Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > TROPEÇOS DA MÍDIA

Jornais, jornalistas e os números

Por João José de Oliveira Negrão em 24/06/2008 na edição 491

Sempre me bati contra a frase feita de que o jornalista – ou qualquer outro profissional ou estudioso das ciências humanas – não se dá bem com números, que esta preocupação é um ‘desvio burocrático’. Não é. A precisão da informação e o cuidado com as cifras deve ser uma obsessão do jornalista. Se devemos checar e rechecar nomes, datas e períodos, mais ainda temos de nos preocupar os números.

Essa preocupação faltou na matéria do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba (SP), edição de 10/6/2008, sobre os investimentos do governo federal na cidade. O jornal simplesmente comprou sem ver – quase um Ctrl+c Ctrl+v – matéria publicada pela Folha de S.Paulo no dia anterior, eivada de erros. Ambos afirmam, por exemplo, que a cidade contou com apenas R$ 1.364.343,00 de verbas federais nos cinco anos do governo Lula.

Bastava uma simples consulta aos arquivos do Cruzeiro do Sul para se saber que o ‘estudo’ da Folha, reproduzido pelo centenário jornal local, estava errado. É inaceitável. É verdade que o jornalismo trabalha premido pelo tempo, que os prazos e processos industriais têm de ser cumpridos. Mas o bom senso e, muitas vezes, até o óbvio, não podem ser deixados de lado.

Intenção não era informar, mas confundir

Será que ninguém – repórter, editor, editor-chefe – percebeu que aquela quantia pretensamente investida em Sorocaba estava errada? Será que ninguém lembrou que só o campus da UFSCar na cidade custou mais do que aquilo? E o que já foi investido na despoluição do rio Sorocaba, para tratamento de esgotos? E para regularização fundiária? Tudo isso foi matéria nos jornais, rádios e TVs da cidade.

O concorrente do Cruzeiro do Sul, o Bom Dia, edição de 14/6/2008, também errou. O jornal tomou oito cidades, quatro administradas pelo PT (Araraquara, Botucatu, Porto Feliz e Santo André) e quatro pelo PSDB (Jundiaí, São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto). Na manchete, afirma que Sorocaba recebe 20% a menos que a média das cidades ‘petistas’. Está errado. Pelos números apresentados pelo jornal, as quatro cidades ‘petistas’ receberam R$ 775.428.553,09 para uma população de 1.030.560 pessoas. Isso dá um total per capita de R$ 752,43. As cidades ‘tucanas’ receberam R$ 1.684.508.362,51 para 2.044.505 habitantes. Per capita, cada morador recebeu R$ 823,92. A manchete devia ser outra – talvez ‘Lula investe mais em cidades tucanas que petistas’, que dá o mesmo número de caracteres do título original.

Como, no jornalismo, o erro profissional também é um erro ético, esses vacilos permitem mil elucubrações, até a suposição de que a intenção não era mesmo informar, mas confundir.

******

Jornalista, doutor em Sociologia Política, professor de Jornalismo na Universidade de Sorocaba e na Pós-Graduação em Comunicação Jornalística da PUC-SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/07/2008 Djalma Luiz Benette

    Por favor, um esclarecimento: Não há ataque ao mensageiro e nem desqualificação ao profissional, mesmo porque o julgo meu colega pessoal, com quem tive a chance de lecionar junto e convidei para ser articulista do jornal. Dizer que o autor é assessor do, hoje, candidato do PT a Prefeitura de Sorocaba é localizar o leitor em relação ao papel que o autor desempenha nessa sua manifestação. Assim como dizer, como bem colocou o o professor Negrão, que fui assessor da deputada e fui secretário do atual prefeito deixa bem claro que hoje o ponto de vista do qual exercito meu trabalho profissional é outro, ou seja, é o do jornalista. O do assessor e secretário é passado. Ou alguém duvida disso? Há, e insisto nisso, um foco de viés torto em relação ao que o jornal noticiou e o que o professor Negrão defende e o fato de ter sido assessor e secretário não impende a edição de informações relacionadas a qualquer partido. Entendo que o mais importante de tudo isso é a chance do debate aberto pelo professor Negrão. Ele deixa transparente o papel das forças sociais em torno da produção jornalística, especialmente o poder de articulação e defesa com que o Partido dos Trabalhadores articula seus profissionais. Nesse debate, me parece claro, os números que motivaram o artigo inicial do professor Negrão perderam o sentido diante da subjetividade do agente da polêmica. Ou estou errado?

  2. Comentou em 24/06/2008 humberto pereira

    Esta questão de comparação números é bem interessante. Outro dia ví uma comparação da relação carga tributária/serviços prestados entre o Brasil e a Dinamarca. Ambos têm aproximadamente a mesma carga tributária e a análise mostra que a qualidade dos serviços na saúde, educação e segurança e´bem superior na Dinamarca. Eu penso da seguinte forma. O universo dos formadores do PIB dinamarquês e o universo dos beneficiários dos serviços prestados são os mesmos. Desta forma, é como se cada qual pagasse por estes serviços, que poderia ser feito pela iniciativa privada e assim a carga tributária seria zero. No Brasil, para a diferença entre essses universos é imensa. Essa seria uma discussão interessante.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem