Domingo, 02 de Agosto de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº861

JORNAL DE DEBATES > LULA E A MÍDIA

Imprensa versus governos

Por Luciano Martins Costa em 25/03/2010 na edição 582

O novo ataque do presidente da República aos jornais que qualificou de ‘tablóides’, feito durante solenidade em Brasília [ver abaixo], provocou editoriais, artigos, declarações e pouca ou nenhuma contribuição para evitar o desastre que se avizinha: um provável rompimento entre o Executivo e a imprensa.


O presidente Lula da Silva se queixa freqüentemente, e voltou a fazê-lo na solenidade de quarta-feira (24/3), de que a imprensa, ou parte dela, tem grande predileção pela desgraça. E de que cobre os atos do governo federal com má-fé. Citou, como exemplo, o que considera mau jornalismo: o governo constrói duas mil casas, nada sai nos jornais, mas se desaba um barraco, noticia-se que caiu uma casa.


Os jornais usam o discurso do presidente para reafirmar que ele sofre de ‘devaneio autocrático’, conforme o editorial da Folha de S.Paulo (25/3), e que não tolera receber críticas. O presidente claramente demonstra exagerada necessidade de aprovação por parte da imprensa, suas alianças políticas são fonte permanente de más notícias, mas a afirmação do editorial carece de maior fundamento.


A Folha chega a publicar uma lista de entreveros de Lula com jornalistas, ou de declarações, que, segundo o jornal, descrevem sua relação conflituosa com a imprensa.


São apenas sete ocorrências em seis anos e os exemplos escolhidos não refletem necessariamente um estado de conflito permanente, mas um rol de episódios que poderiam ser considerados corriqueiros na vida de qualquer governante.


Censura e controle


A situação pode remeter ao período vivido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato. A imprensa cobrava obcecadamente mudanças na economia, principalmente na política cambial. Quando finalmente o governo, após a reeleição do então presidente, desvalorizou o real, as críticas se renovaram, desta vez pelo motivo oposto, e o Brasil passou meses assombrado por avisos de retomada da inflação, alimentados pelos jornais.


No mesmo período, o voluntarismo de alguns repórteres, com base em vazamentos de inquéritos promovidos por representantes do Ministério Público, criou um inferno de acusações contra o então secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge Caldas Pereira.


Desde 2006, Eduardo Jorge vem colecionando uma série de vitórias na Justiça contra seus detratores.


É papel da imprensa fiscalizar o poder público – todos os poderes –, desconfiar em princípio de negócios envolvendo governos – todos os governos –, fazer as perguntas que ninguém quer ouvir. E cobrar as respostas.


Mas esse espírito precisa estar impregnado no fazer jornalístico, e deve ser praticado naturalmente em todas as relações da mídia com as instituições.


O risco da relação conflituosa entre governantes e a imprensa é o estabelecimento de um estado permanente de guerra, que certamente deprecia a imprensa e municia aqueles que, em qualquer instituição pública ou partido político, alimentem sonhos de controle do jornalismo.


Como a política nacional tem mais visibilidade, escapa aos observadores o fato de que também nos Estados há constantes problemas de relacionamento. Há governadores se queixando de má vontade ou partidarismo por parte dos jornais. E há partidos oposicionistas denunciando a adesão total da imprensa a governos locais.


Os jornais sempre reagem denunciando ameaças de censura.


Mas, atenção: é preciso atentar para a abissal diferença que existe entre a censura institucional à imprensa e o controle social dos meios de comunicação. Apesar dos esperneios de dirigentes de empresas jornalísticas, a liberdade da imprensa não corre o menor risco no Brasil.


Guerra declarada


O risco maior para a imprensa vem da própria imprensa, quando os jornais se associam para agir como um partido político. E quem faz essa revelação é a própria presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Maria Judith Brito, conforme já apontado neste Observatório: em encontro realizado em São Paulo, a presidente da ANJ declarou textualmente, segundo O Globo: ‘A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação’, acrescentou – e até aí tudo bem. Mas ela continuou:




‘E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.’


Intrinsecamente contraditória, a declaração estabelece a ruptura, afeta a credibilidade da imprensa e traz insegurança a todos os governantes, pois tal afirmativa serve também aos governos estaduais e dos municípios onde a oposição estiver fragilizada. Tal distorção – imprensa declaradamente partidária – independe de quem está no poder, uma vez que os jornais se assumem publicamente como partido político.


Quando a imprensa abandona seu eixo, todos saem perdendo. Principalmente a imprensa.


 




Todos os comentários

  1. Comentou em 28/03/2010 Fabio Passos

    Ótima análise do Mino Carta: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mino-carta-tabloides-de-assalto.html ‘Mino Carta: Tabloides de assalto’

  2. Comentou em 27/03/2010 RONALD BITTENCOURT

    VAMOS PROPOR DISTRIBUIÇÃO GRATUÍTA DE REVISTAS PORNOGRAFICAS EM ESCOLAS INFANTIS…..
    NÃO TEM PROBLEMA MESMO….NADA PODE SER PROIBIDO….
    SENÃO É CENSURA..
    ACHO QUE TAMBÉM TALVEZ NÃO VALE FALAR MAL DA MÃE DE NINGUÉM…..
    EM NOME DO QUE SE ESTÁ USANDO A LIBERTINAGEM DE IMPRENSA???????

