Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > FOLHA DE S. PAULO

Mário Magalhães

24/07/2007 na edição 443

‘Quando o Airbus da TAM explodiu no costado do aeroporto de Congonhas no começo da noite da terça-feira, deixando um rastro de mortes e uma herança de dor, na maior tragédia da aviação nacional, os jornais estavam a poucas horas de concluir suas primeiras edições.

A Folha passou a circular com um caderno especial. Nas críticas diárias, comentei-o à exaustão. Originalmente endereçadas à Redação, as críticas há alguns anos podem ser lidas sem restrições em www.folha.com.br/ombudsman.

Na quinta, escrevi 31 notas, das quais 14 seguem abaixo. As outras estão na internet, bem como os comentários da véspera, quando incentivei a abordagem plural das hipóteses para a causa do desastre. ‘Não cabe à Folha sentenciar’, defendi.

A crítica diária tem menos fôlego jornalístico que a coluna de domingo. Composta a quente, está mais sujeita a erros. Também se pretende uma contribuição para o jornal do dia seguinte ser melhor que o da véspera. Quase sempre foca os defeitos e elenca sugestões. Na quinta, relacionou uma quantidade inusual de elogios.

Muitas observações logo são superadas, como se pode constatar nos exemplos que selecionei para mostrar hoje no papel o que faço (quase) todos os dias na internet. Na semana que vem, publicarei um balanço da cobertura.

O horror, o horror

Os leitores da edição São Paulo da Folha, concluída à 0h40, talvez tenham recebido hoje [quinta-feira] a melhor cobertura da tragédia em Congonhas.

Além da introdução de notícias ausentes na edição Nacional, como ‘Peritos detectaram fumaça, afirma presidente da Infraero’, houve outras mudanças -quase sempre para melhor- em comparação com o jornal fechado às 21h30. Por exemplo, em vez de narrar o resgate nas págs. C2 e C3, dedicá-las à apuração das causas do desastre.

Um dos pontos altos foi a capa, comum às duas edições, do caderno especial. Nome por nome dos mortos, o registro taquigráfico do horror.

Houve problemas, e não poucos, como observo a seguir. Mas as árvores (erros e deficiências) não devem ocultar a floresta (o bom trabalho).

As causas

À medida que novas informações reforçam indícios sobre as causas do acidente, nunca é demais sublinhar: eventualmente, pode haver combinação de vários fatores (falha do avião, erro humano e condições da pista).

Mesmo que a pista não tenha contribuído para o desastre, é legítima e urgente a investigação jornalística sobre ela e a segurança do aeroporto.

Afirmação sem provas

A chamada da manchete (‘Mortes de tragédia chegam a 192; Infraero cogita falha mecânica’) faz a seguinte afirmação, repetida no caderno especial: ‘No segundo terço da pista, [o avião] acelerou’.

Não há dados que sustentem tal certeza. O que se sabe é que o Airbus-A320 passou pela pista de Congonhas a uma velocidade maior do que a de aterrissagem. Isso se pode bancar.

Que a partir de certo ponto acelerou, (ainda) não.

Ainda sem provas

Ao contar o acidente quadro a quadro na pág. C3, afirma-se: ‘Vozes de dentro da cabine da tripulação do avião dizendo ‘vira, vira, vira agora’ são escutadas por controladores da torre de controle’.

Na pág. C2, contudo, o jornal lembra a hipótese ‘de que os gritos tenham partido de tripulantes de outra aeronave que, ao ver a manobra inesperada e trágica do Airbus, tenham involuntariamente [sic] gritado ‘vira, vira’, numa espécie de torcida para que o avião escapasse ileso […]’.

Fontes diversas testemunham ter ouvido os gritos. Mas ainda não é possível ter certeza de onde eles partiram.

A voz dos leitores

Dezenas de leitores escreveram ao ombudsman opinando sobre o artigo de Francisco Daudt, colunista da Folha, cuja chamada na primeira página é ‘O nome certo do que ocorreu em SP é crime’.

