Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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JORNAL DE DEBATES >

Jornalistas não querem oferecer a sua versão

Por Alberto Dines em 28/06/2011 na edição 648

No documentário Swastika, a intimidade da cúpula nazista, estrelado por Adolf Hitler, há uma cena em que o nefasto protagonista examina a câmera da namorada, Eva Braun, percebe que a película era colorida e profetiza: “O futuro é dos filmes coloridos” [o documentário não tem locução, os diálogos foram obtidos pela leitura labial, conforme André Barcinski (Folha de S.Paulo, 22/5/2011)].

Hitler era um imbecil e um paranóico. O vaticínio estético-midiático do Fuhrer é tão fuleiro quanto as demais previsões. Àquela altura os cineastas do mundo inteiro já aderiam à reprodução colorida embora o custo proibitivo do processamento e das cópias impedisse a sua massificação.

O desbragado futurismo hoje imperante contém uma forte dose de autoritarismo. Como todo e qualquer determinismo, está sendo usado para embargar debates e questionamentos. Sobretudo para desativar o livre-arbítrio. É um dos cala-boca da modernidade que os jornalistas – por preguiça, ignorância e/ou covardia – não ousam contestar. É, na realidade, uma das imposições dessa divindade profana e algo obscena chamada Mercado cultuada para simular parentesco com a noção de liberdade ou, pelo menos, liberdade de escolha.

Herança democrática

Ao omitirem-se do debate sobre os cânones e o futuro da sua profissão, os jornalistas estão deixando de relatar a sua história. Perdem uma oportunidade única para dar a sua versão, e não a dos patronos. A narrativa jornalística deste momento crucial da história da civilização está sendo sequestrada por acadêmicos que nunca pisaram numa Redação, por consultores que gostariam de se abancar nas redações e executivos que preferiam abolir as redações para baixar os custos. Este é o toque trágico das transformações da imprensa.

Quando o filósofo Sócrates repudiou a adoção do alfabeto porque pretendia preservar a memória não se insurgia contra a difusão do conhecimento, apenas discutia os atributos de uma nova ferramenta. O que estamos assistindo hoje é um colossal movimento mistificador voltado para sepultar o debate – confundir, em vez de esclarecer.

A internet desenvolveu-se como ferramenta, meio de comunicação, suporte e plataforma conceitualmente próximos do telégrafo e do telefone. Posteriormente ficou visível o seu extraordinário potencial como alternativa à mídia impressa ou eletrônica.

Mas o projeto apocalíptico de converter a internet na substituta da mídia tradicional ganhou consistência e velocidade depois do estouro da “bolha pontocom” (em 10/3/2000). O mercado virtual da bolsa Nasdaq estava tão alavancado que era preciso inventar outra finalidade para aquele cemitério onde todos os mortos tinham o mesmo prefixo: e-.

Menos de um ano depois os EUA foram ocupados pela tropa de choque dos neocon (neo-conservadores) e estava criado o ambiente político, intelectual e moral para canibalizar o incômodo, persistente e atrevido Quarto Poder, herança direta do sonho democrático sonhado pelos patriarcas da república.

Modelo amalucado

As primeiras trombetas a anunciar o fim do papel foram sopradas por consultores, isto é, agentes do Sr. Mercado, e não por jornalistas ou teóricos da comunicação.

Por isso a ninguém interessava ressuscitar a figura ou as percepções de Marshall McLuhan (1911-1980), que ainda em 1962, na primeira edição de Gutenberg Galaxy, estabeleceu a orgânica vinculação entre o meio – medium – e a mensagem. Mais de 30 anos antes da decretação do fim do papel, o visionário canadense (que nada tinha de progressista) estabelecia empiricamente o princípio de que a mensagem da internet será condicionada inapelavelmente pela sua natureza.

“The medium is the message” significa que o formato jornal tanto no seu aspecto espacial como temporal, desenvolvido ao longo de 400 anos nos quatro cantos do globo, jamais poderá ser transferido para a dimensão virtual que não é mais nem menos adequada – é outra, rigorosamente diferente.

É isso que o ilustríssimos e ilustrados coleguinhas do The Guardian não compreenderam. Imaginaram-se herdeiros de Salomão, racharam os recursos da empresa para criar dois veículos e deram a luz a duas classes distintas de cidadãos: aqueles que sabem – ou pensam saber, envolvidos pelo fluxo contínuo da internet – e aqueles que procuram entender através de contemplações periódicas. Este “modelo de negócio” meio amalucado está fadado a produzir um único resultado: mudança de ramo.

Além de questionar o tipo de progresso que está sendo oferecido, não podemos nos furtar à discussão sobre o tipo de humanidade que ele deve produzir. (Segue)

 

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