Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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JORNAL DE DEBATES >

Jornalistas preocupados, público tranqüilo

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 14/08/2007 na edição 446

O jornalista Carlos Castilho publicou no seu blog Código Aberto, neste Observatório, matéria sob a maneira pela qual os jornalistas reagem às novas realidades criadas pelo mundo virtual (ver ‘A relação entre imprensa e público continua piorando‘). Segundo Castilho, o crescente ceticismo do público estaria colocando os jornalistas contra a parede. Como não estavam acostumados à crítica insistente e constante, os profissionais da (des)informação sentem-se encurralados.

As palavras de Castilho soaram como música nos meus ouvidos:

‘O criticismo do público em relação à imprensa já deixou de ser mera manifestação isolada de inconformismo ou divergência ideológica. Está começando a configurar um processo e, como tal, provoca uma grande preocupação porque, se por um lado o leitor se mostra mais cético em relação à mídia, por outro crescem igualmente as evidências de que a imprensa é cada vez mais essencial na era da informação.’

E um pouco mais adiante:

‘Este crescente inconformismo dos internautas pode ser facilmente percebido aqui no Brasil por meio da leitura dos comentários postados por leitores de weblogs que publicam notícias e comentários sobre a atualidade nacional.

Mesmo descontando que os comentaristas em blogs são uma minoria muito reduzida no conjunto da população brasileira, impressiona o fato deles serem tão sistemáticos e críticos em relação à cobertura da imprensa nacional.

A web cresce a um ritmo espantoso no Brasil (680% desde 2000), o que indica que o criticismo informativo dos internautas deve continuar em alta e contagiando outros tipos de leitores, já que o público da web no Brasil também é um formador de opiniões.’

Redefinindo os interlocutores

Desde que surgiu, a imprensa tem cumprido um papel dúbio. De um lado, fornece ao público informações relevantes para o exercício da cidadania. De outro, limita o debate público às propostas endossadas ou criticadas pelos veículos de comunicação. Em razão de sua posição privilegiada, a imprensa conseguia praticamente impor à sociedade sua agenda. As relações entre política e imprensa são tão evidentes que nos regimes totalitários os famigerados Departamentos de Informação, Ministérios da Propaganda etc. eram uma triste realidade.

A função da mídia tem sido (des)informar. Leão Serva já disse isto com todas as letras em seu excepcional livro Jornalismo e desinformação. A função do público, que durante muito tempo foi apenas consumir o que a imprensa produzia, mudou em razão da internet. Mais que isto, se transformou de maneira espetacular.

Em outro lugar, defendi a tese de que o ceticismo mencionado por Castilho é uma ferramenta indispensável para construção de novas realidades (ver aqui). Imprensa e política sempre estiveram juntas. E agora a internet está divorciando-as pacífica e paulatinamente.

Até o advento da interatividade, todos precisavam de interlocutores. Assim, mesmo que não tivesse a intenção, a mídia tradicional construía currais conceituais e ideológicos que os políticos exploravam (inclusive para cuidar de seus próprios interesses por intermédio do Estado). Agora que estes currais estão sendo demolidos porque os cidadãos não precisam de interlocutores (ou estão redefinindo o papel dos mesmos), os meios de comunicação estão preocupados. Então estou tranqüilo. Quando os políticos ficarem intranqüilos, ficarei feliz.

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Advogado, Osasco, SP

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