Domingo, 25 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

JORNAL DE DEBATES > CONTRADIÇÕES DA REALPOLITIK

Governo prefere ignorar a mídia. E também a sociedade

Por Alberto Dines em 19/02/2007 na edição 421

Ficou evidente que o governo (melhor seria dizer o Palácio do Planalto, já que o governo está no banco dos reservas) não está interessado em manter o debate suscitado pelo martírio do garoto João Hélio Fernandes Vieites, no Rio.


Em primeiro lugar, porque o clamor público (com forte participação feminina e popular) foi captado pela mídia e ao governo não interessa validar os movimentos dos meios de comunicação, mesmo quando legítimos e, sobretudo, quando uníssonos.


Ouvir a sociedade através da imprensa equivaleria a oferecer-lhe um diploma de mediadora autorizada, o que anularia o recente movimento para desacreditá-la. A imprensa precisa ser colocada sob suspeita para evitar surpresas futuras. Esta é a palavra de ordem.


Os ministros palacianos mais de uma vez recusaram taxativamente a agenda da mídia sob o pretexto de evitar uma tutela que, segundo eles, seria espúria. As doutrinas com as quais montaram suas cartilhas de sociologia política ensinou-os a acreditar que a mídia é monolítica, controlada por grupos econômicos e agente de políticas antinacionais.


Rigor maior


A ofensiva contra os ‘formadores de opinião’ e as denúncias sobre o ‘complô da mídia’ em seguida às eleições são exemplo de uma ojeriza aos naturais movimentos de opinião pública, forjados pelas circunstâncias e independentes dos ‘movimentos sociais’ chapa-branca.


Ao aferrar-se exclusivamente à questão da diminuição da maioridade penal (como aconteceu com o pronunciamento do presidente Lula na sexta, 16/2), a equipe palaciana tenta confinar a questão a um tópico único que não chega a constituir um dilema. Colocação artificial, manhosa, procura diabolizar a pressão pública para aumentar o rigor das punições e, assim, deixar na agenda política apenas as questões relativas à aprovação do PAC. A tática palaciana consiste em colocar qualquer proposta sobre a administração de justiça no saco da maioridade penal. Não é honesto, nem cívico.


Existem diversos recursos humanitários que facultam maior rigor com delinqüentes de menor idade sem necessidade de alterar a maioridade penal. A mídia tem tratado deles extensivamente, mas ao governo não interessa deter-se nesta questão. É preciso eliminá-la da ordem do dia.


Tentações sensacionalistas


Se o governo e o partido do governo desejassem sinceramente dar seqüência e satisfazer a sociedade ainda horrorizada pela morte de João Hélio bastaria mobilizar os parlamentares da base aliada para incluir na pauta de votação do Congresso os cinco projetos de lei mencionados pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para a aceleração do processo penal.


Prova de que o governo não quer ampliar a reverberação do bárbaro crime e está irritado com o adiamento das votações relativas ao PAC está na própria manifestação do ministro Bastos. Ao invés de pronunciar-se por intermédio de veículos de grande audiência, o ministro preferiu fazê-lo discretamente, num artigo de jornal (Folha de S.Paulo, 15/2, pág. 3). Satisfaz a sua consciência mas não confronta os interesses do governo.


Um criminalista de notória e indiscutível competência como Márcio Thomaz Bastos, mesmo comprometido por mais alguns dias com o Executivo, tem autoridade pessoal e institucional para convocar um mutirão no Legislativo destinado a incluir os cinco projetos de lei na pauta de discussão. Isso jamais poderia ser interpretado como ameaça ao equilíbrio entre os poderes.


Paradoxos da nossa realpolitik:


** para não atrasar a sonhada aceleração do crescimento, o governo abdica da sua responsabilidade de produzir mudanças eficazes e rápidas;


** para não qualificar um interlocutor que, eventualmente, poderá criticá-lo, o governo prefere fingir que a mídia não representa a sociedade num dos momentos em que a sociedade parece tão unida.


A manutenção no Congresso da ‘agenda João Hélio’ não contraria a ‘agenda PAC’. São processos convergentes, combináveis. Um inesperado, outro planejado. Não é correto colocá-los como excludentes


***


Três palavras sobre o desempenho da mídia ao longo deste primeiro par de semanas desde o assassinato de João Hélio: correto, sofrido e solidário. Isso inclui a imprensa popular do Rio (O Dia e Extra), que não cedeu às tentações sensacionalistas, e exclui o Jornal do Brasil, que apesar do nome e da tradição faz questão de diferenciar-se do resto da imprensa brasileira.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/02/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Ivan Berger defendeu a causalidade que provocou o ‘acidente’ no metrô de São Paulo, onde morreram sete pessoas. Indignou-se mais com o ‘mensalão’ do que com o ‘acidente’. Ivan Berger acha que o PT é inimigo do Brasil, e o que o PFL/PSDB são o bem do país. Agora, diz que a falsa causalidade e a errônea identificação do inimigo são atributos do Perfeito Idiota Latino-Americano. Estaria Ivan Berger se declarando perfeito?

