Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > TV BRASIL

Jornalões investem contra TV pública

Por Alberto Dines em 26/02/2008 na edição 474

A Folha de S. Paulo é um jornal inteligente, criativo, sofisticado. Seu editorial sobre a TV Brasil, porém, passa uma impressão inversa – parece obtuso, caipira (‘Vácuo de propósitos’, segunda-feira, 25/2, pág.A-2, disponível aqui para assinantes). O Estado de S. Paulo é um jornal nobre, refinado, mas a sua matéria de página inteira sobre o mesmo assunto no mesmo dia tem a finesse de um rinoceronte (‘TV pública ainda mantém vícios de emissora oficial‘, pág. A-4).


A investida simultânea dos dois jornalões é certamente casual. Os dois gigantes são adversários, inadmissível imaginá-los num pool conspiratório em defesa da mídia eletrônica privada que não cansam de verberar.


O editorial da Folha parte de uma premissa equivocada: o governo teria decidido criar uma TV Pública depois do ‘Vedoingate’, às véspera das eleições de 2006, quando a PF descobriu a imunda tentativa de alguns ‘aloprados’ para publicar num semanário um dossiê fraudado contra candidatos da oposição. Alguns setores do governo e do partido do governo, pegos com a boca na botija, igualmente néscios, inventaram um ‘complô da mídia’ e com ele armaram a doutrina de que era imperioso criar uma mídia alternativa ao golpismo da grande imprensa.


Ao encampar esta hipótese como justificativa para concretizar o velho sonho de uma rede pública de TV, a Folha desce ao nível daqueles que produziram o abominável dossiê e esquece o que tem publicado na última década.


Qualidade e transparência


Uma TV Pública ou TV de interesse público é antiga aspiração de intelectuais, cineastas, acadêmicos, artistas de todas as tendências e, sobretudo, de jornalistas. Os maiores prejudicados pela inexistência de uma rede de TV não-comercial são os jornalistas. Os editorialistas da Folha sabem disso porque são jornalistas. Isso não significa que o telejornalismo privado seja inconfiável. Ele é insuficiente. Precário.


Tanto o editorial da Folha como a matéria do Estadão falam na criação de uma nova rede de TV. Ignoram que há décadas funcionam duas redes estatais e esquecem que jamais reclamaram contra seus ‘vícios’. Os sábios editores e nobres editorialistas achavam perfeitamente natural que a antiga TVE gastasse uma fábula para comprar um prédio destinado a abrigar as dependências administrativas e não gastasse um tostão para equipar os estúdios. Jamais abriram o bico contra esta aberração.


As duas redes (TVE e Radiobrás) estão agora em processo de fusão, os novos estatutos da Empresa Brasileira de Comunicação prevêem uma série de mecanismos para garantir a transparência, a qualidade e a eqüidistância da programação, sobretudo no jornalismo. Ninguém garante que estes mecanismos venham a ser bem-sucedidos, mas vale a pena tentar.


Co-produções à vista


As emissoras comerciais são concessões públicas e jamais alguma delas ofereceu qualquer contrapartida em matéria de interesse público. Nenhum editorialista da grande imprensa cobrou das emissoras comerciais a criação de ouvidorias ou conselhos curadores. Nossos opinionistas partem do princípio de que um empresário de comunicação como o bispo Edir Macedo é um empresário confiável. Agora percebem a burrada e recebem o troco.


Nesta cruzada contra a TV pública chama a atenção a brutal diferença de tratamento: sob o ponto de vista institucional e financeiro a Rede Cultura (da Fundação Padre Anchieta, do governo do estado de São Paulo) não difere significativamente da antiga TV Educativa (TVE). Mas os editorialistas da grande imprensa estão ouriçados contra a TV Brasil esquecidos de que não será impossível assistir, dentro de alguns meses, a co-produções com a TV Cultura na grade da rede pública.


Nossos jornalões são sensatos, coerentes, judiciosos, edificantes. Pena que às vezes não reparam no seu monumental voluntarismo.


