Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > SOBRE VAZAMENTOS

Jornalistas também são monitorados. Por caixas-brancas

Por Alberto Dines em 07/08/2007 na edição 445

A publicação dos primeiros dados da caixa-preta do Airbus da TAM ocorrido na semana passada (Folha de S.Paulo, quarta, 1/8) não foi a primeira quebra de sigilo de um inquérito sobre acidentes aéreos. A tragédia anterior, com o Boeing da Gol, também produziu um outro tipo de vazamento – que não chegou ao conhecimento do público.


A revelação foi feita pelo brigadeiro Jorge Kersul Filho, diretor do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), na entrevista coletiva do comando do transporte aéreo em Brasília, na tarde de 23/7, transmitida ao vivo pelos canais de notícias. O brigadeiro, como sempre, foi objetivo (talvez por isso tenha sido aconselhado a manter-se em silêncio): a Aeronáutica foi obrigada a antecipar à Polícia Federal as primeiras conclusões do inquérito sobre a colisão do Boeing da Gol com o Legacy, antes de encerrado o inquérito.


Significa que o governo violou duas vezes a norma internacional que proíbe a quebra da confidencialidade de inquéritos técnicos em acidentes aéreos: vazou informações sigilosas de uma de suas repartições (o Cenipa) e utilizou-as de forma imprópria em outra repartição (a Polícia Federal, que teoricamente serve ao Estado e não ao governo).


Os jornalistas não se impressionaram com a revelação do militar comentada em diferentes edições deste Observatório [ver ‘Crise aérea: uma omissão importante‘, 26/7/2007; ‘O fim das cortinas de fumaça‘, 27/7/2007; e ‘Açodamento é mais nocivo que a desatenção‘, 30/7/2007]. Mas o vazamento dos primeiros dados da caixa-preta da segunda tragédia aérea causou enorme repercussão. O repórter Fernando Rodrigues, autor da reportagem da Folha, chegou a ser acusado de favorecer o governo ao confirmar hipótese de erro dos pilotos.


Preferência pela confusão


A questão dos vazamentos está presente na pauta das discussões sobre jornalismo investigativo desde os primórdios do caso Watergate, há mais de 30 anos. Os repórteres do Washington Post (Carl Bernstein e Bob Woodward) jamais negaram que recebiam dicas de uma fonte secreta altamente situada no governo americano (mais tarde celebrizada como ‘Deep Throat’, Garganta Profunda). A diferença é que os sucessivos leaks foram acompanhados por rigorosas investigações, entrevistas, checagens, contra-checagens e só então divulgados.


A praxe brasileira vai na direção oposta: o vazador ou informante merece, a priori, a confiança do jornalista mesmo sem apresentar evidências ou pistas mais consistentes. A verificação é nenhuma – na melhor das hipóteses, mínima. O fenômeno aqui conhecido como denuncismo pode ser avaliado por um dado estatístico inquestionável: no país há dez vezes mais assessores de comunicação do que jornalistas. A máquina de plantar notícias (legítimas ou não) é mais poderosa (ou numerosa) do que os filtros capazes avaliar o seu teor. E como a mídia mantém-se imune ao dever de levar a competição jornalística às últimas conseqüências, os vazamentos raramente são examinados ou contestados publicamente.


Para entender a questão do fornecimento de informações sigilosas para a imprensa é preciso compreender a porosidade ambiental e a informalidade que envolve nosso processo decisório. Nossos administradores e políticos aboliram o sigilo não porque sejam democratas, advogados da transparência absoluta. Ao contrário, preferem a confusão e o atalho é a profusão de segredos violados. Quanto mais vazamentos, melhor; quanto mais versões, menos certezas. O teor da caixa-preta do Airbus foi vazado para os principais veículos de comunicação quase todos os dias no período 25/7 a 1/8 [ver ‘Como se fabricam os furos‘, neste Observatório].


Glória efêmera


Em sua edição de segunda-feira (6/8), menos de uma semana depois de afirmar em manchete de primeira página que a caixa-preta do Airbus indicava falha humana, a Folha de S.Paulo publicou contundente depoimento de página inteira do coronel reformado Antonio Junqueira, ex-chefe do mesmo Cenipa. A denúncia contida no título é grave: ‘Lobby atrasa adoção de regras de segurança’. Mais grave seria se o título focasse a parte mais substantiva da matéria: ‘Investigações foram afetadas pelos vazamentos’.


Principais pontos do depoimento:


** A investigação deveria ser conduzida com o máximo de isenção e sem fatores intervenientes.


** Caixa-preta nunca foi instrumento para se ler como uma cartilha, ela precisa ser interpretada por especialistas.


** A investigação [sobre o Airbus da TAM] já está afetada. Se a comissão concluir por algo que não tem sido aventado vai cair no descrédito.


** A profissão de aviador é talvez a única em que você trabalha grampeado [pela caixa-preta]… Aceitamos esta situação porque entendemos sua finalidade preventiva… Diante da publicidade que se deu aos dados da caixa-preta é possível prever que jamais teremos uma investigação decente [ver íntegra aqui, para assinantes da Folha e/ou UOL].


Jornalistas também são monitorados por caixas, porém brancas, transparentes, franqueadas a todos. A glória de um ‘furo’ tem vida breve, dura horas apenas. O mal pode estender-se para sempre.


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Todos os comentários

  1. Comentou em 09/08/2007 Paula Abreu

    Só uma coisa não podemos nos esquecer: ninguém foi mais beneficiário da ‘máquina de plantar notícias’ que o PT. Aliás, foi não, continua sendo na grande maioria dos casos!

