Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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JORNAL DE DEBATES >

Imprensa sob ataque dos governos

Por Wadah Khanfar em 09/02/2011 na edição 628

Faz quase um século que as fronteiras que hoje dividem o Oriente Médio foram traçadas. Alguns dos Estados que emergiram mais tarde viriam a defender a independência e o desenvolvimento social. Outros adotavam postura mais conservadora.


Mas, quase sem exceção, mantiveram um monopólio sobre a informação e a comunicação, tendo por base controle e censura da mídia.


Por muitos anos, a dissidência, crítica ou mesmo a mais limitada exposição daquilo que acontecia por trás de portas fechadas foi reprimida, com o argumento de que ‘o momento não é esse’.


Mas o controle dos governos sobre a informação já foi rompido. Ao longo dos últimos 15 anos, a mídia livre do Oriente Médio obteve sucesso gradual em se libertar do controle oficial e começou a refletir de maneira direta as ambições e frustrações dos moradores da região.


Novos tempos


A Al Jazeera foi a primeira rede regional a contestar o tabu da liberdade de informação. A postura teve preço alto, como conflitos contínuos com muitos regimes; o fechamento constante de nossas sucursais, de Bahrein a Marrocos; a detenção, tortura e até assassinato de nossos jornalistas; e a promoção de campanhas de boatos e difamações para macular nossa credibilidade.


A mais recente tentativa de nos silenciar surgiu na semana passada, quando fomos tirados do ar pelo Nilsat, um satélite controlado pelo governo do Egito. Esse rompimento do bloqueio de informação por meio da TV via satélite ganhou muita força com a difusão de novas tecnologias.


Enquanto os Estados tentavam empregá-las a fim de reforçar seu controle, surgiram novas e inesperadas oportunidades – via internet, YouTube, Facebook e Twitter, a juventude da região encontrou voz comum.


Celulares dotados de câmeras e vídeos amadores permitem que o mundo veja aquilo que está além do alcance de equipes de TV. Com um simples cartão de memória, tornou-se possível promover vazamentos maciços de informação sobre o que está sendo feito em segredo, em nome do povo.


O mais importante é a aliança que surgiu entre a mídia livre convencional e as novas mídias.


Notícias quentes


Por meio de intrépidas redes sociais, imagens dos levantes na Tunísia e Egito foram transmitidas de aldeias locais para nossa audiência mundial de mais de 200 milhões de pessoas.


Nós acompanhamos as multidões que se manifestaram diante do Ministério do Interior da Tunísia, um símbolo poderoso de repressão.


E transmitimos ao vivo da praça Tahrir, no Cairo, dia e noite, já há 12 dias, a despeito de todas as tentativas de desligamento de nossas câmeras e detenção de repórteres.


O papel que desempenhamos agora não é diferente daquele que os melhores veículos de mídia dos países desenvolvidos desempenham: extrair informação dos poderosos e repassá-la à fonte primária do poder, o povo.


No entanto, a mídia livre está sob constante ataque na região por supostamente ‘trair os interesses nacionais’, ou porque veiculamos reportagens em momentos inoportunos, ou porque defendemos agendas ocultas de ‘desestabilização’.


Nas duas últimas semanas, as mesmas acusações de sempre nos foram feitas pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP).


O ataque foi um resultado de nossa veiculação, on-line e via TV, de documentos das autoridades palestinas, em um vazamento sem precedentes de documentos internos e registros de negociações diplomáticas.


Mais transparência


O Oriente Médio sem dúvida está passando por um momento de transformação histórica. A Al Jazeera e outros veículos livres de mídia não são a causa da onda de levantes e da inquietação que varre a região.


Os motivos para isso são profundos e vão além do papel da mídia. Mas somos um fator importante para que o povo da região disponha dos meios necessários a tomar o controle sobre sua vida.


E podemos estar certos de que o destino do Oriente Médio já não será decidido por trás de portas fechadas.

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Diretor-geral da rede Al Jazeera

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