Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > SEGURANÇA PÚBLICA

Imprensa e polícia de terceiro submundo

Por Fernando Soares Campos em 27/02/2007 na edição 422

O Globo de domingo (25/2), chama, na primeira página: ‘Mulher de Mantega culpa economia pela violência’. Porém, a matéria trata de uma sugestão que Eliane Mantega, psicanalista, mulher do ministro do Planejamento, teria feito, indicando medidas que poderiam amenizar a violência e a pobreza no nosso país: ‘O que é preciso é que o Brasil melhore a polícia e a economia, como forma de reduzir a pobreza e a violência.’

Nesse caso, até que não seria desonesto dizer que a mulher do ministro ‘culpou’ a polícia pela violência e responsabilizou a economia pela pobreza que assola o país há séculos. Entretanto, espero que, caso o ministro dos Esportes proponha maiores incentivos ao setor, como forma de contribuição para a paz social, O Globo não alegue que ele está culpando as atividades desportivas pela violência; pois foi isso que fez com a declaração da dra. Eliane Mantega em relação à política econômica do governo.

Relendo, na internet, matérias de diversos jornais sobre o caso do menino João Hélio, arrastado pelas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro, não encontrei qualquer especulação incisiva a respeito de investigações sobre quadrilhas receptadoras de carro roubado. Parece que os repórteres não se interessam em cobrar, insistentemente, do delegado Hércules Pires do Nascimento informações de como andam as investigações que levariam a polícia a possíveis compradores do Corsa sedan de propriedade da mãe da vítima.

Semana de ‘comoção’

Muitos desses carros são roubados por encomenda. Por que os ladrões foram presos tão rapidamente enquanto intrujões do ramo permanecem soltos e nada indica que se chagará a eles? Qual seria o destino do carro? Em que galpão seria desmanchado? A partir daquele crime, existem chances de desbaratar alguma quadrilha especializada no ramo automotivo?

Não temos resposta para essas questões, mas encontrei inúmeras referências enfáticas à ‘formação de quadrilha’ por parte dos meliantes pés-de-chinelo que executaram o assalto, numa noite tenebrosa, e arrastaram uma criança por sete quilômetros, atravessando quatro bairros, numa área muito movimentada, sem ter passado por um só policial. Contudo, até que entendo este detalhe, pois a polícia, mais que qualquer cidadão, conhece o seu território, e, por isso mesmo, não deve estar disposta a se expor a um ambiente tão perigoso! Ainda mais àquelas horas da noite!

Alguém acredita que aqueles trouxas apresentados como únicos responsáveis pela tragédia agiam por conta própria? Ora, até trombadinha da Central conta com apoio ‘logístico’! Mas a população já teve sua semana de ‘comoção’. Outra será produzida muito em breve; receptadores manterão seus negócios; e pés-de-chinelo estarão a postos no próximo sinal vermelho.

Calcula-se que apenas 8% dos homicídios cometidos no Brasil são apurados, e destes, apenas 2% vão a julgamento. Considerando-se que ocorrem cerca de 45 mil homicídios por ano no nosso país e… (Bom, deixa como está, não há mais o que se considerar. Quem ainda se indigna com as estatísticas que revelam o estado de guerra civil no nosso país, se quiser exercitar-se através de uma simples regra de três, pode fazer as contas e conferir os números da impunidade.)

Apenas em dez estados brasileiros, cerca de 30 mil policiais estão envolvidos em algum tipo de crime. A metade dos casos tem relação com de roubo de carros, de carga, seqüestro e tráfico de drogas.

Pressa estranha

Além de inconformado com a criminalidade alarmante a que estamos expostos, passíveis de nos tornarmos as próximas vítimas, já começo a me indignar com o clima de ‘comoção pública’ promovido pela imprensa espetaculosa. Por que essa imprensa opinativa, cheia de adjetivações, se acomoda com informações oficiosas sobre investigações policiais, sem qualquer contestação?

Pode-se acreditar em tudo que autoridades policiais falam sobre a apuração de um crime de homicídio em tempo recorde com o inquérito concluído em nove dias? É estranho que um inquérito seja remetido à promotoria com algumas pendências, como, por exemplo, impressões digitais, mesmo dispondo de tempo suficiente para obter tais dados. Inquérito remetido pelo delegado e aceito pela promotoria. Tudo em o clima de ‘comoção pública’. Por que tanta pressa? Isso só alimenta a ‘abrangente’ cobertura midiática.

Impressões digitais não interessam

O delegado Hércules Pires do Nascimento espera a chegada de dois laudos técnicos até sexta-feira (23/2) para encaminhar o inquérito sobre a morte do menino João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos, ao Ministério Público (G1, o portal de notícias da Globo, 17/02/2007).

Laudo sobre morte de menino é entregue. Agora só falta laudo das impressões digitais. (…) O laudo vai ser mais uma prova a indicar se os três acusados estavam dentro do Corsa prata roubado da mãe de João, Rosa Fernandes Vieites. Mas, segundo o delegado Hércules Pires, caso a presença não seja constatada, será indiferente. ‘Já está provada a participação deles’, declarou. (G1, 22/02).

Por que tanta pressa para entregar o laudo sem a confirmação das impressões digitais?