  2. Comentou em 08/08/2007 Marcio Flizikowski

    Para comentar o texto do AD, peço socorro a um ícone da indústira cultura, Alan Moore: ‘Who watches de watchmen?’. Quem vigia os vigilantes? Ou melhor, quem observa os observadores da imprensa. Caro AD, primeiro a imprensa cobria corretamente o acidente da TAM, quando achava culpados, sem investigação. Quando a imprensa revela o conteúdo da caixa-preta, apontando na direção de verdadeiros culpados, bem, aí a imprensa é sensacionalista. O observatório esta necessitando realmente de um observador do seu próprio conteúdo.

  3. Comentou em 07/08/2007 carmen fusquine

    Dines,
    O que houve, procurei no Observatório mas nenhuma matéria sobre a denúncia do Renan sobre a falcatrua da Veja, editora Abril, apenas uns troquinhos, coisa de UM BILHÃO DE REAIS, aliás nenhum comentário ou investigação em curso POR NOSSA NOBRE MÍDIA. Já sei, são apenas insinuações, não temos provas suficientes, não podemos divulgar fatos sem a devida responsabilidade … quanta hipocresia para não dizer CINISMO PURO.

  4. Comentou em 07/08/2007 Carlos Augusto Bevilaqua

    Creio que a informação de que o Governo violou duas vezes norma internacional sobre confidencialidade de investigações de acidentes aéreos não corresponda à verdade. O Governo não violou coisa alguma. A Polícia Federal, por meio de seus delegados federais, que são autoridades policiais, pode requisitar informações de quem quer que seja para instruir inquéritos policiais. Isto não depende do Governo. De outro lado, o jornalista não leva em conta que a tal norma internacional não é Lei e, portanto, não gera efeitos dentro do território nacional. Por fim, não é demais lembrar que o interesse público sempre prevalece sobre o particular. Ora, o trágico acidente aéreo ocorrido recentemente saiu da esfera privada para integrar a pública na medida em que toda a impresa passou a noticiá-lo. Interessa não apenas aos parentes das vítimas, mas a todos os brasileiros que viajam de avião, trabalham nas companhias aéreas ou que acompanharam os fatos pela impresa.

  5. Comentou em 07/08/2007 Luciano Prado

    Donaldo de Andrade Silva , Belo Horizonte-MG – Vendedor – Henry Fulfaro , Sorocaba-SP – professor – Perfeito, meus caros. Concordo plenamente com os seus argumentos. O vazamento no caso da tragédia da TAN foi salutar, tanto para esclarecer a população como para a lisura dos fatos. Imagine se até hoje a verdade não tivesse vindo à tona. O tal do ‘groving’ que a grande imprensa afiou, já teria cortado a jugular de Lula. Concordaria com o nobre jornalista, caso seus argumentos não iniciasse pelo final da história. As mentiras publicadas pela imprensa foram tantas e tão evidentes que o vazamento tornou-se inevitável. Melhor assim. Eleger o sigilo em detrimento da verdade é inverter a ordem dos valores das coisas. Já é do senso comum a idéia de abolir de vez essa história de inquérito sigiloso. Cabível apenas nas demandas judiciais envolvendo casos de família e em algus casos envolvendo menores. Portanto, venham os vazamentos. E rápido.

  6. Comentou em 07/08/2007 Donaldo de Andrade Silva

    Alberto Dines, eu concordaria com você caso a nossa imprensa de
    uma maneira geral, com raras exceções, fosse seria e não prejulgasse e apontasse culpados antes das hora e na maioria injusta como foi no caso do acidente da TAM, com o Governo federal, e eu pouco vi e li na própria imprensa, algo que rebate e ou repudiasse este procedimento. Acho que se a imprensa respeitasse o direito dos outros, o governo também teria respeitado, hoje ataca quem quer e defende quem pode do jeito que der. As coisas tem que mudar dos dois lados.

  7. Comentou em 07/08/2007 José Carlos da Silva

    Mas estas caixas brancas nao servem para corrigir erros, pois os jornalistas voltam a cometer os mesmos erros, mal intencionados ou não. Queremos ver jornalistas processados pagando pelos danos causados. Quero ver este observatório atuante, tirando de seu meio aqueles que denigrem a imagem da imprensa. Gostaria que o autor deste comentario desse nomes, como deu dos americanos, dos bons jornalistas e principalmente dos maus para que nunca mais acusem sem provas.

  8. Comentou em 07/08/2007 ubirajara sousa

    E por falar em jornalistas, que tal esta notícia, veiculada no portal da OI: ‘Brasília – Em 2000, durante as Paraolimpíadas de Sidney, um jornalista espanhol se fez passar por um atleta com deficiência mental e integrou a delegação de basquete do país. Após esse episódio, o Comitê Paraolímpico Internacional decidiu que não haveria mais provas para deficientes mentais nos campeonatos promovidos pela entidade. Essa decisão vale pelo menos até as Paraolimpíadas de Pequim, em 2008. Após os jogos, será discutida novamente a possibilidade de atletas deficientes mentais voltarem ao programa paraolímpico.’ E o que aconteceu com esse retardado? Sim, porque esse é um retardado. Será que foi punido, ou tudo é possível em nome da liberdade de expressão? Está mais do que na hora da criação do CONSELHO. A tenção apressadinhos, estou sabendo que o problema não foi no Brasil, mas poderia ser.

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