Até a conclusão desta crítica, a ampla maioria o condenou com veemência. Um leitor se disse ‘enojado’.

Houve leitores que o elogiaram. Um deles afirmou se ‘sentir com a alma lavada’.

Padronizar o horário

Depois dos horários diferentes citados ontem, a Folha fixa hoje 18h50 como o instante do choque.

Sugiro mudança: o vídeo de Congonhas que exibe a aterrissagem fracassada do Airbus da TAM registra o horário de 18h51 (pelo menos foi o que tive a impressão de ver na TV).

Detalhe? Pode ser. Nos eventos de relevo histórico, porém, se recomenda zelar ainda mais pela precisão.

Faltou dizer

A Folha acerta em comparar o índice de acidentes aéreos nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso.

Faltou, no entanto, um item: o número de desastres e mortes em proporção ao de passageiros. Nesse caso, a desvantagem funesta do presidente Lula pode ser superada pelo antecessor.

Triste confronto.

Também faltou dizer

A boa reportagem ‘Pista foi liberada após lobby de empresas’ (pág. C11) afirma: ‘Dirigentes da Infraero e da Anac já mencionaram a existência de lobby de autoridades que não aceitariam se deslocar até Guarulhos para embarcar’.

Fica a pergunta: quais são as autoridades? Que episódios ocorreram?

Exemplar

Fez muito bem a Folha em chamar a atenção para um aspecto da coletiva da companhia: ‘A preocupação com a imagem da TAM esteve presente durante toda a entrevista, de uma hora e meia. A logomarca não aparecia em lugar algum’.

Isso é jornalismo crítico.

Em compensação…

Na pág. B2, foi lamentável a publicação de análise unilateral, sem contraditório, de dois professores da Coppe/UFRJ: ‘TAM não deve sofrer prejuízo de imagem’.

O jornal tinha obrigação de buscar uma opinião divergente, oferecendo aos leitores posições plurais que ajudassem a formar juízo.

Grávidas, crianças

Os jornalistas que produziram as quatro páginas -emocionantes e inesquecíveis- sobre as vítimas do vôo 3054 podem se orgulhar do trabalho que fizeram.

Cadê Lula? Desequilíbrio

A reportagem ‘Presidente não telefonou para Serra e Kassab’ (pág. C17) deveria ter ouvido -pelo menos tentado- o Palácio do Planalto.

Ela só traz versões dos governantes do Estado de São Paulo e de sua capital.

Por outro lado, o jornal não esclarece por que o presidente sumiu -e não telefonou para o governador e o prefeito. Por causa de um terçol? É isso mesmo? Ou teme ter a imagem associada ao caos aéreo e à tragédia de Congonhas? Por que o ministro Waldir Pires não deu entrevista ontem?

O que está por trás do silêncio? Falta apurar bastidores.

Casa de ferreiro

A reportagem ‘Jornalista da Folha é preso ao fotografar local’ (pág. C12) não fornece informações essenciais que costumam constar de notícias sobre não-jornalistas.

Policiais militares detiveram um fotógrafo da Folha afirmando que ele ‘violara o cordão de isolamento no galpão da TAM, ‘atrapalhando os serviços do Corpo de Bombeiros’ no local’.

O que o fotógrafo tem a dizer? E o jornal? Afinal, seu profissional violou o cordão e atrapalhou os serviços? A polícia reclama que o fotógrafo colocou em ‘risco sua própria vida’. É verdade?

É claro que truculência policial e atitudes anti-democráticas devem ser condenadas.

Mas a Folha precisa contar o que se passou. A reportagem não obedece aos padrões consagrados ao apurar fatos relativos a quem é estranho ao jornal.

Uma lição

Fez muito bem a TV Cultura em não exibir as imagens de uma mulher caindo do alto do prédio da TAM, por considerá-las chocantes.’

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