Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

História recente e ímpeto revisionista

Por Afonso Caramano em 20/04/2004 na edição 273

Nesse mês em que se rememoram fatos importantes de nossa história recente, como os 40 anos do golpe militar e os 20 anos das Diretas-Já, talvez seja pertinente tecer algumas considerações sobre o comportamento da mídia, principalmente no que concerne ao discurso adotado em alguns meios de comunicação.

Aproveitando-se das contribuições da análise do discurso (cujo objetivo primordial seria explicar os mecanismos discursivos na produção dos sentidos pela relação do real da língua e o real da história), pode-se estabelecer uma comparação entre o discurso histórico e o midiático, bem como a sua espetacularização. Convém esclarecer que essa comparação, num breve artigo como este, não esgota as possibilidades de análise dos pontos de proximidade e de diferenciação entre eles – apenas tem o objetivo de ressaltar alguns aspectos.

À primeira vista a justaposição da prática discursiva da mídia com a histórica pode parecer incompatível, uma vez que esta última, em sua vertente tradicional, debruça-se sobre os períodos de longa duração, na tentativa de desmistificá-los ou depurá-los, caracterizando-se, portanto, por um necessário distanciamento temporal; enquanto a prática jornalística se caracteriza por um não-distanciamento temporal, ou antes, pela exigência de uma proximidade dos fatos, de uma maneira tal que se possa ter uma visão geral e, ao mesmo tempo, profunda dos fatos (Barbosa apud, Dines; Vogt & Melo, 2003). Por isso, a analogia aqui suscitada refere-se mais à prática discursiva daquilo que se convencionou denominar "história imediata" ou "retorno ao fato" (Nora, 1995), que se distingue pela preocupação com o evento, com o reaparecimento da chamada história-testemunho. É precisamente esta a vertente que nos interessa neste artigo.

A proximidade dos fatos estudados/noticiados poderia suscitar dificuldades, tanto ao jornalista quanto ao historiador, para a justa apreciação crítica, precisamente pelo déficit que essa proximidade poderia representar em relação à história ou à notícia que se escreve – no momento mesmo em que ela se desenrola. Isto não quer dizer que todos os acontecimentos, históricos ou não, estejam fadados a um congelamento no tempo, a um enclausuramento, e que doravante não possam ser objeto de revisões ou reinterpretações. É justamente a contribuição que a história do tempo presente tem a nos fazer, não somente revivendo e reinterpretando o passado (recente), como também permitindo que os acontecimentos não caiam no esquecimento (Barbosa, 2003:115). Talvez esta também seja uma das contribuições da mídia, principalmente da impressa.

Olhar capitaneado

Se a mídia tem o poder de transformar o presente em acontecimento jornalístico, também o tem de conferir-lhe um estatuto histórico – daí, talvez, o contato entre o historiador e o jornalista, sendo que não são poucas as vezes em que este último sente-se o historiador do momento presente. E não nos esqueçamos de que o mecanismo midiático de produção de sentido se realiza por um "insistente retorno de figuras, de sínteses-narrativas, de representações que constituem o imaginário social". Para a fixação desses significados no imaginário é que se travam as lutas discursivas, que também são lutas pelo poder: "Tem poder quem detém os canais de produção e circulação de informações" (Gregolin, 2003:96, 104). Quando essas figuras e representações circulam, simulando a construção da história do presente, estabelecem-se sentidos, e em última instância, a identidade do grupo. Se o historiador pode ser colocado a serviço dos governantes, o jornalista pode servir ao grupo que o emprega.

Em se tratando especificamente do golpe militar de 64, pode-se dizer que a mídia não se furtou a rememorar os acontecimentos mais relevantes. Em alguns casos, ou melhor, meios – por motivos que não nos são totalmente obscuros – adotou-se um tom de isenção noticiosa com toques patrióticos que não deixam de sinalizar o posicionamento "democrático" (atual) de tais meios e/ou empresas. O mesmo se pode dizer em relação à campanha das Diretas-Já, com ênfase ao apelo revisionista da TV Globo, num reconhecimento tardio da grandeza daquelas manifestações pela democratização do país.

A apropriação das imagens símbolo da época, revisionadas sob a óptica de uma nova leitura engendrada pelos meios de comunicação, em especial a TV Globo, permite distorções, mais do que isso, permite a manipulação do imaginário social, forjando determinada interpretação dos fatos. Segundo Baczko (1984), "é por meio do imaginário que se podem atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo" (Gregolin, 2003:97). Daí, talvez, o risco de se assistir à sucessão ininterrupta das imagens em frente à TV, e de se ter o olhar capitaneado por tais meios de comunicação.

