Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > MORTE EM TEMPO REAL

Luz, câmera, Saddam!

Por Wagner Guerra em 09/01/2007 na edição 415

A imprensa mundial contava os últimos minutos para a virada do dia, não do ano. No momento, era a execução do ex-ditador Saddam Hussein, a grande despedida de 2006. A mídia colocou na cabeça em fechar o ano com chave de ouro, mostrando os últimos passos de Saddam no patíbulo. Armados de câmeras de todos os tipos, equipados com potentes sun guns, cinegrafistas norte-americanos e de outros países tiveram que dar passagem aos colegas árabes. Era o acordo selado na justiça, entre as duas nações.

Em curto espaço de tempo, a TV árabe Al Arabiya deixou o local, já com as valiosas imagens, para anunciar ao resto do mundo a morte do ex-ditador. A maioria duvidou que a execução já tivesse ocorrido, pois a mesma era esperada por todos nos primeiros minutos que sucediam às 6h do sábado (1 hora em Brasília). A CNN lançou a notícia em sua página na Internet e no plantão eletrônico da TV, citando, óbvio, a primeira fonte da informação.

Um jornalismo mais crítico

No Brasil, a Rede Globo repassou a informação da CNN aos telespectadores. Somente, no segundo plantão, a notícia, antes veiculada pela rede norte-americana CBS, foi confirmada oficialmente. Em seguida, outro plantão já mostrava imagens da CNN, com iraquianos fazendo o carnaval nas ruas de Bagdá. Ali, eu tive a certeza que Saddam estava morto, de fato.

Saddam foi sentenciado à execução sumária pela morte de 148 xiitas curdos, conhecido como o ‘Caso Dujail’, em 1982. A imprensa brasileira, ao invés de suitar o fato, com imagens e informações da CNN ou da Al-Jazira, deveria contextualizar melhor a notícia. Lembrar a todos que o número de vítimas de Saddam superou o índice de civis assassinados durante as ditaduras Milosevic e Pinochet e também o índice de inocentes do World Trade Center.

Apostaria ainda num jornalismo mais crítico e sugeriria uma comparação entre as atrocidades do ex-ditador iraquiano e da polícia paulista, quando 111 detentos foram, covardemente, assassinados no presídio do Carandiru. Apesar da baixa ter sido inferior, ninguém foi punido pelo massacre, muito pelo contrário, o episódio garantiu uma vaga de deputado ao coronel Ubiratan Guimarães na Assembléia Legislativa de São Paulo.

Notícia boa? Nenhuma

Outra vertente que deveria ser explorada na imprensa seria a própria sentença de Saddam – considerada justa aos olhos dos iraquianos. No entanto, ficam claros o absurdo do julgamento e a ilegitimidade pelo qual o processo foi conduzido. Entre setembro e outubro, segundo fontes da imprensa árabe, o número de mortos civis no Iraque, em confronto com soldados americanos foi de 7.054. Faz muito tempo que mortes no Iraque viraram apenas números e notícias desinteressante nos jornais.

Qual a boa notícia que virou com a morte de Saddam? Nenhuma. Foi sentenciado e condenado, mas isso não terá qualquer impacto positivo, de fato, no futuro do povo iraquiano. Ao contrário, ameaça um agravamento da guerra entre sunitas e xiitas e enraíza a necessidade da jihad no Oriente Médio. Mesmo com Saddam executado, os Estados Unidos continuarão sem saber o que fazer no Iraque. Os jornalistas correspondentes, idem.

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Jornalista, Campinas, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/01/2007 Ivan Moraes

    ‘Faz muito tempo que mortes no Iraque viraram apenas números e notícias desinteressante nos jornais.’: entao da proxima vez que porventura se ouvir falar que 50 cadaveres foram encontrados em Bagdad eh bom exigir dos jornais que informem os brasileiros que os revolveres usados sao revolveres brasileiros.

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