Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ENTRE ASPAS >

Inglórios disparates

Por Thiago Cury Luiz em 19/04/2011 na edição 638

Embora difícil, é necessário almejar a racionalidade para tratar de um assunto em que razão não houve. Seria exagero cobrar dos pais das vítimas tamanha frieza, mas alguém precisa enxergar o todo à distância. Por ‘alguém’ entenda-se a maioria das pessoas, com exceção das que, como dito, se encontram no epicentro do descabido.

Digamos que o rapaz metido a atirador – assassino, de fato – não estivesse morto. Seria pego, julgado e condenado a sabe-se lá quantos anos. Não cumpriria o total da punição, solto seria e o debate sobre a nossa legislação penal estaria restabelecido. E não só. Falível, possivelmente o sistema carcerário brasileiro devolveria à sociedade alguém pior do que entrou, como ocorre não em raras oportunidades.

Ainda nessa toada, e se penas mais drásticas fossem implementadas? A de morte é controversa. Aos defensores dos discursos religiosos, a concepção da vida provém de Deus e, a não ser por ele, a mesma não pode ser tirada. Aos adeptos da perspectiva antropocêntrica, a decisão de manter ou não vivo um criminoso, por mais que essa seja a definição da criatura que comete os piores atos contra outrem, é demasiadamente complexa para as limitações humanas. E existem os defensores da pena capital para inibir tragédias de proporções elevadas. A prisão perpétua é outra possibilidade que, em meio aos acontecimentos mais incisivos, ganha repercussão, podendo inibir crimes hediondos sem tramitar pela decisão de vida ou morte.

Palanque trágico

Mas quem está morto, morto está, e as discussões pendem sobre outras questões. E é uma pena que, de novo, a imprensa sensacionalize o ato, como um espetáculo de personagens reais, sofrimento real, morte real. Com a obviedade que os mais supérfluos adoram, há maior impacto, comoção, audiência. A isca foi jogada, a imprensa fisgou e parece querer reproduzir a mesma emboscada.

Aparentemente, um bandido muçulmano, ou simpatizante, é a receita para atrelar tragédias ‘a essa espécie de gente diminuta, abominável’. Como se um cristão ou adepto de qualquer outra religião não pudesse matar, exemplos que a história já teimou em nos dar. Porque a explicação para os atentados contra a vida não está neste ou naquele posicionamento religioso, político, esportivo ou cinematográfico, erro que a mídia insiste cometer. Está no indivíduo e nas interfaces históricas que o permeiam.

Nesse cenário, os políticos já fazem do trágico palanque. Heróis – falsos, como todos – serão enaltecidos em detrimento de um único ser humano desprezível, o ‘monstro’. Os choros dos pais estampam telas e páginas. Crianças são exploradas em rede nacional para desabafarem por meio da situação mais imprópria.

A sociedade tem sua parcela

Eis o cenário propício às vontades dos que estão do lado de cá da tela. O enredo de morte, choro, mocinho e bandido apresenta os ingredientes que, cada um à sua maneira, conformam o público. A sensação catártica de se apavorar com o inexplicável, mas, oposta e simultaneamente, contentar-se com o fato de que aquilo está bem distante, é imperceptível e, ao mesmo tempo, atuante. E apoiar-se nas extremidades matador-salvador fornece aparente calmaria e o sentimento de que tudo está resolvido.

Mas a pergunta a calhar ganha porcentagem irrisória nas publicações escritas e televisivas: quem é – ou foi – Wellington? A reposta não justifica o ato. Por mais cretina que talvez tenha sido a sua infância, matar adolescentes está fora de qualquer tipo de ‘resposta ao mundo’. Se vivo estivesse, a pena deveria ser a mais ácida diante do que cometera. Mas se a compreensão não buscar uma amplitude maior, outros tiros começarão hoje e os que já iniciaram irão continuar. Só o final dos processos chama a atenção, o que legaliza seus começos, algo que a conversa direcionada e restritiva acerca do que já foi não resolve todo o problema atual e passa distante de solucionar ou prevenir outros.

A superficialidade de se prender ao fato limita a compreensão sobre o contexto mais abrangente. Apontar o dedo a partir do que se estabeleceu é irresponsável, posto que a culpa é de quem aperta o gatilho, mas não só. A sociedade tem a sua parcela de autoria, na medida em que não se mobiliza de antemão, despreocupa-se com a realidade, caso ela esteja aparentemente calma, e se exime do seu papel de indicar representantes melhores, que, por sua incompetência, têm suas digitais nesse e em tantas outras afrontas ao bom senso.

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Professor de Jornalismo da Universidade do estado de Mato Grosso, Alto Araguaia, MT

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