Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > MÍDIA & IDEOLOGIA

Jornalismo ‘dissidente’

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 02/03/2010 na edição 579

O adjetivo ‘dissidente’ é empregado para designar aquele que discorda, que tem uma opinião divergente. O vocábulo ‘dissidente’ deriva da palavra latina dissideo, que significa ‘1. Estar separado; estar afastado, 2. Pertencer a um partido oposto; estar em oposição; ser dissidente; divergir de opinião; não se entender; estar desunido; 3. Não estar de acordo; ser diferente, diferir, ser desigual’ (Dicionário Latino Português, Francisco Torrinha, Gráficos Reunidos Ltda., Porto, Portugal). Portanto, pode-se concluir que ‘dissidente’ sempre teve uma conotação claramente política.

A dissidência nunca foi muito bem compreendida ou tolerada. No livro O Estado e seus inimigos, Editora Revan, 2006, Arno Dal Ri Júnior, traça um detalhado panorama do fenômeno desde a polis grega até o século 21, passando pela Bíblia, Corão, Direito Romano, Idade Média, Direito português, iluminismo, Código de Napoleão, nazismo etc… Segundo o autor:

‘Em pouco mais de dois mil anos, o sinuoso percurso trilhado na história da cultura penal do ocidente pelos elementos que compunham a essência do crimem laesae maiestatis fez com que o conceito deste delito passasse por diversas transformações. As páginas que se seguiram ao longo desta obra testemunharam um ardiloso mundo de estratégias, construções, discursos e práticas que desfilavam todos os tipos de traços e lineamentos, em um movimento contínuo na noção de um delito. A cada período que se passava, condicionado pela vida política, econômica, cultural e social, o direito penal se modificava na tentativa de englobar como `sujeito ativo´ todas as figuras incômodas a quem estivesse no poder. Não houve momento na longa história da cultura punitiva do ocidente que tenha se desenvolvido sem a presença bem definida de um `inimigo do Estado´. Ditaduras e democracias, através de mil artifícios, sempre souberam modelar, primeiro no imaginário coletivo, depois no ordenamento penal, a figura daquele que – como fez Lúcifer no reino celestial – rebelava-se contra o cetro do poder.’

Uma cobertura laudatória

Figura comum no cotidiano moderno, o dissidente também se tornou um importante personagem jornalístico e televisivo. Como é protagonista de fatos políticos ou de reações estatais, o dissidente ocupa ou pode ocupar o centro das atenções dos jornalistas. De certa maneira, podemos dizer que, na atualidade, a dissidência só existe na e/ou por causa da mídia. Mas nem todos os dissidentes têm recebido o mesmo tratamento.

Em razão da ênfase ou das escolhas discursivas, os jornalistas e telejornalistas estão criando uma perigosa distinção entre ‘dissidentes mais iguais’ e ‘dissidentes menos iguais’. O processo é sinuoso, mas evidente para quem observa com atenção a maneira como os fatos semelhantes e diferentes são expostos na imprensa.

Semana passada, os telejornalistas da Rede Globo fizeram a cobertura da morte de um dissidente em Cuba (ver aqui). Vários textos sobre o assunto foram divulgados no Portal G1. Alguns visam claramente a embaraçar Lula, que chegou a Cuba no mesmo dia da trágica morte. A cobertura foi laudatória: o dissidente foi retratado como herói, uma vítima do regime autoritário cubano.

Escolhas revelam preferências

No princípio deste ano, a imprensa noticiou a descoberta de uma vala comum na Colômbia. A BBC, que noticiou o fato de maneira sumária, afirmou:

‘Acredita-se que os cadáveres encontrados sejam de vítimas de grupos guerrilheiros e paramilitares do país’ (ver aqui).

O portal G1 (Rede Globo) reproduziu a notícia da BBC.

Mais detalhista, a Carta Maior reproduziu entrevistas com autoridades que inspecionaram a vala comum:

‘A delegação foi composta pelos deputados Jordi Pedret (PSOE), Inês Sabanés (IU), Francesc Canet (ERC), Joan-Josep Nuet (IC-EU), Carles Campuzano (CiU), Mikel Basabe (Aralar) e Marian Suárez (Eivissa pel Canví). `O que vimos foi arrepiante´, declarou Ramírez ao jornal Público. `Uma infinidade de corpos e na superfície centenas de placas de madeira de cor branca com a inscrição NN (sem identificação) e com datas de 2005 até hoje´. E acrescentou: `O comandante do Exército nos disse que eram guerrilheiros mortos em combate, mas o povo da região nos falou de muitos líderes sociais, camponeses e comunitários que desapareceram sem deixar rastro´. O governo anunciou investigações `a partir de março´, depois das eleições legislativas e presidenciais’ (ver aqui).

A discrepância entre a cobertura da BBC/G1 e da Carta Maior é evidente. Para os primeiros, ‘acredita-se’ – não se sabe quem acredita, nem quem foi que difundiu esta crença – que os mortos são ‘guerrilheiros e paramilitares’. A revista entrevistou uma autoridade que afirmou que os mortos são ‘líderes sociais, camponeses e comunitários’, ou seja, dissidentes do regime colombiano.

Acompanho, como observador, o telejornalismo global. Não lembro dos pupilos de Ali Kamel terem dado grande importância e atenção à vala comum colombiana. Curiosamente, os mesmos telejornalistas que lamentaram a morte de um dissidente cubano não foram capazes de dar importância aos cadáveres de centenas de colombianos, nem trataram os mesmos como dissidentes. As escolhas sempre revelam preferências. Mas em se tratando de fatos nem tudo pode ser objeto de preferência.

Apenas propaganda política

A distinção entre o caso do cubano e dos colombianos é evidente. O dissidente cubano morreu porque estava em greve de fome. Ele não morreu porque Cuba se recusou a alimentá-lo, mas porque se recusou a comer o alimento que lhe era fornecido pelas autoridades cubanas. Os colombianos, por sua vez, foram executados e enterrados numa vala comum sem identificação. A morte do cubano foi pública e noticiada, a dos colombianos foi secreta e revelada após a descoberta da vala comum. O cubano escolheu não comer e os colombianos não tiveram direito de escolher continuar vivendo – e, se depender da BBC/G1, os colombianos não têm direito nem mesmo de ser tratados como dissidentes.

Em razão da maneira como fez a cobertura dos dois eventos, o G1 escolheu esconder as vergonhas de Alvaro Uribe e mostrar a vergonha de Fidel Castro. Em razão disto, é impossível não questionar os critérios jornalísticos empregados pelos pupilos de Ali Kamel. O que eles consideram mais vergonhoso: executar centenas de pessoas e enterrá-las numa vala comum ou ficar impotente diante da resolução de um prisioneiro que morre porque se recusa a comer?

Felizmente, existe uma multiplicidade de fontes. Nem tudo está perdido. Enquanto o G1 faz apenas propaganda política, outros veículos de comunicação se esforçam para fazer jornalismo.

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Advogado, Osasco, SP

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