Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > DOMINGO, 24/02

Impacto de liminar sobre Lei
de Imprensa pode ser ampliado

Por Luiz Antonio Magalhães (seleção de textos) em 25/02/2008 na edição 473


Leia abaixo a seleção de domingo para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Domingo, 24 de fevereiro de 2008


LEI DE IMPRENSA EM DEBATE


Felipe Recondo


Decisão sobre Lei de Imprensa pode ter impacto ampliado


‘A suspensão dos efeitos de 22 dispositivos da Lei de Imprensa gerou impacto nas ações em tramitação ainda desconhecido pelos próprios ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).


As ações protocoladas recentemente com base exclusivamente na Lei de Imprensa que ainda não foram analisadas serão arquivadas de imediato, caso o STF confirme o entendimento do ministro Carlos Ayres Britto. Na quinta-feira, Britto concedeu liminar em ação impetrada pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) que anula partes da lei sob o argumento de que a legislação, de 1967, não foi acolhida pela Constituição de 1988.


Como a lei, nesse caso, deixará de vigorar, os processos não terão base legal. Assim, quem acionou a Justiça e teve o processo arquivado terá de entrar com nova ação, esta com base nos Códigos Penal ou Civil ou com base numa nova Lei de Imprensa, se aprovada até lá pelo Congresso.


Além disso, a contagem do prazo de prescrição das ações em curso pode não ser interrompida, mesmo com os processos suspensos por essa liminar. A lei é omissa ao tratar do caso e o STF pode interpretar que a contagem do prazo prossegue.


‘O prazo continua enquanto o Supremo não decidir’, afirmou o advogado Erasto Villa-Verda, um dos autores da ação contra a Lei de Imprensa. Opinião contrária tem o ministro do STF Marco Aurélio Mello, mas ele admite não ter segurança de sua avaliação. ‘A prescrição não continua a correr. Mas não sei nesse caso, porque a lei não é explícita.’


Como a Lei de Imprensa é antiga, muitos juízes convertiam as alegações baseadas na Lei de Imprensa em artigos correspondentes do Código Civil. Essas ações continuarão a ser julgadas, mesmo tendo se baseado inicialmente na Lei de Imprensa. Outras ações que prosseguirão são as que se basearam na Lei de Imprensa e nos Códigos Penal e Civil. A parte referente à Lei de Imprensa será suspensa, não o restante.


‘As ações da Igreja Universal, por exemplo, não estão sendo julgadas com base na Lei de Imprensa, mas nas leis de juizados especiais e do Código Civil’, explicou o advogado José Paulo Cavalcanti Filho, especialista em Lei de Imprensa. Por isso, adiantou, não haverá repercussão da decisão do ministro Carlos Britto nesse caso.’


Marcelo de Moraes


Primeira norma foi baixada em 1823


‘D. Pedro I criou, em 1823, a primeira lei de imprensa brasileira. Sua intenção era impedir que houvesse ataques contra o regime imperial, contra a religião católica ou que incentivassem rebeliões. Mas o decreto de Pedro I era muito mais brando do que as futuras leis de imprensa que entrariam em vigor no Brasil.


A primeira lei de imprensa do período republicano, surgida em 1923, criou a figura do direito de resposta. Misturava controle de conteúdo jornalístico com o de segurança de Estado; não permitia publicações jornalísticas anarquistas e punia a eventual publicação de segredos de Estado. Ao mesmo tempo, fixava punições para ataques considerados injuriosos à honra.


Em 1934, um decreto do presidente Getúlio Vargas mudou as regras. Com o Estado Novo, em 1937, Vargas endureceu drasticamente: a censura prévia chegou às redações, em nome de garantir da segurança nacional e punições severas foram adotadas. Com a queda de Vargas, em 1945, foi restabelecido o decreto brando de 1934. Ele só cairia em 1953, revogado pelo próprio Vargas. Somente em 1956 o Congresso aprovou um projeto indultando os jornalistas condenados por delito de imprensa pelas normas de 1934 e 1937.


A última lei de imprensa aprovada no País foi sancionada em 9 de fevereiro de 1967 pelo governo militar do general Castello Branco. Ela resistiria ao fim da ditadura. Prevê, entre outros pontos, pena de prisão para jornalistas por conta de conteúdo publicado, incluindo opinião, e estabelece indenizações por danos morais provocados por algum texto.


Um projeto de lei de imprensa tramita no Congresso desde 1991. Seu autor, o ex-senador Josaphat Marinho, morreu em 2002. Outro foi apresentado pelo ex-deputado José Fogaça (PPS), hoje prefeito de Porto Alegre, e ganhou substitutivo do ex-deputado Vilmar Rocha (PFL-GO).’


Fausto Macedo


Lei de Segurança Nacional é outro anacronismo


‘Não é apenas a Lei de Imprensa que está em descompasso com a Constituição, alertam advogados e professores de direito constitucional. Eles destacam que o escândalo dos cartões corporativos revela outro exemplo da incompatibilidade entre a legislação inferior e a regra constitucional, que consagra o princípio da publicidade e da moralidade na administração pública e o direito à informação.


‘O conflito está na Lei de Segurança Nacional, que prevalece quando o assunto é a divulgação de dados como despesas de familiares do presidente da República’, ressalta o advogado Gustavo Henrique Ivahy Badaró. ‘Esse sempre foi um ponto muito sensível, intimidade versus publicidade.’ Ele destaca que decreto de 1983 é usado para justificar o sigilo. ‘Saber onde um filho do presidente compra ternos não me parece assunto de segurança nacional.’


A Lei de Segurança é pouco aplicada, mas está em vigor. ‘Continua predominando a visão da época dos militares’, diz Badaró. ‘A Constituição veio depois, assegurando o princípio da publicidade como regra para atos e contas públicas, mas ninguém revogou a Lei de Segurança, que restringe acesso às informações.’


Badaró disse que o País não normatizou ‘situações de incompatibilidade’ entre leis e a Carta. Destaca a imposição categórica da Constituição, artigo 5º, inciso 57: ‘Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.’ E observa: ‘No dia-a-dia forense são muitos os casos de pessoas que acabam presas para poder exercer o direito de recorrer.’


Claudio José Langroiva Pereira, professor de direito da PUC-SP, cita as leis posteriores à Constituição. ‘A Lei dos Crimes Hediondos proibiu progressão de regime na execução da pena. A Constituição garante o sistema progressivo’, afirmou.’


Clarissa Oliveira


Justiça derruba 2 ações da Universal contra jornal


‘Em meio à batalha judicial da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e de seus fiéis contra veículos da imprensa, a Justiça derrubou mais duas ações ajuizadas por seguidores da Iurd, uma no Acre e outra no Paraná. As novas decisões, favoráveis à Folha de S. Paulo, elevaram para sete o número vitórias obtidas até agora pelo jornal.