  2. Comentou em 26/02/2007 Albeto Pacheco

    Relamente nãi tem sentido não ouvir o povo. É isso o que se espera do poder público.

  3. Comentou em 25/02/2007 nelson perez o jr

    DINES COM QUEM TU ANDAS E DINEIS QUEM ÉS. DINES continua cínico como nunca. A mídia se pôs a vender indignação no caso JOAO HÉLIO, UM MENINO BRANCO DE CLASSE MÉDIA, QUE como os meus e os nossos filhos de classe média TÊM O DIREITO A IMORTALIDADE E O DIREITO DE VIVER ETERNAMENTE PARA GOVERNAR O BRASIL E SUAS MAZELAS.
    Dines, segurança não existe, todos os terroristas do mundo sabem disso, apenas os desavisados e egoístas de plantão ignoram este fato. O que eu vi foi a indignação da classe média, aquela que apoiou a TFP, E A REVOLUÇÃO DE 64. Vejo a classe média se arrogando intocável pelo caos social, a mesma classe que sustenta o tráfico e quer ir ao sambódromo como destaque em escolas de samba financiadas pelo tráfico e pelo jogo do bicho. Por que o Sr. Dines não se indignou com o BURACO DO ALCKMIN que matou um futuro pai de família cujo filho nasce orfão esta semana?. Talvez porque o BURACO É OBRA DA ODEBRECHT QUE FINANCIA A SANDICES DO DINES. DINES por que vc não contrapõe a posição da MIDIA NA ELEIÇÃO 2006 CONTRA OS VOTOS DE LULA,? a sua mídia não foi contra a opinião pública? A sua mídia não fez mais que ´MÉDIA NO CASO JOÃO HÉLIO, AS VENDAS FORAM UM ESTOURO NÃO É? NÓS TODOS SOMOS RESPONSÁVEIS PELA SEGURANÇA EM UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA. QUANDO SABEMOS QUE UM TRAFICANTE OU UM LADRÃO OU QUALQUER OUTRO CRIMINOSO É NOSSO VIZINHO NÃO DEVEMOS DENUNCIAR?

  4. Comentou em 24/02/2007 Ivan Berger

    São parte da idiotice latino-americana a falsa causalidade e a errônea identificação de inimigos’.Frase pinçada do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano,que já mencionei em outro post,e do qual me servirei aqui outras vezes,se o OI permitir,dada a irrefutabilidade das teses que o livro propõem.

  5. Comentou em 24/02/2007 Teo Ponciano

    Dines e sua ‘indignação seletiva’.Cabe lembrar Dines que houve mortes no acidente do metrô de SP e a sociedade se mostrou indignada. Até agora o governador não apresentou à sociedade sua opinião/decisão em relação à obra. Porque Dines nunca escreve sobre o assunto? Será que é porque a Oderbrecht patrocina o OI?

  6. Comentou em 22/02/2007 Washington Ferreira

    Quando será que o extinto Observador vai redigir um texto que não ofenda a grande maioria de leitores deste OI? As manifestações de desagrado ao ex-tinto estão cada vez mais bem elaboradas e inteligentes, e em muito maior número do que as que respaldam as sandices anti-Lula. Aliás, mas que fixação com o Lula, hein?

  7. Comentou em 21/02/2007 Marcelo del Questor

    E perdoem-me mais essa intervenção, mas gostaria de ter visto a reação desse opinador quando aqueles dois bárbaros filhos da classe privilegiada de Brasília ateou fogo naquele índio. Gostaria de ver qual foi a reação do opinador e seus seguidores/bajuladores tiveram a ouvir os fascínoras dizerem que atearam fogo no índío pensando que o mesmo fosse um mendigo. Mas mesmo sem ter visto tal reação eu imagino qual foi. Foi como a do resto dessa mídia tão chapa-branca como Dines, que vivia a bajular o governo de FHC, e de seus seguidores que perderam suas bocas-ricas nesses últimos 04 anos e estão próximos de perder o resto que lhes sobra neste 04 que se iniciam. A de total indiferença. Para os senhores e seus lacaios a classificação de crime depende de quem esta atrás da arma. É absurdo. Uma afronta ao povo.

