Segunda-feira, 27 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Jornalista não é saco de pancadas

Por Vera Lucas em 17/05/2011 na edição 642

Li sobre um caso; pensei ser isolado. Depois sobre outro semelhante; poderia ser coincidência. No terceiro concluí que as empresas de Comunicação precisam se unir aos Sindicatos dos Jornalistas de todo o Brasil e tomar sérias providências. Os profissionais de imprensa estão sendo agredidos no exercício do seu trabalho. Não são respeitados e viraram alvo de violência. De repente, autoridades, empresários e pessoas comuns se acham no direito de fazer o que bem entendem com os repórteres e o restante da equipe que atua nas ruas. Eles não se importam com testemunhas, com câmeras de vídeo que registram esse absurdo, com boletins de ocorrência, com nada.

Recentemente, irritado com uma pergunta de Vitor Boyadjian, da Rádio Bandeirantes, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) arrancou o gravador das mãos do jornalista e apagou o que havia sido gravado. O repórter perguntara ao senador se ele abriria mão de sua aposentadoria como ex-governador do Paraná. Existem jornalistas que, em busca do sensacionalismo ou por falta de bom senso, fazem perguntas idiotas. Por exemplo, a mãe chora no enterro do filho que foi vítima de bala perdida. Aí vem um repórter e questiona: ‘Como a senhora está se sentindo?’ Pergunta estúpida que mereceria uma resposta mais estúpida ainda, tipo ‘Muito feliz!’ Mas esse modelo não se aplica a Vitor Boyadjian. A pergunta dele era perfeita e pertinente no atual cenário político do país. O senador tinha o direito de respondê-la ou não. Nunca de ‘roubar’ o gravador, deletar a sua memória e ainda se vangloriar do feito no microblog Twitter.

O jornalista tentou, em vão, apresentar queixa na polícia do Senado. Segundo os policiais, eles não podem registrar ocorrências contra parlamentares. O repórter da Rádio Bandeirantes procurou então a corregedoria da Casa, que também nada fez. Desde a morte de Romeu Tuma, o Senado ainda não escolheu um novo corregedor. Restou a Vítor Boyadjian prestar queixa formal na 1ª Delegacia de Polícia de Brasília.

É norma ouvir todos os lados

Já o repórter Gabriel Toueg, do Estadão.com.br, foi agredido por seguranças do metrô na estação Sumaré, da Linha 2-Verde, de São Paulo. Ele fotografava uma discussão entre os agentes e seis meninas. Segundo os seguranças, elas pediam esmolas. O jornalista que estava no local certo, na hora certa e agiu profissionalmente: registrou, com o celular, o tumulto. Sim, as meninas eram menores de idade, mas todos sabem que, nesses casos, as imagens são tratadas de modo a que ninguém identifique crianças ou adolescentes. É lei. O ilegal foi a truculência dos agentes. Um deles arrancou o telefone do repórter e outro lhe aplicou um golpe conhecido como gravata. Ali, na frente de todas as pessoas.

Ao se identificar formalmente como jornalista, Gabriel Toueg recebeu o celular de volta e foi intimado a apagar as fotos. Ele registrou um boletim de ocorrência e se submeteu a um exame de corpo de delito. Depois que a imprensa divulgou o fato, os funcionários envolvidos foram afastados para averiguação.

Os ataques continuam… O pai de uma aluna de um colégio particular deu socos no rosto de um repórter fotográfico do jornal O Estado de S. Paulo. Daniel Teixeira cobria na Vila Mariana, centro-sul da capital paulista, o tumulto causado por uma adolescente. Ela tentara agredir, com duas facas, a coordenadora da escola. O jornalista fez um boletim de ocorrência contra o pai da estudante. Claro, é possível entender a vergonha e a tristeza desse pai. Entretanto, elas jamais poderiam ser descontadas no repórter, que apenas realizava o seu trabalho. Ao contrário, o pai deveria era dar bom exemplo para a filha que, ao que tudo indica, está precisando.

O pugilismo contra jornalistas permanece em alta. Na gravação de um quadro para o programa CQC, da Rede Bandeirantes, o repórter Oscar Filho e um produtor foram agredidos com socos por um homem que representava a construtora denunciada na reportagem. A empresa é acusada de causar abalos na estrutura dos edifícios próximos ao local. É norma dos jornalistas ouvir todos os lados da questão. O representante da construtora poderia ter aproveitado para se defender, explicar, desmentir… Ao partir para a ignorância, assinou a culpa.

Seria a culpa da atual certeza da impunidade?

Em Maringá, no Paraná, o repórter Paulo César, dos programas Tribuna da Massa e Radar da Notícia, ambos do SBT, recebeu uma pedrada enquanto cobria um acidente envolvendo dois carros. O pai do motorista que provocou a colisão, ao ouvir o jornalista perguntar para a vítima seu nome, ficou irritado. Atirou uma pedra no repórter e ainda agrediu a equipe de reportagem quando ela já estava no carro. Paulo César fez um boletim de ocorrência. No acidente ninguém se machucou, o jornalista não foi tripudiar sobre a desgraça alheia. Logo, não havia motivo para o pai do motorista responsável pela colisão perder o controle diante do depoimento do outro motorista – que teve o carro amassado.

A situação foi mais grave em Porto Velho. O repórter freelancer Herivelton Rodrigues Palma recebeu coronhadas de um policial. Ele registrava a manifestação dos policiais militares da cidade, em greve. O jornalista foi ameaçado de morte, obrigado a apagar todas as fotos tiradas e teve a carteira e uma foto sua recolhidas pelos policiais. Herivelton Rodrigues Palma deu queixa na 6ª Delegacia Policial de Porto Velho.

Como alguns policiais querem o apoio da população agindo assim? Fica a dúvida…

Finalmente, de quem é a culpa desses fatos lamentáveis? As empresas de comunicação e os sindicatos da categoria não podem adivinhar o que acontecerá com os seus jornalistas. Já os verdadeiros jornalistas, aqueles que têm faro e vocação, não vão deixar de cobrir algo por receio de que talvez, quem sabe, um louco resolva atacá-los. Veja que não estou falando de jornalistas que se embrenham em áreas ou situações de risco sem a devida proteção. Os fatos aqui relatados se passaram em locais comuns. Você acha que todos esses boletins de ocorrência resultarão em uma pena diretamente proporcional aos danos causados? Eu não… Por isso, acredito que a culpa seja da atual certeza da impunidade no Brasil. Compete aos patrões e aos sindicatos lutar para provar que essa certeza é falsa.

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Jornalista e escritora

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