Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CIêNCIA > CRISE COM A BOLÍVIA

Intrigas, boatos e jornalismo de opinião

Por Fernando Soares Campos em 09/05/2006 na edição 317

O Jornal da Globo, na noite de 2/5, prestou um desserviço ao jornalismo brasileiro. Na abertura do noticiário sobre a decisão do governo boliviano de nacionalizar as reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural), o que já está sendo chamado de ‘guerra do gás’, o âncora fez a seguinte chamada:

‘O Jornal da Globo apurou que, em particular, desabafando numa roda de ministros, o presidente Lula só conseguia expressar-se com palavrões ao falar do colega boliviano Evo Morales. Mas em público a postura do governo brasileiro frente ao decreto de expropriação assinado pela Bolívia quase equivale a passar a mão na cabeça de Morales’.

Não se pode chamar isso de jornalismo de opinião. Eu até aceitaria que veiculassem a opinião simples da segunda parte da chamada: ‘A postura do governo brasileiro frente ao decreto de expropriação assinado pela Bolívia quase equivale a passar a mão na cabeça de Morales’.

Até aí dá para entender que se trata de uma orientação editorialista, uma posição da empresa jornalística diante dos fatos. Seria, certamente, uma opinião precipitada, visto que o problema é recentíssimo e tramita nos meios técnicos e diplomáticos do governo. No entanto, nos últimos meses, já vimos denúncias mais graves e sem provas serem veiculadas insistentemente.

Não creio que algum ministro tenha confidenciado a qualquer repórter a informação de que o presidente Lula possa ter insultado o presidente Evo Morales com palavrões, conforme denunciou o Jornal da Globo. Menos ainda acredito que o presidente Lula seja capaz de tratar a questão, em reunião com os seus assessores, fazendo uso de palavras de baixo calão, para se referir ao presidente boliviano. O mais provável, neste caso, é que não passa de mais um dos muitos boatos que abundam e medram (e haja medra!) nos últimos tempos.

No dia 3/5, a manchete principal de O Globo foi: ‘Lula reconhece direito de Bolívia nacionalizar o gás’. Porém, no telejornal das oito, o JN, no mesmo dia, editou-se um único discurso do presidente, colocando-se imagens em dois tempos, de forma a parecer tratar-se de pronunciamentos em dias e locais distintos. Assim, tentou-se passar ao telespectador a impressão de que o presidente Lula mudara de opinião: de uma suposta condescendência, passara a hostilizar a atitude de Evo Morales. Fizeram o Homer entender que o presidente Lula, ao dizer que uma nação não pode intervir na soberania de outra, estaria reclamando da decisão boliviana em ‘encampar’ as instalações da Petrobras naquele país. No entanto, por ter sido muito mal-editado, os telespectadores mais atentos podiam perceber que, com isso, Lula apenas reiterava seu respeito às decisões de Evo.

Observe a gravidade da ‘informação’ dada no Jornal da Globo, ontem. Aquela de que o presidente Lula supostamente mandava farpas para cima do presidente boliviano, quando distante dos repórteres. Imagine o embaixador da Bolívia informando ao presidente Evo Morales:

– Excelencia, el presidente Lula insulta a vuestra excelencia cuando se reúne con sus ministros.

– ¿Con qué improperios?

– Según el Jornal da Globo, hijo de p. es lo más cariñoso.

(Diz a sabedoria popular: quem conta um conto aumenta um ponto.)

******

Funcionário público, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/03/2009 Almyr Gajardoni

    Uma sugestão para o Dines ou Weis: não está faltando uma boa reportagem nessa história do tarado de Viena que manteve filha anos e anos presa no porão da casa onde morava com a mulher? ´Nasceram sete filhos e essa moça não saiu do porão nenhuma vez? Ninguém percebeu nada? Ou eu deixei de ler uma parte importante do noticiário?

  2. Comentou em 18/03/2009 Almyr Gajardoni

    Uma sugestão para o Dines ou Weis: não está faltando uma boa reportagem nessa história do tarado de Viena que manteve filha anos e anos presa no porão da casa onde morava com a mulher? ´Nasceram sete filhos e essa moça não saiu do porão nenhuma vez? Ninguém percebeu nada? Ou eu deixei de ler uma parte importante do noticiário?

