Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > 1938, 1958, 2010, 2030

Jabulani redonda, relato quadrado

Por Alberto Dines em 13/07/2010 na edição 598

A Fifa esperava uma audiência de 700 milhões, mas calcula que a final Espanha x Holanda teria sido assistida por cerca de 1 bilhão de telespectadores, um sexto da população mundial.


O maior espetáculo sobre a terra é uma façanha desportiva ou midiática?


Uma partida menos ou mais aguerrida não alteraria o número de assistentes. Final de Copa é final de Copa, não importa a imagem do técnico, a escalação, o esquema tático, a retranca, a posse de bola, as finalizações a gol, o número de cartões, escanteios etc. Mas se os times fossem outros – EUA x China, por exemplo – este bilhão poderia ser facilmente acrescido de algumas centenas de milhões. Graças à telona da TV e não à telinha da web, independente da garra ou talento dos jogadores.


Descuido, rotina


Este observador jamais esqueceu o 6 a 5 sobre Polônia em 1938, com três gols de Leônidas da Silva (um deles descalço), narrado por Gagliano Netto, da Rádio Clube do Brasil – a primeira transmissão internacional do rádio brasileiro. Jogo sensacional aliado a uma nova tecnologia de transmissão, as demais partidas caíram no esquecimento. A imagem do receptor Phillips com o seu ‘olho mágico’ verde juntou-se para sempre às radiofotos publicadas no dia seguinte em O Jornal, do Rio.


Para muitos americanos a Segunda Guerra Mundial confunde-se com a banda sonora do jornal cinematográfico Fox Movietone, para outros a Guerra do Vietnã associa-se ao noticiário de TV na hora do jantar. A mensagem é o meio que a transmite. O que nos permite dizer que a história dos Mundiais de Futebol é também a história dos meios de comunicação. Poucos têm o discernimento para entendê-los, raros são os que sabem tirar proveito disso.


Causa espanto o comportamento descuidado, sem inspiração, rotineiro, dos grandes grupos de comunicação quando começam a discutir a cobertura da Copa seguinte. O empenho resume-se à exclusividade de retransmissão, o resto é o resto. Resultado: mesmice, repetição.


Carga penosa


Qual foi a grande novidade introduzida na cobertura das últimas duas ou três Copas? A internet – ou pelo menos a internet brasileira – não conta, ela oferece ferramentas, facilita o trabalho de quem trabalha, finge que introduz novidades na esfera da interatividade, mas não influi decisivamente no teor ou qualidade da cobertura.


O fato de um twiteiro mandar um pergunta lá do meio da floresta amazônica para o comentarista ou narrador tiritando de frio num estádio na África do Sul não chega a constituir um efetivo avanço jornalístico. As atrações oferecidas aos leitores nesta Copa foram exatamente as mesmas das Copas anteriores, geralmente na linha da velha Rádio Nacional e seus programas de auditório.


O leitor hoje quer mais e melhores informações, quer contextos, quer o jogo e muito além do jogo. Quer situar-se no mundo e não apenas no que ocorre no gramado – ou melhor, quer o gramado no mundo. Como disse Paulo Roberto Falcão, o Rei de Roma e hoje comentarista da Globo: com a ajuda das novas tecnologias é possível analisar razoavelmente uma partida de futebol a 15 mil quilômetros de distância. Sem os desgastes dos deslocamentos de uma cidade para a outra e, sobretudo, sem a penosa carga de tarefas suplementares que recai sobre os privilegiados que foram escalados para a cobertura (blogs em qualquer hora, twitter, flashes para rádio e TV etc., etc.).


Boa razão


Aquilo que a empresa jornalística brasileira chama de ‘desempenho multimídia’ é um sistema falsamente meritocrata (na realidade escravocrata) no qual alguns ganham muito bem, em compensação são sugados até a medula dos ossos e impedidos de usufruir do sublime prazer de esmerar-se na apuração e na escrita.


O resultado é aquilo que os espanhóis designam como espejismo, espelhamento: você abre o caderno da Copa de 2010 e parece que está lendo o de 2006 ou 2002.


Esta Copa foi fascinante – inclusive para os brasileiros – como todas foram e como todas serão. Mas a cobertura foi quadrada, pífia, não acendeu fogueiras, só foguinhos.


Razões? Uma: os donos do espetáculo – a Fifa, seus prepostos e parceiros na mídia – gostam de outras coisas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/07/2010 Gerson Chagas

    Parabéns, Dines. Sua descrição da irradiação do jogo da Copa de 1938, com o detalhe do ‘olho mágico’ do rádio Philips, é algo primoroso e que comprova, de forma cabal, o quanto a criatividade, o poder de concisão, a presença de espírito – e estilo, estão a anos-luz da tão gigantesca quanto grotesca tralha tecnológica, que hoje nada mais faz do que trancafiar as emoções, tornando-as anódinas, irritantes e , cada vez mais, repetitivas. A Marinilda está certa : a vuvuzela é chata demais. No entanto, ainda que sejamos dela poupados , existe outra, onipresente e virtual, berrando via pixels, por todos os orifícios midiáticos, em seu perverso ofício de cada vez mais alienar e entristecer. Feliz foi você, quando ouvia Gagliano Neto, num tempo em que devia ser tão doce se deixar fascinar e entreter pelas ondas de um singelo rádio e seu olho mágico.