Os processos, entretanto, continuam se multiplicando pelo País. De acordo com o advogado encarregado da defesa do jornal, Orlando Molina, já foram ajuizadas 60 ações de indenização por danos morais, em vários Estados – às vezes em cidades isoladas, de difícil acesso. Há cerca de dez dias, eram 50.


Os fiéis da Iurd alegam que se sentiram ofendidos por reportagem de Elvira Lobato, na qual a jornalista narrou o crescimento da igreja e abordou o destino do ‘dízimo’. Outros dois jornais, Extra e A Tarde, também são alvo de processos similares.


Segundo Molina, o entendimento de juízes tem sido o de que os seguidores da Universal não poderiam propor as ações. ‘Todos têm concordado que os fiéis não têm legitimidade, porque a reportagem não diz respeito a eles’, afirmou o advogado.


As novas vitórias foram obtidas em Tarauacá (AC) e Cianorte (PR). No primeiro caso, a ação foi extinta sob o argumento de que o fiel ‘não foi ofendido de forma individualizada na sua esfera de direitos’. Na segunda ação, a decisão foi tomada sem que o jornal fosse notificado.


Associações de jornais e jornalistas, entidades representativas de juízes e advogados, além de outros setores, criticaram a atitude da Universal. A Iurd alega, porém, que houve ofensa e seus fiéis têm o direito de pedir reparação.


As ações que tiverem por base a Lei de Imprensa podem ser afetadas pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que suspendeu parte da legislação. Molina espera para ver o impacto da medida: ‘Vamos aguardar a posição dos juízes.’’


TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO


Ethevaldo Siqueira


Como viveríamos sem ferramentas de busca?


‘A cada dia são mais de 4 bilhões de acessos em busca de informações no Google, Yahoo, Messenger, New York Times, Wall Street Journal, Economist, BusinessWeek ou enciclopédias, como a Britannica ou a Wikipedia em 224 línguas. Hoje tudo se busca na internet. O jornalista já não pode trabalhar um único dia sem o apoio da web. O investidor está ligado dia e noite ao seu smartphone, espiando a cada minuto seus e-mails e a cotação de suas ações. O garoto busca novos vídeos todos os dias no YouTube. O poeta garimpa uma rima para seu verso. O fiel surfa nos livros sagrados à procura de socorro. Mundo afora, a vida econômica das grandes corporações depende cada dia mais não apenas da busca de mais de 40 mil informações por segundo. E essas informações precisam ter sempre mais qualidade, mais confiabilidade e mais rapidez.


Só entendi a importância da busca corporativa em toda a sua real dimensão, depois de participar do Fast-Forward 2008, evento mundial de software realizado na semana passada em Orlando, na Flórida, e de ouvir, entre outros, palestrantes como Don Tapscott e os professores Andrew P. McAfee e David Weingberger, da Universidade de Harvard. Para eles, o homem, quanto mais progride, mais necessita de informação.


Organizado pela empresa norueguesa Fast, recém-adquirida pela Microsoft, o evento Fast-Forward 2008 demonstrou o interesse estratégico da empresa de Bill Gates na área de busca corporativa, uma semana depois de tentar adquirir o Yahoo, por US$ 44 bilhões.


Crescendo em ritmo acelerado, a busca corporativa se torna uma das necessidades essenciais na vida diária da maioria das empresas. Para comprová-lo basta perguntar a empresas como Petrobrás, Vale, UOL, Agência Estado, Reuters, CNN, Submarino, Brasil Telecom, Vivo, Buscapé e muitas outras, como utilizam hoje os motores de busca.


MUDANÇAS


Dispomos na internet de softwares de busca cada vez mais poderosos e inteligentes para encontrar a informação mais precisa e específica, em milhares de bancos de dados ou em nosso próprio desktop, no menor tempo possível. E, na verdade, o sucesso do cidadão e das corporações depende, cada vez mais, do resultado dessa busca.


‘As mudanças de paradigmas ocorridas nos últimos 10 anos criaram não apenas o conceito de Internet 2.0, mas também de Enterprise 2.0, nome que designa a nova empresa do século 21. Nem uma nem outra existem sem o uso intenso das ferramentas de busca’ – ensina Don Tapscott, o visionário canadense, presidente da New Paradigm.


Por todas essas razões, a busca corporativa se transforma num negócio gigantesco e multibilionário. No ritmo em que vai crescendo, se incluirmos todas as publicações periódicas do mundo, o número de buscas diárias na internet quebrará a barreira dos 10 bilhões antes de 2015. Esse número dobra a cada dois anos. Para essa expansão, contribuem também os blogs, que proliferam como cogumelos. Numa paródia da famosa frase de René Descartes, o filósofo francês, um cartaz do evento Fast-Forward proclamava: I blog, therefore I am (Eu blogo, logo eu existo).


A ETERNA BUSCA


Para alguns antropólogos, o homem moderno é um animal que busca informação. E, na verdade, o ser humano sempre dependeu de alguma forma de busca. O que mudou, desde a época das cavernas até hoje, foi o objeto procurado. Naqueles tempos distantes, o homem buscava alimento, caça, água, plantas curativas, abrigo. No final da Idade Média, passou a pesquisar cara a cara ou nos arquivos, compulsando livros e documentos, página a página. Mais recentemente, surgiram novas ferramentas de busca, como os arquivos públicos, os dicionários, as enciclopédias, os novos meios de comunicação. Ainda na metade século 20, quem se lembra da figura do rádio-escuta das antigas redações de jornais do interior?


Os motores de busca (search engines) são, na realidade, sistemas projetados para a localização instantânea de informação na Web, onde a informação pode ser apresentada sob a forma de páginas, imagens, textos ou números. Alguns desses motores coletam os dados disponíveis em grupos de notícias, bases de dados ou diretórios abertos. Diferentemente dos diretórios da Web, que são mantidos por editores, os motores de busca operam por meio de algoritmos ou por uma combinação de algoritmos e ações humanas.


O primeiro motor de busca de que se tem conhecimento foi o Archie, criado em 1990, por Alan Emtage, um estudante da Universidade McGill, de Montreal, no Canadá. No ano seguinte, surge o Gopher, criado por Mark McCahill, da Universidade de Minnesota, seguido de outros famosos: Lycos, Excite, Infoseek, Inktomi, Northern Light, Altavista e o Yahoo!


Existem hoje até motores de busca que identificam e classificam material pornográfico, pelo reconhecimento de imagens e de textos. Uma de suas aplicações mais interessantes e úteis é fornecer a pais e educadores um instrumento que impede o acesso de crianças e jovens a materiais inadequados, sejam eles pornográficos ou de violência excessiva.’


