Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > IMPRENSA & POLÍTICA

Memórias da aliança perdida

Por Luciano Martins Costa em 11/11/2014 na edição 824

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 11/11/2014

Artigo de autoria do empresário e ativista social Oded Grajew, publicado pela Folha de S. Paulo na edição de terça-feira (11/11), coloca em pauta uma das questões políticas mais instigantes do período da redemocratização no Brasil (ver aqui). O empresário, que entre outras realizações participou de ações pela modernização da Federação das Indústrias no Estado de São Paulo, liderou o movimento pela responsabilidade social corporativa e criou um grupo de trabalho para abrigar projetos urbanísticos de vanguarda, revela como foi frustrada, em 1994, a tentativa de uma aliança de centro-esquerda entre PT e PSDB.

Observada sob as duas décadas de confrontos que resultaram em um antagonismo irredutível, a relação entre os dois partidos que abrigaram as principais forças progressistas no período posterior à ditadura militar também permite analisar a crescente desnaturalização da imprensa, que foi aos poucos se engajando em um dos lados dessa ruptura, acabando por se constituir em uma organização política de grande influência sobre as instituições.

A história da diáspora no núcleo pensador da democracia brasileira teve um importante protagonismo da própria imprensa, que agiu com o propósito de instalar no centro do debate sobre a Constituinte um grupo de conciliação no qual se acomodaram apoiadores da ditadura dedicados a reciclar suas carreiras políticas. Foi a imprensa que engordou o chamado “Centrão”, que profissionalizou a prática do “é dando que se recebe”, origem dos grandes escândalos de corrupção do nosso tempo.

Oded Grajew não avança na discussão de todo o processo que conduziu o Brasil ao dilema de ainda ter que lidar com problemas tão primários como o sistema de financiamento de campanhas e a baixa representatividade dos partidos. Mas suas memórias ajudam a entender como chegamos ao ponto em que a sociedade se divide entre duas facções inconciliáveis, estimulando a volta ruidosa de grupos que pregam exatamente a intervenção militar no jogo democrático.

Que país teria resultado de uma aliança entre o PT e o PSDB, nestas duas décadas?

A agenda do passado

O empresário, que se destacou na indústria de brinquedos, conta que foi sua a iniciativa de juntar representantes dos dois partidos, em 1993, para buscar um consenso que permitisse a criação de um projeto progressista para o Brasil. Desses debates resultou um manifesto, que foi assinado por cerca de 500 ativistas de variadas tendências, entre eles fundadores das duas agremiações. O documento foi encaminhado aos então presidentes do PT, Lula da Silva, e do PSDB, Tasso Jereissati.

O grupo de trabalho que foi formado em seguida chegou rapidamente a vários pontos em comum, demonstrando que havia a possibilidade de criar uma agenda consensual para superar os graves problemas que o Brasil enfrentava. Mas no meio de suas atividades, a comissão encarregada de elaborar o plano conjunto foi surpreendida pelo lançamento da candidatura de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República, em aliança com o Partido da Frente Liberal, agremiação que havia substituído a Arena, base parlamentar da ditadura.

Não está registrado no artigo o contexto em que se deu essa ruptura, mas repórteres que acompanharam os bastidores da articulação sabiam que os idealizadores da aliança progressista esbarravam em importantes focos de resistência, como os então deputados federais José Dirceu e José Serra, que alimentavam planos de hegemonia para seus respectivos grupos. Mas, em termos efetivos, foi o personalismo do então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, que impediu a construção de um consenso que fizesse avançar a agenda de reformas imaginada na Constituinte.

Estabelecida a luta aberta entre os dois grupos, a imprensa passou a atuar como elemento provocador da dissensão, acabando por se transformar em um poder paralelo ao das instituições políticas. No segundo mandato de Fernando Henrique ficou claro que os jornais haviam feito uma opção por agir como organização partidária, estabelecendo paradigmas para a iniciativa dos poderes da República.

O viés conservador da mídia tradicional manteve o Brasil preso à agenda do passado. Hoje é essa baixaria que a gente vê por aqui.

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