Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > CASO SEAN

Lambança exemplar da mídia. Toda a mídia

Por Alberto Dines em 29/12/2009 na edição 570

Um drama que só tende a crescer porque os meios de comunicação não estão interessados em largar o osso. Perceberam o manancial inesgotável de que dispõem e vão em frente. Mesmo arriscando a vida e a felicidade de Sean Bianchi Goldman.


Hoje, quando se fala em mídia, impossível estabelecer distinções: a mídia americana e a mídia brasileira – pelo menos no caso Sean – exibem as mesmas distorções e leviandades. Como se a yellow press anglo-saxônica e a nativa imprensa marrom fossem a mesma coisa. São a mesma coisa (as origens é que variam).


É aterradora a façanha ‘jornalística’ da rede de televisão NBC ao oferecer um jato para levar David Goldman e seu filho para os EUA. Não foi um ato generoso para garantir a privacidade do menino. Foi uma monstruosa exploração, autêntica cafetinagem jornalística.


David Goldman, modelo profissional, será atração da NBC por muito tempo. E David Goldman só existe na medida em que fala do filho. Mesmo sem o exibir, apenas referindo-se a ele, está criando um clima que tornará impossível uma existência normal para o garoto.


Sem discrição


Sem qualquer escrúpulo ou disfarce, a NBC fez o seu exercício de checkbook journalism, jornalismo com talão de cheque, que em situações normais seria condenado pelos media-watchers, observadores da mídia, se neste momento os media-watchers americanos não estivessem concentrados na discussão sobre os modelos de negócios da indústria esquecidos do conteúdo do produto que esta indústria está oferecendo.


A família brasileira de Sean também se envolveu com a mídia. E como sempre acontece em nossas plagas, pelo viés autoritário. O celebrado clã de causídicos ao qual pertence João Paulo Lins e Silva, pai adotivo de Sean, a pretexto de proteger a criança, preferiu a estratégia da mordaça, a censura judicial: embargou o noticiário sobre o caso. Burrada: este tipo de silêncio não se sustenta, basta ver o que aconteceu com os poderosos Sarney.


A Folha de S.Paulo tentou derrubar o embargo, não conseguiu; meses depois a revista piauí contou a história toda (ver aqui) sem colocar em risco a privacidade de Sean e de sua família brasileira. Ao contrário, desvendava-se pela primeira vez a extensão de um drama que a superexposição só poderia agravar.


Censura nunca foi recurso inteligente, mais apropriado seria contrabalançar a xenófoba cruzada iniciada pela mídia americana clamando por respeito à intimidade de Sean.


A entrega no consulado do Rio foi evidentemente midiatizada pela família brasileira. Seu pai adotivo e seus avós maternos poderiam ter procurado as autoridades consulares para acertar procedimentos mais discretos. Aliás, prometeram que a ‘transição’ não seria traumática. David não se oporia, tanto ele como os seus sponsors da NBC não estavam interessados em badalações no Brasil, queriam faturar a chegada nos EUA.


Espetáculo canibal


A idéia de vestir o garoto com a camisa da seleção de futebol é prova cabal de um marketing emocional inadmissível. Aberrante. Sean foi preparado para ser fotografado e esta fotografia deveria tocar a alma brasileira: isto só acontece por meio do futebol em anos de Copa do Mundo.


Sean só poderá ser protegido se a parte sadia da imprensa americana (cada vez menor e menos atuante) criar uma onda para preservar sua privacidade. A mídia americana mais sensível – ou talvez a parte menos paranóica da blogosfera – tem condições para forçar David Goldman a controlar o seu narcisismo e também a sua ambição (desvendada pelo negócio com a NBC), obrigando-o a manter-se longe dos holofotes e dos flashes.


A sociedade americana e o judiciário americano têm condições de evitar este espetáculo sacrificial, esta canibalização emocional de uma criança. Alguém precisa acioná-los. Só a imprensa pode fazê-lo.


***


PS: Algumas estrelas do nosso jornalismo reclamam quando se fala em mídia como fenômeno ou como indústria. Não gostam da generalização, é compreensível: esmeram-se, transpiram, buscam ângulos, desenvolvem estilos personalizados, oferecem seus nomes e suas marcas. Não obstante, a generalização hoje é compulsória, inevitável. Articulistas diferenciam-se, mas as empresas de mídia abdicaram da sua vantagem patrimonial – a individualidade. Preferem homogeneizar-se. Ao invés da diferenciação, a mimetização.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 31/12/2009 Herman Fulfaro

    (3) Com a morte de Bruna configurou-se mais do que nunca a situação de seqüestro, de maneira que em setembro de 2008 a União requereu a busca e apressão de Sean com a finalidade de dar cumprimento à Convenção de Haia de 1980, passando o assunto, então, para o âmbito da Justiça Federal. A sentença de primeira instância foi passada em 01.06.09 e confirmação dela se deu por acórdão unânime do TFR da 2a. Região em 16.12.2009, transcorrendo, portanto, pouco mais de um ano do início do processo até o momento em que Sean foi entregue ao pai. É verdade que, por pouco, muito pouco mesmo, o Min. Marco Aurélio Collor de Mello não bota tudo a perder, mas em boa hora o super-ministro Gilmar Dantas entrou em ação e despachou o guri para as bandas de Tio Sam, ao lado do seu american dad.

  2. Comentou em 29/12/2009 Raimundo Portela

    Caro Dines, boas festas. Sem dúvidas o caso Sean foi um sequestro publicitário da NBC, autorizado pelo Sr. Gilmar Mendes, sem o mínimo cuidado na preservação dos direito elementares da criança, que deveria ser ouvida.
    Naquele ambiente Sean não vale nada, é apenas um produto do capital a ser explorado indefinidamente pela rede de tv americana e seu pai o intrumento de controle a ser utilizado.
    Enganaram a criança, de forma escandalosa, levando-o direto a um parque de diversão, nada menos que o berço da enrolação capitalista que a Disney.

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