Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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JORNAL DE DEBATES >

Manchete tendenciosa e alienada

Por César Fonseca em 03/02/2009

A manchete do jornal O Globo da quinta-feira (29/1), ‘Lula amplia Bolsa Família um dia após cortar orçamento’, induz o leitor a concluir que o programa social é mero gasto público sem vinculação com a economia e a crise que amplia o desemprego e, portanto, um ônus para a sociedade que, no ambiente de contenção de despesas, exigiria austeridade e corte de gastos, e não sua ampliação. Os comentaristas globais carregaram a mão sobre o assunto, enfatizando, pelo tom da apresentação da informação, ser a decisão inconveniente à luz dos acontecimentos cujos desdobramentos não são possíveis, por enquanto, de serem contidos em sua arrancada deflacionária autodestrutiva.

Correram os repórteres globais para escutarem a oposição. Seus oráculos pregaram prioridades – não falaram quais – e fim do desperdício. A manchete cumpria seu papel: caracterizar o programa Bolsa Família como um desperdício, criticado pela oposição, que já está em campanha para 2010, jogando contra o governo, incomodada por ele estar apertando os banqueiros, maiores anunciantes da grande mídia.

Pobre também mama um pouquinho

Na prática, a manchete global é pura alienação. Ora, se o pobre, que tem no seu cartão de crédito popular do programa Bolsa Família poder de compra para adquirir uma lata de óleo de soja, esta vai ser reposta na prateira do supermercado pela indústria, que comprará da agricultura, que irá ao comércio comprar máquinas, equipamentos e matéria prima etc. Movimenta uma cadeia produtiva. Ao mesmo tempo, o ato de consumir dos pobres gerará circulação de dinheiro e, conseqüentemente, imediata arrecadação aos cofres do Tesouro.

No ato de gastar do consumidor, o governo já começa a arrecadar 40%. Se a circulação abrange até cinco etapas – comércio, indústria, agricultura, serviços, transportes etc. –, e sabendo que em cada etapa entra no cofre do governo 40% (carga tributária em cima do contribuinte) de imposto, se ele joga 100 no Bolsa Família, o programa social restitui a ele 500, no máximo, ou 400, no mínimo. Onde está o desperdício? Keynes diria tranqüilamente: burrice global.

Na verdade, a grande mídia ainda não entendeu que o relativo desenvolvimento na Era Lula decorreu da opção lulista em matar a fome, com três refeições diárias, dos pobres, com moeda estatal jogada na circulação que gera arrecadação keynesiana. Antes, esse subsídio estatal ia exclusivamente para a elite, concentrando renda, mamando nas tetas oficiais. Agora, que o pobre mama também um pouquinho, emerge a chiadeira dos poderosos midiáticos vocalizando interesse dos credores que terão menos em forma de pagamento de juros. Em meio à bonança internacional, que em épocas anteriores, quando ocorreu, favoreceu a minoria, dessa vez melhorou a vida da maioria.

Estabilização da produção

A excessiva concentração da renda nacional, característica do modelo concentrador de renda e poupador de mão-de-obra, foi, sob Lula, melhor distribuída. Evitou perigosamente a insuficiência crônica de consumo, subconsumismo, como desenvolveu em sua tese de mestrado de economia o hoje governador tucano de São Paulo, José Serra.

O programa Bolsa Família garantiu barriga cheia, o que, segundo Fidel Castro, evita revolução. O consumo do pobre incrementou a indústria do rico. Evitou que os empresários caíssem na armadilha da perversidade do modelo econômico capitalista tupiniquim nos moldes neoliberais radicais. A concentração da renda nacional tornara a economia dominada pelo subconsumismo que levava sempre à formação de estoques, exigindo desvalorização cambial para exportar, cujo resultado final era hiperinflação, queda dos salários e aumento dos lucros, enfim, mais concentração.

O aumento do consumo interno, via melhor distribuição da renda, expressa no poder de compra popular inserido no cartão de crédito do Bolsa Família, no fortalecimento da merenda escolar etc., evitou formação de estoques, valorizou a moeda e diminuiu a inflação importada, enquanto perdurou a farra da economia dos países ricos regada pelos derivativos que ficaram tóxicos na bancarrota imobiliária e bloquearam o crédito mundial, jogando o capitalismo no imponderável.

Ora, se a crise aumenta o desemprego que reduz o consumo já afetado pela desaceleração global forçada pela escassez de crédito, o Bolsa Família revigorado para bancar o consumo não mais apenas dos pobres, mas também dos desempregados, que engordarão as filas da pobreza, mantido o ritmo violento das demissões, resultará em relativa estabilização da própria produção nacional, na medida do possível, claro.

