Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Grande mídia articula contra Dilma

Por Bia Barbosa em 04/03/2010 na edição 579

Se algum estudante ou profissional de comunicação desavisado pagou os R$ 500 que custavam a inscrição do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium, acreditando que os debates no evento girariam em torno das reais ameaças a esses direitos fundamentais, pode ter se surpreendido com a verdadeira aula sobre como organizar uma campanha política que foi dada pelos representantes dos grandes veículos de comunicação na segunda-feira (1/3), em São Paulo.


Promovido por um instituto defensor de valores como a economia de mercado e o direito à propriedade, e que tem entre seus conselheiros nomes como João Roberto Marinho, Roberto Civita, Eurípedes Alcântara e Pedro Bial, o fórum contou com o apoio de entidades como a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Aner (Associação Nacional de Editores de Revista), ANJ (Associação Nacional de Jornais) e Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade). E dedicou boa parte das suas discussões ao que os palestrantes consideram um risco para a democracia brasileira: a eleição de Dilma Rousseff.


A explicação foi inicialmente dada pelo sociólogo Demétrio Magnoli, que passou os últimos anos combatendo, nos noticiários e nas páginas dos grandes veículos, políticas de ação afirmativa como as cotas para negros nas universidades. Segundo ele, no início de sua história o PT abrangia em sua composição uma diversidade maior de correntes, incluindo a presença de lideranças social-democratas. Hoje, para Magnoli, o partido é um aparato controlado por sindicalistas e castristas, que têm respondido a suas bases pela retomada e restauração de um programa político remanescente dos antigos partidos comunistas.


‘Ao longo das quatro candidaturas de Lula, o PT realizou uma mudança muito importante em relação à economia. Mas ao mesmo tempo em que o governo adota um programa econômico ortodoxo e princípios da economia de mercado, o PT dá marcha a ré em todos os assuntos que se referem à democracia. Como contraponto à adesão à economia de mercado, retoma as antigas idéias de partido dirigente e de democracia burguesa, cruciais num ideário antidemocrático, e consolida um aparato partidário muito forte que reduz brutalmente a diversidade política no PT. E este movimento é reforçado hoje pelo cenário de emergência do chavismo e pela aliança entre Venezuela e Cuba’, disse. ‘O PT se tornou o maior partido do Brasil como fruto da democracia, mas é ambivalente em relação a esta democracia. Ele celebra a Venezuela de Chávez, aplaude o regime castrista em seus documentos oficiais e congressos, e solta uma nota oficial em apoio ao fechamento da RCTV’, afirmou.


A RCTV é a emissora de TV venezuelana que não teve sua concessão em canal aberto renovada por descumprir as leis do país e articular o golpe de 2000 contra Hugo Chávez, e cujo presidente Marcel Granier foi convidado de honra do evento do Instituto Millenium. Hoje, a RCTV opera apenas no cabo e segue enfrentando o governo por se recusar a cumprir a legislação nacional. Por esta atitude, Granier é considerado pelos organizadores do Fórum um símbolo mundial da luta pela liberdade de expressão – um direito a que, acreditam, o PT também é contra.


‘O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso. Mas no Brasil vivemos um debate democrático e o PT, por intermédio do cerceamento da liberdade de imprensa, propõe subverter a democracia pelos processos democráticos’, declarou o filósofo Denis Rosenfield. ‘A idéia de controle social da mídia é oficial nos programas do PT. O partido poderia ter se tornado social-democrata, mas decidiu que seu caminho seria de restauração stalinista. E não por acaso o centro desta restauração stalinista é o ataque verbal à liberdade de imprensa e expressão’, completou Magnoli.


O tal ataque


Para os pensadores da mídia de direita, o cerco à liberdade de expressão não é novidade no Brasil. E tal cerceamento não nasce da brutal concentração da propriedade dos meios de comunicação característica do Brasil, mas vem se manifestando há anos em iniciativas do governo Lula, em projetos com o da Ancinav, que pretendia criar uma agência de regulação do setor audiovisual, considerado ‘autoritário, burocratizante, concentracionista e estatizante’ pelos palestrantes do Fórum, e do Conselho Federal de Jornalistas, que tinha como prerrogativa fiscalizar o exercício da profissão no país.


