Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

Guerra suja na campanha eleitoral

Por Venício A. de Lima em 12/10/2010 na edição 611

As campanhas eleitorais têm servido para revelar, de forma inequívoca, qual a ética empresarial e jornalística que predomina na grande mídia brasileira.

Os episódios recentes relacionados à demissão de conceituada articulista do Estado de S.Paulo, assim como a ação da Folha de S.Paulo, que obteve na Justiça liminar para retirada do ar do blog de humor crítico Falha de S.Paulo, são apenas mais duas evidências recentes de que esses jornalões adotam, empresarialmente e dentro de suas redações, práticas muito diferentes daquelas que alardeiam em público.

Como se sabe, o Estadão é o jornal que afirma diariamente estar sofrendo ‘censura’ judicial, há vários meses.

Tratei do tema neste Observatório quando da demissão do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, publicada pela Editora Abril, por ter criticado, via Twitter, a revista Veja (ver ‘Hipocrisia Geral: Liberdade de expressão para quem?‘].

Corre solta também, na internet, uma guerra – e, como toda guerra, sem qualquer ética – de manipulação da informação, agora tendo como aliados partidos de oposição e os setores mais retrógrados das igrejas católica e evangélica, incluindo velhas e conhecidas organizações como o Opus Dei e a TFP.

Ademais, uma série de panfletos anônimos sobre candidatos e partidos, de conteúdo mentiroso e manipulador, tem aparecido e circulado em diferentes pontos do país, aparentemente de forma articulada.

Estamos chegando ao ‘primeiro mundo’. Repetem-se aqui as estratégias políticas obscuras que já vem sendo utilizadas pelos radicais conservadores ligados – direta ou indiretamente – à extrema direita do Partido Republicano – o ‘Tea Party’ – e também pela chamada ‘Christian Right’, nos Estados Unidos.

A bandeira da liberdade de expressão equacionada, sem mais, com a liberdade de imprensa, não passa de hipocrisia.

Começou com o PNDH3

A atual onda, que acabou por deslocar o eixo da agenda pública da campanha eleitoral e da propaganda política no rádio e na televisão para uma questão de foro íntimo e religioso, teve seu início na violenta reação ao Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3), capitaneada pela grande mídia. Na época, escrevi:

‘O curto período de menos de cinco meses compreendido entre 21 de dezembro de 2009 e 12 de maio de 2010 foi suficiente para que as forças políticas que, de fato, há décadas, exercem influência determinante sobre as decisões do Estado no Brasil, conseguissem que o governo recuasse em todos os pontos de seu interesse contidos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (Decreto n. 7.037/2009). Refiro-me, por óbvio aos militares, aos ruralistas, à Igreja Católica e, sobretudo, à grande mídia.’ [‘A grande mídia vence mais uma‘, 15/5/2010].

São essas forças políticas – com seus paradoxos e contradições – que agora se unem novamente para tentar influir no resultado das eleições presidenciais de 2010, valendo-se da ‘ética’ de que ‘os fins justificam os meios’.

Lições

A essa altura, já podem ser observadas algumas lições sobre a mídia e suas responsabilidades no processo político de uma democracia representativa liberal como a nossa:

1. Não é apenas a grande mídia que tem o poder de pautar a agenda do debate público. A experiência atual demonstra que, em períodos eleitorais, essa agenda pode ser pautada ‘de fora’ quando há convergência de interesses entre forças políticas dominantes. Elas se utilizam de seus próprios recursos de comunicação (incluindo redes de rádio e televisão), redes sociais (p. ex. Twitter) e correntes de e-mail na internet. A grande mídia, por óbvio, adere e abraça a nova agenda por ser de seu interesse.

2. Fica cada vez mais clara a necessidade do cumprimento do ‘princípio da complementaridade’ entre os sistemas de radiodifusão (artigo 223 da Constituição). Seria extremamente salutar para a democracia brasileira que o sistema público de mídia se consolidasse e funcionasse, de fato, como uma alternativa complementar ao sistema privado.

3. Independente de qual dos candidatos vença o segundo turno das eleições presidenciais, a regulação do setor de comunicações será inescapável. Não dá mais para fingir que o Brasil é a única democracia do planeta onde os grupos de mídia devem prosseguir sem a existência de um marco regulatório.

4. O artigo 19 da Constituição reza:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público.

Apesar de ser, portanto, claro o caráter laico do Estado brasileiro, na vida real estamos longe, muito longe, disso.

