Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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JORNAL DE DEBATES >

Macaco volta ao circo da TV

Por Robson Terra em 09/06/2009 na edição 541

O chimpanzé de Caras & Bocas está ajudando no ibope da novela. Porém, a participação de animais em circos e espetáculos, garantia de casa cheia, está gerando noticiário desfavorável. Em Minas Gerais, a macaca Catarina foi recolhida pelo Ibama e não se apresenta mais no Circo Koslov. O chimpanzé da telinha continua ‘pintando o sete’ e um dublê cria os quadros… É curioso quando surge na telinha o animal que fazia a alegria do circo e que é estratégico para promover ares novos de celebração interna na emissora carioca.

Como escreveu Artur da Távola (1986), ‘o número com animais, glória tradicional do circo, é a atividade de signos ocultos e ricos. Há quem os condene pela imposição, aos animais, de ordens e determinações humanas, o que os humilha e subjuga. Outros verberam os métodos empregados para `ensinar´: com espetadelas e a técnica do castigo-recompensa.’ Mas são fascinantes para adultos e crianças. Outra referência exótica em Caras & Bocas vem com a personagem Anita – a personagem cega é clássica do folhetim e da indústria do cinema. Detalhe: a atriz é cega mesmo.

Programas femininos

A comparação entre esse dois signos ocultos e ricos pode remeter às estratégias de busca de audiência dos anos 1960 quando o popularesco de Dercy Gonçalves e Raul Longras invadia a telinha da TV. O grotesco da reprodução de elementos circenses na tela é, como afirmam os autores Muniz Sodré e Raquel Paiva ( 2002) em O Império do Grotesco, ‘a sensibilidade espontânea de uma forma de vida. É algo que ameaça continuamente qualquer representação (escrita, visual) ou comportamento marcado pela excessiva idealização. Pelo ridículo e pela estranheza, pode fazer descer ao chão tudo aquilo que a idéia eleva alto demais’. Ainda segundo os autores, ‘o cinema internacional e a televisão brasileira são pródigos em exemplos de escatologia – uma espécie de grotesco – com elementos referentes a dejetos humanos, ou partes baixa do corpo’.

Em alguns canais, os desfiles de lingeries promovem o close up generoso e inspirador para a solidão de fim de noite do Brasil. O Programa do Ratinho garante pontinhos preciosos na audiência com elementos risíveis e exposição de personalidades em situação limite, como a reportagem sobre as dificuldades financeiras do artista Tinoco, da dupla Tonico e Tinoco, que cantou a trilha sonora do Brasil romântico e sertanejo dos anos 1960. Os programas femininos da tarde trazem repertório de histórias dramáticas, humorísticas, indiscretas, mórbidas de artificial de sensação da justiça social.

De volta ao começo

Muniz Sodré (1972) é preciso quando diz que ‘o grotesco da TV brasileira é apresentado como signo do excepcional, como um fenômeno desligado da estrutura da nossa sociedade – é visto como signo do outro. A intenção do comunicador é sempre colocar-se diante de algo que está entre nós, mas que ao mesmo tempo é exótico, logo sensacional’.

Assim pode-se entender o sucesso do macaco, da cega, das atrações do Sílvio Santos, do Faustão, do Lata Velha, do Gugu, dos programas da tarde e início de noite, dos números circenses do quadro ‘Se vira nos trinta’, dos humorísticos no ar, dos programas de calouros que voltam com outros nomes como Garagem do Faustão ou Ídolos, das duplas caipiras na novela da seis e até no telejornalismo. E encerra: ‘É o espelho em que a sociedade se olha e se oferece como espetáculo.’

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Jornalista, professor universitário e mestrando em Comunicação e Tecnologia, Juiz de Fora, MG

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