  2. Comentou em 13/07/2010 Dante Caleffi

    CBF ,podia inovar,convocando eleições limpas e periódicas para presidente. Felizmente seu dirigente atual tem apoio de seu sócio midiático, as Organizações Globo.Isso ´propicia grosserias como de fazr coro contra o técnico da seleção, a despeito da elegante carta resposta de Dunga,que viram por bem não repercutir,pois nada nela havia
    além de gesto de cavalheirismo de um profissional que havia se desincumbido de sua missão.

  3. Comentou em 24/03/2006 Alfredo Portugal Portugal

    Esta lá no código de ética profissional para os jornalistas: Da conduta profissional do jornalista – Art. 7º – O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação.

    Miopia, Astigmatismo, Glaucoma, Conjuntivite, Daltonismo, nada disso! O diagnóstico é Cegueira, privado da vista totalmente. Esse é o relato de uma imprensa brasileira que não consegue enxergar além do óbvio, do que está um palmo a sua frente, na tela do computador. Uma imprensa onde o desvio do foco, a abordagem distorcida e a falta de aproximação dos fatos fazem de suas narrativas comumente encontradas, o ponto chave para por em xeque o papel dos profissionais que a forma.

    Não é preciso apenas noticiar, informar, divulgar; o que, quem, como, onde e quando… ufa! Onde estão as continuidades, as ramificações em forma de suíte e gancho, imprescindíveis para o não esquecimento e reflexão dos conteúdos abordados? Onde está o lápis, o papel, a datilografia exaustiva, o jornalista aplicado, que, mesmo sem a facilidade de transmissão de informação, mesmo sem o digital, conseguia trabalhar as informações de forma aprofundada, caracterizando-as como reportagens, grandes reportagens, que não poucas às vezes viraram livros? Viva Fernando Morais, Viva Gilberto Dimenstein, Viva Caco Barcelos, Viva aos que têm visão de águia e conseguem enxergar além da capacidade humana!

    Como pode os formadores de opiniões, supostamente críticos, discutir política de forma política, parcial na análise dos fatos, sem considerar que o cenário político brasileiro carrega uma deficiência conjuntural, cultural, social e antropológica? Assim é com a fome, onde a evidência das poucas campanhas sazonal e auto-suscetível das emissoras televisivas é muito mais importantes do que mostrar as causas reais do problema; com a saúde então? Filas, esperas, além daqueles falsos médicos que desafiam a cordialidade do povo brasileiro. E a atuação da imprensa frente a isso? Pobre olhar positivista, pobre daqueles que estão presos aos interesses comerciais.

    Como entender a violência nas diversas situações que seu conceito carrega – intimidação moral, exercício injusto ou discricionário, coação, opressão, tirania – se ao menos não consegue ver violência a não ser através das armas e tráfico ocorrentes no Estado do Rio de Janeiro, que, aliás, se arrasta há anos, e nunca teve o tratamento que merece?

    O que dizer sobre atuação da Rede Globo no domingo dia 19 de março, quando transmitiu no Fantástico o Documentário “Falcão” Meninos do tráfico, que mesmo sem trazer algo novo – levando em consideração apenas o conteúdo das informações e não a linguagem audiovisual – propunha uma reflexão, uma discussão crítica sobre a violência. O que a emissora fez? Ou melhor, deixou de fazer? Desviou o foco mais uma vez, colocando seus belos atores e atrizes, a exemplo de Camila Pitanga, para fazer comentário a esse sério problema existente no país o tratando conseqüentemente, como mais um dos seus inéditos espetáculos.

    O aluno que matou o “coleguinha” na escola; a mãe e filhos que foi espancados até a morte pelo pai; o desmatamento na floresta Amazônica; o desvio da bolsa-família; tudo isso é violência, tudo isso é fruto de um país pouco contemporâneo e precisa ser posto em xeque e evidenciado pela imprensa e para isso é preciso enxergar além do grotesco, do banal, do óbvio, do show.

    Essa reflexão propõe um tratamento intensivo oftalmológico, acreditando que a doença da imprensa tem cura. Isso começa dentro da academia, considerando esta como espaço de formação coletiva e simultânea, onde a discussão deve ser em busca da inovação e não da adequação e conformismo à realidade, e vai até a prática diária e rotineira, jurada um dia como ética e fiel nas interpretações dadas aos fatos.

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