Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Manifesto dos Sem-Mídia vira ONG

Por Eduardo Guimarães em 16/10/2007 na edição 455

Há cerca de um mês o Observatório da Imprensa publicou o Manifesto dos Sem-Mídia, escrito por mim para ser lido em ato que o Movimento que idealizei realizou diante do jornal Folha de São Paulo no dia 15 de setembro. As pessoas que compareceram a esse ato foram convocadas por meio do blog que mantenho na internet, o Cidadania.com.

Durante alguns dias, houve grande repercussão na internet e quase nenhuma na grande imprensa. Só não posso dizer que não existiu repercussão alguma porque o jornal Folha de São Paulo publicou que diante de sua sede ocorreu o ato do Movimento que encabeço. A publicação ocorreu no dia seguinte àquele em que aconteceu a primeira ação do MSM. A notícia, porém, foi ‘escondida’ pelo jornal numa notinha ao pé de reportagem dez vezes maior sobre manifestação do mesmo porte que ocorreu no mesmo dia (15/09) na avenida Paulista, em São Paulo.

A manifestação que recebeu atenção e destaque do jornalão paulista, claro que interessava politicamente a um veículo que, como todos os outros grandes meios de comunicação, trava uma virulenta queda-de-braço com o agora presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros. O protesto contra o travesti midiático (partido político travestido de imprensa) da vez, a Folha, obviamente que não interessava a ela. Então a escondeu, o que levou seu ombudsman a fazer-lhe a seguinte crítica dois dias depois do ato do MSM:

‘Mário Magalhães – Ombudsman da Folha de São Paulo – Crítica Interna de 17/09/2007

‘Sem-mídia’

A reportagem ‘Em São Paulo, protesto contra absolvição de Renan reúne 200’ (pág. A6 do domingo, 16/09) contou no pé, em 15 linhas, que na véspera houve uma manifestação diante da sede da Folha. Promoveu-a o ‘Movimento dos Sem Mídia’.

Foi protocolado na portaria do jornal um manifesto ‘endossado por cerca de 190 pessoas’. Por que a reportagem não informou qual o conteúdo do manifesto?

Quem participa do movimento?

Havia faixas no ato, como na manifestação contra Renan? Se havia, o que diziam?

Em espaço noticioso, não cabe ao jornal ser contra ou a favor da mobilização, mas apenas reportar.

Os leitores precisam de informações para formar opinião.

Na reportagem de domingo, foi isso que faltou: informação.’

No dia da primeira manifestação do MSM, foi entregue à Folha de São Paulo um manifesto de sete laudas, o mesmo que o Observatório da Imprensa publicou na semana em que tal manifestação ocorreu. Eu mesmo dei entrevistas a veículos da mídia alternativa como, por exemplo, o site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, à revista Caros Amigos, à Revista Imprensa (sobre a qual falarei mais adiante), à Agência Carta Maior e a vários outros. Isto sem falar que uma jornalista da Folha acompanhou o ato, minuto a minuto, até que terminasse.

Cobertura sem perguntas

A jornalista em questão é Cátia Seabra. Ela não me fez nenhuma pergunta. Limitou-se a acompanhar a manifestação, e bem de perto. Ouviu, ao vivo e à cores, cada palavra do Manifesto dos Sem-Mídia. Inclusive, eu lhe franqueei a palavra para que contradissesse aquilo que estava sendo dito sobre seu jornal e sobre outros grandes meios de comunicação. Ela recusou.

Não me parece absurdo dizer que não faltou apenas informação na Folha, como disse seu ombudsman. Faltou, também, vontade do jornal de informar seus leitores. A Folha teria todas as condições de publicar o Manifesto que escrevi e contradizê-lo ponto por ponto.

O Manifesto em questão é um texto do qual se pode discordar, mas quem o leu, se for intelectualmente honesto, não pode acusá-lo de não conter argumentos, de não citar, muito explicitamente, as razões mais do que concretas que alegamos para promover a manifestação pacífica e civilizada que promovemos e que foi acompanhada pela mesma Polícia Militar que avisamos que o ato ocorreria com antecedência de vários dias antes que ocorresse por meio de ofícios enviados à PM, à subprefeitura da Sé, à Polícia Civil e ao Detran por um dos advogados filiados ao Movimento dos Sem-Mídia.

Somos ou não somos sem-mídia? Nem quando reunimos cerca de 200 pessoas diante do maior jornal do país conseguimos ter nossas razões noticiadas pela grande imprensa.

