Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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JORNAL DE DEBATES >

Marcelo Beraba

22/08/2006 na edição 395

‘O PCC seqüestrou em São Paulo, no sábado retrasado, dois funcionários da TV Globo. A emissora foi obrigada a colocar no ar um vídeo com propaganda e reivindicações da organização para evitar que matassem o repórter Guilherme Portanova. Ele foi solto no domingo à noite. Algumas observações.

O seqüestro

A principal discussão que ficou foi a respeito da decisão da Globo de atender às exigências dos seqüestradores. A emissora agiu certo ao exibir o vídeo? A maioria das manifestações que li foi de apoio.

Entre as vozes discordantes, destaco duas da Folha: os colunistas Elio Gaspari e Bárbara Gancia. Gaspari defendeu que as empresas jornalísticas ‘devem responder à bandidagem com um regime de tolerância zero’ e sugeriu que, havendo o risco de novos seqüestros, elas deveriam anunciar que têm contratos de seguro de vida para todos os seus funcionários.

Gancia defendeu que a Globo deveria ter deixado que a Secretaria de Segurança esgotasse as possibilidades de negociação antes de ceder e propôs o que chamou de ‘solução radical’: que todos os jornalistas assinem um manifesto proibindo a exibição de vídeos ou a publicação de textos caso sejam seqüestrados.

Na minha opinião a Globo fez o que deveria ter feito: colocou o vídeo no ar e noticiou exaustivamente o episódio e as razões pelas quais optou por acatar as exigências dos seqüestradores. Acho que agiu com responsabilidade. Embora tenha concessão pública, é uma empresa privada e tinha dois funcionários nas mãos de bandidos que desde maio desafiam as forças policiais do Estado e já provaram que são capazes de qualquer tipo de crueldade.

Gaspari e Gancia têm razão em relação a um ponto: foi criado um grave precedente. Todos devemos ter consciência do tamanho do problema, agravado pela comprovada incapacidade do Estado, até este momento, de controlar a situação.

E acho que ficou demonstrado para os jornalistas e as empresas jornalísticas que o episódio comoveu mais a sociedade pelo drama que o repórter viveu do que pela compreensão de que os bandidos teriam atingido uma instituição da democracia, a imprensa. Várias notas e declarações nossas tinham ranço corporativo. Não deve ser sem razão que a sociedade tem dificuldades para perceber o papel institucional dos meios e o valor da liberdade de imprensa.

A cobertura policial

As empresas jornalísticas estão cobrando, com razão, políticas de segurança pública eficazes dos governos e dos candidatos. Mas deveriam repensar a cobertura que fazem de violência e criminalidade. Não no sentido de adotar mais restrições ou censura, mas no sentido de qualificação profissional.

O jornalismo outrora dito policial melhorou, é um fato. Fazemos hoje uma cobertura de crimes e violência melhor do que fazíamos há 30 anos. A imprensa evoluiu para um jornalismo que tenta entender os fenômenos sociais que cercam as explosões de violência e criminalidade; evoluiu para uma relação mais profissional (menos promíscua) com as fontes policiais; e está preocupada (o que não significa que esteja tendo êxito) em não glamourizar o crime, as organizações criminosas e os bandidos.

Mas não deu o salto de conhecimento que outras áreas do jornalismo foram obrigadas a empreender por conta das exigências dos leitores e do próprio patrimônio de credibilidade dos meios – como foram os casos dos jornalismos econômico e científico.

O problema hoje não é falta de fontes ou falta de informações, embora também sejam problemas. É um problema de falta de conhecimento sobre o assunto.

Não são só os políticos que parecem perdidos. É evidente o despreparo dos meios jornalísticos para tratar de questões complexas como política de segurança. Não estamos mais disputando quem chega primeiro ao local do crime, mas estamos desafiados a entender e a avaliar as políticas públicas. Sem conhecer política de segurança fica difícil questionar os governos e os políticos. Sem conhecer os procedimentos que deveriam orientar a ação das polícias fica difícil questioná-las.

Está evidente que São Paulo, Rio e Minas implementaram, nos últimos 12 anos, políticas de segurança pública distintas. Que políticas foram essas? Acertaram? Erraram?

A Folha, e vale para os outros meios, não havia conseguido fazer até sexta-feira um estudo aprofundado do que foi a política de segurança pública em São Paulo na década em que o Estado esteve governado pelo PSDB, e isso apesar da crise que vem desde maio.

A falta de conhecimento nos leva a aceitar como verdadeira qualquer informação, sem que tenhamos condições discuti-las. Clóvis Rossi apontou para o problema na coluna de domingo passado, ‘O satélite mágico’. Para se livrar dos jornalistas, representantes dos governos federal e de São Paulo divulgaram que o Exército cooperaria com a polícia paulista ‘sobretudo com a utilização de satélites para a localização de células do PCC e interceptações telefônicas’, segundo a Folha. Rossi fez a pergunta que o jornal não fez: ‘Como se localizam, por satélite, células do PCC?’

Não há questionamento técnico porque falta conhecimento. E não é um problema exclusivo dos políticos e dos jornalistas. A impressão que tenho é que as universidades também ainda não elegeram o tema como prioritário, vide a lista diminuta e repetitiva de ‘especialistas’ (os de sempre, como em ‘Casablanca’) ouvidos pelos meios a cada crise.’

***

‘Normas editoriais’, copyright Folha de S. Paulo, 20/08/06.

‘As coberturas do seqüestro dos dois funcionários da TV Globo mostraram como as empresas jornalísticas têm orientações diferentes em relação a alguns temas.

Há cerca de quatro anos os veículos das Organizações Globo não citam os nomes dos comandos do narcotráfico que agem no Rio, como CV ou ADA, por entenderem que assim evitam glamourizar e dar status às quadrilhas. A norma agora é aplicada ao PCC no noticiário de São Paulo.

A Folha entende, segundo a secretária de Redação Suzana Singer, que ‘omitir a sigla seria distorcer a realidade, brigar com a notícia. Tomamos cuidado, porém, para evitar qualquer tipo de glamorização dos criminosos’.

A Folha só divulga seqüestro em andamento se houver consentimento da família do seqüestrado. Segundo o ‘Manual da Redação’, ‘em regra, a Folha publica tudo o que sabe. Mas pode decidir omitir informação cuja divulgação coloque em risco a segurança pública, de pessoa ou de empresa’. No caso, ela publicou no domingo o nome do repórter depois de obter o consentimento da mãe, mas omitiu o do técnico, por não ter conseguido fazer contato com a família.

A Rede Globo tem outra norma: ‘Todo seqüestro será noticiado. Nenhum pedido de sigilo será atendido’. Mas é proibido mencionar o valor do resgate e informações sobre o patrimônio.

As duas empresas têm a mesma justificativa: a segurança dos seqüestrados. Uma acha que, quanto mais divulgação, mais chance de garantir a vida da vítima. A outra, que a divulgação imprudente de uma informação pode colocar a vítima em risco.’

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