Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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JORNAL DE DEBATES >

Guerra colonialista, imprensa de eco

Por Paulo Bento Bandarra em 25/05/2004 na edição 278

A idéia que temos é que uma imprensa livre poderia garantir a liberdade e informar ao leitor adequadamente, para que tome atitudes corretas e influa nas ações de seu governo pelo voto livre. Elemento essencial da democracia. A grande preocupação do momento nos Estados Unidos é saber se houve falhas do governo na segurança, que poderiam ter possibilitado os ataques de 11 de setembro de 2001, assim como erros no atendimento às vítimas. Preocupações focadas unicamente em seus problemas.

A ‘falha’ da segurança em atacar um país soberano, destruindo seu exército e derrubando seu governo, não parece ser preocupação maior dos americanos. Afinal, as vítimas eram pessoas primitivas e más. Nem a falta de relação do regime de Saddam Hussein com a al-Qaida (a base, em árabe) preocupa muito os eleitores ou a imprensa. Na Espanha, a intenção do governo de atribuir ao ETA a ação terrorista que detonou bombas nos trens teve efeito contrário, levando a oposição à vitória nas urnas. Esta ação americana, que não foi uma falha, mas uma premeditação que já vinha sendo pensada antes do 11/9 não afeta os americanos, muito menos a imprensa ‘livre’ deles. Hoje sabemos que a pressa em atacar o Iraque escondia a preocupação de que os inspetores confirmassem a falta de armas de destruição em massa, e que uma nova desculpa deveria ser criada.

Daí a falta de ‘paciência’ do governo americano com os inspetores de armas da ONU. No Vietnã foi assim, quando no governo Kennedy abalroaram barcos do Vietnã do Norte para que respondessem com fogo, e assim justificando uma ação militar. A Alemanha nazista forjou incidentes na fronteira da Polônia para invadi-la.

Dependência de visão

A ação dos forças de invasão dos Estados Unidos resultou na rápida destruição da defesa do Iraque. Agora surge a luta de libertação na união do povo e de várias correntes para expulsar o que os EUA sempre foram nesta guerra: uma força de ocupação colonial clássica para expropriar as riquezas do país. Nunca houve nenhum real interesse em ‘libertar’ o povo e democratizar o Iraque. Foi tudo uma maquiavélica engendração para enganar o povo americano, única força atualmente capaz de deter a máquina de guerra deles. E manipulados pela mídia ‘livre’, que come na mão da máquina oficial e aceita uma guerra de conquistas que mata muito mais do que os patriotas que lutam por sua soberania. País que investe para destruir a TV al-Jazira, que lhe atrapalha a colonização. Que tortura jornalistas iraquianos para amedrontá-los.

Os americanos estão construindo 14 base permanentes no Iraque, e só em volta de Bagdá, seis delas. Uma astronômica força estrangeira. A embaixada americana que está sendo construída no Iraque é um complexo fortificado na antiga área dos palácios de Saddam. É onde vai se instalar o verdadeiro poder do país, a que os governantes iraquianos deverão daqui por diante se reportar. Enorme contingente da CIA se encontra no Iraque para agir como as SS: quebrar a resistência de defesa – medidas arquitetadas há tempo, um plano pronto, de expansão colonialista clássico. Cai por terra a desculpa de democratizar e libertar o povo do país.

Agora, mais uma ponta do iceberg aparece com as torturas de rotina, numa óbvia ação para quebrar a índole do país. Veja-se que à nova Auschwitz, a base naval de Guantánamo, nem imprensa, nem Justiça nem Legislativo pode ter acesso.

Este é o perigo que corre a nossa imprensa, ao ser em grande parte apenas encarregada de traduzir matérias da imprensa americana, fazendo assim eco da linha que interessa aos Estados Unidos, que na maioria das vezes não é real e muito menos interessa ao nosso leitor. Mostra a importância de a nossa imprensa contar com observadores independentes para fugir desta dependência de visão e de informação.

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