TELEVISÃO


Alline Dauroiz e Julia Contier


Ao pé do ouvido


‘Que graça teria se um vilão não tivesse um comparsa para armar todos os planos? Ou se a mocinha não tivesse para quem chorar as pitangas? É assim que, no lugar do pensamento em voz alta ou do monólogo com o espelho, entra em cena o ombro amigo, conhecido nos bastidores como ‘personagem orelha’.


Para o autor Gilberto Braga, é praticamente impossível fazer uma história sem atores que apóiem o elenco principal, mas ele rejeita o jargão. ‘Não suporto o termo orelha. É vulgar, depreciativo. No teatro clássico dizia-se ‘confidente’.’ Braga sempre verifica se todos os personagens têm com quem falar. ‘O ideal é que cada confidente tenha história própria, mas isso é difícil.’


Veterana no papel de ouvinte, Viviane Victorette está em sua terceira novela das 9 – todas como confidente. Agora, ela é Nadir, melhor amiga da Maria Paula (Marjorie Estiano) de Duas Caras. A amizade entre elas é tão grande que a personagem topou se mudar para o Rio atrás da amiga. ‘Quem sabe não arranjo um marido por lá?’, justificou a personagem.


Nadir ainda não tem história própria, mas o autor Aguinaldo Silva garante que em breve ela se envolverá com Bernardo (Nuno Leal Maia).


Em América (2005), Viviane era a Ju, que além de ouvir as lamúrias de Sol (Déborah Secco), dançava em cima do balcão de uma boate em Miami. Mas sua personagem de maior destaque foi Regininha, a melhor amiga de Mel (Débora Falabella), em O Clone (2001). Juntas, elas chegaram ao fundo do poço por causa das drogas. ‘Até hoje, muita gente só me chama de Regininha’, fala a atriz.


Viver à sombra dos protagonistas pode parecer frustrante. Mas a projeção que uma novela oferece é tão grande, que quem está na pele de um melhor amigo costuma agarrar a oportunidade. Para Viviane, esses papéis demandam dedicação, já que dali podem surgir convites para outros trabalhos. ‘Talvez alguns rejeitem o papel ou façam de má vontade, mas o público sente. Eu faço tudo com prazer, nem que seja dizer apenas ‘oi’ em cena .’


Luli Miller, que interpretou Gilda em Paraíso Tropical, é um dos casos de ouvinte que ganhou vida própria – tanto, que a amiga a esqueceu. Ela começou como confidente de Paula (Alessandra Negrini). Depois, ganhou casa, avó e um affair com Gustavo (Marco Ricca). ‘Adorei começar em uma novela das 9, como amiga da protagonista. Só tenho a agradecer’, diz ela. A primeira experiência a levou a uma participação na minissérie Queridos Amigos – Luli é Márcia, mulher de Pedro (Bruno Garcia). E se ela fosse convidada para ser confidente de novo? ‘Sim, claro!’’


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Orelhismo não pode ser gratuito


‘O uso de orelhas – ou confidentes, num termo politicamente correto – é imprescindível à estrutura de uma novela, reconhecem os autores. Mas a orelha precisa ter vida própria, ou seja, uma história que justifique a presença do ator em cena, opina Silvio de Abreu. ‘Acho uma falta de respeito com qualquer ator que ele tenha só essa função, de ficar escutando o que os protagonistas dizem’, observa.


Mestre em manejar os recursos do telefolhetim, Silvio criou a Luzineide de Torre de Babel (1998), marco do orelhismo. A personagem, vivida por Eliane Costa, passou a novela toda sem dizer uma palavra. Confidente de Bina (Cláudia Gimenez), era interrompida todas as vezes em que tentava abrir a boca – ‘Cala a boca, Luzineide!’, repetia Bina, para delírio da audiência. ‘O fato de Luzineide não falar era imprescindível para que no fim da novela, como aconteceu, ela revelasse todo o mistério, fazendo assim com que o público fosse surpreendido duplamente’, explica o autor.


Aguinaldo Silva é outro que rejeita a orelhice pela orelhice. ‘Se você não cria uma biografia para o personagem, ele não existe. E se ele não existe, não ganha força’, ensina ele, que tem em sua Duas Caras a divertida Lenir (Guida Vianna), amiga de Gioconda (Marília Pêra).


O autor conta que, quando criou Lenir, se preocupou em escolher uma atriz tão marcante quanto Marília. ‘Mas desde o começo, criei aquela implicância do Barreto (Stênio Garcia) com ela, a cara-de-pau dela estar ali filando a comida e outras vantagens’, explica. ‘Recebo muitas cartas questionando ‘mas ela vive do quê?’ Então, resolvi que, na verdade, ela é filha mais velha de militar e tem direito a pensão do governo. Por isso ela não casou. A função da personagem é contracenar com a Marília, mas ela tem uma história pessoal. Todo personagem tem de ter uma.’’


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Guida Viana dá a receita para ser uma confidente de futuro


‘Mesmo sem ter ainda uma história só dela, Lenir, a amiga perua-falida de Gioconda (Marília Pêra) não é uma orelha comum. Seus comentários são divertidos e garantem a comédia no núcleo dos Barreto.


Mais do que ouvir os devaneios de Gioconda, Guida afirma que sua personagem faz um pouco o papel de bobo da corte. ‘O bobo é engraçado, mas é quem fala as verdades para o rei. Além de intrometida, Lenir é muito irônica’, afirma.


Com 32 anos de carreira e mais de 40 peças no currículo, a atriz não se incomoda em ser apenas a amiga na novela. ‘Venho do teatro, que é a grande escola de contracenar. Tive muita sorte em fazer dupla com a Marília, que sabe a importância do diálogo. Minha função de ‘orelhão’ é dar a piada no tom certo, para que ela tire o máximo de proveito da cena.’


Professora de interpretação, Guida tem as dicas para que um ator seja um bom confidente e, quem sabe, ganhe a própria biografia. ‘Não dá para estudar só as suas falas. É preciso pesquisar toda a cena, para saber o que ela está pedindo. Deve-se escutar bastante o outro, para se encaixar. A orelha está acoplada a outro personagem , então ela tem de contracenar.’ Segundo ela, não é fácil ter um papel periférico, pois as falas são poucas e devem sair no tom certo.


‘E tem de se dedicar, né? Suspendi o teatro para ficar na novela por inteiro e estou sendo recompensada com um papel de humor. Além de ser meu primeiro personagem bem vestido’, diverte-se.’


Etienne Jacintho


Homem misterioso move trama do SBT


‘Um personagem misterioso que conversa apenas com Ermírio Fernandes, papel de Antônio Petrin, e ainda por telefone, é o elemento de mistério na novela A Revelação, de Íris Abravanel, que estréia mês que vem, no SBT.


