Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > RUAS EM TRANSE

Hora de fazer política

Por Mauro Malin em 12/02/2014 na edição 785

Manifesta-se a esperança de que a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, da Band do Rio de Janeiro, não tenha sido em vão. Infelizmente, o que se pode dizer com absoluta certeza é que ela foi uma morte anunciada e estúpida.

Fala-se também em “divisor de águas”. Mas não necessariamente a separar um período de ameaças à democracia por um de garantia do regime. Esse assassinato tanto poderá servir como estopim para uma mobilização política destinada a impedir que se rompa, de maneira aberta ou menos evidente, total ou parcialmente, a continuidade do regime da Constituição de 1988, como, em sentido contrário, terá sido o primeiro passo de uma marcha escancaradamente destrutiva.

Em outras palavras: não há nenhuma razão para achar que a morte de Santiago serviu a alguma causa edificante e há todas as razões para constatar que ela serviu a propósitos antidemocráticos. Não foi acidente. Se o processo não for contido e revertido, vai piorar.

Mais jornalismo

Para que haja uma resposta à altura do desafio é necessário que a discussão e a ação vão além de diatribes e conclamações de caráter geral. Aqui se apresentam algumas ideias, destinadas em primeiro lugar à mídia jornalística, que está na linha de frente deste enfrentamento, mas não só a ela.

A primeira resposta que os jornalistas devem dar é fazer mais jornalismo, ou seja, melhorar a narrativa dos fatos. Até hoje, meses e meses depois de seu surgimento na cena política, não se sabe direito quem são os black blocs e outros grupos que, com os primeiros, podem ser abrigados sob a denominação de encapuzados, ou mascarados.

Já se escreveu neste Observatório da Imprensa e é indispensável repetir: a Constituição veda o anonimato, cujo correlato em manifestações públicas é a ocultação da identidade visual primária, o rosto.

No planejamento da visita do papa Francisco ao Rio de Janeiro, o Exército, encarregado da segurança, anunciou que no evento de Guaratiba, transferido por causa da chuva para Copacabana, não seria permitida a entrada ou a permanência de indivíduos mascarados. Simples assim. Cumprir o que está na Carta.

Mais leis?

Mas não funcionará colocar grupos e indivíduos – no caso os chamados “vândalos” – dentro de uma panela de pressão. A consequência mais previsível de se trabalhar só com repressão é que em algum momento a panela vá pelos ares.

Do mesmo modo, toda a discussão imediatamente iniciada sobre a adoção de leis mais duras acaba tendo apenas finalidades eleitorais, embora possa não ser esse o objetivo de seus proponentes. É um ritual brasileiro, uma ladainha, uma reação pavloviana, e as coisas só pioram. Começou após o sequestro de Roberto Medina e o assassinato da atriz Daniella Perez, no início da década de 1990. De chacina em chacina, de decapitação em decapitação, para onde se caminha?

Outra mania, igualmente nutrida por ilusões patéticas, ou más intenções, é pedir a “federalização” das investigações (não dos julgamentos). Uns acreditam em poderes que o Planalto nem sonha em ter. Outros querem criar embaraço ao governo federal, que, podendo, se põe a salvo sob o argumento de que a segurança pública é função dos estados. (No caso presente, não pode, porque um dos móveis das manifestações é a realização da Copa do Mundo.)

Resposta política

É preciso dar uma resposta política, e para tanto é indispensável conhecer o mais detalhadamente possível as ideias, a ideologia, a filiação de cada grupo e de suas lideranças, ou figuras mais proeminentes, e a rede de ligações que lhes permitiu a infiltração em tantos atos pacíficos – com a conivência de seus promotores, é necessário lembrar. Esse conhecimento deve ser usado para unir os democratas e dividir seus adversários.

Em certeiro artigo publicado no Globo, Sylvia Debossan Moretzsohn escreve que determinados intelectuais…

“…nem se preocuparam em identificar as forças que poderiam estar instrumentalizando, sabe-se lá com que objetivo, uma juventude ansiosa por contestação, embora sem formação política, e por isso mesmo muito mais manipulável” (“O preço da irresponsabilidade”, 11/2).

O grifo em “sabe-se lá com que objetivo”, nesta transcrição, serve para alertar que nem pessoas com sólida formação política e bem-informadas, como Sylvia Moretzsohn, sabem dizer quais são exatamente os objetivos por trás da violência que esvazia as manifestações. Intuía-se, agora está ficando claro. Mas sem apuração jornalística (e policial) não ficará propriamente claro antes que seja tarde demais.

Poderão surgir surpresas. Em São Paulo, nas manifestações de junho e julho de 2013, alguns indivíduos se vangloriavam, à boca pequena, de sua ligação com o PCC. Como quem diz: não mexe comigo que os manos dão um jeito em você.

“Despreparo”?

Também não foi devidamente apurada por jornalistas a ação das polícias e das autoridades que, suposta ou efetivamente, mandam nelas (mas sempre se servem delas). Fala-se muito em “despreparo”, mas há quem não veja nele o fator determinante da conduta da polícia ostensiva em manifestações de rua.

No dia do início de invasão e depredação da prefeitura de São Paulo (18 de junho de 2013), as autoridades municipais solicitaram a presença da PM e receberam oficialmente das autoridades estaduais a informação de que a tropa chegaria em 10 minutos, mas os soldados só apareceram três horas depois. Em bom português, deixaram o quebra-quebra correr solto (foi o dia em que incendiaram um carro da TV Record).

Quem morreu? Onde?

