nem jamais conseguiu preencher a função de national carrier ocupada pela Varig (como a Lufthansa na Alemanha ou a TAP em Portugal); e a Gol, oriunda do setor rodoviário, popular, é naturalmente vocacionada para as operações de baixo custo.

Uma intervenção profunda na Varig com prazo limitado e poderes ilimitados teria salvo a empresa e produzido o tertius, um terceiro grande concorrente, capaz de manter o mercado equilibrado e o segmento em saudável expansão.

Lambança

Três anos depois, o ministro Jobim continua no cargo e o duopólio que denunciou continua punindo o usuário de aviões, além de prejudicar o desenvolvimento do mercado e o segmento de empresas médias (Azul, Webjet ou Avianca). Duopólios são tão nocivos quanto os monopólios quando se trata de estrangular a concorrência, sobretudo em mercados como o brasileiro impregnados pelo paternalismo e o corporativismo.

A lambança aeroportuária da segunda-feira é filha do duopólio que continua produzindo apagões, apagõezinhos e, em breve, apagãozões. A entrega da Varig à Gol foi um tremendo gol contra.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/08/2010 Igor M. Rodrigues

    Com o empréstimo do BNDES (lembrando que não é um simples banco, mas com função social e política estabelecida em Lei), que foi rigoroso com a Varig, todavia complacente com a Volo, a voadora poderia ganhar sobrevida! Atualmente, o governo deveria mais do que toda dívida da finada Varig. Mas não paga graças a um instrumento chamado PRECATÓRIO, que legitima o calote do governo e prejudica toda a sociedade. Daí alegar coisas como “má gestão” é puro reducionismo, pois ignora totalmente que quem executou a Varig é sua maior credora. Por fim, não estou aqui fazendo maniqueísmo entre Varig e governo; estou demonstrando que não foi a “má gestão” que levou a Varig à falência – por maior que seja a incompetência administrativa que realmente existiu! E muito menos problemas em 2001…

  2. Comentou em 19/08/2010 Igor M. Rodrigues

    Marcelo, a Varig não foi vendida diretamente para a GOL. Por isso mesmo que eu NÃO me referi a nenhum controlador da GOL, mas sim da Volo Logistics, que comprou a Varig e a Varig Log e, depois, a vendeu para a GOL. E sim, é o Lap Wai Chan que é procurado pela justiça por fraude. Ademais, o BDNES deu empréstimo sem nenhuma garantia da Volo, com intermédio da Casa Civil – na época presidida por nossa pré-candidata a presidência. E você ainda acredita que o governo não pode mexer os pauzinhos? Não falo em interferir em uma empresa privada, mas fazer EMPRÉSTIMO a uma empresa, assim como fazer compensação de dívidas. Quanto ao congelamento de tarifas, se você desconhece, então é de se presumir que você desconheça o motivo que levou a Varig (a Vasp e a Transbrasil também) à falência! Isso foi no governo Sarney (década de 80), o que gerou prejuízos monstruosos para as voadoras. A Varig ganhou (transito em julgado, no STF) direito à indenização bilionária do governo. Falo em dívida que poderia pagar, assim que a Varig foi vendida, 85 de suas dívidas!

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