Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > THE NEW YORK TIMES

Jornal vai cobrar por conteúdo online

Por Clayton Melo em 27/01/2010 na edição 574

Na semana passada, o The New York Times, um dos maiores e mais prestigiados jornais do planeta, foi assunto no mundo inteiro ao anunciar uma decisão relacionada a um tema que tira o sono dos veículos de comunicação: a geração de receitas com as operações digitais [ver, neste Observatório, ‘NYT anuncia cobrança por conteúdo de site‘]. Ao tocar no ponto central para as empresas de mídia na era digital – a sustentação financeira diante de uma nova realidade de mercado –, o jornal americano joga mais lenha na fogueira num debate que está longe de terminar.


Embora não tenha apresentado muitos detalhes, o NYT afirmou que vai começar a cobrar pelo conteúdo de seu site a partir de 2011. O modelo prevê que os internautas poderão ler de graça uma determinada quantidade de textos – a partir de um certo limite, que não foi especificado, será necessário ser assinante para consultar.


O valor a ser pago também não está definido. Os assinantes do jornal impresso terão acesso livre ao site.


Não é a primeira vez que o NYT experimenta cobrar pelo conteúdo. A outra ocasião foi entre 2005 e 2007, com um serviço chamado Times Select. O projeto consistia na cobrança pelo acesso a editoriais e colunas, com assinatura anual de 40,95 dólares.


O sistema foi deixado de lado porque, na época, o jornal avaliou que poderia ganhar mais com o aumento da audiência ao liberar o acesso, o que proporcionaria um aumento da receita publicitária.


Interrogações


Diante da medida de retomar o sistema pago, algumas perguntas pairam no ar: os leitores aceitarão pagar pelo conteúdo que estiver fechado? A verba proveniente do acesso restrito será capaz de, no conjunto das receitas, equilibrar ou compensar a tendência de perdas com o faturamento obtido via publicidade tradicional das versões impressas?


Como estabelecer uma política de cobrança por acesso sem derrubar a audiência e, assim, afugentar os anunciantes, que são fundamentais para a sobrevivência dos veículos? Será mesmo o melhor caminho a cobrança de conteúdo, tendo em vista que a cultura de acesso livre predomina na internet?


Como se vê, são tempos de muitas dúvidas – e poucas respostas. O caminho anunciado pelo NYT, no entanto, indica uma tentativa que poderia ser classificada como híbrida.


Tentativas


Ao manter aberto o acesso a uma determinada quantidade de textos, o jornal não quer perder a audiência daqueles que chegam até ele por mecanismos de busca ou que são leitores ocasionais. E aposta que os leitores fiéis, aqueles que apresentam uma relação mais profunda e constante com o jornal, irão pagar a conta.


‘Não sei se cobrar pura e simplesmente pelo conteúdo é a melhor saída, pois há uma cultura de acesso livre na internet’, afirma a professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Elisabeth Saad.


‘Em todo caso, esse modelo anunciado pelo NYT pode fazer algum sentido quando ele diz que manterá aberto o acesso a uma certa quantidade de textos’, afirma Elisabeth, que tem no estudo sobre os modelos de mídia uma de suas especialidades.


Isso porque, segundo a análise de Elisabeth, dessa maneira o jornal pode preservar um contingente importante – o de pessoas acostumadas a uma leitura rápida –, enquanto tentaria obter receitas dos ‘leitores fiéis’. Trata-se, no entanto, de uma aposta de risco. ‘Há uma grande questão aí: como cobrar daquele que em tese estaria disposto a pagar?’, diz.


‘Desconfio desses modelos que estipulam uma assinatura, seja conforme a quantidade acessada ou algo do tipo. A verdade é que não consigo ver um modelo pronto no mercado. Não vejo no mundo hoje exemplos acabados sobre política de geração de receitas a partir do conteúdo’.


Alternativas


Sobre as propostas geralmente discutidas por veículos e especialistas em mídia, como o micropagamento (sistema em que se paga de forma avulsa pelo acesso a um determinado artigo) ou jornalismo patrocinado (veículos mantidos por mecenas, como fundações bancadas por empresários), Elisabeth vê o crescimento desse segundo grupo.


Nesses casos, o alvo costuma ser o jornalismo de nicho. Um exemplo, conforme relatou em post em seu blog, Elisabeth cita o ProPublica.org, uma redação sem fins lucrativos que recebe apoio financeiro da organização privada Sandler Foundation, mantida por um casal americano de mecenas. O ProPublica busca o jornalismo investigativo. ‘Esse sistema baseado em mecenato torna-se mais comum nos EUA’, diz.


Plataformas de comunicação


Se o NYT aguçou o debate o valor do conteúdo na web, o professor de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero Walter Teixeira Lima Junior aproveita a ocasião para lançar um olhar mais amplo sobre a questão.


Para ele, os veículos não deveriam se centrar tanto na discussão sobre cobrar ou não pelo o conteúdo, mas sim investir naquilo que ele chama de ‘sistemas relevantes’.


Em outras palavras, Lima Junior chama a atenção para o fato de que a medida anunciada pelo jornal americano tem o mérito de provocar a discussão sobre a relevância da informação, algo que – e esta é uma das grandes questões para ele – pode estar não necessariamente no conteúdo em si, mas também na plataforma de comunicação, no modo como a informação é embalada e distribuída.


‘A relevância não deve ser vista apenas pelo aspecto do conteúdo. Ela pode estar também na maneira como veículos utilizam as ferramentas tecnológicas para tornarem seu conteúdo relevante’, afirma Lima Junior, que tem doutorado em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo.


Para ilustrar, ele cita o desenvolvimento de recursos que propiciem a interação, conversas e debates dentro do ambiente do veículo.


Assim, as empresas jornalísticas poderiam cativar seu público em seus próprios espaços, promovendo um novo tipo de experiência relacionada ao conteúdo. Se vistas como relevantes pela audiência, essas iniciativas poderiam abrir espaços para geração de receitas.


‘A grande questão hoje é definir o que é relevante. Isso porque, diante do excesso de informação disponível, as pessoas têm dificuldade de saber o que é importante para elas. Eu considero a informação do New York Times relevante para mim. Mas será que os outros também pensam assim? Por isso defendo que os veículos devam estudar modos de fazerem sua informação ser vista como relevante em sistemas relevantes’, afirma.

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