Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > D. LUIZ FLÁVIO CAPPIO

Greve de fome, omissão e badalação

Por Alberto Dines em 20/12/2007 na edição 464

A imprensa, afinal, resolveu preocupar-se com o estado de saúde do bispo dom Luiz Flávio Cappio, em greve de fome há 23 dias. Mas até o décimo dia, a autoflagelação que se impôs o religioso não mereceu muita atenção da nossa imprensa. Agora, vai para as primeiras páginas quando os médicos começam a se preocupar com os efeitos do jejum.


Esta gangorra entre omissão e badalação é uma das mazelas da nossa mídia e revela o quanto ela é dominada pelo espírito de manada. O Mahatma Gandhi (1869-1948), guru da emancipação indiana nos anos 1930 e 40, utilizou inúmeras vezes o recurso da greve de fome para protestar contra o colonialismo inglês, mas raramente chegava ao 21º dia, quando a situação começa a ficar crítica. A repercussão impedia que a mortificação ameaçasse sua vida.


Nossa mídia foi insensível, essa é a verdade. Mesmo discordando das opiniões e opções do bispo de Barra (BA) no tocante às obras de transposição do rio São Francisco, não poderia ignorar os riscos que corria considerando que, nesta sua segunda tentativa, a determinação só poderia aumentar.


Com tanto anúncio e tanto papel para ser preenchido nesta próspera temporada natalina, é uma lástima que o sentimento de solidariedade da nossa imprensa tenha sido tão pífio.


 


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Mídia esconde greve de fome – Alberto Dines (7/12/2007)

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/12/2007 Marco Vitis

    Por mais nobres que sejam as verdadeiras intenções do bispo, o que ele está fazendo é apenas chantagem. A greve de fome significa apenas o seguinte: ou vocês fazem o que eu quero ou eu morro e vocês serão os culpados. Compará-lo com Gandhi é o cúmulo da estupidez, pois Ghandi estava sob o domínio colonial e nós vivemos numa democracia.

  2. Comentou em 20/12/2007 Ana Carla Lima

    Desde o inicio deve haver um ‘equilibrio’ na divulgação das noticias. O desafio é saber dosar: nem espetacularizar , nem esconder o fato. Parece que só o que nos interessa e chama atenção é o inusitado, o trágico, infelizmente essa é a impressão…O perfil sensacionalista de alguns midias fortalece a banalização da vida. A midia pauta à vida ou a vida imita a midia? E sem esquecer esse comportamento difunde a insensibilidade, independente de opinioes, perante a vida.

  3. Comentou em 20/12/2007 Cesar Lenzi

    Sr. Dines, gostaria que me informasse quais as opiniões do bispo sobre as obras de transposição. Ao que me consta não foi feita, ou pelo menos nao foi veiculada, nenhuma entrevista com o capuchinho. Passaram-se 23 dias do início da greve de fome e nao se sabe ainda o que o fundamentalista defende. Bão tenho dúvidas de que havia um monte de gente da oposição e da mídia torcendo pelo desfelho fatal, porque, no fundo, tude se resume em tentar desqualificar o governo não querido.

  4. Comentou em 02/04/2005 Marta Miguel

    Caro Alberto Dines,
    gostaria de sugerir como tema para discussão a cobertura dada pela grande imprensa a doença e aos momentos finais de vida do Papa João Paulo II. Me parece que a grande imprensa brasileira sempre age, nesses casos, norteada pelo senso comum, se envolvendo emocional e religiosamente com a questão. Assim como os componentes da crônica esportiva assumem uma postura de torcedores quando se trata temas relacionados a seleção brasileira, perdendo o senso crítico e a noção de imparcialidade jornalística, a cobertura dada ao Sumo Pontífice tem tido um fervoroso tom católico, que acredito não deva ser a tônica jornalística. Além do que, tem se ignorado quase por completo a postura intolerante, conservadora e arcáica da política religiosa empreendida por este Papa no Vaticano, em detrimento de numerosos e exagerados elogios ao mesmo. A imprensa brasileira não só não está prestando um bom serviço de informação, cedendo espaço a demagogia e aos apelos da audiência, como também perdendo uma boa oportunidade de entrar no campo da análise e fornecer elementos para o fomento da discussão sobre o papel das instituições religiosas em um mundo moderno, além é claro de não contribuir para o entendimento do espaço ocupado pela Igreja Católica e sua representação ideológica neste momento histórico.
    Agradeço a atenção e parabenizo pela excelente iniciativa de criar e manter este Observatório, que acredito ser mais do que um crítico da imprensa um bom exercício do que melhor pode se fazer em jornalismo, fazer pensar.
    Um abraço.
    Marta Miguel

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