Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Jornais ajudaram tucano e prejudicaram a prefeita

Por Luiz Antonio Magalhães em 05/10/2004 na edição 297

Os dois jornais de maior circulação na cidade de São Paulo – a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo – favoreceram o candidato do PSDB à prefeitura da capital, o ex-ministro José Serra, e prejudicaram a prefeita Marta Suplicy (PT), que tenta a reeleição. É o que revelam os levantamentos de dois institutos ligados a instituições universitárias reconhecidas pela excelência de suas pesquisas – o Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), da Universidade Candido Mendes, e o Observatório Brasileiro de Mídia, cuja pesquisa foi feita em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo.


O comportamento dos dois jornais foi acompanhados por metodologias distintas, mas o resultado foi o mesmo: os levantamentos mostram que ao longo da campanha Folha e Estado, Jornal da Tarde, Agora São Paulo e Diário de S. Paulo publicaram mais matérias negativas sobre Marta Suplicy do que sobre José Serra. Além disso, as matérias positivas ou neutras sobre o tucano foram sempre muito mais freqüentes do as relativas à prefeita. E, na reta final da campanha eleitoral, Folha e Estado intensificaram as notícias negativas sobre Marta e aumentaram as matérias positivas sobre Serra.


A pesquisa do Iuperj catalogou as notícias em três categorias: positivas, neutras e negativas. Foi realizada uma contagem das matérias com essas características publicadas em cada jornal. O resultado, como se pode ver abaixo, é esclarecedor.


Na Folha de S.Paulo, Serra, ex-colunista do jornal, obteve, desde o início da pesquisa, no final de abril, uma alta taxa de notícias neutras (em torno de 60% do total). E assim foi até a campanha esquentar, no início de setembro. Dali em diante, as notícias neutras caíram para um patamar entre 30% e 40% do total. Ao mesmo tempo, cresceram as notícias positivas, que vinham oscilando em torno de 20% e subiram para 40% nos três últimos levantamentos antes da eleição de domingo (3/10). As notícias negativas a respeito do tucano permaneceram estáveis em cerca de 20% a 30% do total até a última quinzena antes do pleito, quando caíram para 20% do total das matérias publicadas.


Pela metodologia do Iuperj, as notícias neutras, positivas e negativas sobre Marta Suplicy foram divididas em dois tipos – as que faziam referência à candidata e as que tratavam da prefeita. Nos dois casos, Marta recebeu um tratamento bem diferente daquele dispensado a José Serra.


Segundo as conclusões do Iuperj, a Folha publicou uma média de 60% de notícias negativas sobre a "prefeita Marta" no início da campanha, tendo baixado esta média para 20% nos mês de junho e começo de julho. No final de julho, a taxa de matérias negativas subiu para 50%, aumentando para 60% no começo de agosto, declinando para 50% no início de setembro e subindo mais uma vez na reta final da campanha, quando beirou os 60%. As notícias neutras sobre a prefeita oscilaram, durante a maior parte da campanha, na faixa de 40% do total. Na última quinzena de setembro, este tipo de matéria diminuiu, atingindo apenas 20% do total.


As notícias positivas, por outro lado, chegaram a 40% em junho e, daí para frente, despencaram. Entre 8 de julho e 18 de agosto, o noticiário favorável à prefeita na Folha praticamente sumiu, permanecendo abaixo de 10% do total, o que chegou a gerar críticas do próprio ombudsman do jornal. Talvez em função do alerta de Marcelo Beraba, a redação da Folha se esforçou para soltar algumas notícias boas para a prefeita entre 2 e 15 de setembro, quando a taxa atingiu 30%. No final da campanha, porém, o jornal voltou a prejudicar Marta e deu pouco mais de 20% das matérias positivas.


O tratamento que a Folha dispensou à "candidata Marta" foi ligeiramente melhor do que o observado em relação à "prefeita Marta", mas ainda bem menos complacente do que em relação a José Serra. Em linhas gerais, predominou na campanha o uso de notícias neutras (cerca de 60% até o início de setembro, quando a taxa caiu para 30% e voltou a subir para 40% no mês anterior ao pleito). As notícias positivas jamais ultrapassaram 30% do total, tendo ficado abaixo de 10% no início da campanha. Já as notícias negativas chegaram a superar a soma das neutras e positivas no início da campanha, permanecendo na casa dos 30% entre julho e setembro e subindo para 40% à medida que as eleições se aproximavam.


Estadão: edições sem notícias ruins sobre Serra


No Estado de S. Paulo, ainda segundo a pesquisa do Iuperj, o apoio a Serra ocorreu de forma semelhante ao que se verificou na Folha. O tucano foi privilegiado com notícias positivas, que permaneceram na casa de 30% do total ao longo da campanha, subindo para algo em torno de 40% e 50% na reta final. As notícias neutras superaram as positivas e as matérias depreciativas sobre Serra estiveram sempre abaixo das demais, em índices inferiores a 10% do que saía publicado. Houve um levantamento, em junho, em que os pesquisadores não encontraram uma única notícia negativa a respeito de Serra no Estadão.


