Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Mãos limpas e cabeça no lugar

Por Alberto Dines em 04/11/2006 na edição 405

Ao afirmar que o Brasil precisa de uma ‘Operação Mãos Limpas’, o presidente reeleito reconhece que há muita gente com as mãos sujas. Ao declarar guerra à corrupção e à impunidade, Lula valida a certeza de que ambas existem. Ao admitir um ‘golpe duríssimo’ com o envolvimento de petistas nos escândalos, e ao reconhecer que a reforma política não resolverá tudo, o chefe da nação confirma que a bandalheira localiza-se exatamente nesta esfera.


Entre outros méritos, a entrevista do presidente a três importantes jornais europeus oferece um certificado à imprensa brasileira e não apenas pelo conjunto de admissões, mas, principalmente, porque se absteve de repetir a cantilena acusatória dos palanques contra o ‘golpismo’ da mídia.


O ministro e presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, pode ter razão quando reclama da mídia a utilização do termo ‘mensalão’ (introduzido, ao que consta, pelo ex-aliado do governo, Roberto Jefferson). Os pagamentos aos deputados não eram mensais e, em alguns casos, sequer periódicos. Mas aconteceram, foram numerosos, semelhantes e inequivocamente ilícitos. Não vinham do governo, mas dos empréstimos bancários avalizados pela direção do PT ou de fornecedores das agências do lobista Marcos Valério.


Síndrome idêntica


O Dossiê Vedoin não foi fabricado pela mídia brasileira, foi fabricado pelos ‘aloprados’ (a expressão é do próprio presidente) para ser divulgado pelo semanário IstoÉ precisamente na véspera das eleições e, assim, prejudicar o então candidato ao governo paulista, José Serra. O vilão nesta história não é a imprensa brasileira como instituição, mas uma publicação cuja disponibilidade para acolher dossiês e contrabandos informativos foi determinante para articular a conspiração.


Deslizes e irresponsabilidades foram cometidos pontualmente (também registradas no caso Watergate), mas a imprensa brasileira não pode ser colocada no banco dos réus já que a denúncia, investigações e providências a respeito do ‘dossiêgate’ partiram da Polícia Federal. Jornais e jornalistas não poderiam ignorá-las. Neste caso, sim, estariam sob suspeição.


A atual onda antimídia ganha proporções de verdadeiro linchamento. Como qualquer estouro da boiada ou quebra-quebra, não aconteceu por acaso. Alguém a iniciou. A doideira grupal não pode ser atribuída ao demônio, começa a partir de uma doideira individual que rapidamente aciona os núcleos de insanidade que todos possuem em diferentes graus. Os ‘aloprados’ referidos pelo presidente Lula sofrem da mesma síndrome que ataca os militantes encapuzados da nova Ku-Klux-Klan.


Desvario político


O demente Adolf Hitler foi o intérprete e vocalizador de uma demência coletiva. A ‘banalidade do mal’ referida por Hannah Arendt só é encontrada em grupos onde vige a lei do vale-tudo. A diabolização da mídia nos palanques eleitorais não aconteceu uma vez – foi repetida, multiplicada até que aparecessem os aprendizes de feiticeiros conhecedores das técnicas para iniciar badernas, mas incapazes de evitar suas vítimas fatais.


Os empastelamentos de jornais – uma das nódoas da nossa história política – repete-se agora na Era Digital com empastelamentos virtuais e nem por isso menos violentos e covardes. A mídia precisa ser observada e criticada como todos os setores da sociedade, mas não pode ser convertida em bode expiatório. Sem uma imprensa livre de intimidações, os escândalos continuarão a ser fabricados nos desvãos da política.


O inimigo da humanidade é o fanatismo. Agora mais do que nunca. O desvario político é tão desumano quanto a intolerância religiosa. Por isso, as mãos só podem ficar limpas, como quer o presidente Lula, quando o juízo for encontrado e as cabeças voltarem ao lugar.

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