Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CHÁVEZ

Manipulação da informação é rotina

Por Mário Augusto Jakobskind em 04/10/2005 na edição 349

A grande mídia nacional está cada vez mais conservadora, chegando ao ponto em certas ocasiões de deixar cair a máscara de forma primária. O exemplo mais recente ocorreu na semana que findou. Antes mesmo de o presidente Hugo Chávez Frias desembarcar em Brasília para participar de uma reunião com dirigentes sul-americanos, O Globo dava destaque a uma ‘informação’ segundo a qual a Venezuela tem mais pobreza agora do que antes da eleição do atual presidente em 1998, apesar do petróleo.

Esta conclusão não resiste à mínima análise, embora a ‘notícia’ tenha supostamente se baseado em dados das Nações Unidas. Trata-se de uma mentira ou no mínimo uma meia verdade, com base na manipulação das estatísticas.

O governo Chávez conseguiu em pouco tempo reverter a tendência da utilização dos recursos provenientes da exportação do petróleo. Hoje, esses recursos estão voltados para atender às classes populares. Há pouco tempo, uma dessas tais colunistas amestradas chegou até a chamar Chávez de ‘populista’ por transferir os lucros da PDVSA para as classes populares.

Na época anterior a Chávez, o que O Globo não informa é que o dinheiro do petróleo ia para os bolsos de poucos. Os governos social-democrata e social-cristão que se revezaram no poder durante 40 anos deixaram como herança uma maioria absoluta de pobres, que não recebia nenhum tipo de benefício estatal. Há até ex-presidentes que vivem no exterior porque se voltarem terão que responder na Justiça por crimes contra o erário, haja vista Carlos Andrés Pérez e Jaime Lusinchi.

Herança maldita

A partir da gestão Chávez, essa tendência mudou. Não foi possível ainda reverter o quadro de concentração de renda predominante nos 40 anos de administração de dois partidos corruptos, a Ação Democrática (social-democrata) e o Copei (social-cristão). Nos últimos sete anos, ou seja, a partir da primeira eleição de Chávez, os pobres e marginalizados tiveram oportunidade de se tornar cidadãos. O povo se politizou e ganhou consciência de que é possível mudar uma situação que era antes considerada definitiva, ou seja, a de que o único destino dos pobres e marginalizados era o da penúria. Naturalmente, para fazer avançar o processo de mudança, o governo venezuelano desagradou aos setores poderosos que imaginavam que continuariam mantendo seus privilégios, em detrimento da maioria do povo, eternamente.

Mas a conclusão de O Globo não passa por aí. Seus ideólogos, ou melhor, editores, preferem ficar apenas na superfície. Pegam estatísticas com análises discutíveis, isto é, com critérios que interessam, isto sim, ao mercado e ao pensamento único. Colocam (ou será plantar o termo correto?) nas páginas dos jornais pura e simplesmente ‘que o número de pobres aumentou’. Esqueceram também de dizer que não se distribui renda da noite para o dia ou com uma varinha mágica ‘made in The Globe’.

Os governos anteriores, que O Globo afirma eram de um tempo com ‘menos pobreza que hoje’, deixaram verdadeiramente uma herança maldita: pobreza, miséria, analfabetismo, violência, corrupção, desagregação do tecido social etc. Inverter esse quadro passou a ser, de fato, uma tarefa revolucionária. A distribuição de renda é uma das metas da Revolução Bolivariana que a Venezuela está empreendendo.

Antichavismo primário

Como se sabe, em várias ocasiões os setores que perderam privilégios tentaram impedir o avanço das reformas necessárias para mudar o quadro produzido pelos anteriores governos. Contaram essas forças durante todo esse tempo com o apoio externo, inclusive muitos dólares desembolsados pelo Departamento de Estado norte-americano.

A mídia conservadora da Venezuela e do continente latino-americano, representada por órgãos de imprensa tipo O Globo ou vinculados ao empresário Gustavo Cisneros, cumpre o papel de manipulação da informação. Neste momento, onde quer que Chávez apareça, esse esquema é acionado, na base de mentiras e/ou meias verdades.

O Globo chegou a publicar editoriais afirmando, com base em premissas falsas, que ‘Chávez fracassa’, e fazer críticas a Lula porque o presidente brasileiro afirmou que a Venezuela tem muita democracia. Em seguida aos editorais, colunistas amestrados serão acionados para reforçar o antichavismo primário, para satisfação do Departamento de Estado norte-americano.

Vitória de Al Gore

Nesta rotina midiática, que já não consegue enganar tanta gente como antes, Chávez foi novamente criticado, desta vez com base no fato de o presidente venezuelano simplesmente ter cobrado maior discussão dos presidentes sobre as bases da integração sul-americana. Os jornais, movidos a pensamento único, chamaram Chávez de ‘intransigente’ e outros adjetivos do gênero. Quer dizer, quem questiona o neoliberalismo e alerta para o fato de a unidade dos países não poder se dar apenas pelo comércio é intransigente. Para a mídia conservadora, o que vale é o oba-oba manipulativo do pensamento único. Ah, sim, e o mercado.

Não foi à toa que o Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) aprovou recentemente moção apresentada pela Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da entidade alertando os profissionais de imprensa de todo o país a ficarem atentos para não se deixarem envolver pelo esquema de manipulação de informação relacionado ao noticiário sobre a Venezuela, que muitas vezes atende a interesses espúrios.

Ah, sim, em vez de desinformar sobre a Venezuela, a mídia faria melhor se analisasse outros fatos ocorridos nos últimos dias, como o pronunciamento de um ex-presidente estadunidense em relação à primeira eleição de George W. Bush. Jimmy Carter, que tem se especializado em fiscalizar eleições em várias partes do mundo, com o Centro Carter, afirmou há poucos dias na American University de Washington, ao responder a pergunta de um estudante, que Al Gore ganhou as eleições presidenciais de 2000, tanto em votos a nível federal como no que se refere ao estado de Florida. Carter e outros apresentaram recentemente uma avaliação do sistema eleitoral estadunidense recomendando uma série de reformas para garantir a segurança da votação.

A maior ironia

Faria também melhor a mídia se informasse que os Estados Unidos se recusaram a extraditar para a Venezuela o terrorista Posada Carriles, que está preso por entrar ilegalmente no país de Bush. A alegação foi de que a República Bolivariana da Venezuela não respeitaria a integridade física do responsável pela explosão, em 1976 (nos céus da Venezuela), de um avião da Cubana de Aviação que levava cerca de 80 passageiros, a maioria jovens atletas que voltavam de uma competição em Barbados.

Na justificativa para negar o pedido de extradição deste criminoso, o Departamento de Estado falou até em Cuba, que, por sinal, não fez nenhum pedido relacionado com o caso. Carriles foi condenado pelo crime que cometeu, mas conseguiu fugir, com ajuda da CIA, de uma prisão venezuelana.

A maior ironia nesta história é o fato de que o governo Bush alega preocupação com a ‘integridade física’ de Carriles, oficialmente um assassino, mas comete uma série de violações dos direitos humanos na base de Guantánamo contra centenas de prisioneiros provenientes do Afeganistão e outros países, sem as mínimas condições legais. Isso, para não falar do que vem acontecendo no Iraque.

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