Do topo de um edifício de luxo em alguma metrópole do mundo, como explica a sinopse da novela da mulher de Silvio Santos, o personagem oculto discute o futuro dos habitantes de Tirânia – cidade onde é ambientada a trama – com Ermírio e ainda manipula os rumos da história.


Já na série Ugly Betty – versão americana da novela colombiana Betty, a Feia -, quem fica no posto de confidente do desconhecido é Vanessa Williams, na pele de Wilhelmina, a única que trava conversas telefônicas com a personagem misteriosa. E, detalhe: a mulher oculta também fala ao telefone do alto de um prédio e manipula personagens da trama por meio de Wilhelmina.


Drops


A novela terá um elenco composto por pouco mais de 40 personagens.


A previsão é de que a trama fique no ar por 150 capítulos.


O cenário é a cidade fictícia de Tirânia.


Apesar de não ter um boi Bandido, A Revelação trará chapéu, cinturão, bota e espora.


Alguns detalhes da trama serão musicados à moda de viola. As canções serão tocadas por artistas sertanejos em participações especiais.’


Shaonny Takaiama


‘Eu não entendo nada de moda’


‘O tipo top model internacional não faz a cabeça de Mariana Weickert. A moça de Blumenau, ex-integrante do Saca-Rolha e agora repórter do GNT Fashion, recebeu o Estado de cara limpa, descalça, e mostrou não ter deslumbramento com o ‘mundinho’.


O Saca-Rolha foi sua escola na televisão?


Naquele segmento e formato foi. Antes, apresentei um programa de verão na MTV. Foi lá que nasci na televisão. Eram duas horas de programa ao vivo e em horário nobre, cada dia numa praia. Foi a primeira vez que tive um ponto eletrônico. Aí aconteceu o convite do Rogério Gallo para o Saca-Rolha e esse foi o grande tesão da minha vida.


Por quê?


Porque estar na televisão para mim é uma grande conseqüência. Não tenho essa vaidade de estar na TV por estar. Preciso acreditar no formato, gostar, ser instigada. Fazer um programa de games na MTV foi sensacional, mas não me instigava. Essa coisa do formato do Saca-Rolha ser informativo, despretensioso, mas ao mesmo tempo ter uma certa responsabilidade, gostei muito. Ali, o Marcelo Tas, o Lobão e o atrito de gerações tornavam tudo muito interessante.


Foi difícil para você mostrar que tem conteúdo?


Não tinha compromisso de mostrar conteúdo ou não. Eu tinha de expor as minhas dúvidas, me manifestar na hora que eu tinha que me manifestar. Se as pessoas consideraram que eu tinha conteúdo, que bom. Ou, quem achou que não, problema deles, sabe?


No começo você tinha receio de emitir opinião?


Esquecia que estava num programa, sempre fui falante. E sempre tive sede de aprender. No Saca-Rolha comecei a gostar de política. Como me envolvi mais com esse assunto, as minhas perguntas talvez fossem mais pertinentes. O Lobão era mais envolvido com música e filosofia, o Tas, mais com tecnologia. Cada um tinha as suas dúvidas e os seus interesses.


Agora que você voltou ao mundo da moda, se sente mais à vontade em frente às câmeras?


Esta não é uma seara que eu domino mais. Não entendo nada de moda, mas entendo muito do meio, do mundo da moda. Se me perguntarem se esse vestido está certo ou errado, vou dizer que a crítica de moda é a Lilian Pacce. O que gosto é comportamento, o que faço ali no GNT Fashion é quase antropológico.


Qual foi a matéria mais difícil que você fez no GNT Fashion?


Teve um dia que não foi difícil, mas engraçado. Tive que ir à 25 de Março, pouco antes do carnaval, com um salto deste tamanho. Chovia e eu tinha que montar uma fantasia completa por um valor X, que era muito baixo. Não encontrava nada e foi meio complicado. E tiveram outras situações engraçadíssimas, em que precisei achar as gírias do mundo da moda. Tive ataques de riso.


O que você mais gosta e odeia no mundo da moda?


O que mais odeio é a superficialidade. Gosto do que esse trabalho me proporcionou em viagens, mas também desgosto porque ele me tirou de perto da minha família.


Você toparia fazer parte do Saia-Justa?


Faria sim, gosto bastante, inclusive.


O Saca-Rolha era mais sério que o Saia-Justa?


Não. Se fosse falar de seriedade, talvez até o Saia-Justa se leve mais a sério do que o Saca-Rolha se levava.’


Mário Vianna


Dourados, rebeldes e, agora, deprês


‘A estréia de Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, foi um sopro de oxigênio nos organismos desesperados com a indigência cultural dos BBBs. Pena que, justamente por causa da Siliconelândia, a série vá ao ar muito tarde. Quem resistir ao sono, será recompensado. Queridos Amigos é um belo trabalho conjunto de roteiro, direção e elenco – onde brilham Denise Fraga, Débora Bloch e Bruno Garcia. Histórias em que um personagem reúne amigos e faz aflorar paixões adormecidas não são novidade. O cinema volta e meia tem um filme assim e mais de uma novela usou esse ponto de partida – sem falar no popular romance de Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos, que envolve o reencontro forçado de velhos camaradas.


Na série, o cenário é o Brasil dos anos 80. A ação começa em 89, pouco antes de o País pegar fogo com a campanha que opôs Lula e Collor (na qual, ironicamente, a Globo teve papel discutível). São 19 anos que nos separam da festa promovida por Léo (Dan Stulbach, exagerado na bondade do moço). Mas, em poucas cenas, espanta ver o quanto o Brasil se transformou desde aquela época. A geração que dançou coladinho nos anos dourados e fez a revolução nos anos rebeldes, chegou ao fim da década de 80 em estado de depressão. E não é porque a autora tem uma visão amarga da época. São suas criaturas que entraram na crise da meia idade com um travo na boca. Ninguém avisou, durante passeatas e temporadas no exílio, que eles iriam envelhecer. Os sonhos de mudar o mundo viraram fumaça. Nem mesmo no comportamento, eles conseguiram avançar: o adúltero Pingo (Joelson Medeiros) faz um espelho irônico ao igualmente adúltero Alberto (Juca de Oliveira). A geração que quis derrubar sistemas não varreu os próprios preconceitos. A reação do grupo ‘legal’ à presença do travesti é um bom exemplo. Não é por acaso que o gay Benny (Guilherme Weber, com espaço para mostrar na TV o bom ator que é no teatro) parece tão desagradável.


