Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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JORNAL DE DEBATES >

Liberdade de imprensa e publicidade enganosa

01/09/2009 na edição 553

‘Um dia depois de ter despejado de forma violenta 800 famílias em Capão Redondo, o governo de São Paulo (leia-se, governo Serra) tem a cara de pau de publicar um anúncio de uma página nos jornais divulgando a sua `política de habitação popular´’ (nota publicada no CMI – Centro de Mídia Independente).

Pela internet, é possível ainda ter acesso a algumas informações que a mídia brasileira nega aos seus leitores ou freqüentadores audiovisuais. É o caso da nota acima, que não foi divulgada pela imprensa. A nota virtual veio acompanhada de fotos de mais uma propaganda enganosa do governo de São Paulo (de José Serra). Acompanhando o título publicitário ‘Habitação popular no estado de São Paulo é assim: A gente faz. E faz bem feito’, vêm quatro fotos arrumadinhas de algumas pessoas que mostram sua ‘satisfação’ em receber moradia popular. A foto de cada pessoa ou família vem junto a um subtítulo: ‘Acredite; Sonhe; Respire; e Comemore’.

A nota da internet, por sua vez, traz, acompanhando os mesmos subtítulos, outras quatro fotos revelando a forma violenta com que a polícia estadual – de responsabilidade exclusiva do governador José Serra – promoveu o despejo de 800 famílias de Capão Redondo, entre tantos outros despejos criminosos, despejos determinados pela ‘justiça’ estadual. Nessas fotos, que contrastam com a publicidade oficial, aparecem: crianças desalojadas na rua (Acreditem); morador tentando salvar alguma coisa de seu barraco (Sonhe); fumaça das bombas de gás exalando no meio dos barracos (Respire); e povo aglomerado desalojado do seu abrigo (Comemore).

Além dessas propagandas enganosas, cheias de meias-verdades, os governantes têm ao seu dispor toda a cobertura da imprensa, com comentários dos mais elogiosos sobre suas ‘obras populares’. Enquanto para o povo restam comentários desairosos, tentando passar para a opinião pública que se trata de criminosos, de ‘invasores’, negando as informações mais importantes de que são pessoas e famílias inteiras injustiçadas por esta sociedade discriminatória. Injustiçadas pelas políticas públicas que satisfazem aos interesses do capital, pela concentração de rendas, pela sonegação dos seus direitos elementares, pela sonegação de impostos, comandada por uma elite econômica hipócrita e maquiavélica (no seu mau sentido).

Forças organizadas

A liberdade de imprensa é uma das grandes farsas que imperam no sistema burguês gerador e administrador desse capitalismo selvagem, que cria desigualdades brutais, miséria e a barbárie.

A imprensa, segundo as leis internacionais, é sempre uma concessão do Estado e deveria ser universal, isto é, concedida e aberta a todos os cidadãos. Mas está toda ela reservada para o mesmo capital. Seus ‘proprietários’ são participantes do mesmo capital, e por isto se torna elitista e sonega o direito à verdadeira expressão da vontade e das legítimas reivindicações populares. Uma mídia que seleciona suas notícias, sempre voltada para defender os interesses dos exploradores, mas que impede a veiculação de informações importantes de interesse do povo, sobretudo as geradas pela reação do movimento social que contesta os desmandos que são praticados neste país.

A prática da liberdade de imprensa no Brasil se compara ao exercício da política oficial: políticos eleitos pelo povo, tendo suas campanhas eleitorais financiadas pelos detentores das terras, dos bancos, das indústrias e do comércio, julgam-se donos do país, isentos de julgamentos dos seus crimes e com direito a praticar toda a sorte de bandalheira. Mas que não têm competência para governar segundo os interesses de toda a nação.

Assim é a prática da mídia no Brasil: tendo obtido a concessão, julga-se possuidora de todos os direitos, incluído o ‘direito’ de desinformar e corromper ideologicamente a opinião pública. De tal forma que, cada vez mais, se torna necessário um amplo trabalho de informações desenvolvido pelas forças populares organizadas, capaz de, com o tempo, despertar a consciência crítica do povo, animando-o a assumir as rédeas da condução do nosso país, determinando o que pode e o que não pode ser praticado pelos políticos e pelos meios de comunicação social. E, acima de tudo, se for o caso, cassar mandatos e concessões. Sem isto não haverá democracia para o povo.

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Metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da arquidiocese de São Paulo

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