Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > NOVOS TEMPOS

Jornalismo, tecnologia e ruptura

Por Luciano Martins Costa em 15/12/2012 na edição 724

Comentário para o programa radiofônico do OI, 14/12/2012

Uma reportagem publicada na quinta-feira (13/12), na revista online Business Insider, tenta esclarecer especulações sobre uma nova e até certo ponto surpreendente – para os analistas – ação de investimentos por parte da Apple, a gigante dos aparelhos e aplicativos digitais.

Rompendo um estado de aparente letargia do setor, com alguma acomodação nos esforços de inovação por parte de concorrentes como Samsung e Intel e de outras empresas da nova economia, como Google, Amazon e Microsoft, a companhia criada por Steve Jobs vem promovendo inversões que chamaram a atenção dos observadores da cena tecnológica, mas ainda não produziram mais do que especulações.

Alguns desses analistas começam a apostar em uma nova ruptura no contexto sempre mutante das tecnologias de informação e comunicação. Os artigos distribuídos por agências especializadas não permitem fazer apostas seguras, mas há um elemento comum a todas as análises: será mais um duro golpe contra o setor das indústrias maduras de comunicação.

Drama latino

Nos Estados Unidos, o noticiário sobre negócios digitais já trata de maneira marginal as empresas tradicionais de mídia, colocando-as num nicho semelhante ao do setor de petróleo, uma espécie de museu de curiosidades econômicas. As atenções dos investidores também se deslocaram há muito tempo para o outro lado, de onde brotam os sinais do futuro. Um olhar macroscópico para a realidade do mercado de informação pode produzir reflexões inquietantes.

Essa observação distanciada do dia a dia dos jornais, comparada à dinâmica do mercado de tecnologia, provoca algumas dúvidas sobre a importância daquilo que costumamos tratar como notícia, opinião ou informação jornalística. Como consequência, torna-se inevitável questionar o valor real daquilo que costumamos tratar como produto da imprensa.

Em termos de criação de cultura, por exemplo, já se pode afirmar que o Youtube, uma iniciativa isolada de mídia digital, compete com vantagens com toda a imprensa do mundo. Quanto às informações financeiras, boletins eletrônicos de bancos levam grande vantagem sobre a mídia tradicional e, no ramo do entretenimento, mais vale o Facebook que uma revista semanal.

A tecnologia atropela os mais lentos e a mídia tradicional tem ficado para trás. Se entrarmos no campo da administração, precisaremos de muito tempo e espaço para alinhavar os principais erros desses conglomerados, desde a metade dos anos 1990, quando a internet se tornou uma realidade global.

Apenas para citar alguns, basta lembrar que as empresas tradicionais de comunicação, no Brasil e na América Latina, ignoraram ou adotaram tardia e parcialmente algumas das melhores ferramentas de gestão, como os sistemas de planejamento de qualidade, os estudos de processos e a reengenharia, recursos que foram usados basicamente para cortar empregos e aumentar a carga de trabalho dos jornalistas.

Porém, ainda não é aí que se desenrola o verdadeiro drama da mídia tradicional. Ele tem outros aspectos, alguns mais peculiares da América Latina.

A mídia ainda é relevante?

A propriedade cruzada dos meios de comunicação, a tradição da imprensa nas mãos de empresas familiares, que construíram núcleos de poder simbólico sobre a opinião do público, as vinculações tradicionais dessas famílias com os donos do poder político e econômico, tudo isso, embora deva ser considerado, está se tornando apenas causa marginal no processo de desvalorização dos veículos.

A questão central é que a mídia está se tornando irrelevante. Esse modelo esgotou sua capacidade de formular uma ideia de sociedade moderna e pluralista, deslocando-se do centro de inteligência social na razão proporcional em que a democracia se consolidava formalmente.

Como a imprensa tradicional não contempla os objetivos de uma democracia real, sua função se esgota na formalização de um simulacro de sociedade democrática que se caracteriza pela simulação de instituições funcionais, contexto ao qual ainda falta muito para se tornar de fato e de direito uma democracia social.

Quando a imprensa falha em seu papel de educar para a cidadania, por exemplo, agindo como instrumento de intolerância e preconceito, ela está simplesmente revelando seu verdadeiro caráter: sua origem oligárquica e a natureza oligopolista não admitem avançar além do formalismo no que se refere à democracia.

Resta saber se o jornalismo, como o concebemos até aqui, ainda é relevante. Voltaremos ao assunto.

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