Mais elementar ainda é a obrigação de apurar fatos como as quatro mortes que pessoas identificadas no Facebook como black blocs alegam ter havido em manifestações anteriores (a alegação está em jornais do dia 11/2). Os mesmos jornais (O Estado de S. Paulo e Valor, por exemplo) sublinham que nenhum dos casos foi confirmado.

É um argumento podre de black blocs ou de quem pretende falar em seu nome – o de que a mídia só dá importância à morte de Santiago Andrade porque era um jornalista –, mas não pode ficar sem resposta: houve ou não houve outras mortes em confrontos nas manifestações? (Seis pessoas morreram em 2013, vítimas indiretas, como recapitulou no mesmo dia 11/2 a Folha de S. Paulo, que, entretanto, gastou espaço precioso com uma descrição tola do rojão que matou o repórter cinematográfico.)

Jornalistas: agir

Os jornalistas e as empresas também têm de fazer parte do concerto político necessário para se enfrentar uma situação com a gravidade da crise atual. Como aconteceu durante a ditadura, para derrotá-la, depois que empresários, agenciados pela Gazeta Mercantil de Roberto Müller, em 1977, começaram a se mexer. Agora se trata de defender a democracia.

Jornalistas e empresas são duas categorias que, embora tenham interesses e simpatias políticas, não dependem de eleições para sobreviver, diferentemente dos ocupantes dos poderes Executivo e Legislativo, nas esferas federal, estadual e municipal. São, como os integrantes do Judiciário, participantes não eleitos do processo político. Com participação, aliás, muito intensa, no coração das disputas pela hegemonia.

Manifestações organizadas

A principal questão prática, que já se colocava quando ninguém dava bola para os bloqueios de trânsito provocados pelo Movimento Passe Livre, no início de junho de 2013, é que não pode haver mais de uma manifestação no mesmo local e horário. A menos que haja uma coordenação, como acontece com frequência: várias entidades e grupos se articulam e um comando único se entende com as autoridades.

A Constituição diz que as manifestações públicas são livres, mas devem ser comunicadas com antecedência às autoridades. A finalidade desse constrangimento parece até simplória: evitar que outro ato seja convocado para o mesmo local e horário. Faz sentido. Por exemplo, a coordenação de qualquer manifestação contra aumento de tarifas de transporte, agora, depois que um idiota se transformou em assassino de Santiago Andrade, está na obrigação de recusar a participação de qualquer grupo que não se submeta ao seu comando.

Se preciso, já que estamos em regime democrático, com a ajuda da polícia. Sim. Procurar os policiais e dizer: esses aí não comunicaram que iam fazer um ato aqui e agora. Vão atrapalhar nossa manifestação. E seria tarefa da polícia garantir o direito de manifestação de quem seguiu o ordenamento democrático. A rigor, a PM faz isso centenas de vezes por ano, ao acompanhar manifestações pacíficas e garantir sua incolumidade.

A rua é do povo

É um equívoco atribuir apenas às autoridades policiais manter a ordem em manifestações públicas. É delegar uma função política exatamente a uma polícia que conservou algumas das piores taras da ditadura. Quando se menciona o “despreparo” da polícia, isso está implícito.

Uma polícia mais bem preparada seria capaz de impedir sozinha a ação de provocadores ou desatinados? Nunca. Isso não existe. É preciso haver um amplo consenso na condenação de algumas práticas para que elas sejam inibidas. Quando grupos de esquerda brasileiros desistiram da luta armada, na primeira metade da década de 1970, ela parou completamente. Não foi a repressão, não foram preces, não foi nenhum milagre. Foi um consenso. Tácito, mas eficacíssimo.

Se a polícia, sozinha, tivesse o condão de impedir determinadas práticas políticas, ela ganharia um poder desmesurado de regulação do espaço público, em detrimento do jogo democrático. Aquele que tem regras conhecidas e em que, como escreveu Roberto DaMatta no Estado de S.Paulo, os jogadores atuam de cara limpa. Ele, por sinal, deu um bom exemplo: o futebol (dentro do campo).

Em outras palavras: polícia, só, não resolve. Se resolver, é pior. A polícia, na democracia que se pretende ampliar e consolidar, precisa ser posta a serviço dos cidadãos, que elegem governadores e prefeitos. Nem mais, nem menos. Não pode dizer como cidadãos e grupos devem exercer sua atividade política.

A cobertura como arma

Voltemos aos jornalistas. Eles têm o dever de estabelecer um diálogo intenso com todas as forças democráticas envolvidas na crise. Por meio de suas entidades ou em outras configurações de diálogo. De preferência, em articulação com as empresas jornalísticas, mas, se isso não for possível, a despeito do alheamento delas. Em geral, é difícil chegar a um acordo com as empresas, mas não impossível.

Existem opções profissionais e corporativas que podem ser cogitadas como resposta coletiva aos inimigos da democracia. Uma delas é calibrar o tipo de cobertura que se dá a esses atos. Essa calibragem poderia hipoteticamente ser o silêncio, que é a pior forma de desprezo, e tira o canal de expressão performática dos “vândalos” – ou sejam lá o que forem –, ou um acordo explícito, assumido diante do público, com todos os efes e erres, para adjetivar negativamente a cobertura. Com o objetivo de isolar politicamente quem não respeita o acordo político básico da nação, cristalizado na Constituição e nas leis que dela decorrem.

Tudo isso é mais fácil de dizer do que de fazer. Mas quanto menos se fizer agora, mais “impossíveis” serão as missões futuras dos democratas. E é bom lembrar que não existe vácuo em política. Os espaços são sempre ocupados, desse ou daquele jeito, por essas ou aquelas forças. 

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