Desconfiança global

O governo, gastando em programa social, estará gerando consumo, garantindo a produção industrial e sustentando a estabilidade do trabalho no ABC, por exemplo, onde gesta a insatisfação social, no ritmo deflacionário que vai destruindo, primeiro, os salários e, em seguida, o capital.

A manchete do Globo é totalmente antijornalística. Puramente ideológica, neoliberal, marginalista do século 19, esquizofrênica, girando na maionese, fora da realidade. Dá o discurso errado para a oposição que, sem discurso, está pegando qualquer porcaria.

E, quem sabe, o poder global pode estar sendo útil para o presidente Lula, embora simule querer destruí-lo.

Ou o tiro poderia sair pela culatra, se o Bolsa Família, engordado, para sustentar o consumo que está sendo destruído pelo avanço do desemprego, começar a esvaziar os estoques acumulados do setor privado.

A grande mídia, colonizadamente, está aplaudindo, sem restrições, o keynesianismo explícito do presidente eleito Barack Obama. A cobertura do Congresso americano está mais quente do que a cobertura do Congresso nacional, onde o PMDB terá, de agora em diante, José Sarney com cara de Ulisses Guimarães. Já relativamente a Lula o poder midiático impõe seguidas restrições, como se as finanças do governo americano não estivessem mil vezes piores do que as do governo brasileiro, cercadas de desconfiança global.

Insuficiência crônica de consumo

Getúlio Vargas, se vivo fosse, leria a manchete do Globo, coisa que Lula disse não gostar de fazer, deixando a tarefa para Franklin Martins, e concluiria: ‘Estou querendo ajudar esses capitalistas burros brasileiros e eles não estão entendendo’. Se o Bolsa Família não for acionado, o desemprego avançará incontrolavelmente e as barricadas urbanas serão levantadas, imediatamente, sinalizando guerra civil e emergência socialista. Os desempregados terão apoio dos miseráveis para fazer a revolução aplaudida pelos movimentos sociais latino-americanos em profusão, engordando a onda chavista continental.

Será esse o propósito inconsciente da manchete do Globo, para criar situação que fortaleceria o ambiente no qual o sistema global foi fabricado, no tumulto ideológico, favorável ao golpismo político, revivendo nostalgias fascistas sul-americanas?

A manchete do Globo demonstra que a inteligência global não percebeu que o Estado, como disse Malthus, é o complemento da demanda capitalista que não se realiza pelo setor privado, visto que sua lógica é a de promover, no capitalismo, crônica insuficiência de consumo, de um lado, e sobre-acumulação de capital, de outro, como diz Marx em O Capital.

Cegos em tiroteio

Roosevelt é endeusado pela grande mídia por ter mandado plantar cactos no deserto de Tennessee como forma de gastar para gerar consumo e arrecadação para o governo investir, mas se Lula faz a mesma coisa com o Bolsa Família é bombardeado como promotor do desperdício. Medidas anticíclicas não podem ser adotadas pela periferia capitalista, apenas pelo capitalismo cêntrico.

O fato é que, como diz Lauro Campos em A crise da ideologia keynesiana (Campus, 1980), um clássico da economia política, o Estado é capital. O dinheiro estatal na economia monetária, que substituiu o padrão-ouro do século 19 para salvar o capitalismo da crise de 1929, movimenta a circulação e eleva a arrecadação. Até quando, ninguém sabe, pois as variáveis são infinitas e os limites sempre são elásticos.

Como representa desperdício o jogo lulista-roosevelteano-keynesiano, se, na circulação, o capital estatal arrecada 40% de imposto, que vai proporcionar investimentos públicos e consumo para bancar o setor privado, que está afogado na falta de demanda, em meio à derrocada global?

A incompreensão da grande mídia relativamente ao papel dos programas sociais, na Era Lula, de estabilizador do poder da própria burguesia nacional, eternamente falida nos cofres do BNDES, é dada pelo vício do pensamento mecanicista midiático que raciocina como se a realidade fosse a priori dada por modelos matemáticos, sem perceber que a matemática, como disse Hegel, se realiza no exterior da realidade, não podendo, pois, determiná-la.

Na prática, os programas sociais, na fase do capitalismo em que o emprego acabou, como destaca Jeremy Rifikin em O fim dos empregos, são os bombeadores do consumo dos que ficaram excluídos socialmente. Como ainda lhes resta uma função essencial sob o capitalismo, ou seja, a de consumir, pois os pobres consomem, na medida em que tal consumo for assegurado, a insuficiência de consumo, que tende a destruir o capitalismo, como reconheceu Malthus, estaria arrefecida, salvando o próprio sistema.

Mas, vai tentar colocar essa dialética na cabeça global… Perdidos como cegos em tiroteio, os globais tentam adicionar mais neoliberalismo ao fracasso neoliberal explícito. Inteligência global é isso aí.

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Jornalista, Brasília, DF

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