Nos dias posteriores à Manifestação, voltei à Alameda Barão de Limeira, onde fica a Folha, e perguntei a comerciantes do local se buscaram, naquele jornal, notícias sobre o que ocorreu sob suas barbas. Das cinco pessoas com quem falei, todas compraram a Folha no dia seguinte ao da Manifestação. Dentre essas pessoas, só uma achou a notinha. E quatro dessas pessoas acharam incompreensível o que supuseram ser uma não-divulgação do ato devido à divulgação que ocorreu ter sido microscópica. Só uma pessoa achou que o veículo deveria ter feito o que fez. A maioria esmagadora das pessoas que trabalham no entorno da Folha, e que entrevistei, acharam o mesmo que o ombudsman do jornal.

A conduta da Folha indignou àqueles que estiveram diante do veículo queixando-se da mídia e dizendo-se tão sem-mídia quanto eu me digo, mas conferiu força aos nossos argumentos. Assim, propus aos leitores do meu blog – e àqueles que estavam chegando a ele por conta da mídia alternativa – que fosse criada uma ONG (Organização Não Governamental), o Movimento dos Sem-Mídia, que pretende, além de promover novas manifestações, fazer palestras em escolas, universidades, sindicatos, associações de moradores de bairros, criar um veículo impresso – de periodicidade ainda indefinida – e um site e até fazer representações junto ao Ministério Público sobre condutas da mídia que os sem-mídia consideramos ilegais, tais como o uso da mídia eletrônica para veicular opiniões políticas e ideológicas de determinados segmentos da sociedade em detrimento – por censura – de opiniões opostas.

Fundação da ONG

No último sábado (13/10/2007), dezenas de leitores do meu blog, que agora já estão na casa do milhar, atenderam minha convocação de se juntarem a mim na criação da ONG Movimento dos Sem-Mídia e compareceram a uma Assembléia que promovi num auditório em São Paulo, alugado graças a centenas e centenas de contribuições de R$ 20 que pedi para financiar a criação dessa ONG. Nessa Assembléia, foi eleita uma diretoria e eu mesmo fui eleito presidente da ONG. A chapa única à diretoria executiva do MSM foi eleita por aclamação, unanimemente, e os passos legais necessários à sua criação jurídica já estão sendo dados.

Como se poderia esperar, no entanto, as reações já começaram. Um veículo chamado Portal Imprensa, que também é a Revista Imprensa, órgão ao qual dei entrevista por telefone quando da manifestação diante da Folha, divulgou uma notícia inverídica, apesar de a sua repórter que me entrevistou, Cristiane Prizibisczki, ter informações suficientes para saber que a notícia que publicaria seria falsa.

Alguns dias depois da manifestação diante da Folha, fui procurado por uma assessora do ex-ministro José Dirceu convidando-me a publicar um artigo no site dele falando sobre o Movimento dos Sem-Mídia. Não conheço José Dirceu nem qualquer outro político, mas aceitei imediatamente, contrariando amigos, dentre os quais, jornalistas, que me disseram que, se eu não escrevesse o artigo, não desagradaria a ninguém além de a Dirceu, mas que, se escrevesse, desagradaria a uns e agradaria a outros. Ora, seria um contra-senso alguém que se diz sem-mídia recusar uma mídia importante e polêmica como o site de um político famoso. Contudo, impus uma condição à assessoria do ex-ministro: eu não lhe faria qualquer defesa e deixaria muito claro que não tenho argumentos para julgar as acusações que lhe foram feitas. A condição foi aceita, escrevi o artigo e ele foi publicado.

Dias depois, o Portal Imprensa, ao qual já me referi, publicou, em seu site, matéria contendo a seguinte manchete: ‘José Dirceu encabeça Movimento dos Sem-Mídia‘. A matéria foi assinada pela mesma repórter que me entrevistou pelo Portal / Revista Imprensa, Cristiane Prizibisczki, que sabia muito bem que o José Dirceu não encabeçava o MSM coisa nenhuma, até porque eu disse a ela, na entrevista que lhe concedi por telefone, que eu nunca tinha tido relação com político nenhum. E note-se que o artigo que escrevi para o site de Dirceu deixava isso bem claro, bem como minha independência e alegada incapacidade de julgar seus atos.

O conselheiro da diretoria do MSM, Antonio Arles, eleito pela Assembléia do último sábado, enviou e-mail ao Portal Imprensa reclamando da manchete falsa e, assim, ela foi alterada para ‘José Dirceu convoca internautas a apoiarem Movimento dos Sem-Mídia’. Contudo, quem escreveu a matéria foi quem me entrevistou e esta pessoa sabia muito bem, ponto por ponto, das raízes, razões e origens do Movimento. O que concluir da conduta dessa pessoa e do veículo para o qual trabalha?

Quem ainda não tinha entendido as razões da criação do Movimento dos Sem-Mídia, agora tem subsídios mais do que suficientes para entender e, se for intelectualmente honesto, até para endossá-las. Estou certo?

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Eduardo Guimarães é presidente do MSM

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