Mas sempre há exceções, e parece que a feliz exceção foi a da TV Cultura, que teve coragem de dedicar um espaço especial de sua grade de programação, durante uma semana inteira, às questões relativas ao Golpe (que já foi nomeado Revolução, denotando como o poder costuma apropriar-se das palavras e forçar um tipo de leitura). Abordou o assunto sob diversos ângulos, desenhando o panorama político e social da época, revelando as percepções através de "depoimentos-testemunhos" daqueles que vivenciaram os acontecimentos.

Terreno capcioso

O exercício de rememoração é imprescindível para o entendimento de nossa história recente, bem como a compreensão de nossa atualidade – como possibilidade de reflexão crítica, sempre necessária no aprimoramento da cidadania e, por que não, dos valores democráticos. Nesse ponto a prática histórica volta a tocar a midiática com as devidas contribuições ou ressalvas.

Para ilustrar e refletir um aspecto interessante nesse contexto, reproduziremos um trecho de uma palestra proferida por Umberto Eco, na qual nos conta que "quando Hermes – ou Thot, o suposto inventor da escrita – apresentou sua invenção ao faraó Thamus, este louvou tal técnica inaudita, que haveria de permitir aos seres humanos recordarem aquilo que, de outro modo, esqueceriam. Mas Thamus não ficou inteiramente satisfeito, "meu habilidoso Thot", disse ele, "a memória é um dom importante que se deve manter vivo mediante um exercício contínuo. Graças a sua invenção, as pessoas não serão mais obrigadas a exercitar a memória. Lembrarão coisas não em razão de um esforço interior, mas apenas em virtude de um expediente exterior" (Mais!, Folha de S. Paulo, 14/12/2003).

O que observou o faraó Thamus em relação à invenção de Thot – a escrita – serve também à mídia, ou à sua prática discursiva.

Por mais estarrecedora que possa parecer – no comentário de Dines, no Observatório da Imprensa na TV – a ignorância sobre os acontecimentos históricos referentes ao golpe de 64, de acordo com os resultados de pesquisa realizada entre jovens estudantes, não deixa de transparecer o quão capcioso pode ser esse terreno. É o risco que corremos – melhor corrê-lo com uma mídia atenta ou nem tanto, do que não poder usufruir nem disso. Importante observar também que nesse processo, segundo Davallon (1999), foi justamente com o surgimento da imprensa que houve "um deslocamento da memória social, que não se encontra mais na cabeça dos indivíduos, mas nos arquivos da mídia" (Barbosa, 2003: 116).

Fatos e leituras

Desse modo, vivemos o tempo histórico da mídia, pela imposição imediata que ela nos faz dos acontecimentos vividos como história. Sob um certo grau de espetacularização assistimos pela TV, por exemplo, à posse histórica do presidente LuLa, participando daquele momento sem realmente participar. É bom lembrar, a essa altura, que os textos que a mídia oferece não são a realidade, mas uma construção que permite ao leitor/telespectador produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta (Gregolin, 2003: 97). Quanto maior a capacidade reflexiva (ou o nível educacional) dos cidadãos de uma sociedade, maior o grau de percepção e penetração na ordem do discurso de nossa realidade.

Sob a óptica capitalista, até mesmo a isenção e a credibilidade estão à venda. E como oportunidades não devem ser desprezadas, nesse momento de rememoração nem mesmo a imparcial Folha de S. Paulo resistiu em veicular uma propaganda na TV, lembrando a todos de sua atuação e ampla cobertura jornalística na campanha das Diretas-Já. Deduz-se de tal opção um argumento de revalidação do discurso adotado na época – que, pelos recursos midiáticos e pelo jogo da publicidade, perduram no tempo presente, num "gerúndio" infinito. O objetivo? Vender mais jornais.

Há de se estar atento aos fatos e às leituras que se possam fazer deles – o fluxo dos discursos são contínuos e estes se revezam, carregados de símbolos e significados, prenhes de ideologias. Talvez um ensinamento de Foucault (1972) sobre a noção de história linear e cíclica cedendo lugar a uma outra noção de história, em que o passado e o presente se esclarecem mutuamente, a fim de explicar os acontecimentos imediatos (Barbosa, 2003: 123), possa servir também à mídia, como um aparelhamento técnico, crítico e ético – num exercício contínuo de rememoração e reflexão.

Referências bibliográficas

 

BARBOSA, Pedro Luis Navarro O papel da imagem e da memória na escrita jornalística da história do tempo presente. In: GREGOLIN, M. R. V (Org). Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003.

DAVALLON, J. A imagem, uma arte de memória? In: ACHARD, P. et al. Papel da memória. Campinas: Pontes, 1999.

GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise O acontecimento discursivo na mídia: metáfora de uma breve história do tempo. In: GREGOLIN, M. R. V (Org). Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003.

NORA, P. O retorno do fato. In: LE GOFF, J.; NORA, P. (Org). História: novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

Folha de S. Paulo, Mais! 14/12/2003</P>

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Poeta e funcionário público, Jaú, SP

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