Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Holocausto, A vida é bela e a Viradouro

Por Mário Augusto Jakobskind em 04/02/2008 na edição 471

A maior polêmica do carnaval de 2008 ficou por conta de decisão da Justiça impedindo que a escola de samba Viradouro, do Rio, colocasse no Sambódromo uma alegoria sobre o Holocausto. A Federação Israelita do Rio de Janeiro entrou com uma ação alegando que a escola desrespeitava as vítimas do III Reich. Na decisão judicial, a juíza Juliana Kalichszteim alegou que ‘o carnaval não deve ser utilizado como ferramenta de culto ao ódio, qualquer forma de racismo, além da clara banalização dos eventos bárbaros e injustificados praticados contra as minorias, especialmente cerca de 6 milhões de judeus [muitos ainda vivos], e liderados por figura execrável chamada Adolf Hitler’.

Já o carnavalesco Paulo Barros se defendeu dizendo que achava ‘triste tentar fazer um trabalho que é muito sério e as pessoas acharem que a gente está brincando, tripudiando, ridicularizando’.

A polêmica teve repercussão internacional. Comentou-se na Itália, em Israel, na CNN etc. Na mesma Itália, há alguns anos ocorreu uma polêmica parecida com esta. Debates, moções de repúdio dos tradicionalistas ocorreram em função da aparição nas telas do filme A Vida é Bela. Gastou-se muitas tintas para acusar o cineasta Roberto Benigni de estar desrespeitando a memória das vítimas do Holocausto. Mas a crítica não colou, nem vingaram ações judiciais para impedir a exibição da película, que acabou ganhando até um Oscar em Hollywood. Benigni se defendia dizendo que ‘ver o outro lado das coisas, o lado surrealista e divertido, ajuda quem não quer ser pisado e esmigalhado como um graveto, ajuda a resistir à noite, mesmo que longa, longuíssima’.

A jóia do besteirol

Para quem não se lembra ou não viu o filme, A Vida é Bela conta a saga do livreiro Guido Orefice e de como ele conseguiu, por meio da imaginação e da fantasia, transformar os horrores da rotina de um campo de concentração nazista em regras de uma gincana, pelo menos aos olhos do filho, de seis anos. A comédia sobre um dos maiores dramas da história da humanidade foi execrada pelos tradicionalistas que utilizavam argumentos muito parecidos com os hoje levantados pelos dirigentes da Federação Israelita.

Agora, apenas o menestrel Juca Chaves, um artista de origem judaica, levantou a voz para se contrapor aos argumentos da Federação Israelita do Rio de Janeiro. A jóia do besteirol ficou por conta do secretário de Turismo do Município do Rio, Rubem Medina, que, sem vergonha alguma, argumentou que o carnaval da cidade não deve abordar tragédias, como pretendia a Viradouro com o carro sobre o Holocausto.

Em A Vida é Bela, argumentava-se que o humor é incompatível com o Holocausto. Só faltou alguém na Itália dizer que o cinema não deveria abordar tragédias. Não chegaram a tanto besteirol…

Cultura popular é outra coisa

Aliás, quando uma das manchas na história brasileira e mundial, a escravidão negra, é representada pelas escolas de samba, não há contestação. Faz parte da cultura popular do carnaval interpretar as tragédias à sua maneira, sejam elas judaicas, negras, russas, latino-americanas, chinesas, nordestinas, cariocas, indígenas etc. Quem pensa ao contrário está por fora de cultura popular.

A polêmica remete para muitas reflexões. A principal delas é o aparecimento da corrente que coloca em dúvida a existência do Holocausto. São os revisionistas-nazistas que querem apagar a história, como acontece nas ditaduras hediondas. Aí, sim, merece o repúdio veemente de todos os cidadãos do mundo. Não no caso da escola de samba Viradouro, cujo carnavalesco tentou mostrar o Holocausto no contexto cultural do Carnaval e foi mal interpretado. Ou melhor, foi execrado pelos tradicionalistas que não reconhecem a realidade cultural do carnaval carioca.

Se fosse feita alguma pesquisa, possivelmente se confirmaria que os mesmos críticos de A Vida é Bela execram a Viradouro. Mas, como para os eurocentristas a Itália é Itália, os opositores acabaram baixando a crista. Mas aqui não, pois cultura popular é outra coisa, não tem o mesmo fascínio da cultura européia.

Sectários tradicionalistas

Neste contexto do Holocausto, não se pode deixar também de mencionar a exploração desse fato histórico que vem sendo feito por grupos sionistas de direita, fato denunciado por intelectuais do porte de um Immanuel Wallenstein. Em nome do Holocausto, se silencia sobre a truculência israelense contra os palestinos.

É possível que só pelo fato de se colocar em um artigo todas estas questões, vozes furiosas se levantarão, como tem acontecido não raramente.

Elitistas abominam a cultura popular. No caso em questão, o barulho da ação judicial, na prática, acabou se voltando contra os próprios autores da ação, uma elite que faz tudo para impedir manifestações da cultura popular. Ah, sim: antes que os sectários tradicionalistas e inimigos da cultura popular se manifestem ruidosamente, como acontece nesses casos, o autor destas linhas avisa que se considera abalizado para falar do Holocausto pois perdeu boa parte de seus familiares naquela tragédia histórica.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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