Se driblar o didatismo que permeia suas séries históricas, Maria Adelaide marcará um golaço, tocando em feridas incômodas, porém fundamentais para que nos entendamos como país. E a boa trilha sonora certamente terá espaço para a gravação de Elis Regina para Como Nossos Pais, de Belchior. Nada mais adequado – e doloroso.’


PERFIL / MARJANE SATRAPI


Flávia Guerra


Retrato em branco e preto


‘‘É um sonho. Jamais pensei em ser indicada para o Oscar com um filme que é a minha própria história e a do país em que cresci’, declarou a iraniana radicada em Paris Marjane Satrapi ao Estado, após muita insistência para que a autora-diretora-personagem falasse de Persépolis, o longa-metragem que ela dirigiu com Vincent Paronnaud e concorre hoje ao Oscar de Melhor Longa de Animação.


Persépolis era o candidato francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas não entrou entre os cinco finalistas. Muito justamente, concorre nesta outra categoria nobre da maior premiação do cinema mundial. Não é o favorito. O fenômeno infantil Ratatouille deve mesmo pegar os votantes da academia pelo estômago e levar a estatueta. Mas Marjane, ainda que saia de mãos abanando do Kodak Theatre, em Los Angeles, conclui de forma vitoriosa uma das últimas fases de seu périplo animado.


Foi um longo caminho até que essa filha de uma família da elite esquerdista iraniana pudesse desfilar seu humor cáustico no tapete vermelho de Hollywood. A peregrinação cinematográfica de Marjane já passou por Cannes, Berlim (onde recebeu há 13 dias o prêmio Cinema pela Paz 2008, da Unicef) e por dezenas de festivais pelo mundo, incluindo a Mostra de São Paulo, na qual levou o prêmio do público. Ainda que seja uma produção francesa, um filme que fala da realidade islâmica ser escolhido como o representante da França na festa do Oscar pode ser interpretado como uma espécie de bandeira branca cultural diante das tensões entre imigrantes islâmicos e o governo daquele país.


Pois bem. Ponto para Marjane, que fez ela mesma sua revolução em nanquim. Mas convém lembrar que nem tudo foram glórias na trajetória desse filme e dessa diretora. Recentemente, Bangcoc decidiu cancelar, em cima da hora, a sessão de Persépolis que abriria seu festival anual de cinema. Motivo: o boicote do governo iraniano, que credita ao filme a propagação de uma imagem distorcida e denigre os valores do Irã – e do Islã.


Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência ‘aprendendo’ a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. ‘Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?’, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: ‘Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este’. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano.


Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. ‘Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou.’


Mas, afinal, o que de tão ameaçador há nessa mulher e em sua obra? Uma animação belíssima em branco e preto, que consegue, nos traços arredondados, porém cortantes de Marjane, contar séculos de história e costumes de um dos povos mais ricos econômica e culturalmente do Oriente Médio?


O ato mais subversivo do mundo ainda é pensar com a própria cabeça. E em voz alta, dizia Coco Chanel (não por acaso uma das mulheres – e francesas – mais influentes e admiradas do mundo). Pois bem, é exatamente isso que Marjane tem a coragem de fazer – e publicar – quando se fala em Persépolis. O poder de seu pensamento e de seus traços em p&b é tamanho que antes de virar filme a vida de Marjane já havia virado um dos quadrinhos (ou graphic novells) mais cultuados do mundo. ‘Sou iraniana. E tenho orgulho de ser’, brada ela em uma das cenas mais dramáticas do filme. Mas não foi o que o atual governo iraniano entendeu. E já não havia entendido nos anos 70, quando a família de Marjane resolveu mandar sua única filha para a Áustria, onde ela estaria longe da vigilância severa dos bedéis do Islã.


Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história.


Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava ‘Punk is not dead’, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia. Ela devia usar roupas que jamais marcassem o quadril e o hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas). No lugar de ouvir bandas como Iron Maiden, Abba ou James Brown, deveria prestar atenção aos cânticos dos muezins chamando os fiéis para rezar nas mesquitas. Namorado? Jamais. Se optasse por seguir a cartilha do aiatolá, estava fadada a encontrar um pretendente que a beijaria só depois de casada. Andar pelas ruas de mãos dadas e sentir o vento nos cabelos? Crime grave!


Era esse o cotidiano em que cresceu a cartunista. Um Irã pós- Revolução Islâmica, quando, em 1979, o regime ditatorial do aiatolá Khomeini tomou o país de assalto e a antiga Pérsia se tornou a República Islâmica do Irã. Grosseiramente, pode-se dizer que, na época, os iranianos saíram da frigideira para cair na panela. Em vez de melhorar, as condições de liberdade de expressão, que com o regime dos xás já não eram ideais, pioraram. O país passou a ter uma verdadeira polícia para zelar pelos bons costumes.


Marjane, em vez de se render ou de virar guerrilheira, criou Persépolis, sua graphic novell cheia de textura e bom humor. ‘Nunca pensei que queria ser cartunista. Simplesmente, queria contar minha história. Eu amo meu país. Lá tem gente boa e gente ruim, como em todos os países. Quando cheguei à Áustria, também sofri muito. Eu mentia, dizendo que era francesa, para ser aceita, para que os garotos não me evitassem. Quem ia sair com uma iraniana? Me sentia péssima. As outras garotas me ridicularizavam. Fiquei deprimida, passei dois meses com frio, perambulando pelas ruas de Viena, até que um dia acordei em um hospital’, conta ela, provando que seus quadrinhos são femininos, mas estão longe de serem gibi da Luluzinha. ‘Quando me curei, lembrei do que minha avó dizia. Jurei nunca mais mentir sobre minha origem. Tenho muito orgulho dela.’


Com seu traço e sua visão tão particular das raízes de um mundo cada vez mais dividido entre as culturas do Ocidente e do Oriente, Marjane não poupa ninguém, não deixa de falar de temas como guerra, tortura, injustiças, machismo, violência de toda espécie, imperialismo e, assunto tabu dos tabus no Oriente, comunismo. Ela endurece. Mas não perde a ternura. Nem descuida do cajal (este sim, secular item da nécessaire de toda mulher oriental que preze sua vaidade). Sua história começa com ela ainda garotinha e evolui, num flash back, para a História com H maiúsculo do que se tornou o Oriente nestas últimas décadas.


Marjane hoje está no topo do cinema e das discussões que cercam temas tão delicados como o respeito às diferenças e o abuso do absolutismo religioso. Mas se diz feliz com sua tarefa, ainda que involuntária. E mais ainda com seu filme. ‘Eu, que sou tão enérgica, teria feito um filme do Godard. Vincent é o parceiro ideal, que me ajudou a equilibrar tantas palavras e expressões. Ele, que é tão introvertido, já teria feito um filme do Scorsese, cheio de cenas de ação. Juntos, fizemos um terceiro filme.’ Os produtores de Persépolis concordam: ‘ Nunca podíamos imaginar que teríamos esta nominação ao Oscar, uma honra imensa para a nossa primeira produção. Estamos tão orgulhosos e felizes por Marjane e Vicent’, declararam ao Estado Marc Antoine Robert e Xavier Rigault. ‘Ela cumpriu sua missão.’