‘Se o CFJ tivesse vingado, o governo deteria o controle absoluto de uma atividade cuja liberdade está garantida na Constituição Federal. O veneno antidemocrático era forte demais. Mas o governo não desiste. Tanto que, em novembro, o Diretório Nacional do PT aprovou propostas para a Conferência Nacional de Comunicação defendendo mecanismos de controle público e sanções à imprensa’, avalia Carlos Alberto Di Franco, articulista do Estadão e membro da Opus Dei.


‘Tínhamos um partido que passou 20 anos fazendo guerra de valores, sabotando tentativas, atrapalhadas ou não, de estabilização, e que chegou em 2002 com chances de vencer as eleições. E todos os setores acreditaram que eles não queriam fazer o socialismo. Eles nos ofereceram estabilidade e por isso aceitamos tudo’, lamenta Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja, que faz questão de assumir que Fernando Henrique Cardoso está à sua esquerda e para quem o DEM não defende os verdadeiros valores de direita. ‘A guerra da democracia do lado de cá esta sendo perdida’, disse, num momento de desespero.


O deputado petista Antonio Palocci, convidado do evento, até tentou tranqüilizar os participantes, dizendo que não vê no horizonte nenhum risco à liberdade de expressão no Brasil e que o presidente Lula respeita e defende a liberdade de imprensa. O ministro Hélio Costa, velho amigo e conhecido dos donos da mídia, também. ‘Durante os procedimentos que levaram à Conferência de Comunicação, o governo foi unânime ao dizer que em hipótese alguma aceitaria uma discussão sobre o controle social da mídia. Isso não será permitido discutir, do ponto de vista governamental, porque consideramos absolutamente intocável’, garantiu Costa.


Mas não adiantou. Nesta análise criteriosa sobre o Partido dos Trabalhadores, houve quem teorizasse até sobre os malefícios da militância partidária. Roberto Romano, convidado para falar em uma mesa sobre Estado Democrático de Direito, foi categórico ao atacar a prática política e apresentar elementos para a teoria da conspiração que ali se construía, defendendo a necessidade de surgimento de um partido de direita no país para quebrar o monopólio progressivo da esquerda.


‘O partido de militantes é um partido de corrosão de caráter. Você não tem mais, por exemplo, juiz ou jornalista; tem um militante que responde ao seu dirigente partidário (…) Há uma cultura da militância por baixo, que faz com que essas pessoas militem nos órgãos públicos. E a escolha do militante vai até a morte. (…) Você tem grupos políticos nas redações que se dão ao direito de fazer censura. Não é por acaso que o PT tem uma massa de pessoas que considera toda a imprensa burguesa como criminosa e mentirosa’, explica.


O ‘risco Dilma’


Convictos da imposição pelo atual governo de uma visão de mundo hegemônica e de um único conjunto de valores, que estaria lentamente sedimentando-se no país pelas ações do presidente Lula, os debatedores do Fórum Democracia e Liberdade de Expressão apresentaram aos cerca de 180 presentes e aos internautas que acompanharam o evento pela rede mundial de computadores os riscos de uma eventual eleição de Dilma Rousseff. A análise é simples: ao contrário de Lula, que possui uma ‘autonomia bonapartista’ em relação ao PT, a sustentação de Dilma depende fundamentalmente do Partido dos Trabalhadores. E isso, por si só, já representa um perigo para a democracia e a liberdade de expressão no Brasil.


‘O que está na cabeça de quem pode assumir em definitivo o poder no país é um patrimonialismo de Estado. Lula, com seu temperamento conciliador, teve o mérito real de manter os bolcheviques e jacobinos fora do poder. Mas conheço a cabeça de comunistas, fui do PC, e isso não muda, é feito pedra. O perigo é que a cabeça deste novo patrimonialismo de Estado acha que a sociedade não merece confiança. Se sentem realmente superiores a nós, donos de uma linha justa, com direito de dominar e corrigir a sociedade segundo seus direitos ideológicos’, afirma o cineasta e comentarista da Rede Globo, Arnaldo Jabor. ‘Minha preocupação é que se o próximo governo for da Dilma, será uma infiltração infinitas de formigas neste país. Quem vai mandar no país é o Zé Dirceu e o Vaccarezza. A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo’, alerta Jabor.