Em relação à "prefeita Marta", o Estadão conseguiu pegar ainda mais pesado do que o concorrente. A partir de junho, as notícias negativas sobre a gestão petista na prefeitura de São Paulo ficaram sempre acima de 50%, tendo oscilado entre incríveis 60% e 70% nos meses de julho e agosto. Ou seja, de cada 10 matérias que saíram no Estadão sobre Marta, 6 ou 7 falavam mal da prefeita. As notícias positivas jamais superaram a casa dos 30% do total de matérias, tendo a taxa ficado em 0% em um dos levantamentos de julho. Já as notícias neutras oscilaram entre 20% e 40%.


Da mesma maneira que a Folha, o Estadão também tratou um pouco melhor a "candidata Marta", mas com uma diferença abissal em relação a Serra. No Estado, a candidatura petista recebeu a maior parte da cobertura neutra (cerca de 60% do total até agosto, quando caiu para a faixa de 40% a 50%). As notícias negativas sempre superaram as positivas, tendo oscilado entre 20% e 40% do total. As matérias positivas ficaram sempre abaixo de 30%, chegando a 10% quando as positivas estavam em 20%.


Observatório de Mídia: Marta apanhou mais


Já o levantamento do Observatório Brasileiro de Mídia divulgado em 1° de outubro envolve duas pesquisas sobre a cobertura das eleições municipais, realizadas com os cinco maiores jornais paulistanos: além da Folha e Estado, foram incluídos o Agora São Paulo, Diário de S.Paulo e Jornal da Tarde. As análises referem-se às semanas dos dias 2 a 8 de setembro e 9 a 15 de setembro. Foi o segundo levantamento do instituto, que também separou Marta Suplicy em duas personagens: a candidata e a prefeita.


A "candidata Marta", que na primeira pesquisa havia obtido 181 citações negativas na somatória dos cinco jornais, na segunda registrou 112 matérias negativas. Na semana de 9 a 15, a candidata continuava no primeiro lugar do ranking de matérias negativas, com 156 citações desfavoráveis. Como no primeiro monitoramento, em segundo lugar aparece a "prefeita Marta", com 56 citações desfavoráveis no estudo de 2 a 8 de setembro e com 94, no seguinte.


Em relação ao candidato do PSDB José Serra foram publicadas, na primeira semana, 78 matérias positivas, 66 neutras e 46 negativas. No segundo estudo foram 54 matérias positivas, 70 neutras e apenas 31 negativas. Na terceira semana, Serra contabilizou 72 matérias favoráveis, 88 contrárias e 98 neutras.


Comparando as duas candidaturas, verifica-se o seguinte placar de notícias negativas, pela ordem dos levantamentos: Marta 181, Serra 46; Marta 112, Serra 31; e Marta 156, Serra 88.


No acumulado das três semanas, não houve grandes variações. A candidata Marta ficou na liderança das matérias negativas com 449 citações desfavoráveis, 240 positivas e 204 neutras. Na seqüência, vem a prefeita Marta Suplicy, com 214 textos negativos, 42 neutros e 63 positivos. José Serra somou 165 citações negativas, 234 neutras e 204 positivas.


O Observatório Brasileiro de Mídia criou um critério adicional para a aferição qualitativa das matérias. Além da classificação entre as categorias positiva, neutra e negativa, o instituto criou o que chamou de "morfômetro" – uma nota de 2 a 10 a cada matéria, de acordo com sua localização na página e com os elementos gráficos, como foto e outros recursos.


Na comparação do "morfômetro", a candidata Marta obteve 91,62% de referências negativas na semana de 2 a 8 de setembro e 92,37% na pesquisa de 9 a 15 de setembro. Em segundo lugar, ficou a prefeita Marta com 59,11% de matérias desfavoráveis na semana de 2 a 8 de setembro e 59,71% na semana de 9 a 15 de setembro. Entre as matérias que citaram José Serra na primeira pesquisa, 15,64% eram desfavoráveis, 35,49% neutras e 48,87% positivas. Já no estudo seguinte, as porcentagens são de 9,91% de textos desfavoráveis, 57,02% de neutros e 33,07% de positivos. E no último levantamento: 34,90%; 41,75% e 23,35%, respectivamente.


Os dados acumulados mostram que 67,03% das matérias que citam Marta prefeita são desfavoráveis, 12,22% neutras e 20,75% positivas. A candidata Marta teve 49,58% de matérias negativas; 26,96% de neutras e 23,46% de positivas. As porcentagens relativas à candidatura José Serra nas três semanas avaliadas são: 26,58% de negativas; 39,22% de neutras e 34,20% de positivas.


A Venezuela é aqui


Críticos de mídia das mais variadas partes do planeta escreveram sobre a ostensiva campanha da mídia venezuelana para tirar Hugo Chávez da presidência da Venezuela. Lá, os jornais não tiveram vergonha de assumir um verdadeiro movimento golpista para derrubar Chávez. Não deu certo, porque o presidente se submeteu ao julgamento da sociedade e, mais de uma vez, saiu vencedor. Mas a imprensa local não desiste e continua em franca oposição ao líder bolivariano.


Na capital da maior cidade da América Latina, a julgar pelos resultados dos dois levantamentos descritos acima, a imprensa paulistana decidiu adotar o paradigma venezuelano para tentar eleger o candidato que mais lhe apetece. A julgar pelo resultado do primeiro turno das eleições, estão tendo melhores resultados do que os seus congêneres de Caracas. O perigo é essa moda pegar.

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