 


Leia também


O futuro da TV pública é agora – Alberto Dines


Parecer à MP 398 restringirá publicidade – Henrique Costa


Como a emissora deve dialogar com a sociedade – Henrique Costa e Diogo Moyses


A televisão que não ousa dizer o nome – Gabriel Priolli


Críticas à programação são precipitadas, diz Belluzo – Henrique Costa


O que será que será – José Paulo Cavalcanti Filho

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/03/2008 Robson Alves

    Não tenho a menor pretensão de julgar esse ou aquele partido, são todos muito semelhantes, seja nos pontos positivos ou negativos, mas uma coisa é certa: Faz-se necessário mudar os coeficientes(linear e angular) dessa velha equação sob a qual estamos sujeitos à anos. Precisamos de espaço público para discutir assuntos primordiais comum à nossa sociedade e é mais do que óbivio que está faltando esse espaço da forma como está. Não temos esse verdadeiro espaço. Nem globo, estadão, folha ou veja cumprem essa função com dignidade. Portanto, fico feliz com essa possibilidade de TV Pública.

  2. Comentou em 29/02/2008 Carlos Humberto Vilhena

    O artigo de Alberto Dines é correto e sensato. Qual insensatez pode ser vislumbrada numa TV pública de qualidade, numa sociedade plural como a nossa? Se a TV for panfletária será abandonada pela audiência. É inegável que é necessário um espaço para abrigar a inteligência e a multiculturalidade nacional.

  3. Comentou em 29/02/2008 Benvindo benvindo

    Citar o Globo, Veja, Estadão e Folha como praticantes de um jornalismo imparcial é chamar as pessoas de intelecto de burros’. Esta imprensa tem uma história de anti-democracia, pois foram os pilares da ditadura militar. Praticam o jornalismo de esgoto. São partidários e elitistas. Fui assinante da Veja e da Folha e posso dizer com conhecimento, que seu jornalismo, atualmente, é um lixo.

  4. Comentou em 27/02/2008 Ivan Moraes

    1-‘incrivel como o governo lula só pensa nas aspiraçóes dos que o protegem’: a palavra ‘Lula’ nao aparece no artigo. 2-‘Náo vi até o momento nenhuma proposta ou açáo do governo, visando reduzir desperdício, criando mecanismos de proteçáo ao dinheiro público’: os governos de Santa Catarina e Sao Paulo estao fazendo isso, tenho certeza.

  5. Comentou em 26/02/2008 Renata Cavalcanti

    sobre o artigo ‘Jornalões investem contra TV pública’, do fabuloso Dines:

    prezado Alberto Dines, o sr. viu a entrevista de domingo na Folha com o documentarista John Ellis? Ele ajudou a fazer o imperdível Além do Cidadão Kane e criticou duramente a iniciativa de se fazer uma tv pública hoje em dia (não só no Brasil).

    queria saber sua opinião.

    abraço, Renata

  6. Comentou em 26/02/2008 Thomaz Magalhães

    O Dines volteia e volteia no texto para defender a estrovenga pública, sem poder atacar os dois jornais em suas edições de domingo. O Estadão, que eu li, simplesmente porque conta coisas sobre o conteúdo da tal TV Lula, pega no pulo fazendo proselitismo a favor do governo petista.

    Vem então Dines a defender a emissora pública, criada por medida provisória, cabidão de emprego público sem concurso até que se acabe o governo Lula – não é assim? Não é não?

    A dizer que é um sonho de intelectuais, representantes da sociedade civil e de jornalistas…

    De contribuintes, que pagam essa farra toda no Estado brasileiro que tem quase trinta emissoras públicas, nem pensar em falar, não é?

    É um sonho da esquerda desmaiada.

  7. Comentou em 25/01/2005 Severino Goes

    Interessante que o Observatório, que saiu em defesa do bufão Jorge Kajuru, quando este foi defenestrado da TV Band, não tenha registrado seu infeliz retorno às telas de TV. Desta vez por meio da ESPN Brasil, por mim mesmo louvada como o melhor canal de esportes do país. Exagero, exagero… Pisada na bola, isto sim. A ESPN recorre ao baixo nível, nivela por baixo para enfrentar sua rival Sportv e o programa do nefando Galvão Bueno, apelando para a baixaria. Lamentável. Mandei vários e-mails para lá, claro que nenhum foi lido. Onde se pensava que havia um pingo de inteligência e caráter, vê-se justamente o contrário. Do ex-telespectador assíduo.
    Severino Goes
    Brasília-DF

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem