Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > MÍDIA & POLÍTICA

Hillary Clinton e o preconceito contra mulheres

Por Ligia Martins de Almeida em 13/05/2008 na edição 485

A campanha presidencial norte-americana está prestando um bom serviço à causa feminina na imprensa. Pela primeira vez se discute, com clareza e sem meias-palavras, o quanto o fato de ser mulher ajuda ou atrapalha na política. Um bom exemplo são as matérias do caderno Alíás, do jornal O Estado de São Paulo de domingo (11/5/08).

Em O desmanche de Hillary Clinton a colunista norte-americana Anne Apllebaum, diz que o problema da candidata não é ser mulher, mas ‘que’ mulher: ‘As pessoas não a vêem como alguém que construiu uma carreira pelo esforço próprio. Se era hora de ter a primeira presidente, esperava-se que fosse um tipo diferente de mulher. Não a esposa de um ex-presidente’.

Applebaum diz: ‘Sem dúvida, há machismo nos Estados Unidos, mas não foi isso que tirou Hillary da corrida. Transformar a derrota de Hillary numa questão de gênero é simplismo. Ser mulher é o seu aspecto menos interessante. Ela própria tentou conquistar apoios alegando ser um bom momento para ter uma presidente na Casa Branca. Mas é uma argumentação que a maioria do eleitorado feminino não gosta. Mulheres querem escolher uma presidente não pelo fato de ser mulher, mas por ser melhor’.

No artigo O teto de vidro blindado, a jornalista Lúcia Guimarães chega a uma conclusão diferente: ‘o machismo contemporâneo, bem mais sutil, transforma poderosas como Hillary em vítimas do sucesso’. Uma das entrevistadas, a escritora Leslie Bennetts (autora do livro The Feminine Mistake) diz que sente, na mídia, antagonismo contra a sessentona Hillary: ‘O fato é que poucos teriam coragem de afirmar que não votariam num candidato por ser negro. O politicamente correto blindou, para o bem e para o mal, vários grupos. Mas é possível falar das mulheres em posição de poder com termos ofensivos. O mesmo sujeito que grita para Hillary ‘passe as minhas camisas’, não vai gritar para Obana ‘engraxe meus sapatos’’.

Lúcia Guimarães termina o artigo dizendo: ‘É provável que Hillary Clinton desça do Olimpo que reservou para si mesma com arrogância e calculismo. Mas sua derrota contém múltiplas derrotas. E algumas voltarão para assombrar suas inimigas’.

Hillary e Dilma: dá para comparar?

O terceiro artigo sobre tema é do jornalista Sérgio Augusto: traz a discussão para o Brasil, ao comparar Hillary Clinton e a ministra Dilma Roussef. Começa dizendo: ‘Uma é sagitário; a outra, escorpião. Poderosas, ambiciosas, arrogantes, têm a mesma idade (60 anos) e querem chegar à presidência da República. Quando jovens, peitaram o establishment, cada uma do jeito que dava e a correlação de forças permitia… No início da semana, ambas passaram por uma prova de fogo. Uma perdeu, outra ganhou. Que ninguém se surpreenda se a sagitariana Dilma Rousseff eleger-se presidente antes de Hillary. Ou melhor, se Dilma chegar à presidência e Hillary encerrar sua carreira política no Senado.’

Só há, aparentemente, uma falha na previsão de Sérgio Augusto: ele não considerou o fator sexo, na hora de votar. Será que os mesmos brasileiros que elegem prefeitas, vereadoras, deputadas e senadoras, estão preparados para votar numa mulher para presidente da República?

É um prato cheio para a imprensa discutir nos próximos dois anos. Isto sem falar em confirmar ou não, com pesquisas e reportagens, o argumento usado pela jornalista americana ao analisar a derrota de Hillary: ‘as mulheres não querem escolher uma presidente por ser mulher, mas por ser a melhor’.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/05/2008 Pedro Meira

    Ao contrário do que dizem os comentaristas brasileiros, a mídia americana, a meu ver, é quase toda anti-Obama e pró-Hillary. Vejam o fato de terem desenterrado os discursos sectários do pastor Wright às vésperas das primárias de Indiana e Carolina do Norte para prejudicar Barack Obama, e o debate da ABC, mediado pelo ex-assessor de Clinton George Stepanopoulos. Já na mídia brasileira, com as exceções de praxe a preferência pelos Clinton é tão grande que dá revolta. Um exemplo é Caio Blinder, que não escreve um artigo sobre a sucessão nos EUA sem chamar Obama de ‘Obambi’ e ‘Meu príncipe’, enquanto Hillary nunca recebe apelidos pejorativos, é sempre descrita como ‘tenaz’, e por aí vai. Não sei de onde os articulistas extraíram a certeza de que ela ganharia de McCain, se ela nem está ganhando de Obama.

  2. Comentou em 13/05/2008 Marco Antônio Leite

    Vivemos numa paranóia muito louca, aquela que nem o choque elétrico cura, diz que o preconceito atingiu a ex-primeira DAMA Americana Hillary Clinton. Supondo que ela estivesse na frente do outro candidato ‘democrata’ diriam que o eleitorado teria preconceito do negro, durma-se com uma batucada dessas. Quanta falta de assunto para definir aquilo que o eleitorado esta esperando deste ou daquele candidato, independente de ser mulher, negro, branco, amarelo, índio, diretor de bateria, vedete, pederasta, rainha Xuxa ou similar. O preconceito esta inserido nas profundezas das nossas mentes, nós criamos essas diferenças e colocamos em prática seja na forma de agir, escrever e dizer aquilo que os outros pensam deste ou daquele cidadão, pura imaginação maluca do mais normal dos loucos que circula por este mundo inquieto e inseguro. Mas a verdadeira verdade de tudo que nos persegue mentalmente é a nossa companheira diária, ou seja, a morte.

  3. Comentou em 13/05/2008 Marco Antônio Leite

    Vivemos numa paranóia muito louca, aquela que nem o choque elétrico cura, diz que o preconceito atingiu a ex-primeira DAMA Americana Hillary Clinton. Supondo que ela estivesse na frente do outro candidato ‘democrata’ diriam que o eleitorado teria preconceito do negro, durma-se com uma batucada dessas. Quanta falta de assunto para definir aquilo que o eleitorado esta esperando deste ou daquele candidato, independente de ser mulher, negro, branco, amarelo, índio, diretor de bateria, vedete, pederasta, rainha Xuxa ou similar. O preconceito esta inserido nas profundezas das nossas mentes, nós criamos essas diferenças e colocamos em prática seja na forma de agir, escrever e dizer aquilo que os outros pensam deste ou daquele cidadão, pura imaginação maluca do mais normal dos loucos que circula por este mundo inquieto e inseguro. Mas a verdadeira verdade de tudo que nos persegue mentalmente é a nossa companheira diária, ou seja, a morte.

  4. Comentou em 13/05/2008 José de Souza Castro

    Essa questão é interessante. Nos Estados Unidos, porém, racismo é mais forte do que machismo. Lá no blog Tamos com Raiva, uma jovem mulher escreve sobre o 13 de maio e as verdadeiras causas da pobreza dos negros no Brasil. Curioso, mesmo, é se houvesse no Brasil uma candidata negra e pobre à sucessão de Lula. Chance zero de vitória. Se Pelé, um homem negro e rico fosse candidato, ele também não teria chance. Nesse embate americano, vale uma relida no livro ‘O presidente negro’, escrito em 1926 por Monteiro Lobato e publicado em folhetins pelo jornal A Manhã, que previa para 2228 a eleição do primeiro americano negro para a presidência dos Estados Unidos. E que, na ficção de Lobato, significou a extinção da raça negra em solo americano. Um trecho do livro está disponível lá no blog.

  5. Comentou em 13/05/2008 José de Souza Castro

    Essa questão é interessante. Nos Estados Unidos, porém, racismo é mais forte do que machismo. Lá no blog Tamos com Raiva, uma jovem mulher escreve sobre o 13 de maio e as verdadeiras causas da pobreza dos negros no Brasil. Curioso, mesmo, é se houvesse no Brasil uma candidata negra e pobre à sucessão de Lula. Chance zero de vitória. Se Pelé, um homem negro e rico fosse candidato, ele também não teria chance. Nesse embate americano, vale uma relida no livro ‘O presidente negro’, escrito em 1926 por Monteiro Lobato e publicado em folhetins pelo jornal A Manhã, que previa para 2228 a eleição do primeiro americano negro para a presidência dos Estados Unidos. E que, na ficção de Lobato, significou a extinção da raça negra em solo americano. Um trecho do livro está disponível lá no blog.

  6. Comentou em 19/10/2007 Michael Yani Martins Neto

    Prezados(as) Senhores(as),

    Solicito informações sobre como adquirir os exemplares de matérias publicadas sobre meu pai e sua empresa individual:

    ‘MARTINS NETTO’, publicadas nos jornais: A Noite (Rio de Janeiro-DF, terça-feira 6 de julho de 1943), A Noite (Rio de Janeiro-DF,14 de julho de 1945), Revista A Noite Ilustrada (Rio de Janeiro-DF, 3/10/1944), A Noite (Rio de Janeiro-DF, 26 de abril de 1944), A Noite (Rio de Janeiro-DF, sexta-feira 2 de agosto de 1946).

    Att.

    Michael Yani Martins Neto

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