Nada mal para uma garota que aos 9 anos ouvia as histórias de seus tios comunistas presos e torturados na prisão, conversava com Deus e sonhava em ser profeta para melhorar o mundo. Em vez de sermões da montanha, hoje ela prega com palavras e nanquim.


SEM BEIJO


Sua sina era encontrar um pretendente que só a beijaria depois do casamento


SEM MEDO


Teve a coragem de falar de temas que levam a ameaças de morte por radicais islâmicos


SEM SOM


Em vez de Iron Maiden, Abba e ames Brown, tinha de ouvir o canto dos muezins’


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Folha de S. Paulo


Domingo, 24 de fevereiro de 2008


REDE GLOBO


Diógenes Muniz


A tela fora do lugar


‘O professor britânico John Ellis, 55, do departamento de mídia e artes da Universidade de Londres, diz nunca ter dado uma ‘entrevista profunda’ sobre o documentário ‘Muito Além do Cidadão Kane’. Simon Hartog, diretor do filme, morreu em 1992, antes mesmo de a obra ser exibida no Reino Unido. Ellis tornou-se assim uma testemunha rara dos bastidores de um dos mais polêmicos filmes sobre a mídia e a política brasileiras.


Transmitido pela primeira vez em 1993, no canal britânico Channel 4, o filme usa o empresário Roberto Marinho (1904-2003) como metonímia da concentração da mídia no Brasil -daí a referência a Charles Foster Kane, personagem criado por Orson Welles em ‘Cidadão Kane’ (1941).


Políticos como Leonel Brizola (1922-2004), Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) e Luiz Inácio Lula da Silva -apresentado como líder sindical- falam sobre a emissora no filme. Hoje, ao comentar o governo Lula em entrevista à Folha, Ellis critica a criação de uma TV pública no Brasil. ‘Talvez seja tarde demais’, pondera, por e-mail, de Londres.


Completando 15 anos, ‘Muito Além do Cidadão Kane’ nunca foi transmitido pela TV brasileira -nem poderia, por questões de direitos de imagem. Virou, apesar disso, ou talvez por isso, um ícone na luta pela democratização do acesso à informação desde os anos 90, quando já circulava em VHS nos sebos e nas universidades.


O documentário, que custou cerca de US$ 260 mil [R$ 445 mil] à extinta produtora independente Large Door, na qual Hartog e Ellis eram sócios, já foi visto cerca de 800 mil vezes na internet. Nos fóruns da rede, é elogiado, criticado e ganha a alcunha de ‘a história proibida da Rede Globo’.


FOLHA – O que acha de o governo Lula tentar erguer uma TV pública?


ELLIS – Talvez seja tarde demais para a criação de uma TV pública. O que ela mostraria na maior parte do tempo? Há, claro, sempre espaço para uma melhora da informação pública na TV, tanto em notícias, em programas factuais, quanto nos assuntos presentes nas novelas, e como eles são abordados. A experiência no Reino Unido mostra que a TV pública deve ser separada do governo. Esse modelo de TV pública é possível no Brasil?


Nenhum governo que eu conheço iria querer criar agora uma empresa de telecomunicações se não pudesse controlá-la diretamente. Especialmente agora, quando há muitas TVs espalhadas pelo mundo. O serviço público de TV na Europa foi iniciado em uma época em que a TV era uma novidade.


Mesmo que a BBC seja separada do poder, quando a emissora foi realmente contra o governo em questões políticas específicas, o governo conseguiu reagir de maneira bem-sucedida contra essa oposição.


O sucesso da TV pública independente no Reino Unido não foi propriamente na área da política. Entretanto foi bem-sucedida na educação pública, sobre temas locais importantes, na participação social, na proteção do consumidor e até em melhorar o padrão geral dos programas no país.


FOLHA – O sr. acha que o documentário ‘Muito Além do Cidadão Kane’ ainda é atual?


ELLIS – Ele descreve uma situação que evoluiu, mas não sei bem qual é a profundidade dessas mudanças. O filme é bem-sucedido também, com a ajuda de muitos arquivos que permitem fazer essa oposição, em contar a história do crescimento da dominação da Globo na mídia brasileira.


Essa é uma história importante e deveria ser conhecida pelo menos por todos que estão estudando a mídia nas universidades e qualquer pessoa que estiver interessada na história política do Brasil.


FOLHA – Há quem diga que o Channel 4 encomendou seu documentário para atacar a Globo, que ameaçava entrar no mercado europeu de TV. Isso é verdade?


ELLIS – Definitivamente não. O objetivo do programa era justamente entender a TV no Brasil. No passado, o Channel 4 exibiu pelo menos uma novela da Globo (‘Escrava Isaura’), mas a produção não foi um grande sucesso. Há uma enorme diferença entre a cultura das TVs do norte e do sul da Europa.


A Globo teria mais chances em mercados como Espanha, Itália, Grécia ou, especialmente, Portugal, mas não no Reino Unido. A competição no Reino Unido vem das empresas norte-americanas e das empresas de Rupert Murdoch (News International, BSkyB e o conglomerado da Fox).


FOLHA – O filme foi proibido?


ELLIS – Isso não é verdade. A Large Door concedeu o direito de exibir o programa em eventos e em público a diversas organizações no Brasil. Não poderia ser transmitido pela televisão porque muitas imagens pertencem à TV Globo.


Fiquei sabendo que o vídeo foi mostrado em muitos eventos públicos no Brasil. Ele foi feito por meio da lei britânica de direitos autorais, que permite o uso de trabalhos escritos e, por extensão, audiovisuais, desde que ‘com o propósito de fazer comentários e revisões críticas’ [sobre aquela obra].


O documentário foi finalizado por Simon em março de 1992. Ele entrou em coma no início de junho daquele ano e morreu em 17 de agosto sem ter recobrado a consciência. Eu supervisionei a revisão do programa e a inclusão de uma entrevista para atualizar o filme, que foi ao ar em maio de 1993.


No Brasil, talvez você possa considerar que o filme é proibido, já que a recusa da Globo em ceder os direitos de exibição de suas imagens significa que ele não pode ser transmitido por canais brasileiros.


FOLHA – O documentário é apontado por alguns como um produto manipulador, que usa uma falsa linearidade para induzir o público a acatar sua posição.