  3. Comentou em 10/05/2006 João Tertuliano

    felizmente, no Brasil de hoje, distorções como essa saltam aos olhos de leitores. As pessoas parecem ter se acostumado à pancadaria bienal, a cada eleição, mostrando-se mais interessadas em propostas consistentes e candidatos confiáveis.

    O ridículo de viezes com este só não é percebido pelos capitães da grande imprensa, donos da bola e do campo a …’jogar o jogo de não estar jogando um jogo’ … [ R.D.Laing em LAÇOS, 4a. ed. Vozes, 1985]. Loucura!

    O OBSERVATÓRIO DE IMPRENSA tem dado enorme contribuição à compreensão deste jogo de interesses. Parabéns!

  4. Comentou em 10/05/2006 Erick Allan Barroso

    Não só nessa situação específica a imprensa brasileira de um modo geral parece desprestar um serviço a sociedade brasileira, é visível o pânico que há com a possibilidade real de Lula se reeleger, e pior (pra eles), da maior chance dos ‘dinossauros’ da política concretizar uma forma de hegemonia no cenário político nacional desbancando deste o PT com a recente crise no partido e no governo.
    Enfim, a imprensa brasileira mostrou-se pouco confiável, reforçou seu rótulo de partidária, tendenciosa e manipuladora, o que se vê no episódio Brasil Bolívia é uma tentativa clara de atacar a credibilidade do presidente, jogando ao ar que ele perdeu a força na américa latina, e afirmando sem provas um possível complô entre Morales e Hugo Chaves, mais grave que isso tentando ferir a boa relação que vem se mantendo entre o eixo sul-americano.
    É natural que não agrade nem um pouco aos brasileiros a decisão do presidente Evo Morales, mas é certo também que a Bolívia tinha seus recursos naturais explorados ao preço de banana, o erro maior foi dos governos passados ao através de falcatrtuas e troca de favores estabelecerem contratos em que só se levava em conta os interesses brasileiros, enquanto o povo boliviano vive em miséria quase que absoluta.

    Nem de longe eu bato palmas para a atitude de Morales de colocar o exército nas refinarias da petrobrás, mas é evidente que esta é uma situação a ser contornada e que tudo irá se resolver.
    Enquanto isso a imprensa brasileira continua com seus ‘achismos’ fazendo de tudo para derrubar a credibilidade de Lula.

  5. Comentou em 10/05/2006 Erick Allan Barroso

    Não só nessa situação específica a imprensa brasileira de um modo geral parece desprestar um serviço a sociedade brasileira, é visível o pânico que há com a possibilidade real de Lula se reeleger, e pior (pra eles), da maior chance dos ‘dinossauros’ da política concretizar uma forma de hegemonia no cenário político nacional desbancando deste o PT com a recente crise no partido e no governo.
    Enfim, a imprensa brasileira mostrou-se pouco confiável, reforçou seu rótulo de partidária, tendenciosa e manipuladora, o que se vê no episódio Brasil Bolívia é uma tentativa clara de atacar a credibilidade do presidente, jogando ao ar que ele perdeu a força na américa latina, e afirmando sem provas um possível complô entre Morales e Hugo Chaves, mais grave que isso tentando ferir a boa relação que vem se mantendo entre o eixo sul-americano.
    É natural que não agrade nem um pouco aos brasileiros a decisão do presidente Evo Morales, mas é certo também que a Bolívia tinha seus recursos naturais explorados ao preço de banana, o erro maior foi dos governos passados ao através de falcatrtuas e troca de favores estabelecerem contratos em que só se levava em conta os interesses brasileiros, enquanto o povo boliviano vive em miséria quase que absoluta.

    Nem de longe eu bato palmas para a atitude de Morales de colocar o exército nas refinarias da petrobrás, mas é evidente que esta é uma situação a ser contornada e que tudo irá se resolver.
    Enquanto isso a imprensa brasileira continua com seus ‘achismos’ fazendo de tudo para derrubar a credibilidade de Lula.