5. Estamos também ainda longe, muito longe, do ideal teórico da democracia representativa liberal onde a mídia plural deveria ser a mediadora equilibrada do debate público, representando a diversidade de opiniões existentes no ‘mercado livre de idéias’. Doce ilusão.

******

Professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher,2010

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/10/2010 jose Antonio de Oliveira Oliveira

    É muito oportuno trabalhos científicos sobre a censura na mídia brasileira: sobre a censura praticada pelos governos, a censura praticada nas redações de comum acordo com os interesses donos da mídia e dos anunciantes, a autocensura para preservação do emprego. Todas multifacetadas, com inter-relações. que dificultam avaliar o peso e os limites de cada. Parece-nos que tal está dentro da proposta deste site, de análise do papel midia. Se já fizeram seria bom atualizar.

  2. Comentou em 13/10/2010 Marcelo Ramos

    É, Pedro, o Lula, além do AeroLula, tem imprensa própria. Conta outra que me divirto mais. Contra as mentiras e boatos vejam esse site. http://www.dilma13.com.br/verdades

  3. Comentou em 12/10/2010 Alexandre Ramos

    Só faltou dizer que alguém surfou nessa ‘onda’ no 1º turno: a Marina. Pensaram que onda era ‘verde’, mas a cor ainda não se sabe, pois na penumbra todas as ondas são pardas, assim como os gatos. O Serra quis até ser igual a Marina, dizendo se tratar de um ecologista desde criancinha. Mas percebeu logo que tinha que ser igual ao Alckimin, que teve mais voto que ele em São Paulo (onde o Tiririca ainda vai ser Governador!). Enfim: ao invés do Greenpeace, o Serra vai se filiar mesmo à Opus Dei! Só quero saber para onde vão os votos dos evangélicos, decisivos no 1º turno, mas que agora não devem estar gostando do protagonismo assumido pela Igreja Católica Apostólica Romana ou Palista, que capiturou a ‘onda’ para o seu proveito… político! Mais que santa confusão?

  4. Comentou em 12/10/2010 Jorge Fernando dos Santos

    Excelente comentário, Roberto. Os petistas chorões se esquecem das organizações terroristas que se abrigam sob sua legenda e acusam os adversários de tudo. Reclamam que a Folha tenha tirado do ar a Falha de S. Paulo, por atentar contra sua marca. Alguém já pensou em criar o site PT-Partido Trapalhão? Os petistas certamente o tirariam do ar do mesmo jeito. Viveram com o estilingue na mão por um bom tempo e, quando viraram vidraça, mostraram não estar prontos para o poder. Nenhum governo dito democrático reclamou tanto da liberdade quanto o governo Lula. Erram e não querem ser criticados. Levantam a bola e não querem que o adversário cabeceie pro gol. Falam em legalizar o aborto e depois disdizem, com medo de perder as eleições. São mesmo uns trapalhões assustados e arrogantes. Haja salto quebrado!

  5. Comentou em 12/10/2010 Jorge Fernando dos Santos

    Excelente comentário, Roberto. Os petistas chorões se esquecem das organizações terroristas que se abrigam sob sua legenda e acusam os adversários de tudo. Reclamam que a Folha tenha tirado do ar a Falha de S. Paulo, por atentar contra sua marca. Alguém já pensou em criar o site PT-Partido Trapalhão? Os petistas certamente o tirariam do ar do mesmo jeito. Viveram com o estilingue na mão por um bom tempo e, quando viraram vidraça, mostraram não estar prontos para o poder. Nenhum governo dito democrático reclamou tanto da liberdade quanto o governo Lula. Erram e não querem ser criticados. Levantam a bola e não querem que o adversário cabeceie pro gol. Falam em legalizar o aborto e depois disdizem, com medo de perder as eleições. São mesmo uns trapalhões assustados e arrogantes. Haja salto quebrado!

  6. Comentou em 18/05/2010 Inimar de Fátima Carneiro Carneiro

    EU PRECISO SABER, QUAL É O ÚLTIMO DIA DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E A HORA, PORQUE SOU PROFESSORA E ÀS VEZES NÃO TENHO DE FICAR ANTENADA NA TELEVISÃO. SERÁ QUE PODEM POR FAVOR, ENVIAR-ME A RESPOSTA? COM TODO RESPEITO! INIMAR

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