ELLIS – Toda representação ‘manipula’ o público. O filme tem uma narração linear exatamente porque quer mostrar o crescimento do poder da mídia durante um período difícil da história moderna do Brasil. Ele foi feito para uma audiência no Reino Unido que não sabia nada sobre a história do Brasil, não se esqueça! Deveria haver outras narrativas sobre essa história também.


FOLHA – Nos últimos anos, o Brasil viu se intensificar uma guerra entre a Record e a Globo. O sr. tem acompanhado?


ELLIS – Não tenho acompanhado de perto esse essa história. Mas sei que duas empresas estavam interessadas em comprar os direitos de ‘Muito Além do Cidadão Kane’ no Brasil quando ele foi mostrado pela primeira vez no Reino Unido. Uma era a própria Globo.


Eles perderam o interesse quando disse a eles que poderiam comprar os direitos de TV, mas não as licenças para exibição em público e a distribuição de VHS, já que esses direitos já haviam sido concedidos a outras organizações no Brasil.


A outra empresa era a TV Record. A igreja [Universal do Reino de Deus] já tinha uma filial em Londres naquela época. Mas percebeu que haveria uma disputa judicial com a TV Globo a respeito das muitas imagens retiradas da programação deles. Então decidiu não comprá-lo.’


TELEVISÃO


Daniel Castro


Dança do poste retorna a ‘Duas Caras’ em versão ‘conservadora’


‘Para a felicidade geral da nação (masculina), a polêmica dança do poste vai voltar a ‘Duas Caras’. Responsável pelo processo que resultou na reclassificação indicativa e em uma autocensura que eliminou traços de sensualidade e palavras chulas da novela das oito da Globo, a ‘pole dance’ de Alzira (Flávia Alessandra) terá uma nova chance, mas dessa vez em ‘versão conservadora’.


Segundo o autor da novela, Aguinaldo Silva, tudo recomeçará quando Alzira flagrar seu amado Juvenal Antena (Antônio Fagundes) em uma situação supostamente romântica com Branca (Suzana Vieira).


‘Ela entende tudo errado e sai da casa do Juvenal. Então, meio por vingança, aceita descer pelo cano de novo, agora numa boate em Copacabana’, adianta Silva.


No novo emprego, Alzira fará muito sucesso. ‘Ela vai atrair a atenção da mídia e de figuras carimbadas do jet-set carioca, que irão lá só pra vê-la. Pelo menos até ela ser arrancada da boate à força por Juvenal Antena. Mas, a essa altura, já será uma estrela, uma personalidade daquelas que vão aos camarotes das cervejarias, dão entrevistas e posam nuas em certas revistas’, conta Silva.


Mas Alzira não será a única desnuda. O democrático Aguinaldo Silva também fará os rapazes da oficina mecânica de Antônio (Otávio Augusto) posarem para um calendário. ‘Mas tudo isso será feito com toda a discrição e o maior bom gosto’, brinca Silva.


A MUSA DO NAVIO


A bela Milena Toscano (foto) servirá de isca para adolescentes em ‘Poeira em Alto Mar’, microssérie de cinco episódios a ser exibida pela Globo de amanhã até sexta, às 17h. No programa, estrelado por Renato Aragão, Milena viverá Joana, moça rica que sofrerá um naufrágio. Na história, Joana conhece Davi (Daniel Erthal) assim que embarca num transatlântico. É paixão à primeira vista, mas Joana já está prometida a outro homem. Eis que surgem Didi (Aragão) e Peteco (Rodrigo Faro) em socorro do casal.


OS HOMENS DE PRETO


O jornalista e ator Rafinha Bastos (na foto, entre Felipe Andreli e Rafael Cortez), 31, é uma das apostas da Band para ‘CQC – Custe o que Custar’, a versão brasileira de ‘Caiga Quien Caiga’, o ‘Pânico’ argentino. ‘Eu sempre quis fazer jornalismo com humor, algo que não tem espaço na TV aberta. Mas o ‘CQC’ fará jornalismo com humor’, diz. Um dos quadros de Rafinha será ‘Proteste Já’. ‘Vou levantar problemas sociais, de saúde pública, conduta, leis que não são respeitadas e buscar soluções. É bem jornalístico, mas tem humor’, conta.


HOMENAGEM 1


Muita gente estranhou ao ouvir, terça passada em ‘Duas Caras’, um diálogo que se referia a ‘um breu em que nem mutante com visão noturna consegue enxergar nada’. Sim, foi uma citação explícita a ‘Caminhos do Coração’, a novela da Record que tem incomodado o futebol da Globo às quartas.


HOMENAGEM 2


‘Foi um chiste entre colegas. Adoro Tiago, que é neto do lobisomem. O pai foi Dias Gomes, e o filho, eu’, diz Aguinaldo Silva, aludindo à ‘árvore genealógica’ do realismo fantástico nas novelas.


HOMENAGEM 3


Santiago, que já trabalhou com Aguinaldo Silva em uma minissérie inédita, adorou. E vai retribuir: ‘Em algum momento, vou dizer que o Pachola [André Mattos] veio lá da Portelinha’. Portelinha é a favela de ‘Duas Caras’.


Pergunta indiscreta


FOLHA – Tem gente dizendo que sua minissérie seria plágio do filme ‘Para o Resto de Nossas Vidas’, de 1992, em que um cara convida os amigos para um fim de semana numa casa de campo e, ao final, revela que tem Aids. Pode uma coisa dessas?


MARIA ADELAIDE AMARAL (escritora) – ‘Queridos Amigos’ é tão parecida com esse filme quanto ‘Desejo e Reparação’ é parecido com a peça ‘Calúnia’, de Lillian Hellman. E os personagens e seus conflitos, desculpe, já estão no meu livro, publicado em 1992. Aliás, na linha do tema há pelo menos dois filmes bem superiores: ‘O Reencontro’ e ‘As Invasões Bárbaras’. A minissérie sairia ganhando se fosse comparada a eles.’


Lúcio Ribeiro


Novas temporadas de ‘Lost’ estréiam na Globo e no AXN


‘Mais mistérios sem respostas, mais gente reclamando dos mistérios sem respostas, mais discussões inconclusivas sobre o que afinal está acontecendo naquela ilha cheia de sobreviventes (não só) do desastre de avião. ‘Lost’ está de volta à TV, em dose dupla.


Nesta terça, 26, a terceira temporada da série estréia na Globo, no sofrível horário após o ‘Jornal da Globo’, mas com o apelo irresistível da participação de Rodrigo Santoro -que, na versão dublada, também faz a voz de seu personagem.


No entanto, é bom avisar: seu personagem, Paulo, um dos sobreviventes da queda do avião, não agradou aos fãs do programa e não conseguiu sobreviver a uma temporada inteira. Mas foi protagonista de um ótimo episódio e teve um fim que pode ser considerado ‘digno’.