Para Denis Rosenfield, ao contrário de Lula, que ganhou as eleições fazendo um movimento para o centro do espectro político, Dilma e o PT radicalizaram o discurso por intermédio do debate de idéias em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos 3, lançado pelo governo no final do ano passado. ‘Observamos no Brasil tendências cada vez maiores de cerceamento da liberdade de expressão. Além do CFJ e da Ancinav, tem a Conferência Nacional de Comunicação, o PNDH-3 e a Conferência de Cultura. Então, o projeto é claro. Só não vê coerência quem não quer’, afirma. ‘Se muitas das intenções do PT não foram realizadas não foi por ausência de vontades, mas por ausência de condições, sobretudo porque a mídia é atuante’, admite.


Hora de reagir


E foi essa atuação consistente que o Instituto Millenium cobrou da imprensa brasileira. Sair da abstração literária e partir para o ataque. ‘Se o Serra ganhasse, faríamos uma festa em termos das liberdades. Seria ruim para os fumantes, mas mudaria muito em relação à liberdade de expressão. Mas a perspectiva é que a Dilma vença’, alertou Demétrio Magnoli.


‘Então o perigo maior que nos ronda é ficar abstratos enquanto os outros são objetivos e obstinados, furando nossa resistência. A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí. O mundo hoje é de muita liberdade de expressão, inclusive tecnológica, e isso provoca revolta nos velhos esquerdistas. Por isso tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução. Senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva’, disse Jabor, convocando os presentes para a guerra ideológica.


‘Na hora em que a imprensa decidir e passar a defender os valores que são da democracia, da economia de mercado e do individualismo, e que não se vai dar trela para quem a quer solapar, começaremos a mudar uma certa cultura’, prevê Reinaldo Azevedo.


Um último conselho foi dado aos veículos de imprensa: assumam publicamente a candidatura que vão apoiar. Espera-se que ao menos esta recomendação seja seguida, para que a posição da grande mídia não seja conhecida apenas por aqueles que puderam pagar R$ 500 pela oficina de campanha eleitoral dada na segunda-feira, 1º de março.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/03/2010 Cristian Ferreira

    Cont… Sendo assim já que se aproxima outro DEMÔNIO nas nossas vidas vamos solicitar ajuda aos defensores da DEMOCRACIA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO chamando os TUCA/DEMO para ficarmos mais perto dos países ricos e deixar de lado esses países pobres que só incomodam, vamos pedir também que, com suas democráticas expressões, corram esses países vizinhos e os movimentos sociais defensores de pobres, que sigam apresentando programas culturais e educacionais como big brother, viver a vida, faustão,etc. se não for pedir muito e se não se ofenderem pediriamos também que pensem por nós, que decidam por nós o que é bom e o que é ruim nas nossas vidas e que nos ensinem quem são os demônios e os anjos da vida política… ainda bém que temos pessoas preocupadas com a qualidade das nossas vidas, muito obrigado defensores da democracia e liberdade de expressão, que seria de nos sem vocês!!! A sim, ia me esquecendo, um grande abraço a Arnaldo Jabor, um verdadeiro DEMOcrata.

  2. Comentou em 04/03/2010 Luciano Prado

    Bia foi muito feliz e teve muita sorte. Feliz porque soube narrar com fidelidade os fatos e sorte porque flagrou um fato raro. Senhores da velha imprensa deixaram suas mansões e saíram em campo com seus pitbulls. Cada um levou o seu. Sob o falso argumento da liberdade de expressão os caninos “brilharam”, a ponto de serem aplaudidos por seus donos. É possível que o Instituto Millenium venha, agora, convocar a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton para explicar suas atabalhoadas e irresponsáveis declarações sobre o Brasil: ‘Hoje em Brasília, aqui nessa universidade, vejo a imprensa livre que tem o Brasil’. ‘Temos confiança na democracia brasileira, que é vital, vibrante’. Certamente se ouvisse Jabor, Magnoli, Reinaldo e Cia. não diria o que disse.