  6. Comentou em 10/05/2006 Wilson augusto Costa Cabral

    Incrível a que ponto chegou a mídia de nosso país… criam factóides, acusam qualquer um que está envolvido com o governo e criam fantasias preconceituosas com relação ao nosso povo. Valeu a matéria. Precisamos de pessoas que mostram o outro lado das notícias.

  7. Comentou em 10/05/2006 Wilson augusto Costa Cabral

    Incrível a que ponto chegou a mídia de nosso país… criam factóides, acusam qualquer um que está envolvido com o governo e criam fantasias preconceituosas com relação ao nosso povo. Valeu a matéria. Precisamos de pessoas que mostram o outro lado das notícias.

  8. Comentou em 10/05/2006 Patrycia Carvalho Moraes

    Concordo com o que foi dito por Fernando Soares Campos totalmente.
    Os jornais da TV Globo e parte da mídia impressa estão agindo com total falta de responsabilidade nos episódios envolvendo o Governo Federal.
    É impressionante como a imprensa se rebela quando é censurada (com razão), mas tão impressionante quanto é a falta de responsabilidade em utilizar a liberdade que possuem para publicar inverdades e meras suposições como se fossem verdades absolutas.
    A imprensa não tem o direito de se utilizar de manipulações e inverdades, com objetivo de prejudicar um candidato político ou um partido.
    Esse fato não caracteriza-se como ‘uma empresa manifestando sua opinião política’, mas sim uma cafajestada sem tamanho, fatos totalmente repudiados em qualquer faculdade de jornalismo.
    Estou totalmente de acôrdo com a postura e as posições do presidente Lula em relação ao episódio da Bolívia, e não aceito que a imprensa venha me convencer do contrário, sem apontar fatos comprovadamente verdadeiros.

  9. Comentou em 09/05/2006 Marcos Trama

    Desestabilizar. Este é o único verbo que deve estar correndo nos moribundos, sombrios e fétidos corredores dos maiores ‘ícones’ da mídia brasileira, nos últimos 12 meses. Não se trata um só assunto tendo como centro o governo, que não seja especulando, que não seja levando para o pior dos lados possíveis. É lastimável. Mas nem nisso eles são competentes. As pesquisas de opinião estão aí para mostrar. É lastimável.

  10. Comentou em 09/05/2006 Bernardo Jurema

    Duas coisas ficaram claras se analisarmos a cobertura midiática sobre a suposta crise boliviana. De uma lado, a grande imprensa lanca mão de uma pauta ideologizada, passando por cima dos fatos. Dá-se a editorializacão da notícia sem maiores constragimentos.
    Por outro lado, afora círculos restritos da sociedade, a grande maioria da populacão, que não consome gás natural (e aliás nem sabe o que diabo é isso) e que não lê jornal e nao faz a menor idéia de onde fica a Bolívia, não está nem aí para essa ‘crise’. O que indica uma discrepância gritante entre a imprensa (porta-voz da elite?) e os reais problemas da populacão.
    Seria isso sinal de irrelevância, até certo ponto, da imprensa no Brasil?

  11. Comentou em 09/05/2006 Alexandre Freire

    Realmente Fernando, hoje em dia é quase uma lenda a imparcialidade da mídia, que a cada momento tenta denegrir a imagem de pessoas apenas por interesse próprio.
    Tendo em vista que isso vem acontecendo bastante, um exemplo é a revista ‘Veja’, publicada pela editora Abril, que por muitas vezes busca apenas interesses políticos e esquecem da parcialidade pela qual deveria prezar os meios de comunicação.
    Não queira eu dizer que o presidente Lula estaria certo ou errado, mas apenas gostaria de voltar a acreditar na imparcialidade desses meios de comunicação que a qualquer momento irão acabar trazendo sérias conseqüências.
    Parabéns pelo artigo, bastante pensado e idéias bastante claras.