A terceira temporada começa entediante, mas a partir do sétimo capítulo os roteiristas acordaram e fizeram o que foi o melhor ano da série até agora.


Menos de uma semana depois -e menos de um mês após a estréia nos EUA, fato inédito-, na segunda-feira, dia 3, chega ao ar no canal pago AXN a quarta temporada da série, com a promessa de resolver muitas dúvidas dos telespectadores. A principal delas é mostrar como alguns personagens conseguem sair da ilha e o que acontece com eles depois que voltam à civilização.


Novos integrantes, morte de personagens e até viagem no tempo estão presentes no novo ano, que tem a missão de reconquistar a audiência americana e manter o ânimo de quem continua à procura de respostas. Mesmo que para isso seja necessário criar mais perguntas.


LOST – 3ª TEMPORADA


Quando: estréia à 0h17 de terça para quarta


Onde: Globo


LOST – 4ª TEMPORADA


Quando: dia 3/3, às 21h


Onde: AXN’


Bia Abramo


Moldura paradidática


‘PARA QUEM tem mais de, digamos, 35 anos, é difícil ficar insensível à ‘Queridos Amigos’, a nova minissérie de Maria Adelaide Amaral que estreou na última segunda-feira.


Está lá um pedaço de memória muito vívida para os brasileiros nascidos até o início dos anos 70: o ano é 1989, da primeira eleição direta para a Presidência da República depois do golpe de 1964.


Em termos dramáticos, não poderia haver período melhor: os personagens, ao mesmo tempo, têm que se haver com as escolhas de juventude, algumas delas ainda marcadas pela radicalidade típica da geração do imediato pós-Segunda Guerra, e com a debacle das possibilidades utópicas tanto no plano histórico-político, assinaladas pela queda do Muro de Berlim, como no pessoal.


Um grupo de amigos, virando a esquina dos 40 anos no final da fatídica década de 80, volta a se reunir, por insistência de um deles, o escritor/ publicitário Léo (Dan Stulbach), que está doente. São professores, artistas, jornalistas, todos com um passado ligado à esquerda e às mudanças comportamentais da década de 60, ao refluxo político dos anos 70 e ao desencanto da década que sepultou o século 20.


A fórmula já foi usada no cinema -’O Reencontro’, de Lawrence Kasdan em 1983; ‘Para o Resto de Nossas Vidas’, de Kenneth Branagh em 1992- e, nos dois casos, resultou em filmes, se não brilhantes, simpáticos e emocionantes. Como na minissérie de Maria Adelaide Amaral, o balanço da geração do baby boom tem uma certa amargura e desencanto que acabam por tocar a todos que estiveram por lá.


Em ‘Queridos Amigos’, entretanto, ao balanço existencial de uma geração se impõe uma moldura paradidática que tenta ‘explicar’ tudo o que acontece reiterando de forma mecânica as ligações com a história. Como nas minisséries ‘Um Só Coração’ e ‘JK’, parte-se do pressuposto de que os indivíduos estão como que acossados pela história (e não pela memória), o que resulta em narrativas esburacadas pela obrigatoriedade de fazer referências emblemáticas a todo momento.


É como se a vida privada de determinado período se desse na frente de um pano de fundo de uma apresentação em Power Point, onde se sucedem as imagens, os sons, os objetos, as palavras típicas daquele momento.


Mesmo que a autora não classifique ‘Queridos Amigos’ como ‘histórica’ e tenha baseado a série em obra original, o molde da história, ao menos nos primeiros capítulos, se impôs. Além de empobrecedor para a história e para a narrativa, resvala fácil, fácil na chatice pura e simples.’


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Folha de S. Paulo


Sábado, 23 de fevereiro de 2008


MÍDIA, POLÍTICA & RELIGIÃO


Fernando de Barros e Silva


Sucata nacional


‘SE TIVESSE que eleger um traço para distinguir os anos Lula, diria que eles têm sido marcados pelo rebaixamento da vida nacional. A começar pelo sucateamento da esperança, tudo de alguma forma se nivelou por baixo. É curiosa, aliás, a realização histórica do slogan da campanha petista: o desassombro com que se foi ao pote pelo menos até a descoberta do mensalão -e tenho dúvidas de que algo substantivo tenha mudado- basta para constatar que temor, neste governo, só do mercado.


‘A esperança venceu o medo’ funciona mais ou menos como o ‘caçador de marajás’, slogan de Collor que já prenunciava, para quem soubesse ler nas entrelinhas, o desmantelamento do Estado que seu governo iria levar a cabo.


Os ventos, porém, sopram a favor de Lula. Tudo melhorou -é o que mais se ouve por aí. Muito bem. Pergunto se a ladainha oficial não seria, antes, a expressão do cinismo dos vitoriosos e recém-convertidos diante das evidências de que não vamos mais nos tornar uma sociedade decente, como um dia essa turma já pretendeu.


Soa muito abstrato? Um tanto ingênuo? Tome-se, então, um só aspecto da vida nacional -as relações entre o poder e a imprensa. Aqui não se trata mais de nivelamento por baixo, mas de regressão.


Foi perguntado ao presidente nesta semana o que pensava das ações movidas por fiéis da Igreja Universal contra a Folha e a repórter Elvira Lobato. A resposta foi suficientemente vaga para desviar do ponto em questão (o recurso abusivo ao Judiciário, configurando um caso do que se entende por ‘litigância de má-fé’) e, ao mesmo tempo, clara o bastante para que não pairassem dúvidas: sob o blablablá em defesa da liberdade de expressão, Lula tratava de prestar sua solidariedade à máquina de intimidar jornalistas patrocinada pelos líderes da Universal. Fez isso por cálculo, obviamente, já que princípios não são o seu forte.


Quem sabe seja um avanço para alguém que já chegou a tomar providências a fim de banir do país um repórter do ‘New York Times’ que havia escrito sobre seus hábitos etílicos. Uma porcaria de reportagem de Larry Rohter, vale lembrar, como se fosse esse o problema.


Apesar das tentações autoritárias deste governo e das intenções escusas dos neobucaneiros da fé, parece obviamente exagerado dizer que a liberdade de expressão corre risco no país. Não acredito nisso. Desconfio, da mesma forma, quando uma corporação ou um grupo social, mesmo se coberto de razão ou de boas intenções, pretende falar em nome do bem coletivo ou do interesse geral. Antigamente isso tinha nome: ideologia.


O que hoje se vê não sob ameaça, mas em avançado estágio de degradação, é a capacidade de expressão da mídia. Muito em função da rede de áulicos sustentada pelo petismo, mas também pela delinqüência de vozes da oposição. FERNANDO DE BARROS E SILVA é editor de Brasil’


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