No dia seguinte saiu a confirmação da perícia:

O delegado da 30ª Delegacia de Polícia (Marechal Hermes) Hércules Nascimento afirmou hoje que o laudo das impressões digitais, recolhidas dentro do carro que arrastou o menino João Hélio Fernandes Vieites, 6 anos, não apresentou impressões dos suspeitos do crime. No entanto, segundo Nascimento, isso não afeta o inquérito, pois existem outras provas e testemunhas que comprovam a participação dos cinco acusados (Terra Notícias, 23/02).

O delegado garante que isso não faz diferença ‘para a condenação’ dos acusados. Claro, doutor, isso faria diferença ‘para absolver’ possível inocente acusado de participar de um crime cujos indiciados aparecem nas telas de todas as televisões e nas páginas de todos os jornais com os rostos escancaradamente arrebentados.

‘Condenação vai ser rápida’

Carlos Eduardo Toledo Lima, 23 anos, suspeito de ter dirigido o carro, declara-se inocente. Ele afirma que estava com a namorada no momento do assalto. Seu irmão, de 16 anos, assumiu a participação e diz que Carlos é inocente. Diego Nascimento da Silva, 18 anos, confessou o crime. Esses três são apontados no inquérito como ocupantes do veículo roubado; outros dois são acusados de ter dado cobertura à fuga dos assaltantes.

Durante oito anos me relacionando com milhares de adolescentes infratores acautelados, só conheci um caso em que um irmão mais velho, adulto, envolveu um irmão consangüíneo, menor de idade, num homicídio: o assassinato de um jovem na Zona Sul do Rio, crime passional, uma disputa por namorada. Casos outros devem existir, mas são raros.

Normalmente, traficantes e bandidos não admitem que seus irmãos consangüíneos menores de idade participem de suas atividades criminosas. Isso é muito fácil de se constatar e facilmente compreensível. Pode ser que neste caso tenha ocorrido um desvio da ‘regra’.

O caso João Hélio fará parte daqueles 2% de homicídios que vão a julgamento. Decorridas apenas 18 horas da execução do crime, foram efetuadas as prisões dos suspeitos; nove dias depois, o inquérito foi concluído e enviado à promotoria. Talvez até figure entre os inquéritos mais rápidos da história da polícia. ‘Acredito que a condenação vai ser rápida porque foi um crime de muita repercussão. Já combinamos com o Ministério Público que se tivermos mais evidências mandaremos em separado’, garantiu o delegado (G1, 23/02).

Roubo, seqüestro e tráfico

‘Não tivemos acesso ao processo. O direito do advogado deve ser preservado. Isto é inconstitucional. Já oficiamos à OAB. A família dos réus está em pânico, quer saber o que está acontecendo e a gente não consegue saber nada. Vamos tentar ver o inquérito no fórum’, disse Celso Salles, um dos defensores dos suspeitos (G1, 23/02).

O promotor prometeu: ‘O julgamento dos quatro maiores de idade acusados da morte do menino João Hélio Fernandes – arrastado por um carro no Rio – deve acontecer em menos de três meses.’ É o que afirmou o promotor da 1ª Vara Criminal de Madureira, José Luís Ferreira Marques, nesta sexta-feira, (Correio Web com Agência Estado, 23/02).

Quem não está acostumado com tanta celeridade da Justiça, estranha! Se a imprensa apurar a questão das digitais, se batem apenas com as da proprietária do carro e seus familiares, e também se existem as de outras pessoas não identificadas (?) e protestar, com veemência, contra a inconstitucionalidade alegada pela defesa, também estranharei.

Repeteco: Apenas em dez estados brasileiros, cerca de 30 mil policiais estão envolvidos em algum tipo de crime. A metade dos casos tem relação com de roubo de carros, de carga, seqüestro e tráfico de drogas.

É isso que se pode chamar de polícia de terceiro submundo? E a imprensa?

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Escritor, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/02/2007 Fabiana Melgaço

    Numa compreensao mais ampla referente ao tema citado, sugiro pensar que a policia ou ‘poli’ ‘cia’, se faz com o que o ser humano tem de pior, é claro, nao podemos generalizar, mas a honestidade nao é prato principal hoje no Brasil, acredito que nunca foi. Nos atuais dias, é muito remetente educar uma criança por exemplos reigados de errado que está certo, a educaçao esta sendo falha, porque adolescentes nao tem mais principios, a lei da adolescencia agora é rebeldia ao extremo, por motivos nao congruentes da sociedade.
    O governo se atenta e acelera a resoluçao do caso do Joao Helio na minha opiniao, por estar sendo pressionado pela populaçao de todos os estados, a mobilidade da sociedade pedindo justiça, caso contrario, como ja sabemos que existem muitos absurdos acontecendo com menores sendo infratores e que nao sao de conhecimento de todos, acabam empoeirados e esquecidos.
    A imprensa tem papel primordial, pois ajuda a pressionar os orgaos necessarios, exigindo um respaudo.
    Concluo meu caro Fernando que a policia é sim de terceiro mundo e a imprensa esta cada vez mais qualificada para as atitudes necessarias para a populaçao.
    A imprensa é a nossa mediatriz.

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