  12. Comentou em 09/05/2006 Donizete Salazar

    O fato de que as (Des)Organizações Glogo sempre foram tendenciosas, em suas opiniões pré-eleitorais, não é novidade, pelo menos, infelizemente, pra uma minoria de pessoas mais esclarecidas e que tem acesso a veículos alternativos como este…

    Fernando observou muito bem o detalhe de não poder ser ‘orientação editorial’ ou a falta dela… aí é que reside o ‘X’ da questão, creio eu… Franklin Martins, supostamente envolvido em denúncias de favorecimentos e assemelhados, teria provavelmente dificuldades em renovar seu contrato, que está por findar e que segundo a ‘rádio peão’, (o sub-departamento de mídia mais poderoso de qualquer empresa), não será renovado… pelo menos não tão facilmente…

    Daí que uma linha anti-Lula nesse momento seria extremamente útil aos propósitos do editor-in-chief até pq na hora do aperto, cada um olha pro seu umbigo, e vamos e venhamos, entre a ética e meu saldo bancário, óhhh dúvida cruel, que farei eu ?!

    Serei um editor imparcial mesmo que me custe a já desgastada imagem ou faço aqui meu papelzinho de bom moço e forço uma barra pra pressionar a renovação de meu contrato…

    Mas isso já é matéria pra um outro artigo, e aqui, é apenas um comentário de um humilde eleitor, igualmente insatisfeito com esse parcialidade e tendencialismo de quem suportamente deveria esclarecer a população… quanta utopia, não ?!

    Parabéns fernando pela observação e pela publicação que veio bem a calhar nesse momento especial da nossa descrença ‘globalizada’.

    Acho que resumindo é isso.

  13. Comentou em 09/05/2006 Tágore Aryce da Costa

    Caro Fernando, parabéns pelo texto, o Sr. utilizou a expressão exata, o jornal citado prestou um ‘desserviço’ ao jornalismo brasileiro. O citado jornal utilizou-se de argumentos flagrantemente falaciosos e nivelou-se por baixo com os piores jornais de nosso país, querendo fazer ‘notícia do nada’. Infelizmente, grande parte de nossa população apenas engole o que lê, sem analisar a notícia com visão crítica, logo, a matéria foi um verdadeiro desserviço para toda a população brasileira.

  14. Comentou em 09/05/2006 Cleyton Dantas Santos

    é nitida a disposição da globo em distorcer fatos para desmoralizar Lula e o governo. Não podemos nos calar perante isso.

  15. Comentou em 09/05/2006 Juliana Regina

    Esta claro que a rede globo atende interesses, corrompe informações e desmoraliza o partido do atual presidente. As denúncias feitas desde o inicio do ano passado, são trechos selecionados. No entanto, não foi mencionado envolvimentos de partidos de oposição na lista de beneficiamento de furnas, e entre outros.
    Sinceramente, não esperava outra atitude da Globo.

  16. Comentou em 09/05/2006 Nelson Martins

    O título desta matéria, muito oportuna por sinal, escrita por Fernando Soares é intrigas, boatos e jornalismo de opinião.
    O que temos visto por parte da grande imprensa nacional, lamentavelmente, tem sido uma postura absolutamente tendenciosa, sem ética, muito longe do propósito de informar.
    Se hoje o mundo político não merece crédito, a imprensa está merecendo menos ainda, como pode ser comprovado por recentes pesquisas de opinião.
    Sob o pretexto de se fazer jornalismo de opinião, a imprensa se coloca a serviço de determinados grupos e de interesses próprios.
    O verdadeiro papel do jornalismo deveria ser o de informar. Opiniões são bem vindas, quando colocadas de forma respeitosa e quando se dá chance à parte que contraria, expressar igualmente seu ponto de vista e opinião. Assim não teríamos um artigo tendencioso, mas sim, permitiria ao leitor confrontar posições e formar sua própria opinião.
    Jornalismo de Opinião não se faz com intrigas ou boatos. E muito menos com mentiras.

  17. Comentou em 09/05/2006 Urariano Mota

    O escritor Fernando Soares exerce mais uma vez a sua criação. O nível geral da imprensa, subitamente patriota, ou dizendo melhor, patrioteira, se adapta à perfeição ao final do artigo. Triste informação lá, feliz criação aqui. Parabéns, Fernando.

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