  8. Comentou em 21/02/2007 Jedeão Carneiro

    É uma risco altíssimo autorizar a mídia a ser nossa representante. A imprensa politizou a tragédia do acidente da Gol, de modo que, sem sequer ter iniciado a investigação, jogou a responsabilidade pra cima do Lula, apoiando incondicionalmene os pilotos americanos do Legacy de tal maneira que chegaram a mostrar em horário nobre a grande festa do retorno dos heróis. Hoje, depois de provado que eles não sabiam pilotar o Legacy novinho e em perfeitas condições, e que desprezaram as chamadas do rádio, deixaram o transponder desligado e abandonaram o plano de vôo, a midia fica caladinha como se não houvesse o clamor de pelo menos 154 famílias que perderam seus entes queridos. Nem ao menos um pedido de desculpa daqueles que inocentaram os culpados. Representantes assim estão dispensados.

  9. Comentou em 20/02/2007 Tiago de Jesus

    Quando um menor queimou o índio Galdino Jesus dos Santos, em uma ‘inocente brincadeira’, onde estava a mídia para ecoar e amplificar o horror da sociedade?

    Onde estava o horror da sociedade

  10. Comentou em 20/02/2007 Fábio Carvalho

    Prezado Marco, no artigo de Antônio Carlos Queiroz, nesta edição do OI, postei comentário onde alerto um médico (que defende a prisão perpétua e a pena de morte) sobre a necessidade de nova Assembléia Nacional Constituinte para alterar cláusula pétrea. O artigo ‘A exploração mórbida da comoção nacional’, aliás, aborda a disponibilidade de alguns coleguinhas de imprensa em ser marreta de cláusulas pétreas. O olho roxo de todos os acusados da morte de João Hélio é tortura, tratamento degradante. Ou não é a violação explícita do inciso III? O artigo 5º assegura a liberdade de expressão e de pensamento tão reclamada pela imprensa, ora, por que não cumpri-lo por inteiro? A imprensa, salvo exceções, calou-se ao publicar a fotografia de torturados. Alguns repórteres chegaram a agredir fisicamente os jovens que cometeram aquele crime bárbaro. Conforme o senhor mesmo já salientou, são muitos os operadores do Direito que entendem que a inimputabilidade penal a menores de 18 anos é também cláusula pétrea (embora estejam no artigo 227 e 228). Esse debate não está em manchetes, sendo repercutido aqui e ali, embora baixar a maioridade penal ande em boca de Matildes.

  11. Comentou em 20/02/2007 Aleardo Baraldi

    Esperava ler um comentário do Dines sobre a imprensa e não sobre a política que ele detesta. A grande imprensa é, sim, a caixa de ressonância da classe social dominante aqui e no mundo. Não reflete o que o povo sente. Os jornalistas são empregados e defendem seu emprego escrevendo o que o patrão quer. Há pouquíssimas exceções na grande imprensa.

  12. Comentou em 20/02/2007 Miguel D Avila

    Às vezes queremos melhores condições para uma classe, mas, pela maneira como reivindicamos, acabamos prejudicando. Hoje não produz efeito o discurso da professora grevista que diz ganhar menos que sua empregada doméstica. A reivindicação de melhores salários para policiais e professores deve ser realista, e temos que pedir aumento salarial para o policial ou professor de 40 horas que receber menos de 4 salários mínimos, pois já não seria aceitável menos de 5 salários mínimos. São duas categorias que, além disso, não justifica grandes diferenças salariais entre níveis hierárquicos. No caso de professores vale mais estar na sala de aula, que na direção da escola. No caso de policial é o soldado, cabo e sargento que estão na linha de frente do risco de vida, na atuação de rua. Além do mais, não acredito, pelo menos me parece inacreditável, que existam professores e policiais ganhando menos de 1 salário mínimo. Na minha opinião o mínimo deveria ser 5 salários mínimos.

  13. Comentou em 19/02/2007 carlos santiago

    Dines,

    A redução da menoridade penal não resolve o problema. O presidente sabe disso. A mídia quer é vender facilidadade sem responsabilidades.

    Carlos

  14. Comentou em 19/02/2007 Cesar Lenzi

    Dines, discordo quando você afirma que a mídia representa a sociedade brasileira. Quando muito, apenas repercute a ideologia de uma parcela restrita. Retrógrada. Egoísta. Consumista. Perdulária. O tipo de jornalismo que estás produzindo nos últimos tempos te desqualifica como formador de opinião. Lamento. Sempre pensei que a velhice trouxesse sabedoria…

  15. Comentou em 19/02/2007 João Motta

    O curioso é que embora a responsabilidade maior pela segurança pública seja dos governos estaduais a mídia cobra , corretamente, apenas o governo federal. E Cabral? E Serra? A VEJA dessa semana traz matéria sobre os sequestros-relâmpagos orquestrados por meio de celulares de dentro dos presídios paulistas e cariocas. Alguém vai questionar os governadores? Também é triste constatar que o grau de empenho da mídia nos casos de violência é diretamente proporcional ao ‘bolso’ da vítima.

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