Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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JORNAL DE DEBATES > SUCESSÃO PRESIDENCIAL

Imprensa e eleições, nada a ver

Por Luciano Martins Costa em 17/12/2012 na edição 724

Comentário para o programa radiofônico do OI, 17/12/2012

A pesquisa da Folha de S. Paulo sobre perspectivas para as eleições presidenciais de 2014 teve pouca repercussão na imprensa. Curiosamente, após fazer do assunto sua manchete no domingo (16/17), o próprio jornal paulista que o gerou o abandonou em seguida em sua edição digital.

Os leitores seguiram a apatia dos editores e também se abstiveram de fazer comentários sobre o tema, o que causa estranheza, uma vez que, pela própria ação da imprensa, o assunto deveria suscitar mais controvérsias.

Os números captados pelo Datafolha confirmam o que qualquer pessoa mais ou menos informada pode adivinhar: a popularidade e o alto índice de aprovação do governo da presidente Dilma Rousseff a credenciam como favorita para sua própria sucessão. De certa maneira, porém, não seria surpresa se as chances de eleição do ex-presidente Lula da Silva se apresentassem reduzidas a esta altura do tempo, em função do incessante bombardeio que lhe faz a imprensa, por conta de denúncias sem trégua.

Espaços fartos

“Se eleição fosse hoje, Dilma ou Lula venceriam”, disse a manchete da Folha no domingo (16). No mesmo subtítulo, o jornal junta o tema predileto da mídia nacional, acrescentando que “aumenta a percepção de corrupção no governo”.

No texto principal, estão agrupados os dados sobre a grande dianteira de Dilma e Lula na preferência dos eleitores, os indicadores de desempenho do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e, pela primeira vez numa pesquisa eleitoral, o nome do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

Não poderia haver maneira mais explícita de apresentar a própria opinião do jornal: a Folha, como toda a chamada grande imprensa nacional, acreditava que ela própria, por meio do noticiário intenso sobre escândalos de corrupção, estaria construindo os fatores de escolha do eleitor para a próxima sucessão presidencial.

A inclusão do nome de Joaquim Barbosa só se explica pela exposição que lhe tem dado a mídia no julgamento da Ação Penal 470: ele seria, na análise da mídia, o ator a personificar a moralidade pública, diante do aparente desmoronamento de toda decência na política.

No entanto, as lições que a pesquisa Datafolha nos traz são que, ou a sociedade brasileira não se importa com a corrupção – o que é desmentido pela própria imprensa em reiteradas pesquisas – ou a sociedade brasileira não se importa com o que diz a imprensa.

O fato apresentado pela pesquisa é que, com Dilma ou Lula candidatos, o Partido dos Trabalhadores venceria a eleição em primeiro turno e que os partidos de oposição não têm grandes perspectivas com Aécio Neves, que foi lançado como alternativa pela imprensa quando governava Minas Gerais e costuma ganhar espaços generosos na mídia toda vez que se manifesta em público.

Os votos de Marina 

Os baixos índices de voto atribuídos ao presidente do STF também reforçam a percepção de que, embora ungido herói da moralidade e paladino da Justiça, Joaquim Barbosa não é visto como possuidor dos atributos adequados para dar continuidade às políticas que fazem de Lula e Dilma campeões de aprovação e popularidade.

Não é que a sociedade brasileira não concorde com o combate à corrupção: o que aparece claramente na pesquisa é que a população não concorda com a versão escandalosa que lhe apresenta a imprensa.

Uma clara demonstração dessa possibilidade é o fato de que, entre os candidatos que podem ser vistos como alternativa ao modelo de governo do PT, apenas a ex-ministra Marina Silva, ex-petista, aparece com chances de vitória. Se Joaquim Barbosa, pela ordem, e Aécio Neves, que são presenteados com grandes porcentagens de referências positivas pela imprensa – com imenso destaque para o presidente do Supremo – não sensibilizam o eleitor, o que explicaria o aparecimento da senadora acriana, que não conta com visibilidade sequer aproximada, como a maior preferência do eleitor depois de Dilma e Lula?

Claramente, a imagem de Marina Silva corresponde à da personagem política da mudança. Marina representa a ética, não a moralidade apresentada pelos jornais. Mulher, pobre, parda, vinda de uma região remota, para os padrões da imprensa nacional, militante de direitos humanos e ambientais, ela não se enquadra em nenhuma das métricas de uma imprensa que privilegia a economia de mercado, contempla exclusivamente o sudeste industrializado e mal consegue dissimular certos preconceitos sociais.

Em resumo: a pesquisa Datafolha revela que a imprensa não faz a menor diferença na hora da escolha do eleitor.

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