  3. Comentou em 04/03/2010 José Mario Sabrini

    E aí, Jabor, a velha direita a qual você pertence também não deveria existir, né? Que tal parar com posturas nazistas? Em quem você quer que eu vote para presidente? E por que?

  4. Comentou em 25/11/2004 Sérgio Luís Domingues

    O marketing deve ser considerado um “iceberg”. O que aparece é apenas a menor parte do bloco, sendo que dois terços permanecem submersos e, portanto, invisível. Metaforicamente a parte visível é o marketing racional e a invisível o emocional, o marketing do inconsciente.

    Estudos neurológicos provaram que 100% da motivação de compra são emocionais. Portanto, cabe ao executivo de marketing perceber isso para que suas estratégias sejam focadas no emocional e não no racional das pessoas.

    As motivações de compra estão relacionadas às necessidades, às crenças e aos desejos individuais. E a preferência é despertada por imagens que estão no nosso inconsciente coletivo. Assim, o profissional de marketing deve estar sensível a essas diferenças e criar estratégias e mensagens publicitárias que atinjam diretamente as imagens chamadas de arquétipos, que são verdadeiras estradas mentais sedimentadas a partir do nascimento.

    Mas nosso cérebro, que na verdade são vários, cada um com sua função distinta, disfarça a verdadeira motivação de compra emocional, para uma “aparência” racional, e com isso “pega” os incautos, que defendem a tese de que o consumidor compra guiado pela relação custo-benefício, preço de ocasião ou pela oferta imperdível dentre outros motivos tangíveis.

    O cérebro reptiliano controla os instintos. Temos lá nosso primeiro impulso de compra, imediatamente repassado ao cérebro amigdaliano, que rege as emoções, onde formamos realmente a decisão de compra. Mas como temos de “parecer” racionais, o córtex, senhor da razão, mais que depressa cria um motivo racional para a aquisição. É justamente aí que profissionais de marketing e propaganda gastam verdadeiras fortunas dos clientes direcionando erroneamente suas estratégias.

    Assim, ao entender o verdadeiro processo dos arquétipos mentais e como despertá-los através de ações de marketing, nosso produto venderá mais, e o mais importante, terá verdadeira vantagem competitiva em relação à concorrência, criando a preferência do consumidor.

    Sim, preferência em vez de fidelidade. Em um mundo de multimarcas como o do século XXI, o correto é nos esforçarmos para conseguir a preferência do consumidor em relação ao nosso produto e não sua fidelidade, algo raríssimo hoje em dia.

    Nossa atenção é seletiva, diariamente somos bombardeados por centenas de mensagens, e apenas uma pequena parte tem entendimento e lembrança conscientes. Porém, a maioria será percebida inconscientemente, porque foi captada pelo nosso cérebro reptiliano de forma subliminar. Por isso é uma questão de lógica entendermos como se dá todo esse processo e tirarmos proveito dele em benefício do nosso cliente.

    Portanto, se a comunicação de marketing for ao encontro de nossos arquétipos, o produto será reconhecido pelo cérebro amigdaliano, dando início ao desejo emocional de compra que de imediato é mascarado pelo processo de disfarce racional. O final desse processo é a aquisição do produto caso tenhamos condições financeiras de fazê-lo (share of pocket).

    É claro que a recompra somente será possível com a qualidade e funcionalidade da mercadoria. Nenhuma estratégia de marketing do mundo, por mais brilhante que seja, é capaz de sustentar as vendas de um mau produto.

    Quando estudamos a natureza emocional das marcas e dos produtos, descobrimos através de pesquisas arquetípicas o que realmente um determinado produto evoca na mente no consumidor. Munidos dessas informações podemos criar o diferencial decisivo de marketing que certamente fará nosso produto ser preferido pelo cliente em relação às inúmeras ofertas da concorrência e esta preferência será a diferença entre o fracasso e o sucesso das empresas neste início de século.

    Sérgio Luís Domingues é consultor de marketing e comunicação http://www.sergiodomingues.com.br

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