  3. Comentou em 26/03/2010 Gersier Lima

    ‘Afora isso, no governo de Fernando Henrique Cardoso as instituições JAMAIS estiverem sob ameaça de qualquer espécie de controle, porque tínhamos um verdadeiro democrata como presidente’.Realmente Antônio Luiz Calmon Teixeira Filho,tanto que a famigerada globo que vc defende deportou sua funcionária adultera para tentar esconder da população brasileira que o grande estadista,como sabemos hoje,só tem fachada.Quanto ao Santo Lula,enquanto alienados como vc o despreza,gente muito mais importante que vc o homenageou hoje lhe outorgando a comenda máxima da Liga das Nações Árabes.Entre no site da NBR ou no You tube e assista o “discurso” do cara que está lhe pagando para freqüentar blogs sérios como esse e escrever as suas babaquices,e o do Presidente Lula.Mas não morra de inveja e nem de raiva … ainda.Aguarde o mês de outubro.

  4. Comentou em 25/03/2010 Luciano Prado

    Luciano, a guerra já vinha ocorrendo há tempos. O governo de Lula vinha apanhando calado. A exacerbação se dá porque as armas da imprensa já não estão mais no campo jornalístico. A imprensa resolveu eleger o exercício da marginalidade, da bandidagem. Os exemplos são diários e o cidadão consciente os enxergam com muita clareza. A indignação já não é suficiente. O que o presidente Lula fez e deve continuar fazendo é reflexo do que pensa a sociedade. É preciso dar um basta nessa marginalidade. O exemplo que você cita nas declarações de Maria Judith Brito (ANJ) é apenas a confirmação da deliberada escolha da imprensa, mas o que preocupa é a forma como a imprensa vem exercendo essa oposição. A imprensa tem contaminado o meio político com suas práticas marginais, inaceitáveis numa democracia. Criticar o governo, mostrar as mazelas, denunciar com base nos fatos é dever da imprensa e com isso ninguém pode se insurgir, ao contrário deve-se elogiar, mas o que se verifica é uma prática bandida travestida de jornalismo. O exemplo mais palpável da bandidagem da imprensa está na publicação de uma ficha falsa da ministra Dilma. Aos jornalistas que têm compromisso com a responsabilidade espera-se que ajam como você, mostrando os graves riscos dessa escolha, desse comportamento que os fatos mostram marginal.

  5. Comentou em 25/03/2010 Gersier Lima

    ‘O presidente claramente demonstra exagerada necessidade de aprovação por parte da imprensa’.Discordo,acredito que o Presidente Lula age como qualquer cidadão comum que fica irritado com tanto cinismo por parte de um grupo que se acha imprensa.Porque ela não mostra as greves em São Paulo e a reação descabida do Serra?Ou seja,só ‘pegam’ no pé dele e de seus aliados.Como se denomina isso?’O risco maior para a imprensa vem da própria imprensa, quando os jornais se associam para agir como um partido político’.Concordo e tem mais como a oposição está sem rumo,é ela quem a pauta.

  6. Comentou em 05/08/2009 Marcelo Idiarte

    Como assim, cara-pálida? Como a briga não é minha? Acaso você acha que o Jornalismo é patrimônio privado? Acaso você acha que a Sociedade como um todo não tem o direito e não tem a prerrogativa de se interessar e de interferir nos rumos desta função? Jornalismo, meu caro, é um serviço público, tendo considerável influência sobre a Sociedade. Entre os objetivos históricos deste Observatório da Imprensa consta: ‘O Observatório da Imprensa funcionará como um fórum permanente onde os usuários da mídia – leitores, ouvintes, telespectadores e internautas –, organizados em associações desvinculadas do estabelecimento jornalístico, poderão manifestar-se e participar ativamente num processo no qual, até há pouco, desempenhavam o papel de agentes passivos’. Ora, não sei por onde você andou estes anos todos, ZÉMARIO SANTOS, mas o OI não é um curral profissional. Nem sindicato. E muito menos conselho de classe. Eu poderia ser um gari e ainda assim teria toda a legitimidade do mundo para discutir Jornalismo. Até porque eu acompanho esta atividade muito de perto. Tão de perto que seguidamente tenho que socorrer certos ‘profissionais’ que têm sérios problemas com o idioma pátrio e que têm um nível deplorável de conhecimento geral inclusive acerca de coisas básicas. A respeito de mentiras, ou relapsos, sinto informar: equívocos não deixam de ser equívocos por causa de biografias.

  7. Comentou em 26/10/2004 Mariana Estrella

    Gostaria apenas de dizer que o Obseravtório da Imprensa é um dos poucos espaços onde eu encontro análises diferenciadas sobre o jornalismo e a mídia. Como estudante de jornalismo (PUC/RS) sinto falta da crítica sobre o tema na Universidade. Acho que estamos virando consumidores… comprando diplomas e entrando em uma profissão caótica! Obrigada por não me fazer desistir de pensar!

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